sábado, 20 de novembro de 2010

Os donos da Nação

Uma das questões que vem inquietando os portugueses ilustrados ao longo dos dois últimos séculos gira em torno desta questão decisiva: encontrar uma explicação para o atraso e mesmo a decadência do país. Parecem crescentes e sem remédio, como se não pudesse ser outro o seu fatal destino. Mas aí temos agora um livro que expõe a questão de forma perfeitamente inteligível.
O atraso de Portugal tem vindo a ser provocado por quem negoceia com o Estado e com o seu negócio enriquece mais e mais empobrece o povo. Desde a segunda metade do século XIX, quando os liberais lutavam por modernizar o país e enfrentavam as resistências do «Portugal velho», ou seja, quando o negócio era o monopólio dos tabacos e os empréstimos à Coroa, até à atualidade, sempre houve beneficiários das prodigalidades régias ou do Estado. Mas então não tinham o topete de reclamar «menos Estado», como agora, porque os senhores,  prósperos e fortalecidos com tanta riqueza acumulada, acabaram por ficar donos da Nação.
O livro Os Donos de Portugal (Edição Afrontamento), saído há poucas semanas, explica com linguagem acessível a formação e acumulação do capital, apontando os seus principais protagonistas. São designados como a «burguesia» nacional pelos vários autores da obra (Jorge Costa, Luís Fazenda, Cecília Honório, Francisco Louçã e Fernando Rosas), focalizando principalmente as relações políticas privilegiadas de que beneficiaram durante três períodos distintos do século XX: a primeira República, a ditadura e a democracia.
Os autores, quase todos universitários, expõem os rostos da oligarquia financeira nacional - Espírito Santo, Sommer, Champalimaud, Mello, Ulrich, Amorim, Azevedo, etc. - para analisar o processo da sua formação ao longo do tempo. Vão ao ponto de incluir um mapa com as respectivas árvores genealógicas e de nele registarem os cruzamentos entre os seus rebentos, e tão demonstrativo é que lhes permite referi-los em conjunto como a «família das famílias». Depois resumem cem anos sem nenhuma surpresa: «Em 2010, a burguesia é essencialmente a mesma que existia na ditadura, reforçada com alguns potentados emergentes e com poucos recém-chegados recrutados nas elites ministeriais e que demonstraram zelo inexcedível.»
Sublinhando a promiscuidade entre política e negócios privados que proporciona a esta «burguesia» gordas benesses do Estado, os autores atribuem à defesa dos seus particulares interesses a responsabilidade da crise. De facto, o país teve agricultura e pescas e mesmo alguma indústria (siderurgia, metalurgia pesada, reparação naval) enquanto tal conveio à «burguesia», pois a produção industrial nacional, segundo os autores, foi sempre muito subsidiada. Quando o filão se extinguiu, sem coragem para assumir riscos no mercado internacional, o capital financeiro estratégico preferiu refugiar-se nos investimentos da saúde e do turismo, ou na pura especulação. Assim ficou o país entregue ao défice estrutural atual, irremediável por muitos anos.
Quer dizer, assim sem saber para onde se vire. A gastar mais do que pode produzir. Suspenso sobre o abismo que vê a seus pés. [Imagem: pintura «Saturno devorando um filho», por Francisco de Goya.]

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