sexta-feira, 21 de maio de 2010

Da República à Democracia por vir [3/3]

Os défices orçamentais crónicos (que se transformaram em arma de arremesso contra as classes médias em tantos países atolados em dívidas «convenientes»: justificam os impostos sobre rendimentos individuais e constantes privatizações), pedem criminalização. De outro modo, as classes médias nacionais aparecerão ainda mais em evidência como os principais suportes pagantes de cada Estado. Com suficiente intervenção estatal, as economias têm de voltar a ser produtoras de bens de consumo, largando os gordos lucros da especulação financeira. A conservação do meio ambiente deverá abrir-se para a utilização correta dos recursos naturais.
Uma sociedade de integral ou avançada Democracia tem garantidas nessa matriz as melhores condições de paz e desenvolvimento. Rejeita as deslocalizações ávidas de mão de obra pouco menos que escrava e o neoliberalismo, tal como rejeitará as indústrias de guerra, a militarização do espaço. Em suma, os políticos eleitos para os órgãos do Estado têm que pôr as mãos na condução da economia, reconhecendo que o mercado nunca soube auto-regular-se. Exijam por palavras e atos o acompanhamento constante de uma opinião pública enérgica, esclarecida e criteriosa, por mais que isso requeira, a prazo, uma reforma cabal das políticas, desde logo escolares, geradoras do estendal instalado de conformismos e mediocridades.
É tempo de sairmos de vez do século XX, limpando os pés e recolhendo os ensinamentos que o passado nos deixou de mistura com os sofrimentos; é tempo de encetarmos a nova centúria com a decisão clara de vivermos por fim um período de paz e fecunda estabilidade… em nome da civilização. Deparam-se-nos amontoados de problemas ingentes e de impasses cruciais. A regra dos três RR (reduzir, reciclar, reutilizar), por exemplo, pode ser bem-vinda se vier a espelhar atitudes coletivas de recusa a consumismos e comodismos fáceis. E há muitas outras opções sérias a fazer, rupturas e mudanças dramáticas à espera no plano das ideias, das mentalidades e dos comportamentos gerais.
Sem dúvida, levantar-se-ão as forças de bloqueio habituais contra qualquer esforço de autêntico progresso humano. Mas os imperativos das novas realidades dispõem de voz para falar mais alto em cada situação. Os políticos e os governantes que pretendam legitimar-se perceberão com inteligência que o discurso-modelo terá que mudar de registo para conquistar a adesão lúcida dos eleitores. Sairão prestigiados tanto mais quanto conseguirem abolir a mera propaganda e falar verdade, a comesinha verdade dos factos, sem manipulações. Neste limiar do século XXI aberto em crise, abre-se lugar para a esperança.
De facto, os desafios do presente mostram-se rotundamente dilemáticos. Haverá obstáculos a transpor, desvios, atrasos (a concentração da riqueza no topo atinge cotas explosivas). Mas as sociedades democráticas republicanas acabarão certamente por aprofundar essa sua matriz, demonstrando na prática o que guardam no seio - um projeto de virtualidades inesgotáveis, pronto para inaugurar um esplendoroso futuro. E, finalmente, a política irá recuperar do atraso e acertar o passo com a história.

2 comentários:

Joaquim Santos Albino disse...

Bom dia Arsénio Mota. É um privilégio a oportunidade ler o seu Blog.

Tinha 7 anos no dia 25 de Abril de 74 e assim nunca me senti vivo em outra sociedade que não democrata. Até ao dia em a minha vontade de poder deu o seu primeiro sinal de existir, acreditei que a vida social era regulada por padrões de uma moralidade inteligente, em que tal como observava no seio família, as leis reguladoras da conduta são formuladas em prol de bem-estar comum. Nunca me passaria pelas ideias que a minha mãe não me deixava comer muito chocolate porque ele o queria quase todo para si. Da mesma forma sempre assumi que o trabalho era o cumprir com uma cota parte no desenvolver das tarefas necessárias ou seja, a mim tocava aspirar o chão da casa e à minha irmã lavar a louça. E tanto a minha irmã vivia num chão limpo como eu comia em louça lavada. Foi grande a perplexidade quando descobri, que afinal em democracia, o chão que eu limpo não pode ser utilizado nem por mim nem por ela e que a ambos está interdita a louça que ela lava. Afinal, o que estado democrático quer é que eu aspire o chão que ele pisa e que a minha irmã lave a louça que ele suja. Explicam: tu podes escolher quem te governa. Mas logo me desiludi ao descobrir que não podia escolher a minha mãe. Em democracia só está a votos um portefólio de madrastas de Cinderela. Acho que posso escolher a cor com que elas se vestem. Explicam: Tens o direito de falar, de dizer aquilo que pensas estar errado. Mas quando chego ao local dos protestos, a multidão aos gritos é de tal forma densa e numerosa que se torna impossível entender ou mesmo ouvir o que quer que seja. E o pior, é que quando me afastava do local, descubro que por detrás deste cenário estão todas as madrastas vestidas de todas a as cores em alegre confraternização... não posso jurar mas diria que combinavam qual delas iria ficar comigo durante os próximos quatro anos.

A. M. disse...

Aqui está um testemunho que consegue dizer o que tem para dizer com máxima simplicidade! Congratulo-me perante este comentário, que agradeço. Sr. Joaquim Santos Albino, seja bem-vindo a este espaço. E, claro, volte sempre.