sábado, 13 de novembro de 2010

O capitalismo globalizado

Os murros no estômago que estão a sofrer as classes médias, e que as deixam, dobradas sobre si mesmas, em violenta convulsão, provocam naturais consequências. Atacadas por todos os lados (salários e níveis de vida a baixar, desemprego a aumentar, direitos sociais a desaparecer, impostos a subir,  idades da reforma a trepar), as classes médias estão a perceber, finalmente, qual o verdadeiro sentido das mudanças ocorridas nos nossos tempos. Não apenas em Portugal, não apenas na Europa, sim em todo o Ocidente.
Um facto parece, por tão notório, incontroverso: o capital financeiro especulativo, agora em crise, é que engendrou a globalização. Não tem nem quer ter pátria, fronteiras, limites. Quer-se livre de movimentos para chegar onde o lucro seja mais fácil, rápido e chorudo... ainda que lá ponha crianças a trabalhar, escravize ou corrompa (pretensamente sem rosto, o capital com donos vê isso com absoluta indiferença embora, por outro lado, mande os seus porta-vozes reclamar direitos humanos apontando para onde lhe convenha).
A globalização é a do grande capital, não a dos povos; da ganância predadora, não a da economia. Corresponde à fase em que a concentração do dinheiro no mundo atingiu um nível tão elevado que se tornou apátrida para afirmar a sua vocação imperialista. Estas mudanças, seja qual for a situação concreta que se registe em cada país, precisam de ser percebidas rapidamente para que alguém, pelo menos uma minoria, entenda o que na verdade se passa.
Os governos, eleitos pelos cidadãos, cederam pouco a pouco e de forma sonegada, a poderes não eleitos, competências legais importantes da governação que antes exerciam. A concepção característica das funções do Estado amoldou-se aqui e ali, pela prática, a um novo paradigma. Vestiu-se o Estado neoliberal por este outro figurino: é o capital financeiro que manda nos governos, é o mercado que comanda a economia.
Uma das consequências desta evolução é a de que deixa claramente à vista que são as classes médias as primeiras a suportar o peso de cada Estado. A camada mais débil da população não paga impostos, os dirigentes políticos e os amigos financeiros guardam-se para sorte ainda melhor, ficam portanto as classes médias, da média-baixa à média-alta, sozinhas a aguentar com o orçamento. Outra consequência aparece aqui: se os segmentos contributivos se contraem violentamente, diminuindo de tamanho, isso indicará que o tamanho do Estado igualmente enfraquece.
Mas a crise financeira é mundial, os Estados ficaram tremendamente endividados e, a todo o vapor, tratam de imprimir toneladas de notas (só papel impresso, não riqueza produzida, que essa, escondeu-se misteriosamente, deixando espalhadas por todo o lado montanhas de dívidas). Interrogação basilar: será que as classes médias nacionais irão assumir e pagar as dívidas do seu país? Por exemplo, sabe-se, porque não é segredo, que a maior potência mundial tem uma dívida pública e um défice tão altos que o FMI já teria tocado a rebate se no caso não estivessem os Estados Unidos.
E por cá? O total da dívida pública portuguesa representa, ao que dizem, já 110% do PIB nacional e o país, num descalabro crescente, continua a endividar-se para pagar juros de dívidas. Se o povo pagante, o tal que lida com notas de 5, 10 ou 20 euros, quiser sacrificar-se, vai sofrer durante muitos anos. E vão chegar cá as restrições do FMI, depois Portugal será enxotado para fora da união monetária ficando a pagar, com a sua moeda nacional desvalorizada, umas dívidas antigas inesgotáveis que vão parecer eternas. Mas eu, como tantos mais, nada fiz para merecer o castigo e posso prová-lo! Resta-nos o direito de abdicar do nosso Bilhete de Identidade: também queremos ser apátridas, cidadãos do mundo registados em offshores.

2 comentários:

Anónimo disse...

Amigo Arsenio,
Interessante artigo sobre as condicoes economicas globais. Nao ha duvidas que a globalizacao tem tido consequencias negativas para uns e proveitos para outros. Como poderao governos "regular" este tipo de comercio global para que todos possam beneficiar da globalizacao e nao so alguns?
No que diz respeito a crise economica da nacao, todos nos temos culpa uma vez que comecamos a acreditar que ja somos ricos e podemos gastar sem limites ainda que nao tenhamos o dinheiro para pagar pelos nossos gastos.
Abracos.
Alcides

A. M. disse...

Caro amigo Alcides:
Registo com viva satisfação o teu reaparecimento nestes «comentários». Oxalá voltes uma e outra vez!
Exprimes uma visão da globalização (não económica, para mim, aqui, apenas financeira, e agora numa tremenda crise) que é, naturalmente a tua mas que, francamente, me parece «soft». Repara: perguntas «como poderão os governos regular»... Respondo: governando!
É neste ponto, no entanto, que as coisas se complicam. Cada pessoa tem e defende a sua opinião, é legítimo, e no entanto pertencemos a nações e Estados organizados, com governos eleitos pelo povo. Ora não é admissível, julgo eu, que governantes democráticos possam governar a favor de uma minoria cada vez mais minoritária e contra a maioria que os elege. Mas é isto o que acontece há uns largos anos e foi isso mesmo que nos trouxe e afundou nesta situação de crise.
Quem o admite?
Sou republicano e democrata e, como jornalista, reajo contra a (des)informação reinante. Contrariado, relutante, sim, mas por imperativo cívico, procuro divulgar neste blogue factos e questões que os media quase sempre minimizam ou ignoram.
Em resumo, neste texto distingo a tua «globalização» (económica, da OMC, que tem muito que se lhe diga)da globalização financeira especulativa.
Como se vê, carrego no problema das dívidas gigantescas acumuladas pelas desastradas governações que se conhecem, essas dívidas externas monstruosas que durante os próximos e muitos anos os povos vão ter que suportar, pagando-as.
Dizes, caro amigo, que em Portugal houve uma melhoria de nível geral de vida. Pois é, instalou-se o consumismo, desenvolveu-se o mercado nacional, numa estratégia que conveio exclusivamente à acumulação da riqueza em menos mãos e à custa de muitos... Enfim, a riqueza concentrou-se, não aumentou, só mudou de mãos...
Desculpa a extensão deste comentário, puxaste-me pela língua e houve que saudar o teu «regresso». Abraço apertado!