sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Convite para folgar

Nos anos da minha infância, sabíamos o que era folgar: juntavam-se as crianças e as brincadeiras surgiam. Anos decorridos, empregado e trabalhando, usufruí das folgas do meu turno. Mas o tempo passou e agora até parece que a própria palavra entrou em desuso.
O convite para folgar é aqui para valer, a sério, pois... basta de tanto sofrer! E como o cronista nada mais pode pôr aqui senão palavras (que nem inventou), peguemos nesta para nos divertirmos um pouco.
Segundo a etimologia, folgar tem raiz no latim follicare, «respirar com ruído (como o fole)». José Pedro Machado abona o termo com D. Dinis (séc. XIII), registando, no séc. XV, folga e follegar, «respirar dificilmente».
Neste ponto já estaremos a lembrar-nos das variantes do termo: folgança, folgadio, folgaz, folgura, folguedo, folgazão. Em suma, precisamos de bons foles para folgar, mas nós temo-los embora nos faltem os sete fôlegos do gato.
E aqui está como a nossa capacidade respiratória aparece associada à vontade de brincar, entendendo, muito naturalmente, que a uma ação corresponde a outra. Mais curioso ainda é ter de concluir, perante demonstrações irrefutáveis, que começamos a viver respirando corretamente para depois nos habituarmos a respirar mal. E sobra-nos o desplante para repetir que uma pessoa pode sobreviver sem comida vinte ou trinta dias, sem água cinco ou dez dias, mas sem respirar não mais de três minutos...
Respirar é função vital. Concede-nos a alma (lat., anima), que mais não é do que «sopro, ar; alento». Precisamos, pois, de respirar para ter a «alma» que as teologias garantem, sem provas evidentes, que é eterna.
As variantes lexicais do termo tinham que ser abundantes: animado, animar, ânimo, animosidade, animoso, anímico, até animável (lat. animabile, «vivificante». Respirar, então, é viver, ter animação, enfim, possuir a tal «alminha» volátil como chama de vela que um sopro extingue. Quem, embarcado no submarino da fé, se lembra do que aprendeu na catequese, passa ao largo desta ligeira abordagem etimológica, mas não o cronista: lida com as palavras (repete: que não inventou) e aprendeu a conhecê-las para além da casca, até ao grão.

2 comentários:

Anónimo disse...

Caro Arsénio:
Depois do prazer da leitura, o abraço de agradecimento do
Rui

A. M. disse...

Amigo Rui, o sempre atento:
Agradeço o agradecimento e acrescento um abraço apertado. Bem o mereces!