sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Quem quer destruir o Estado

Frequentemente, chefes de governo e presidentes saem para o estrangeiro levando consigo um cortejo de empresários, banqueiros, financiadores. O porquê não aparece explicado mas entende-se sem explicação. As principais figuras do Estado oferecem as viagens não porque os convidados estejam sem dinheiro para as pagar, e sim porque o país de origem pretende estabelecer áreas de negócio com o do destino.
Trata-se, sem dúvida, de um comportamento que vemos repetir-se por todo o lado aos nossos olhos de complacentes contribuintes. Tornou-se normal, tão normal como o dito do fulaninho que, já nos anos '60, entendia: o que era bom para a General Motors, era também bom para a América. Muita razão lhe assistia e ainda estava longe do horizonte a grande crise actual e a necessidade de as economias nacionais promoverem as exportações e atraírem os investimentos.
Todavia, o caso não é de todo «invisível» e até deixa uma pessoa a matutar. Denota a «natureza de classe» do Estado, assim posto a colaborar diretamente com os capitalistas e trabalhando para lhes promover os negócios e conseguir apetitosos lucros. A «natureza de classe» de cada Estado, sem dúvida, tem sido sempre a mesma desde a entrada na idade moderna: é o topo da pirâmide social (qualquer que ela seja) que comanda, de mãos postas nos órgãos do poder.
A matutar, porém, descobrem-se umas distinções. Nestes últimos tempos (ou seja, depois de os banqueiros, com desvairada ganância, provocarem esta crise) os governos, competentes administradores dos Estados, deixam-se de pudores e aparecem decididamente de braço dado com a alta finança nacional. Afanam-se a ajudar quem já possui muito a possuir mais, e mais, e mais... porque o dinheiro, como qualquer droga, cria dependência e escravidão.
Algo mudou - e mudou tudo: contra quem trabalha, cai no desemprego ou se reforma, contra quem estuda ou investiga, contra quem está doente ou vai ter doença, contra quem opina e quer autêntica e geral liberdade de opinião. As leis que saem encurtam o tamanho da democracia, empalidecem as cores do sistema republicano, deixam a vacilar os eleitores ainda crentes nas vias eleitorais e nos próprios partidos, e já se sente a alastrar pelo chão devastado, como um calafrio súbito na espinha, a sombra de um regresso à repressão castigadora, ditatorial. Mudou tudo porque, em suma, o Estado (servido pelo Governo forte com os fracos e fraco com os fortes) não interessa mais à corporação dos ricos.
O Estado recai sobre quem o suporta, as classes médias que pagam para consumir e viver. De fora desse esforço vai ficando a corporação, que entretanto se apodera da saúde pública, do ensino público, das obras públicas, das águas públicas... E, sempre a bem da nação, liquida o «Estado social», e vai ajustando com os governantes a compra de propriedades públicas para fazer baixar o défice, e vai tomando conta das praças públicas com aparcamentos pagos, e vai negociando subsídios e isenções de impostos para despedir e criar novos empregos, e...
Até que as classes médias acordem e mostrem que também não querem um Estado assim e assim governado. Poderá então talvez ouvir-se, com música, a voz de Fernando Pessoa (o drama em persona) desejar como utopia a anarquia: «Prefiro rosas, meu amor, à pátria, / E antes magnólias amo / Que a glória e a virtude.»

2 comentários:

Anónimo disse...

É triste ver o nosso Ricardo Reis tão bem aplicado á realidade...
Grande abraço,
Rui

A. M. disse...

Olá, caro amigo.
Deixa-me dizer-te: lamentas afinal o quê? Fernando Pessoa é «inesgotável» e só temos que conviver com ele para lhe apreciarmos a grandeza, o génio de super-Camões.
Agora quanto ao assunto na sua triste realidade... Temos por aí um e outros diversos Estados comidos por dentro, isto é, só cascas cadaverizadas, e agora temos que nos perguntar quem irá assumir-lhes os encargos, em especial trabalhar para lhes pagar as dívidas (acumuladas por quem enriqueceu) que prometem durar gerações...
Pergunta final: mas quando irá o povo acordar de vez?
Como diz o outro: precisamos mesmo de desligar o televisor e ir para o café discutir!
Abraço cordial.