sexta-feira, 18 de junho de 2010

Depois do vírus entranhado

Mantenho uma grande relutância em falar de mim, dos meus livros. Sempre achei mais interessante ouvir cantar os outros do que abrir a própria boca para arejar o ego. Mas há excepções que me puxam para fora do hábito da modéstia e então...
O título destas linhas recorda o meu livro de contos saído em 1999 e apreciado num blogue em termos que comentei há dias na crónica «A obra também lê o leitor» (28 de Maio). A seguir encontrei-me com amigos na Feira do Livro e a conversa recaiu sobre a mesma obra porque eles a tinham pescado num stand. Verdade consensual entre nós: fora de dúvida, a obra também lê o leitor (na medida em que na leitura se espelha a personalidade do leitor), ponto este que explica como a apreciação do autor do blogue, Jorge Candeias, se reviu mais na obra do que terá sido capaz de a perceber.
O que o blogger quis achar no livro era, sem segredo, o que lhe interessava: literatura fantástica e ficção científica, caminho que pode comunicar com algum «mundo» cultivando a história pela história. Não percebeu, portanto, o realismo contido nas metáforas e alegorias das narrativas. Melhor leitura foi, afinal, a de uma jovem jornalista que na sua recensão, se bem me lembro, notou no livro um «pessimismo» de quem temia os nebulosos perigos do milenarismo...
Realmente, em 1999, estávamos prestes a largar o escudo e a entrar no euro, a discutir se o novo milénio começava no ano dois mil se no ano seguinte, e com insónias porque os sistemas informáticos iriam estoirar com a mudança da numeração automática dos anos... Mas havia percepções menos superficiais que anunciavam mudanças mais peremptórias. Os treze contos, escritos no fim dos anos '80, avisavam precisamente de que o dito «vírus» estava «entranhado».
Debatemo-nos desde então em plena crise desatada. O vírus agiu como um exército de térmitas, invadiu e corroeu por dentro as estruturas financeiras, económicas e sociais em que vivemos e que vemos por aí em queda livre, a desabar como castelos de cartas ao vento desabrido de janela aberta. Ora este blogue é disso mesmo que vem falando como quem põe cartas de chumbo em cima da mesa.
Entre o meu livro de 1999 e este meu blogue existe portanto uma relação. A viragem que ali se exprimia com toques surreais e de alguma loucura já instalada evidenciou-se plenamente através do mundo. Hoje ninguém duvida da «crise»  que dizima as classes médias porque a sente e lhe dói na pele. Mas continuará a duvidar de quem lhe anuncie a próxima viragem que se prepara: a de um possível «governo planetário» da alta finança, nomeado e a funcionar oficialmente para governar a crise provocada pela alta finança...
O bichinho trabalha no escuro e as populações têm mais com que se preocupar. Faltam os empregos e o dinheiro para consumir, e consumir, e consumir, até faltam pão e circo para distrair e aliviar o stress. Por isso as populações em confusão já imploram: oxalá apareça quem queira tomar conta disto tudo! Como crianças grandes, ainda acreditam no Pai Natal. [Foto aérea: imagem da poluição industrial. Clique para ampliar.]

2 comentários:

Vítor Soares disse...

Talvez venha também a ler esse seu livro um dia mais tarde.

Cumprimentos.

A. M. disse...

Então, caro amigo, se tal acontecer desejo-lhe bom proveito.
Saudações.