sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Ao encontro de Gandhi

A Índia milenar apresenta particularidades que poderosamente a distinguem. O aspeto espiritual é sem dúvida dos mais marcantes, entre outras singularidades de especial relevo. Daí a atração que exerce, desde logo sobre os europeus, que a procuram e ficam cativos da força dos seus sortilégios.
Se bem me lembro (oxalá que a memória não me atraiçoe), um deles foi Alberto Moravia, autor da narrativa da sua viagem àquele país publicada em Portugal salvo erro com o título de Uma Visão da Índia. A narrativa é admirável ao captar com mestria os encantos que o culto e atento forasteiro, chamado de longe, ali descobre. Atualmente, no meu círculo de conhecimentos pessoais, figura uma pessoa também apaixonada pelas especiais características do país do Indo, ao qual vem dedicando poemas e prosas diversas.
Porém, Lanza del Vasto (1901, sul da Itália - 1981, Múrcia, Espanha) não procurou o país apenas para o conhecer de visita. Foi à Índia em Peregrinação às Fontes, ou seja, em busca de uma verdadeira iluminação interior, de uma sabedoria que lhe faltava na Europa convulsionada dos anos 1936-38. Neste período escreveu o livro com o mesmo título (editado em França em 1943, logo, em plena Segunda Grande Guerra), onde o leitor acompanha o seu peregrinar e com ele vai até Gandhi e com o mestre da não-violência convive três meses. 
A luminosa e sublime grandeza do pensamento de Gandhi parece amesquinhar-se quando o mestre é referido com o rótulo sumário em voga. O sound bite e as desmemórias coletivas impõem-no. Mas isso corresponde a reduzir aquele homem aliás franzino envolto num simples pano branco enrolado nas pernas, que lutou sem armas contra um império e o venceu, às dimensões de retrato tipo passe.
Lanza  del Vasto afirmou-se como discípulo eminente de Gandhi e continuador da filosofia gandhiana, sobretudo da não-violência. Estudou em Paris e Pisa, fundou a comunidade L'Arche em 1948, lutou contra a opção nuclear militar ou pacífica, apoiou os objetores de consciência ao serviço militar obrigatório e os movimentos ecológicos. Proferiu conferências em muitas cidades portuguesas em 1978 e 1979, tendo então saído no nosso país  uma antologia de textos de sua autoria: Não-Violência e Civilização, edição Brotéria, Lisboa, 1978.
Somente um outro livro de Lanza del Vasto foi publicado entre nós até 2005: Elogio da Vida Simples - Princípios e preceitos de retorno à Evidência, edição Planeta Vivo, Leça da Palmeira. E agora, por fim, temos a sua Peregrinação às Fontes, obra fundamental que chega ao leitor português com 67 anos de atraso. Tem chancela das Edições Sempre-em-Pé, Porto, 2010, mais de 300 pp traduzidas por Helena Santos C. Langrouva.
Uma nota salta aqui aos olhos e merece destaque. A causa da não-violência e tudo o mais que a ela se liga como pensamento que se pensa deixa as grandes casas editoras nacionais em manifesto desinteresse. Tomam então a palavra as editoras marginais, talvez porque a cultura, a espiritualidade, a religião ou a filosofia sejam, cada vez mais, ocupações que pouco, quase nada, ocupam entre nós...

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