quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Em nome da Cultura

Desfolhei cinco páginas do jornal que me consumiu anos a escrever e agora poiso aqui um olhar raso de melancolia. Aquelas páginas, ditas de «Cultura», recheavam-se de anúncios entre grandes imagens e textos sobre filmes em exibição, espectáculos musicais, canções gravadas... Nasceram há uns trinta anos, pela minha mão, no corpo do jornal ainda não tabloide, ocupando os bocadinhos de página que sobrassem das cobiças do dia, e depois cresceram, cresceram para albergar a publicidade que foi chovendo...
Cultura, «aquilo»? Cinco páginas - contrapostas ao bocadinho de página regateado que outrora destacava obras literárias, autores, exposições de arte, conferências, vivência cultural - cinco demonstrações do que é hoje, ou deveria ser, entendido como «cultura»? Que lugar resta que chegue para dignificar a literatura, a cultura da palavra viva, o pensamento, a comunicação estética?
Quando «tudo é cultura», continuará a ser ainda Cultura... o quê?! Atenção: que ninguém caia no simplismo de crer que o assunto é de índole académica, sem consequências reais graves nas nossas vidas. Porque é a Cultura que nos faz ser quem somos como somos.
O entendimento que aposta em «tudo é cultura» é afinal inovação recente. Alinha na crescente «americanização» das mentalidades europeias, lançando para a cova funda a riqueza da herança humanista que nos formou. E perde de vista a razão intrínseca que, por exemplo, nos obriga a manter as alusões à língua e cultura portuguesa sem plural (isto é, no singular), pois língua e cultura são entidades indiscerníveis.
Esteio matricial da Cultura é mesmo a língua que falamos e nos fala, o sangue verbal que nos corre nas veias da alma coletiva. Eu digo que também somos feitos de palavras, umas palavras que se nos vão acrescentando à medida que vivemos, desde as do nosso nome, data, local de nascimento e nome dos pais, até à certidão de narrativa completa e, por fim, a certidão de óbito. Se nos retirarem as palavras, o que fica além do montículo de cinzas anónimas?!
É na palavra viva, é nos textos, nos livros, que as palavras se arrumam, articuladas pelo sentido do que exprimem. As pinturas, as músicas, as danças são modalidades artísticas capazes de transmitir emoções estéticas e articularem mesmo determinados sentidos, mas esses sentidos terão sempre que recorrer à palavra para se tornarem definitivamente sensíveis.
Assim se demonstra uma deriva nada inocente. A palavra dos textos (neste caso jornalísticos) veicularia ideias, provavelmente ideias incómodas, renegáveis ou discutíveis, de qualquer maneira trabalhosas de ler e, para cúmulo, pouco lidas. Preferível, então, rechear páginas e páginas com espetáculos e cantigas muitas, conteúdos alegres e divertidos...
Contraste: imagine-se agora o valor de uma biblioteca ainda que pequena, com três ou quatro mil volumes. É o tamanho da que deveras me emociona ao vê-la, uma e outra vez, levada aos poucos por quem arrisca a pele pelos trilhos da Colômbia com a tabuleta bem visível no lombo da besta para afugentar tiros insurretos de dois ou três lados: «Biblioburro».
Está em http://www.youtube.com/watch?v=wuTswmx9TQU
O padre António Vieira foi talhante: «O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.» [Imagem: «A leitora», pintura de Pierre August Renoir.]

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