domingo, 25 de julho de 2010

Sem diplomas

O tempo concreto, do calendário existencial, que cada ser humano tem para viver, é facto dos mais notórios e mesmo irrecusáveis. Aparece entre as principais pertenças no sistema em que cada indivíduo se integra. Pertença tão comezinha parece soar, porém, como novidade estreme a certos ouvidos e por isso torno à ideia. 
Pertencemos, para todos os efeitos, ao tempo biológico que nos cabe em sorte. O «meu tempo» é este, iniciado em 1930, não outro qualquer à escolha (como o lugar de nascimento, o nome, os pais e restante família, a língua materna, a religião).  É sem dúvida - querem ver? - um fator dos mais marcantes do meu e de qualquer outro percurso existencial.
Comecei a escrevinhar em jornais no alvor da primeira juventude mas ingressei na profissão do jornalismo somente quando ia nos 33 anos. Escolha feita sem segredo: a literatura, meu primeiro amor, sorria-me de cara linda sem me prometer juntar os trapinhos passando a viver comigo de casa e pucarinho. Logo, eu precisava de estabilidade, uma profissão, e aquela ia manter-me ligado à escrita, a escrita jornalística.
Mas não alongo mais o preâmbulo. O que pretendo é explicar que, no início dos anos '60, nem a literatura nem a imprensa, no Portugal amordaçado pela ditadura, eram ofícios cujos praticantes devessem possuir habilitações específicas. Os escritores e os jornalistas mostravam o que valiam «tarimbando» - uns e outros escrevendo por norma em jornais e revistas até se fazerem reconhecidos - durante os períodos de inicial afirmação.
A «tarimba» da experiência viva era, pois, a «escola», para a qual entravam como soldados rasos. Havia, é claro, licenciaturas em Letras, mas todos sabemos que formavam professores, não escritores. Estes eram amiúde médicos, advogados, engenheiros, jornalistas...
Os primeiros cursos de Jornalismo apenas surgiram em Lisboa e no Porto, após demoradas reivindicações e lutas, já com o regime democrático. Entretanto, foi-se tornando claro que nas redações dos jornais de informação geral tinham cabimento licenciados com variadas formações, o que abriu a entrada a professores, advogados, engenheiros, operadores sociais, economistas... Então, os poucos licenciados que começaram a chegar às redações nos anos '60, multiplicaram-se.
Serve isto para apontar duas coisinhas:
1 - Nunca precisei de estudos superiores, nem jamais alguém mos pediu, para trabalhar como sempre trabalhei (estudando) e sempre estudei (trabalhando). Realmente, estar na literatura, tal como estar no jornalismo, requeriam tão só, no «meu tempo», saber de experiência feito.
2 - Avalie-se agora o embaraço em que me vejo quando grupos de jovens me perguntam que cursos fiz, que formação escolar recebi. Empurro-os a todos para a Escola declarando-a indispensável, sem conseguir justificar, a seus olhos, o meu autodidatismo. Assumo-o com toda a honra, é verdade, mas, sem diplomas e nesta idade, devo parecer-lhes completamente despido...

NOTA [em 23-12-2011] - Esta crónica continua a ter procura, novos leitores. Tenho um pedido especial a fazer-lhes. Não percam uma outra crónica, posterior, que a complementa. Tem o título de «Pois, sem diplomas!» e está aqui.

9 comentários:

Vítor Soares disse...

Nos primórdios do seu tempo os jornalistas não tinham cursos: existiam bons e maus profissionais nessa área, por certo.

Hoje existe, no mínimo, razoável oferta das faculdades para essa área: será que os jornalistas são hoje de superior qualidade?

Não pretendo desprezar um curso superior no referido sector, porém é necessário mais do que o canudo para se ser um bom profissional, sendo isto verdade em qualquer profissão.

Melhores cumprimentos deste seu amigo.

A. M. disse...

O ponto que foca é deveras interessante. Mas pede uma explanação que mal se poderá resumir. Tentemos.
1 - Quem «faz» um(a) jornalista na prática é a administração do jornal que o emprega, não o curso.
2 - Creio que são milhares e milhares os jovens com cursos completos ligados ao Jornalismo, excedendo de longe a capacidade de absorção do setor; só os estágios obrigatórios davam força de trabalho suficiente... e grátis! :-)
3 - O emprego nas redações foi atingido igualmente pela precarização geral do trabalho, agravado pela abundância da «oferta».
4 - A propriedade dos meios de comunicação social caiu nas mãos de uns poucos, enquanto a Imprensa agravava a decadência (menos receitas de publicidade, menos leitores) e já receia o estertor.
5 - O panorama geral da Informação é, como se vê, cinzento, dissuasor. Perdeu-se a variedade, impera o seguidismo e a fidelidade à verdade única. Onde pára a liberdade de informar do jornalista vertical autêntico? Onde arranja ele um lugar arejado?!
Eis, caro amigo, uma síntese.
Cumprimentos.

Vítor Soares disse...

Caro Amigo:

Ponto 1 - concordo fortemente, mas podem haver excepções (espero eu);

Pontos 2 e 3 - não serão boa parte desses jovens mais problema do que vítimas? Eles escolhem e escolhem muitas vezes sem racionalidade, mesmo quando pensam estar a ser racionais a fugir de cursos teoricamente mais difíceis ou menos na moda;

Pontos 4 e 5- É triste, mas é verdade.

Um abraço em nome do rejuvenescimento do Jornalismo!

Luís Henriques disse...

Ex.mo Sr. Arsénio Mota, se me permite, acrescento que um curso superior em qualquer área é importante; no entanto, depende de como é ministrado. Tanto mais útil e estimulante será quanto mais valorizar a criatividade e a descoberta do "eu" profissional de cada pessoa. Actualmente, falta esta parte nas universidades e a curiosidade autodidacta continua a ser muito formadora. Todavia, a universidade, hoje democratizada, oferece horizontes a muitas mais pessoas do que há 30 ou 40 anos. Já a Literatura não se aprende propriamente: tem que vir das qualidades de cada um.Os meus cumprimentos.

A. M. disse...

Caro Vítor Soares:
Suponho que as excepções no caso em vista serão de jornalistas sem emprego certo nem colaboração assegurada (free-lancers) e regular num qualquer órgão. A regra, pois, será a que aponto: para exercer a profissão, o/a jornalista tem de ser admitido pela direcção/administração.
Nos dois pontos seguintes, repare, limitei-me a citar um facto objectivo.
Rejuvenescer o jornalismo, diz? Apenas uma exclamação: Era bom, era!
Cumprimentos.

A. M. disse...

Exmo Senhor Luís Henriques:
Muito obrigado pela achega que traz ao assunto. Naturalmente, concordo com o que afirma, não me parece sequer que seja matéria a merecer debate. Aliás, o que saliento no meu texto pretende enfatizar a dimensão que em todos nós, escolarizados em diversos graus, é maior ou menor: o chamado autodidactismo. É a própria pessoa que vai construindo a árvore dos seus conhecimentos e aptidões, embora ajudado pela Escola.
Julgo que concordará comigo! Ou engano-me?
De qualquer modo, volte sempre...
Saudações.

Isabel disse...

Olá Arsénio!
Os tempos são outros e nos teus, de jovem trabalhador, não te era exigido diploma, aliás, nem sequer existia. O teu post fez-me reflectir sobre a realidade que afecta a formação superior nos dias de hoje. Os cursos existem sim e certificam os jovens, mas há uma distância muito grande entre o que se aprende durante os anos de formação académica e o que o mercado de trabalho efectivo requer (na maioria das áreas), pois os conhecimentos são ministrados segundo uma lógica de «gaveta», isto é, cada disciplina trata dos seus conteúdos específicos sem, muitas vezes, estabelecer relação com as outras disciplinas do curso, resultando numa formação final fragmentada e excessivamente teórica. Esta lacuna sente-se mais vivamente nos primeiros meses de trabalho activo. Talvez, em tempos idos como o teu este problema não se confirmasse no decurso da vossa “formação” profissional, porque a aprendizagem era feita no terreno e, por isso, as exigências eram outras.

Abraço

A. M. disse...

Cara amiga:

O teu comentário tem a marca da experiência que já colheste durante a formação e os anos que levas de prática no ensino, isso nota-se. Vale mais, assim, como apreciação crítica de uma situação que, aparentemente, poucos vêem ou querem ver: a deriva que afecta a pedagogia e o ensino, degradando-os mais e mais, ao longo destes últimos três decénios. As políticas educativas em aplicação mostram ser tão boas, tão boas, quanto os resultados que temos à vista! E isto, amiga, é mesmo um problema dos mais sérios!!
Agradeço-te a visita e desejo-te óptimas férias.

A. M. disse...

Esta crónica figura no «E Foi Assim», vol. II, que os meus amigos podem ler (tem link). Ali se encontra também, a seguir no livro, uma outra crónica, posterior, que complementa esta aqui comentada. Ora, porque «Sem diplomas» continua a despertar atenções e mais atenções, isto é, a surpreender, gostaria que os seus leitores não perdessem «Pois, sem diplomas!» Endereço deste texto complementar no blogue: http://arseniomota.blogspot.com/search?updated-max=2011-07-11T15:07:00%2B01:00&max-results=7
Penso que o assunto ficará mais esclarecido...