sábado, 4 de setembro de 2010

Água em garrafas de plástico

É curioso ver como certas mensagens em circulação se anulam umas às outras num despique que não aproveita a ninguém. Amigos solícitos distribuem uns avisos que nos previnem dos perigos que corremos ao consumir a água da rede pública, outros avisos alarmam-se com a «pegada humana»: as montanhas de vasilhas de água feitas de plástico a crescerem no planeta. E ninguém sabe como viver sem abastecimento de água canalizada nem exige aos respectivos governos que imponham aos vendedores de água, por lei, o uso de garrafas de vidro, material reciclável.
Os avisos são terminantes. Quem bebe da rede pública ingere, segundo lemos, um quilo de fezes num ano. Resposta risonha, a sair da manga: bebamos vinho!
Não brinquemos, então, com assuntos sérios. Porque a água dos rios que alimenta as redes públicas contém, além de restos excrementícios, vários poluentes químicos de elevada perigosidade e a esses as análises laboratoriais correntes teimam em não ligar. A poluição dos plásticos, derivados do petróleo, acrescenta-se na água aos outros elementos poluidores... e não são apenas cancerígenos.
Estamos, sem dúvida, sujeitos à poluição acumulada na atmosfera e na terra que nos dá de comer, mas lembremos que cerca de três partes do nosso corpo são compostas por água. Na base deste problema planetário gigantesco aparece em grande plano a matéria prima que transformou o século XX  no «século do petróleo». Ora as reservas mundiais estão gastas mas ainda não esgotadas, sendo de esperar, portanto, que o «século XX», com todas as suas tresloucadas tinetas, se prolongue com mais guerras, destruições e poluições ostensivas em prol de uma exploração capitalista cega e predadora.
Os malefícios gerais derivados da exploração petrolífera global são sem dúvida muito superiores e muito mais graves do que é voz corrente. Não o sabe a opinião pública generalizada porque as poderosas centrais que manipulam a informação global continuam ao serviço, filtrando (isto é, censurando) os factos «inconvenientes», a exemplo do que ocorreu com os malefícios do tabaco, tarde e a más horas reconhecidos e assentes. Mas um dia, outra vez tarde e a más horas, iremos deparar-nos com a realidade real do que foi, preto no branco, o calamitoso século XX, o do petróleo.
A Europa perdeu então o seu protagonismo.  E não só. Assistiu a guerras e conquistas abjectas, destruições criminosas, pilhagem de recursos não renováveis, imposições descaradas da força como lei quando tal convinha, redução e amesquinhamento da vivência democrática e da cidadania popular, promoção de políticos cada vez mais «cinzentos» ou mesmo medíocres para lugares cimeiros, desaparecimento de Mestres prestigiosos capazes de brilhar pela cultura humanística, o pensamento e a ética social...
Este século XX ainda não acabou porque o mundo se alimenta ainda de petróleo (até quando?!). O que foi e o que valeu no manicómio dos mais loucos comportamentos está à espera do historiador realista que lhe pinte o retrato. Essa será a herança hedionda pela qual as novas gerações julgarão e condenarão as anteriores - declarando-as estúpidas, feias e más.

NOTA ESPECIAL
Quem escreve esta coluna, sendo aprendiz confesso da vida, não é especialista em coisa nenhuma. Aqui, ao versar uma diversidade de assuntos, como é seu hábito, tem o cuidado de previamente se informar em fontes credíveis antes de botar sentença. Nesta base, divulga conhecimentos de interesse geral que os media tendem a silenciar mas que um jornalismo independente deveria informar. Sim, os media alarmariam as populações, mas cumpririam o seu dever! Porque o desafio, hoje, é: venha a esta coluna, daqui a dez, quinze ou vinte anos, alguém que leia e aponte onde o cronista errou no que anunciou ou, digamos, previu no que estava à vista no seu tempo!  

3 comentários:

Anónimo disse...

Caro Arsénio:
Só uma pimcelada:
Se não fosse o objectivo do lucro a comandar esta economia capitalista, as coisas poderiam melhorar muito mais rapidamente.
Há uns tempos, num restaurante a 100 metros duma famosa fonte de água mineral, serviram-me água doutra fonte a mais de 200 km. Quis saber a razão e foi-me respondido que os de longe lhe vendiam mais barato do que os seus vizinhos.
Ou seja: os "custos sociais" (poluição do transporte, neste caso) continuam a não ser considerados na contabilidade das empresas. Se o fossem, os preços reflectiriam isso e o consumidor seria "empurrado" para o equilíbio ecológico.
Abraço,
Rui

Anónimo disse...

PS: Era só uma pincelada e sairam duas: a segunda acrescentou uma perna ao "n" da própria pincelada!
Rui

A. M. disse...

A tua «pincelada», caro Rui, ilustra muito expressivamente este facto: o sistema capitalista nada tem de racional, sendo predador, desumano, injusto e etc. Hoje em dia não poderemos mais permitir o lucro pelo lucro, o consumismo cego, a idolatria do mercado, a cegueira total, o elogio da loucura, gritando «viva a morte»!
Retribuo abraço.