domingo, 10 de outubro de 2010

Manipulação em nome da Paz

Atribuir o prémio Nobel da Paz a um dissidente preso na China mostra como estamos ainda envolvidos em ambiente de «guerra fria». Acabou, porém, o tempo do bilateralismo, no mundo reina uma única potência (hegemónica até ver). O escolhido este ano pelos académicos suecos para «acompanhar» Barack Obama poderá servir à baixa política mas não contribuirá para convencer o Governo chinês a valorizar a cotação da sua moeda por mais que Washington suplique.
E cá estamos na baixa política, ouvindo clamores em defesa dos direitos humanos e da democracia, clamores justiceiros que atravessam a Europa e percorrem talvez metade do mundo. Mas quem assim fala tão justiceiramente, fala diante de microfones e câmaras tv, ou escreve na imprensa. É a opinião publicada e publicável, a do Pensamento Único, a informação massificadora, que aceita mal a contradita ou a contestação.
Os órgãos de comunicação social, redes de televisão, imprensa e rádios ditos de referência estão concentrados e dominados por grupos poderosos. Deixaram de exercer uma função de utilidade social para servirem interesses particulares. Os caudais noticiosos diários são tratado por agências que funcionam aplicando eficazmente os dez preceitos da manipulação dos media descritos pelo prestigioso linguísta estado-unidense Noam Chomsky: procuram distrair as atenções públicas dos problemas maiores criados pelas elites políticas e económicas; criar um aperto para propor uma «soluçã(uma crise económica impõe a perda de direitos sociais ou de serviços públicos); avançar a conta-gotas com medida política tão inaceitável que provocaria uma rebelião; tornar aceitável um sacrifício futuro... porque não é imediato; falar ao público tratando-o como criança de pouca idade; convencendo-o a gostar da ignorância e a viver na mediocridade, tal como a reagir com emoção e a detestar a reflexão, ou que é  moda ser mesmo estúpido, vulgar, inculto; etc.
Assim tratado, sob a torrencial informação que o submerge, o público talvez não se lembre mais dos direitos humanos e da democracia que faltam aos palestinianos bloqueados, espoliados, massacrados e humilhados na sua própria terra; nem dos iraquianos invadidos, torturados e mortos sem culpa, apenas com petróleo; nem dos presos raptados e mantidos sem julgamento em Guantánamo; nem dos direitos humanos no Haiti, na Colômbia, no Congo, no Corno de África, de tantos negros vítimas do Katrina em Nova Orleães... Cala-te boca! Cala-te, pois a principal potência mundial e seus aliados até vem mostrando quanto respeitam as leis do direito internacional.
A grande questão é que a potência se afunda dilacerada pelas suas próprias contradições. Mas encher os noticiários com barragens de críticas ao regime que assim trata um ativista dissidente leva a perguntar: e como são tratados os ativistas (não de direita, é óbvio, tão bem vistos pela «inteligência» U. S.) que levantem voz ou mostrem punhos fechados? E, enfim, não existirá o que se cala também onde a barragem sonora é mais potente?!

2 comentários:

Manel disse...

Em nome da paz se faz a Guerra.
Abraço
manel

A. M. disse...

Pois, amigo Manel,assim é e será até o dia em que massas populares revoltadas, sem mais poderem aguentar, se virem contra quem faz tanta guerra em nome de tão pouca paz.
Abraço agradecido e retribuído.