sábado, 1 de maio de 2010

Já não resta dúvida

Ficou-me na ideia a frase desde que os olhos me caíram na citação. Agostinho da Silva propunha ali que é preciso crer com toda a nossa força para chegarmos a duvidar. Mas aquele homem de fé, notável agitador das meninges, está a cair nos limbos do esquecimento em que se afundam tantos outros brilhos da inteligência, porquê? Trrrrim!, onde resta hoje lugar para a dúvida?
Estamos envolvidos por múltiplas conformidades estabelecidas que dão cama ao Pensamento Único imposto por quem manda. A brutal formatação das consciências acompanha a massificação das populações. Discursos políticos, informativos ou culturais perderam variedade e pluralismo ao ponto de qualquer divergência enérgica soar como estante de música a cair no palco em meio da sinfonia.
 Duvidar é molesto, inquietação frívola e tola, inútil perda de tempo. Está tudo assente, esclarecido, resolvido por pessoas, decerto não as mais adequadas e competentes, mas que de qualquer modo têm o poder e o usam. Discutir com o poder é difícil, tanto como discutir com o padre que diz a missa, porque estamos a jeito para discutir o jogo de futebol, não a liturgia ou o orçamento do Estado. 
As grandes empresas seguiram o governo e habituaram as populações massificadas a entregarem-se, confiadas, nas suas mãos. Tal como liquidam os impostos, assim deixam também às empresas o incómodo de lhes administrarem os consumos e o dinheiro que pré-pagam. Entregarem-se, confiantes, a quem deles cuide é o mais belo sonho dos massificados.
Querem a descomplicação da vida, a máxima simplificação do pensar. As escolas vem trabalhando a todos os níveis no mesmo sentido. E é assim que, por cá e pela Europa, aparecem tantos políticos e governos medíocres a titubear em face da crise e sem forças para a resolver.
Porém, o governo belga ganhou força para proibir o véu islâmico nas ruas e outros locais públicos e o colega francês, consagrando a memória da Liberdade, Igualdade, Fraternidade, dispõe-se a seguir-lhe o exemplo. A ditadura do Pensamento Único rasoira as diferenças até no vestuário civil.
Como pode este nosso tempo não ser marcado por tantos sinais de imensa decadência? É tão desgraçada esta decadência que esconde, ou impossibilita, a emergência de uma, ao menos uma, grande figura intelectual e moral! Uma personalidade com prestígio autêntico e autoridade incontestável de Mestre e público atento às suas palavras serenas, nobres e sábias.
Enfim, já não resta dúvida. Vamos em frente. A chuchar no dedo, para o abismo. [Foto: criação de René Maltête.]

2 comentários:

Fernando Sosa disse...

A Grande Batalha: derrotar o processo de massificação.

Acabaremos vencedores? Não sei, apenas sei que não podemos desistir.

Obrigado por não desistir.

Cumprimentos.

A. M. disse...

Continuo a ver na onda da massificação a evidência de uma tirania a consumar-se. A mediocridade que parece marcar tão profundamente este período histórico resulta, ao que julgo, do alastrar dessa mesma massificação. Por isso anda por aí tanta procura frenética das «identidades» minguantes... Lutar contra isto, como? Fala de uma «Grande Batalha». Digo: terá que ser global. Um problema parcial não se resolve sem uma intervenção estrutural autenticamente renovadora dos valores primaciais da cultura, da ética, da política, do humanismo...
Programa para uma «outra» nova elite levar a cabo.
Saudações.