domingo, 3 de outubro de 2010

Quando os livros são de cheirar...

Pegou num livro, abriu-o ao meio e, com notória avidez, cheirou-lhe as páginas. Diante das câmaras, para a televisão, disse que cheiravam a tintas, colas, e até notou a acidez do papel. Ele, um autor literário mediático, intervinha na apresentação do novo romance de outro autor literário em voga, também presente junto da rotativa da editora que lançava no tapete velozes rimas de volumes.
As sessões de lançamento das novidades editoriais até para algumas «vedetas» em promoção ficaram gastas e cansadas. Já não conseguem garantir bons resultados, atrair leitores, gerar visibilidade para o autor e o seu livro. Era preciso, portanto, introduzir no caso uma inovação: o performer.
O apresentador dispensou-se de ler a obra, de expor uma apreciação, uma leitura. Bastou-lhe o cheiro e a visão exterior. Assim declarou em público o que ao público cumpre saber e recordar: aquela novidade literária, como tantas outras em correnteza, é para ver e cheirar, não para o que serviam os livros antigos. Acredita-se, portanto, o que já se diz no meio editorial, que uns 80% dos livros não chegam a ser lidos.
Os avoengos possuíam valor e dignidade cultural. Podiam caber no bolso, ser impressos em papel rugoso e amarelado, exibir capas pobrezinhas, mas ainda hoje muitos deles são procurados nos alfarrabistas que os marcam por bons preços. Eram lidos e relidos, criticados e comentados, e ninguém se lembrou alguma vez de os cheirar.
Entrámos agora nisto, na literatura consumível. As capas aparecem cheias de cores, fortes e com altos relevos, os formatos cresceram e já não cabem num bolso, por vezes nem na estante, as lombadas abraçam já centenas e centenas de páginas de bom papel. Tudo histórias da carochinha, que é preciso consumir depressa no seu curto prazo de validade porque a máquina da produção industrial acelera às cegas.
Para ela trabalham, produzindo romances e outros textos, não «escritores», sim fabricantes de literatura cheirosa quanto baste. Escrevem guiões para telenovelas, vão ao estrangeiro aprender guionismo, arranjam agente literário, reclamam-se profissionais da escrita.  O mercado dos gostos massificados é o seu ambiente.
Edita-se muito - mais de mil novas edições por mês, mais de doze mil por ano - mas publica-se pouco. De facto, editar deixou de corresponder a publicar (pôr o livro em público, isto é, nas livrarias). Mas, decerto por isso mesmo, as tiragens desceram tanto que, ao que se diz, andam agora em geral por níveis irrisórios.
São os próprios autores que encomendam e pagam a edição da sua obra e que a distribuem por oferta ou venda direta a amigos e conhecidos. Variadas editoras entraram neste negócio do print-on-demand. Consagrou-se plenamente a consigna dos editores-patrões: são os autores que vendem as obras, não os seus editores (que as trocam por dinheiro). E é vê-los por aí a palmilharem o terreno.
Melhor sorte têm os best-sellers, evidentemente, na justa medida em que o sejam. Qualquer editor sonha com eles. E eis as consequências: a literatura de consumo, cultura de massas, é hoje a cultura popular que nos resta... e façam o favor de não perguntar, entre a aurea mediocritas, onde pára a «outra» cultura, a tal que, respeitosos, outrora até víamos escrita com maiúscula.

4 comentários:

Anónimo disse...

Caro Amigo, Arsénio:

Pelo tema que coloca a discussão e pela forma como está escrito – com o saber e a experiência que já nos habituou -, esta sua crónica encheu-me as medidas. Talvez por ser um bebé que ainda só gatinha neste mundo, mas que mesmo assim, pode soletrar/escrever algumas letras, deixe-me acrescentar, a título de exemplo, o que vi há dias numa livraria de um grande superfície comercial: vi a publicitação de um “grande romance” que estava no escaparate, a meter-se-nos pelos olhos adentro, esse livro estava no início da fila, na estante logo a partir da porta de entrada (volumes que, sabemos, são pagos pelas editoras a preço de ouro, a não sei quantos euros por dia, para ali estarem). Um cartaz do tamanho e com os contornos fisionómicos do autor, na entrada, chamava a atenção para “uma obra extraordinária com milhões de exemplares vendidos, só nos EUA”. Não foi surpresa quando li a biografia do autor, no interior ou na badana do livro (já não me lembro), e constatei que o autor era o pivot de um “talk show” diário, na televisão do seu país.

Um abraço e até breve,

João Cruz (António Canteiro)

A. M. disse...

Caro amigo:

Continua a provocar-me borbulhas essa argumentação que pretende convencer-nos de que é bom um livro que lá longe já vendeu bateladas e avalanchas. Confesso, já não posso com ela. O que vale, o que significa tal argumento que realmente nos importe?
Penso que só uma pessoa massificada e sem remédio tomará isso em Portugal como motivação de compra. O autor nem sequer é entre nós conhecido!
Quanto a si, meu caro João Cruz, com dois livros publicados e distinguidos, apenas direi que poderia poupar em tanta modéstia...
Abraço cordial.

Vítor Soares disse...

Ora, ainda ontem também estive numa livraria, daquelas de centro comercial hoje em dia típico, e o nojo que me invadiu foi em tudo semelhante ao que agora acabei de ler.

Só mesmo em alfarrabistas, como diz o caro amigo...

Abraço e continue a sua produção, sem pressas, sem mediatismos, com a habitual sapiência.

Até uma próxima, breve ou não.

A. M. disse...

Olá, Vítor Soares. Seja bem (re)aparecido!
Não há dúvida, espalha-se a sensação de que os livros das grandes tiragens, de autores mediáticos, podem ser bons a contar umas histórias mas não vão além disso... e isso é pouco, pouco num tempo tão conturbado com este. Há uns quinze anos, porém, uma voz já prevenia contra esta evolução, mas tão fraquinha que ninguém a escutou... E a onda chegou e enrolou-nos como trouxas.
Até breve, espero.