sexta-feira, 4 de junho de 2010

Um pouco de história da economia

Está na ordem do dia, vamos falar economês. A crise manda! E assim, com tantos entendidos a botar figuras de estilo no barquinho a naufragar, talvez haja cabide onde pendurar umas ideias porventura instrutivas tiradas da arca para as arejar ao vento que passa.
A proclamada ciência económica neoliberal entrou em descrédito enquanto ciência na medida em que o mercado demonstrou não ser capaz de se autorregular. É um monstro à solta, os seus teólogos não podem mais rezar em adoração sem cair em cega idolatria. E, muito menos, considerar a existência do mercado como condição básica de uma autêntica democracia.
Nunca o mercado foi requisito ou sequer expressão da democracia. Resultou da expansão e desenvolvimento do capitalismo, matéria estudada a fundo por um senhor barbado que publicou um manifesto em meados do século XIX ainda hoje causador de insónias a uns quantos patrões que dormem sob dossel de oiro. Matéria essa depois continuada, no século XX, por um outro senhor que, em jeito de previsão, anunciou que a fase suprema do capitalismo seria o imperialismo.
Terá acertado plenamente na mosca, é o que iremos ver no desfecho desta crise. Para já, sem dúvida, estamos no tempo dos cruciais dilemas. Profundas e dramáticas mudanças se acumulam no bojo violento da tempestade que ameaça varrer esta desgraçada (des)ordem do mundo e está a explodir.
Em crise, principalmente, está a teoria neoliberal que colocou o mundo nesta situação de ruptura. Subverteu conceitos essenciais da economia real, escondendo sob aluviões de propaganda asfixiante o que contrariasse a teoria. Atrelou-se ao deus-mercado e passou a explicá-lo como doutrina religiosa servida por catequistas.
Precisamos agora de recordar um pouco de história da economia. A noção atual de «mercado» é relativamente recente. Remonta a A Riqueza das Nações (1776), de Adam Smith, obra que por sinal provocou a «resposta» de Leo Huberman, com A Riqueza do Homem - para repor o Homem por cima do das Nações - e, entre muitos outros, de Gunnar Myrdal, economista sueco, Nobel em 1974, autor de O Estado do Futuro.
Uns conceitos de teoria económica reelaborados nos anos '30 por John M. Kaynes foram banidos pelo neoliberalismo, mas aqui e agora importa sobretudo lembrar que, até Adam Smith, a economia foi tema de abordagem ética. Rendas e juros eram condenados como indignidades ofensivas do comportamento honroso, algo como exploração excessiva, imoral e desumana. Receber rendimento das suas terras ou juro do seu dinheiro emprestado era vileza de quem por egoísmo assim se colocava à margem da ordem social.
Importa-nos hoje apreciar a evolução geral das mentalidades que desde a eclosão do mercado se verificou, ou seja, a adaptação da ética (e mesmo da religião: lembre-se o «pai nosso» emendado) a um padrão absolutamente diverso, porque aí se manifesta e evidencia o facto clamoroso: a expansão e crescimento do capitalismo implantou no mundo a desumanizar-se a regra da força maior campeando sem lei e a violência da barbárie. A fase imperialista ampliou o fenómeno até à desmesura imposta e convicta.
Ora a economia tem de reassumir capazmente a ética para se legitimar. Mas não só a economia, também a política e as atividades sociais em geral precisam da ética para negar a ganância que carateriza o neoliberalismo de modo a restaurar o valor do humano contra a violência e a barbárie à solta. Não há outro caminho. [Ilustração: de autoria desconhecida.]

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