sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Reflexão em tempo de crise

É voz corrente entre os portugueses que o seu país sempre foi mal governado. Não é, certamente, a opinião da maioria mas talvez hoje seja a opinião predominante. O país debate-se com uma crise que nos últimos tempos não cessa de se aprofundar como se todos os sacrifícios já feitos, que façam ou que ainda possam fazer obriguem a novos sacrifícios.
Pensa que o país anda mal governado há muito tempo quem conhece o suficiente da sua evolução histórica e, além disso, possui opinião, isto é, alguma formação política e se pretende cidadão informado. Pertence a um estrato da população que parece não se confundir deveras com a grande maioria. Essa maioria, no comportamento eleitoral, elege os três partidos que há uns trinta anos se revesam no Governo. Em termos de definição política séria, posto que sumária, correspondem às três abordagens possíveis da mentalidade e tendência ideológica das classes médias nacionais num leque que vai da direita tradicionalista, despolitizada e conservadora ao extremo oposto, ligando com uma certa esquerda furta-cores ou, se reina o bom tempo, cor-de-rosa.
Pode então dizer-se que a presente crise (dita orçamental, mas também económica e financeira) foi provocada pelos governos que há uns trinta anos se sucedem no poder com apoio legitimário da maioria eleitoral do país. Mas neste quadro se evidenciam, à luz meridiana dos factos, as coordenadas do percurso e as contradições do caminho percorrido. Em três décadas, a governação (neoliberal) do país foi sendo entregue a políticos de carreira emanados dos três partidos com cada vez menor perfil de estadistas, compensando qualquer escassez de ideais com doses de pessoal ambição.
As transformações foram rápidas, intensas e extensas: acumularam-se no país num movimento que acompanhou de perto as transformações por que também iam passando, mais ou menos, outros países europeus e da América. As oligarquias financeiras concentravam a propriedade dos órgãos de comunicação social mais influentes e pressionavam os governantes para as pouparem a impostos, com o que subiam os défices. As classes médias foram chamadas a suportar novos impostos para compor a situação... que se agravou e jamais se compôs. Surgia, com a cumplicidade dos governos, a ditadura do capital financeiro sobre os governos.
Em traços muito grossos, foi este o processo pelo qual as classes médias, adormecidas no consumismo fácil e anestesiadas pelos media, foram sendo conduzidas para a crise. Acordaram quando o desemprego se implantou, o trabalho mal pago e sem direitos se tornou regra, o nível geral de vida desceu, os deveres do Estado social minguaram, os impostos  de quantos ganhavam menos cresceram até à exorbitância... e os bancos e toda a atividade financeira obtinham gordos lucros pagando sempre uns simbólicos impostos. Acordaram, enfim, para julgar os políticos, todos uns malandros e corruptos, que apenas querem enriquecer...
As «bolhas» a rebentar depois de incharem loucamente, a invenção dos paraísos fiscais, as fraudes e os bancos em falência vulgarizaram-se tanto como ter dívidas. Os bancos estavam atolados até ao pescoço tal como as empresas, os municípios, os clubes de futebol, as famílias - o dinheiro antes existente sumira-se vampirizado pela ganância e os governos, de cofres também vazios, apelavam para que toneladas de notas novas (dinheiro-dívida) entrassem de emergência em circulação. O rombo global foi avassalador: segundo Bruxelas, 13% do PIB dos países europeus foi absorvido em 2009 para «salvar os bancos», o que indica o tamanho monstruoso da «expropriação» operada pelos acumuladores da riqueza.
Arderam as classes médias e salvou-se o quê? Portugal está a pedir empréstimos de milhares de milhões pagando juros de cinco, seis ou mais por cento aos bancos, porque não pode - imagine-se porquê! - pedi-los ao Banco Central Europeu... que os concede a um por cento, assim proporcionando à banca intermediária gloriosos lucros. Pense cada cabeça o que quiser, mas algum motivo haverá para sustentar a ideia de que os políticos são, em cada período histórico, o espelho fiel da mentalidade e da ideologia do povo que os elege sem memória ou discernimento. [Clicar na imagem para a ampliar.]

2 comentários:

Isabel disse...

É a realidade que temos, impulsionada pela onda de mediocridade crescente no seio da sociedade portuguesa!
Lamento sentir que a população ainda não está bem convencida do vazio económico em que Portugal se encontra.
Lamento ouvir - «Seja o que Deus quiser!» - quando a vontade de mudar, de agir, é apenas nossa e de mais ninguém.
E ainda não estamos bem no fundo!
Caso para perguntar - Que substância corre nas veias deste povo? Sangue não é, certamente!
Que desilusão, meu caro! Que desilusão!

Isabel

A. M. disse...

Tenho que dar-te as boas-vindas, cara amiga, pois serás a primeira e única a comentar este «post». Vai-se tornando habitual, isto, mesmo por aqui, onde aparecem escritos arrancados à custa de vencer (como posso, dia a dia) uma contrariedade e mesmo desgosto fundo por me ver, vendo-nos, mergulhado nesta desgraçada situação nacional. É o tamanho do escândalo em curso que me deixa estarrecido como cidadão e me puxa para a intervenção a este singelo nível...
Entretanto, vai crescendo a sensação de que são cada vez menos os cidadãos capazes de reagir, como as rãs na panela de água já a ferver e sem mais forças para saltar fora...