quinta-feira, 15 de julho de 2010

Krause, pensador com ideias

Estou pronto para as surpresas - que sejam boas, evidentemente -, como eterna criança a sonhar com berlindes coloridos. Ou com as contas de vidro do jogo de Herman Hesse. E eis que uma nova surpresa me chega em página recém-publicada com artigo onde leio diversas alusões interessantes a um autor: o alemão Carl Christian Friedrich Krause (1781-1832).
O artigo, de Angel Serafín Porto Ucha, da Universidade de Santiago de Compostela, foca Bernardino Machado e a Institución Libre de Enseñanza no quadro das influências das ideias de Krause nas políticas do ensino na Galiza e em Portugal. Todavia, depressa pude concluir que o interesse pelo conhecimento das ideias de Krause para o nosso tempo, isto é, a sua potencial atualidade, ia além daquela abordagem. Foi preciso sair à descoberta do homem para perceber os primeiros elementos e sentidos da obra.
Na verdade, o horizonte das formulações daquele pensador é vasto, universal. Não se restringem às questões da pedagogia e do ensino em discussão desde o século XIX, ainda que, de facto, pelo que vejo, tenha sido essa a abordagem principal de galegos e portugueses (Giner de los Ríos, Rogério Fernandes e outros) avançada ao longo dos anos. Na Península Ibérica, as suas ideias e propostas espelharam uma forma moderada de liberalismo, tendo irradiado também para a Argentina, Brasil, etc..
Pensador idealista, Krause estudou Filosofia com Schelling, Hegel e Fichte, e pretendeu continuar Kant. Rejeitou a teoria do Estado absolutista para considerar a valia das associações livres que, na sua ideia, serviam uma finalidade universal - a família, a nação - pois a humanidade se compõe de seres que se influenciam reciprocamente. Com esta perspectiva, os períodos históricos surgiam como fases sucessivas de uma ascensão para Deus, que culminaria numa humanidade racional.
Como filósofo da identidade, Krause tentou uma combinação do teísmo com o panteísmo (fórmula: pan-en-teísmo). Defendeu que o próprio mundo natural e a humanidade, sua mais elevada componente, constituem um todo orgânico capaz de se desenvolver e progredir pela formação de unidades sociais maiores. Para ele, a sociedade ideal resultaria pela  ampliação do funcionamento do princípio do homem individual para abranger pequenos grupos de homens e depois, finalmente, a humanidade como um todo.
À afirmação emblemática de Krause e do próprio «krausismo» - a união da humanidade - não seria estranha a maçonaria, à qual o pensador aderiu em 1805, após três anos a ensinar Filosofia. Todavia, os seus livros (1803, Fundamentos do Direito Natural; 1804, Esboço dos Sistemas da Filosofia; 1810, Sistemas de Doutrina Moral) não mereceram aplausos francos dos maçónicos. A sua rejeição do Estado (e da dialéctica hegeliana) ia contra a corrente predominante, embora hoje possa aproximar-se de uma concepção anarquista.
Por algum motivo, o professor nascido em Eisenberg, Turíngia, e vitimado por apoplexia em Munique, dedicou-se à produção aforística. Uma sua obra do género foi vertida para Português. Autor: Karl Krause; título, O Apocalipse Estável - Aforismos; seleção, tradução e posfácio de António Sousa Ribeiro; edição, Apaginas tantas [Errata: ver, p. f., Comentários].
Noto que o Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho promoveu em Braga, em 1998, um colóquio «O krausismo na Península Ibérica», cujas atas foram publicadas integrando texto de Acílio da Silva Estanqueiro, «Pensar Krause hoje, ou pensar radicalmente a humanidade». Outras fontes de informação usual são utilizáveis. Estamos, lembre-se, no tempo em que muitos Estados ocidentais decretam a extinção do «Estado social» depois de se endividarem até mais não poderem (sugando ao máximo os contribuintes), e as oligarquias pequenas, grandes e gigantescas reclamarem «menos Estado», isto é, o seu fim.

2 comentários:

António Sousa Ribeiro disse...

Caro Arsénio Mota:

Encontrei no seu interessante blog uma referência que necessita de correcção: Karl Kraus (1874-1936), escritor austríaco de quem, entre outros textos, traduzi uma selecção de aforismos, nada tem a ver com Krause (Carl Christian).

Cumprimentos cordiais,

António Sousa Ribeiro

A. M. disse...

Caro António Sousa Ribeiro:

Agradeço-lhe vivamente a advertência que me faz. É assaz bem vinda porque era mesmo indispensável. Além da correção, valiosa e mesmo imperativa, eis-me a notar um belo achado: esse outro autor, o austríaco Karl Krause, dos Aforismos que traduziu. Vou tentar lê-lo (em tradução, claro) sem demora, pois sem dúvida vale a pena!
O engano em que caí deveu-se à semelhança dos dois nomes e esse engano não foi só meu... Tornei a consultar na Wikipedia o artigo sobre Carl Christian Friedrick Krause. Encontrei-o muito resumido e com esta nota: foi modificado em 18 de Maio passado...
Aceite, com toda a consideração, as minhas saudações e renovados agradecimentos