segunda-feira, 7 de junho de 2010

O povo eleito por Deus

O argumentário de uma posição que se pretenda englobante sacrifica aspectos tidos como dispensáveis para, acima das controvérsias, afirmar a questão essencial que lhe importa. Porém, uma opinião pessoal é livre. Solta a voz sem atender a conveniências e aponta a eloquente verdade de factos.
Na antiga Palestina, tudo se carrega de idade e de história, tudo se enreda, mistura e complica. Daquele cesto, pegar numa cereja mexe facilmente com um passado de três mil anos. Interesses contrapostos acendem os conflitos.
Existem, todavia, factos indesmentíveis que resistem e perduram e que nenhuma máquina de propaganda das mais poderosas consegue esconder. A criação do Estado de Israel advém do projeto sionista concebido por Theodor Herzl, autor do livro «O Estado Judaico» (1895, em inglês no ano seguinte), e mentor do primeiro congresso sionista em 1897. Raiou então a ideia de criar uma pátria na Palestina para o Judeu Errante (em diáspora desde a Idade Média).
Ben-Gurion e outros, aproveitando conjuntura favorável (o famoso Holocausto), fundaram Israel em 14-05-1948. Mas os novos cidadãos daquele Estado saíam das suas pátrias, que abandonavam, e obtinham dupla nacionalidade. Desde então, os palestinos viram chegar, ao país multissecular que era deles, levas de estrangeiros em número crescente e foram sendo escorraçados das suas casas, das suas terras.
Eram israelitas, hebreus, judeus? O povo do Talmude? Distingue-os a religião hebraica?
Com o Livro na mão, os invasores ocuparam pouco a pouco a Palestina e acabaram por riscá-la de todo do mapa. Com o direito, divino, conferido pelo Livro. É sagrado, declara-os povo eleito por Deus... e Deus, mesmo para monoteístas, não é só um.
Quatro milhões de palestinos tiveram de fugir para o exílio, levando consigo, por vezes, apenas a chave das suas habitações. Com a Guerra dos Seis Dias, em 1967, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia ficaram sob ocupação militar. Na Cisjordânia alastram os colonatos ilegais.
O terreno vai sendo dividido por um outro «muro da (des)vergonha». Em Gaza, mais de um milhão de habitantes, depois de bombardeados, resistem a um bloqueio terrestre, naval e aéreo que é imoral, criminoso, intolerável. Como entender tanta luta pela terra (santa) com armas desiguais e violência descomedida?
O assalto, com mortos e feridos, a dois barcos a caminho de Gaza com ajuda humanitária, em águas internacionais, é crime gritante que não pode ficar impune. Mostra toda a prepotência de uma política apostada em dizimar um povo oprimido, sitiado e espezinhado por força bruta. A indignação e a revolta tornam-se aqui um dever de consciência. 
Consta que Israel possui centenas de bombas nucleares. A explicação, porém, estará no «amigo americano», que dá dinheiro e apoio político tão incondicionais que até já perguntam quem manda em quem. Todavia, a forma como foram tratados os índios americanos pode ser inspiradora...
Eis-nos, assim, transportados do século XXI para um tempo miserável (sem lei), bárbaro e selvagem, que permite e legitima conquistas feitas a ferro e fogo na cara da humanidade estupefacta.

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