terça-feira, 6 de julho de 2010

Foi-se o cantar da Tila

Fui assaltado por uma notícia esta manhã. O lugar comum justifica-se: uma notícia pode apanhar-nos de súbito e despojar-nos de qualquer coisa muito nossa. Acabo de saber que morreu Matilde Rosa Araújo.
Foi-se o cantar da Tila, foi-se também a prezada amiga. Um outro lugar comum repete que, quando morre um escritor, fica a sua obra. Consolação mínima, pois sempre o que escreveu e fomos lendo nos colocou em admiração.
Eu vinha acompanhando Matilde desde 1962, ano da publicação do seu livro de contos Praia Nova que recenseei em apreciação crítica. Mas ela (nascida em 20-07-1921) iniciara o percurso literário antes, em 1943, com A Garrana. Só então começou a nossa amizade e companheirismo.
Porém, conhecia já O Palhaço Verde e O Livro da Tila, livros anteriores para a infância que me haviam deslumbrado. E habituava-me à caligrafia larga, rasgada e angulosa, muito feminina, da Matilde, a responder-me às perguntas de uma entrevista que apareceu a seguir já não lembro bem onde. Entretanto, apercebia-me de que, nela, a sua dimensão literária coincidia com uma dimensão humana igualmente apurada.
Nesta moldura era já Matilde considerada em Lisboa (onde nasceu, viveu e morreu) e então só tive que notar a justeza do conceito. Efectivamente, na lavra da escrita que ela prolongou por quase setenta anos se espelha a personalidade ímpar da mulher que ela foi. Agora se pode ver «a sua vida como obra e a sua obra como vida», coincidência rara que eu próprio gostaria de atingir. Continuo a supor que é graças a este encontro da pessoa concreta com a pessoa poética que a arte acontece.
Ora a Matilde Rosa Araújo era um ser poético. Quer dizer, foi tão admirável a Mulher quanto a Escritora. Frequentou a Faculdade com Sebastião da Gama e com ele parecia ter ficado a compartilhar um irradiante amor à humanidade, sobretudo às crianças «de pés frios», e à natureza, que exprimia com uma candura tocante e emocionada beleza.
Amanhã sairá o seu funeral da Sociedade Portuguesa de Autores, onde recentemente lhe foi prestada homenagem. Outras se recordam em maré de saudade e recolhimento, em especial a realizada na Biblioteca de Cantanhede. Trago para aqui uma foto evocativa dessa sessão, para a qual muito contribuiu comigo João Cruz, amigo que de algum modo me fará presente na despedida.

4 comentários:

Henrique Dória disse...

Ela era a bondade e a beleza
Tê-la como amiga foi um privilégio.
Espero em breve encontrá-lo, agora que estarei afastado deste inferno dos tribunais por mês e meio.
Um abraço

A. M. disse...

Olá! Será caso de dizer que desapareceu a Amiga e agora, para compensar da perda, (re)aparece Henrique Dória? Há quanto tempo andamos em dessintonia!
Pois sim, se esse «inferno» ficou bem arrumado por mês e meio nos porões dos alívios temporários, combinemos um encontro bem conversado.
Abraço.

Anónimo disse...

Caro amigo:

Ao fim de 7 dias consegui dar à luz um texto sobre a grande escritora Matilde Rosa Araújo, pela qual nutro, hoje e sempre, um grande sentimento de amizade e gratidão.
Para o texto não ficar no limbo, guardado só comigo, pensei partilhá-lo aqui:

IN MEMORIAN
(A Matilde Rosa Lopes Araújo)


Havia à entrada da casa verde de Matilde
tapetes de folhas verdes
e cortinas onduladas nos cabelos brancos de Matilde

No canto da sala de Matilde estava um vaso de flores amarelas
que embriagava o ar de perfume
e, como avental ondulante
inundava de natureza todo o mundo

Um molho de sol brilhante abeirou-se da janela
e as lágrimas de Matilde nasceram dos olhos
muitas, imensas, gordas, as lágrimas
como frutos do laranjal
eram lágrimas extraídas do amor de Matilde

Uma grinalda de lágrimas
vestia Matilde, de cima
do olhar sereno, até aos pés
era um vestido de lágrimas comprido, o vestido de Matilde

Havia mel dourado nas palavras doces de Matilde
e, na mímica pausada das mãos
tinha Matilde o brando tocar dos sinos

Matilde desenhou, durante a vida, riscos e manchas no papel
pinturas que tinham a força de tatuagens
sempre bulir na cabeça dos meninos

Gostava de cores, muitas cores, a Matilde
e pintava, a disfarçar com pó-de-arroz, as sardas da pele
e as paredes do pescoço enrugado

Pintava a vermelho vivo os lábios e as unhas
para ficarem sempre vivos de eternidade!

Eternidade, onde repousam agora
mas, sempre vivos!, sempre vivos!
os riscos, as manchas e as pinturas
no sonho dos meninos
estampados por Matilde no papel...

Um abraço,

ANTÓNIO CANTEIRO

A. M. disse...

Caro António Canteiro:

Muito obrigado pelas suas palavras e pelo poema que dedica à memória da nossa saudosa Amiga Matilde.
Sem dúvida que, pela vida e obra, ela merece todas as nossas homenagens.
Em face de perdas destas é que procuramos alívio na expressão literária mais capaz de nos sublimar os sentimentos.
Fica muito bem aqui o seu contributo, agradecimentos por ele!
Abraço cordial.