quinta-feira, 1 de julho de 2010

Se o povo não se respeita...

Em maré de grande crise, fica mais evidenciada a idiossincrasia moral da nação. Porque uma grande crise nunca será apenas económica, financeira, cultural ou política, antes aparece gerada pelo encontro de uma com as outras. Mostra ser tão grave e profunda que já por gente insuspeita é declarada a mais grave desde o advento da democracia.
Não o diz gente insuspeita, mas nós sabemos que apenas os dois partidos principais governaram de facto a nação, sendo por isso os primeiros responsáveis por esta crise escancarada. Evidentemente, aquela gente limpa-se de quaisquer culpas ou erros: trabalhou (à direita) sempre na perfeição, grossa mentira é o contrário. O «aperto» atual veio de fora, cá dentro ia tudo bem... vivendo (a crédito) e gastando mais do que a nação produzia. Logo, espera-se que a população continue alegremente a eleger, nas próximas eleições, os mesmíssimos partidos principais (da direita) que nos trouxeram até aqui.
Todavia, é agora que se faz lembrar o dito que tão repetido vem sendo desde o século XIX, que Portugal é país  mal amado pelos seus naturais. Para sentirem alguma afeição ao pátrio solo precisam de lhe transpor as fronteiras. Cá dentro, algo se passa - será  um menosprezo, um deixa-correr, o que leva  à questão:  se o povo não se respeita, como quer ser respeitado?
Quem tem ouvidos, escuta as sentenças até se convencer. O povo comporta-se como os políticos no poder querem, teima até em pôr-se a jeito. Deixa-se governar a favor dos mais poderosos, reservando-se apenas o direito de os meter a todos num único saco.
E de os vaiar. São incompetentes, mentirosos, corruptos. Querem é vida fácil, mordomias e conversa da treta, aproveitando para meter no bolso muito e depressa à custa dos mesmos de sempre.
Mas se o povo aguenta com as cargas que lhes põem em cima, porque não hão-de os políticos aproveitar da facilidade? Os senhores das instituições financeiras junto com os administradores das grandes empresas são poderosos e exigentes, querem facilidades e vantagens para ampliar os privilégios... e são educados, sabem agradecer. O povo, não - não, pelo menos, de igual modo.
Entende cada vez menos o que se passa na realidade e, feito tolo, nem reclama. Espera que outro Guerra Junqueiro lhe grite novamente que é burro que já nem forças tem para enxotar as moscas com o rabo? Talvez não goste de se ver ao espelho: 40% dos trabalhadores portugueses ganham uns 500 euros mensais; 60% dos pensionistas recebem no máximo 450 euros mensais. Se o rendimento médio nacional anda pelos 900 euros, isso faz-nos entender que uns poucos ganham em barda e que uns muitos ganham migalha.
Sem dúvida, o povo empobreceu e as desigualdades incharam à americana. Ora, se no povo está o corpo vivo da nação (na medida em que a entidade «povo» representa a parte substancial dos seus habitantes), poderemos comparar o dinheiro em circulação ao sangue que corre naquele corpo. Então, se o povo  trazia antes no bolso dinheiro agora desaparecido, o dinheiro-sangue não desapareceu, foi simplesmente sugado de um para outro corpo.
Não admira, assim, termos no país uns tantos novos milionários, agora num total  (anunciado) de onze mil. Possuem um milhão de dólares no banco cada um, além de outros bens. E, glória infinita, já sobram capitais nas empresas portuguesas para investirem no estrangeiro, inclusive nos EUA, onde a EDP aplica milhões que criam quatro mil empregos!

4 comentários:

Vítor Soares disse...

Caro amigo,

O povo acomoda-se hoje tanto ou mais que no princípio do século XX e possivelmente em 1 ou 2 séculos anteriores. Muitos "Guerras Junqueiros" assim o vêm a afirmar há longo tempo.

Se o povo elege trapaceiros assumidos, mesmo dispondo hoje de informação mais variada que há 100 anos atrás (há que saber é pesquisar...), eleições após eleições, então será que merece algo melhor? Quase todos criticam, quase ninguém descruza os braços. Chicoteamo-nos e cuspimos em nós próprios.

Quanto às remunerações que refere, se uns tiveram realmente poucas condições para lutar por algo melhor, quantos não se terão acomodado? E quantos ainda não preferem rendimentos pagos por todos os contribuintes a trabalhar?

Mas nem todos os trabalhadores assim remunerados são preguiçosos, nem todas as empresas são cruéis empregadoras. E tanto nuns casos como noutros o Estado tem que ter uma palavra a dizer, mas aí voltamos ao problema inicial: que Governos dignos tem este país tido?

Problema grave com o abismo cada vez mais próximo. Terão que ser poucos a fazer o trabalho de muitos.

Um abraço angustiado mas não derrotado.

Anónimo disse...

Os jacarés á caça, sempre com fome de carninha nova pra encher as barriguinhas atafulhadas

E os jacarés são tantos e a carninha a caçar é tão pouca

Até tenho mais pena dos jacarés do que da rapariga, mas ela merecia melhores dentes parece-me

A. M. disse...

Meu caro:
É bom que uma boa consciência da situação atual a que chegámos se expanda mais e mais. O amigo atingiu essa consciência (declara-se «angustiado mas não derrotado», felizmente), mas quantos seremos, afinal, no pátrio rectângulo -- onde, por sinal, se diz que uns 70% da população sofre de ileteracia? E, note-se, não será tarde?! Até a União Europeia enfrenta em bloco dilemas capitais a que tem de responder sem demora!
Estamos no tempo das autênticas decisões e rupturas a fazer... com que coragem? Com que lucidez?
Julgo que temos todos de sacudir a poeira das cabeças, de ousarmos pensar livres de preconceitos e apenas com singelo bom senso... e a máxima informação da real realidade...
Saudações cordiais.

A. M. disse...

Caro Anónimo:
Se quis comentar apenas a imagem que ilustra o texto -- e que, como se sabe, pode ser ampliada clicando sobre ela -- acho que a viu bem e o seu comentário tem graça. Porém, se englobou também o sentido geral do texto, creio que continuou a acertar no alvo...