sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Contos «infantis» de Oscar Wilde

Escrever, diz José Rodrigues Miguéis nos seus Aforismos, "é um solilóquio para ausentes". Pois será, entendendo que os ausentes podem encontrar-se em sucessivas gerações para nelas se manter vivo o solilóquio. Por este motivo simples que Miguéis bem aponta: «Só vale, quanto a mim, a literatura que passou a prova do filtro purificador do Tempo.»
E aqui temos um livro que Oscar Wilde publicou há mais de cem anos, em 1888. Nove «contos de fadas» que Wilde (Dublin, 1854 - Paris, 1900) dedica aos seus filhos com o título de O Príncipe Feliz e outras históriasMas essa colectânea de contos tem corrido com diversos títulos (normalmente o primeiro do volume) e nem sempre reúne a quantidade certa de histórias.
Pergunto: o que permanece hoje, para nós, de toda a produção literária do autor -  poemas, peças de teatro, romances? O Retrato de Dorian Gray, estes contos «infantis», e que mais?! Arrisco: mais nada, apesar do sucesso enorme, nos palcos e nas livrarias, por ele alcançado no seu tempo. O famoso dandi Wilde e até o escândalo que provocou (acusado de homossexual, condenado a prisão), aliados ao seu talento, ajudaram à retumbância do seu sucesso.
Mas quantos leitores folheiam ainda aquele romance, O Retrato? Quero crer que poucos, serão mesmo residuais.  Surge então um curioso contraste: os nove «contos de fadas», pelo menos em Portugal e no Brasil, continuam presentes nos círculos da edição e da leitura, merecendo no país irmão, inclusive, adaptações teatrais.
Sem dúvida, a fulgurância da sua escrita espelha-se em toda a sua obra principal e, no entanto, são estas histórias, escritas ao que parece sem grande ambição literária, que se mantêm «vivas» na atualidade. Ora isto levanta questões deveras interessantes, a primeira das quais é a de nos fazer sentir o cânone do que poderia ser «literatura para crianças» na segunda metade do século XIX. Questão básica: determina a acessibilidade lexical do texto e, desde logo, quem é «criança» para ler ou ouvir ler o texto.
Sabemos que o conceito de infância tendia a prolongar-se então até ao amadurecimento da adolescência. E podemos agora, perante estes contos de Oscar Wilde, perceber e avaliar a tremenda erosão que têm vindo a sofrer os vocabulários de uso quotidiano, na oralidade e nas leituras correntes. De facto, a opulência do verbo wildeano nada cede ao «facilitismo» mediático que impera nos nossos dias, não recuando sequer em abordar temas melindrosos como a morte, o amor, o sofrimento.
Mas são histórias maravilhosas, de intensa poesia e aliciante leitura. Julgo, porém, que podem lê-las não as crianças de hoje, sim os jovens e os adultos, porque estes aguentam histórias por vezes longas e contadas com termos tão raros.  Isto é francamente lamentável, afirma-o quem admira e aplaude com entusiasmo as belas histórias, realmente para crianças, que se encontram presentes no interior das nove narrativas.
Para quem lhes chegue pela primeira vez, a revelação acontece e é esplendorosa.

2 comentários:

Anónimo disse...

Saudações,

Creio que ainda há pessoas a ler "O Retrato de Dorian Gray", talvez a obra mais conhecida de Oscar Wilde. Vários factores cntribuem para este facto:
1)-Este livro era dado no curso de Línguas e Literatura Moderna, variante Português-Inglês, na Faculdade de Letras da Univ. de Lisboa (antes de Bolonha);
2)-Foi também reeditado na colecção Novis, Biblioteca Visão,em 2000, podendo ser encontrado à venda em diversas feiras do livro (pelo menos em Lisboa). Esta colecção tem uma interessante escolha de clássicos;
3)- A personagem Dorian Gray aparece no filme "A Liga dos Cavalheiros Extraordinários" (originalmente em BD), num enredo ao jeito de "Crossover" de várias histórias da literatura clássica. Creio que este filme levou a que se quisesse saber mais sobre a personagem D. Gray.

Creio que menos conhecido deste autor (O. Wilde), é o livro "De Profundis", seguido da "Balada do Cárcere de Reading", escrito enquanto esteve na prisão.

Abraços.
João Lourenço Monteiro, da equipa do blog ArmariumLibri.

A. M. disse...

Caro amigo, seja bem vindo!
Agradeço a achega útil que traz ao assunto e que esclarece melhor a situação em que se encontram as obras de Oscar Wilde no plano das leituras.
Comprovo tudo o que diz e o que eu escrevi. De facto, «De profundis», testemunho de O. W. para se defender de acusações, e a «Balada», leituras dos meus verdes anos, desapareceram junto com o resto.
Assim, parece que o autor promete permanecer «vivo» sobretudo com as suas histórias para crianças... sendo de lamentar que, hoje lidas tal como estão (longas e complicadas com pormenores dispensáveis), acabem por ter um destino que mereciam não ter.
Eis o que quis manifestar no meu «post».
Abraço cordial.