sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Outra reflexão sobre a crise

Que dúvida pode haver? Um governo democrático é eleito para governar. Não de qualquer forma, não para desgovernar a nação, e sim de acordo com as promessas contidas no seu programa político. Se pretende governar bem, governará a favor da maioria eleitoral que lhe confiou o poder, não a favor da proteção dos interesses de uma qualquer minoria.
Se utiliza o poder que o povo lhe atribuiu para reforçar o poder de uma oligarquia, por muito poderosa que ela seja social e financeiramente, esse governo trai o mandato popular recebido. Comete uma infração gravíssima aos olhos abertos de quantos cidadãos lhe deram o voto e dá-lhes direito ao protesto e mesmo à revolta. Se as leis nacionais não punem essa infração com eficaz severidade, será porque os cidadãos desmazelaram antes os deveres da cidadania vigilante e os políticos oportunistas se aproveitaram.
Uma tal infração deve ser punível como o crime que realmente é. Dentro de um sistema autenticamente democrático, as leis e os costumes nacionais em vigência devem sancionar talhantemente esses desvios, chamando ao pelourinho da justiça os prevaricadores (assim como no caso da Islândia, que julgará em tribunal o responsável pela bancarrota).
Sem discussão, um governo que desgoverna a nação de modo desastroso comete um duplo crime: ludibria a confiança que mereceu da maioria democrática e defrauda o sistema político vigente em benefício particular de uma qualquer elite privilegiada. Utiliza o formalismo eleitoral democrático para, em última análise, agindo dentro da democracia, atentar contra a democracia, destruindo-a. Ora este é o regime que, claramente, por essencial definição, serve para proteger o pobre da violência do rico, a fraco da força do forte, aspirando a uma igualdade legal.
Eis porque nenhum sistema democrático pode considerar-se acabado, definitivo, perfeito. Ao invés, precisa de constantes aperfeiçoamentos, como pintura inacabada a caminho da perfeição final. Todavia, é neste ponto que emerge a questão: nenhuma democracia mostra hoje interesse convincente no aperfeiçoamento do sistema, tomando-o já como feito e perfeito.
A crise do nosso tempo avassala o mundo devido a diversos fatores e conjunturas, não há dúvida, mas parece óbvio que os problemas se criaram e amontoaram no seio de cada povo depois de os governantes rodearem de secretismo os negócios do Estado, afastando dos debates políticos nacionais camadas sucessivas da população. A ação governativa (para iniciados, por escassez de diálogo) foi-se limitando à esfera do poder enquanto a política se tornava espetáculo, o sistema escolar entrava na «pedagogia» do facilitismo e os media distraíam os cidadãos, retirando-os da participação política que embaraçaria os governantes... cujo ardor democrático, por sinal, se afirmaria pela inversa.  Falta agora desejar que a governação não seja mais confiada a profissionais da política nem a pessoas muito endinheiradas, ainda que tenham dinheiro para gastar pelos seus (interesses pouco) ideais. Merecem a eleição para servir o povo, sem sofisma, pessoas capazes de chamar (e não de arredar) os eleitores ao diálogo democrático permanente. [Imagem: pormenor central da pintura «A Liberdade guiando o povo», por Delacroix.]

2 comentários:

Henrique Dória disse...

É espantosa a lata dos que nos puseram neste estado: a camarilha do PSD através do seu ninho de víboras, o BPN. Com a ajuda do CDS de Portas na compra dos submarinos.Isto no imediato.
A nível estrutural: o fim prematuro da desvalorização deslizante do escudo por Cavaco Silva, em 1990, que teve seguimento na conversão excessivamente alta do escudo na adesão ao euro por Guterres, o que levou à perda de competitividade da nossa economia.
E não menos espantosa é a desonestidade impune dos comentadores políticos e económicos estilo Barreto, Medina Carreira e camarilha, que bem sabe disto mas esconde, com o objectivo de levarem a camarilha do Passos novamente ao poder para fazer novos BPN, Sociedades Lusas de Negócios etc.
Tudo gentalha desprezível
O PS esconde a face, metido que está na Face Oculta, e torna-se impotente para dizer estas verdades evidentes. O Bloco e o PC, infelizmente, só dizem idiotices imbuidos que estão no seu messianismo.
Dá vontade de nos querermos libertar deste país, como dizia Jorge de Sena.

A. M. disse...

A Face Oculta e outras faces ps evidentes, caro amigo, mostram a degradação que invade a coisa pública. Mas eu não vejo isso separado da atonia geral que invade a participação cidadã na coisa pública tão conveniente para os políticos. Serão, pelo menos para mim são, as duas faces da mesma moeda. O futuro nos dirá quanto isso contém de perigoso... Por ora suportamos os novos impostos, sabendo, pela sabedoria das nações, que todos aparecem como provisórios e acabam por ficar definitivos. Enfim, mando-lhe hoje este abraço (ontem não conseguia entrar em «Comentários») com um lamiré especial: estamos próximos, vamos encontrar-nos para uma conversa sem mais demora? Cedo-lhe a palavra!
Ah, e mando outro abraço para o seu irmão gémeo, o tal de nome impronunciável!