sexta-feira, 28 de maio de 2010

A obra também lê o leitor

Um texto literário não se deixa apenas ler, sabemo-lo. Na medida em que é lido transforma-se numa espécie de espelho e quem o lê sente-se interrogado. O leitor, em resposta, define-se explicando como lê quem é.
Ler implica assim uma interação gerada entre um e o outro, apostos num diálogo que expõe o leitor depois do autor publicado. Verifica-se então que a leitura, ou releitura, exercita a liberdade interpretativa vivificadora do texto coisificado. Os sentidos não estarão apenas na obra aberta, também de algum modo se anunciam no leitor.
Enfim, o que uma obra mais pede e agradece é que o leitor a reescreva para si. Ora é isto mesmo que um livrinho meu, de contos, está a merecer no blogue de Jorge Candeias. Este escritor, com largo percurso na Net e óbvia inclinação para as designadas ficção científica e literatura fantástica, atentou n'O Vírus Entranhado (Campo das Letras, 1999) e começou em Fevereiro a editar breves apreciações a cada conto do volume.
Primeira nota de agrado que me deu a recolher: trata-se de um blogue onde se comentam ficções daqueles géneros. Logo saltou a segunda: Jorge Candeias escreve bem, num estilo correto, vivo e desembaraçado. Gostei ao ponto de incluir nos «Outros blogues», aqui ao lado, o atalho (endereço: http://lampadamagica.blogspot.com/).
Todavia, Jorge Candeias não me poupa. Prefere falar claro e faz muito bem, só tenho que agradecer. Começou pegando em «O candidato» numas linhas de que destaco: «É um bom conto mainstream, que além de estar bem escrito está também bem concebido e reflete, desta vez com subtileza, sobre a natureza da atividade jornalística. Bem melhor do que vários dos contos anteriores.» (Data: 01-02)
Considerou «Ponte franca» a seguir: «é um conto mainstream e epistolar.» Acrescenta: «É um conto irónico e bem concebido e executado. Um bom conto, portanto.» (em 15-03)
Mas Jorge Candeias tem gosto formado, sabe ser exigente. «A verdadeira história de uma descoberta» teve restrições: «o conto tem esse tipo de fantasia surrealista. E é bastante interessante até chegar ao fim. O problema é o fim. [...] Não é um fim em aberto, mas uma história abandonada naquele ponto.» (em 21-03) Quererá ele terminá-la?
Chegou a vez de «O jardineiro descalço»: é um «conto vagamente fantástico»... Mas «o fantástico que há no conto é mais questão de ambiente do que de outra coisa qualquer.» «Muito todoroviano.» (em 06-04)
Vi mais dois contos apreciados. «Toda a nudez»: «Lírico e alegórico»... «literatura simbólica», da qual diz que não gosta muito, embora não desgostando (em 12-04); e «O vírus entranhado», que dá o título ao volume: «conto completamente alegórico»... «achei-o bastante fraco, um dos piores do livro» (em 19-05).
Somo seis referências e a colectânea tem 13 contos - número aziago? - logo, esperemos outras apreciações. Entretanto, eis-me feito autor de literatura fantástica com aquelas histórias muito metafóricas escritas ainda nos anos '80 e comentadas em 2010 por autor que se declara um pouco avesso à linguagem simbólica. Decerto foi atraído pelo vírus legível na capa (lembro: não aprovada por mim, disparate na editora em pausa de férias). [Ilustração: por Louis M. Moll.]

3 comentários:

Anónimo disse...

Caro amigo:

Há dias, um amigo apreciava a alguns textos da minha autoria, de facto, com os SEUS olhos. Eu não escrevi - e confessei-lhe piamente -, da forma que ele leu, da forma que ele me percebeu. Quando lemos: lemo-nos. É bem verdade.

Felicitações para si e para todos aqueles que vão tendo o prazer de serem lidos, pois, enquanto isso continuar a acontecer é sinal que a nossa voz ainda permanece em diálogo com o mundo.

Um abraço,
António Canteiro

A. M. disse...

Caro amigo:

Assim é, de facto, e cedo tive que me habituar. É essa a liberdade de quem lê: interpreta, rescrevendo.
Na minha opinião, é o jogo interpretativo dos sentidos contidos num texto que mais fascinante tornam a literatura. Longe de diminuir os alcances da ficção, amplia-os.
Retribuo-lhe o abraço, caro amigo. E apareça sempre!

Arsenio Mota disse...

Como post scriptum:

O mesmo autor comentou outro conto do meu livro (em 28-05). Considerou estragado o efeito do final porque já aparecia apontado no título - «Morse de morte» -, no conto de «ambiente opressivo e nervoso». O desfecho é tudo, o resto é rastilho?
Depois (em 30-05), tornou ao livro e apreciou o oitavo conto do volume (tem 13), «A exploração do buraco». Jorge Candeias achou-o «fantástico e bastante interessante», além de «bem escrito», «dos melhores do livro». A seguir resumiu a leitura do volume: «livro de contos, alguns bons, outros maus, outros assim-assim. Tudo somado, é um livro razoável», que «vale a pena pelos bons contos que contém».
Mas naquele blogue temos um Mestre pronto a condenar no autor do livro uma «tendência de subir ao púlpito e botar discurso, pregar moral»...
Perante tal Mestre, quem ousaria pegar-lhe nas sentenças ou duvidar do seu pessoal e tão estrito conceito do que é ou deve ser boa Literatura? Alguma vez aquele leitor admitiria que a imaginação corre atrás da realidade, isto é, que o vírus se entranhou no mundo real de um jeito fantástico?!