sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Deus não tem mais Céu


O mistério rodeia as manifestações da vida onde e como surjam talvez porque a vida é o mistério absoluto. Sempre assim foi, de modo que esse mistério deu o berço ao nascimento das religiões. Todavia, o desenvolvimento do conjunto dos conhecimentos científicos foi crescendo ao ponto de, no nosso tempo, se extinguir até ao limite o lugar para quaisquer «explicações» religiosas do fenómeno Vida.
Não resta mais lugar para um Deus criador do mundo, os avanços da ciência extinguiram-no. O derradeiro golpe foi dado por Stephen Hawking no seu novo livro The Grand Design. Assumidamente agnóstico, o físico cósmico explica o Universo através do Big Bang primordial abolindo definitivamente a ideia teísta do criacionismo.
Na verdade, segundo afirma quem já o leu, Hawking procede neste livro a uma completa abolição da hipótese divina. Antes parecia admiti-la como hipótese última, nos limites do conhecimento, mas reafirmando o seu agnosticismo. Agora, por fim, aplicando somente as leis da Física cósmica, transpõe a última fronteira.
Degrau a degrau, sucessivamente, pode também chegar à contemplação do cosmos, ou seja, do Universo, quem se põe a cogitar (oxalá que após leituras de Carl Sagan e outros autores não menos estimulantes) nas origens do mundo e da vida. Precisa, porém, de elevar o pensamento para além do que o rodeia, não se detendo em meras aparências, e gostando de astronomia, assim como quem sobe de noite ao telhado mais alto e se demora, ali no escuro, disparando para o céu polvilhado de estrelas as suas interrogações e espantos. Decerto perceberá então que a vida, toda a vida, está contida naquela abóbada fantástica.
A ela pertence o sistema solar que integra o planeta Terra, com a natureza envolvente em cujo seio nasceu a humanidade. Afinal, tudo existe na abóbada celeste, onde tudo é tempo e espaço, isto é, matéria diversamente organizada e porventura transformável mas sempre indestrutível. Sagan o disse em síntese feliz: «somos feitos da matéria das estrelas».
Viver neste planeta sem percecionar a infinitude sideral, portanto de olhos cegos para a verdadeira luz, como toupeiras no interior dos túneis que escavam, reduz a dimensão humana à sua mais ínfima condição. Rebaixa-a hoje para além do razoável, permitindo a sobrevivência de fenómenos sociais como superstições e crendices vetustas enraizadas no íntimo de gente parada no tempo. Mas a ciência é e torna a ser perentória: a hipótese de Deus criador não tem mais Céu para reinar...

5 comentários:

Manel disse...

É isso mesmo.
Viva a Santa Liberdade!
Abraço
manel

Anónimo disse...

Arsénio:
É muito bom ler-te!
Abraço,
Rui

A. M. disse...

E eu digo, respondendo:

Rui, é bom ter leitores como tu...

Manel, viva a Santinha, sim, mas com mais luzes a iluminar quem tanto precisa de iluminação...

Abraço-vos, caros amigos!

Shuzy disse...

Sermos feitos da mesma matéria que as estrelas é muito bonito, mas, eu acho mais bonito ainda crer numa força maior.

Parabens pelo blog, cheio de assuntos inteligentes e polêmicos!

A. M. disse...

É bonito, sim, e também poético e verdadeiro. A ciência o demonstra. Mas Shuzy prefere crer no que descreve como «força maior». Não tem problema nenhum! Isso pode ser igualmente bonito e não menos poético. Mas trata-se- então, aí, de fé, não de ciência.
Agradeço a generosidade do cumprimento elogioso que faz deste blogue, oxalá o mereça. E, enfim, bem haja!