quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A revolução gandhiana

Ao ler Peregrinação às Fontes, de Lanza del Vasto, referido no texto anterior, tomou-me uma necessidade irresistível de fixar, pela cópia, alguns trechos significativos do que, para o Autor e o seu leitor, era a revolução gandhiana. O que pode extrair-se de um punhado de páginas não caberia nesta coluna, fique pois a migalha como aperitivo e votos de boas festas.
 
Que o homem seja sempre maior do que aquilo que faz, mais precioso do que aquilo que tem.
Suprimamos a miséria, cultivemos a pobreza.
Sim, o trabalho das mãos é a aprendizagem da honestidade.
A honestidade é uma certa igualdade que se estabelece entre o que se toma e o que se dá.
É preciso adquirir primeiro o direito de dar. Não tem o direito de dar quem não pagou o que deve.
Tenha receio de ser sublime sem profundidade, grande sem fundamento, e perfeito no vazio. Tateie, através dos atos, a verdade que a sua inteligência viu.
Pense assim: recuso julgar-me superior ao comum dos homens. De facto, nada é mais comum do que julgar-se superior. É certo que a humildade não é uma virtude que se adquira deliberadamente. É uma graça que vem do céu para os melhores. Torne-se disponível para a receber.
A intenção de Gandhi não é voltar atrás. [...] A sua revolução, pelo contrário, olha para o futuro com severas esperanças. É o primeiro sábio do Oriente a prescrever o trabalho como um dever para todos e como uma via de salvação. Lançou as bases de uma nova constituição civil, de um novo desenvolvimento económico, assim como de uma nova cultura.
A máquina encadeia, a mão liberta.
O artífice que dá forma a um objeto, que o sabe polir, que o decora, o vende, o apropria aos desejos de quem se destina, realiza um trabalho humano. O camponês que dá vida aos campos e faz prosperar o gado, através de uma vida harmonizada com as estações, realiza uma tarefa de homem livre. Enquanto que o operário, acorrentado ao trabalho em cadeia, que a cada segundo repete o mesmo gesto à velocidade ditada pela máquina, esboroa-se num trabalho sem finalidade para ele, sem fim, sem gosto nem sentido. O tempo que gasta com ele é perdido, vendido: vende não a obra, mas o tempo da sua vida. Vende o que o homem livre não vende: a sua vida. É um escravo.
Não se trata de atenuar a sorte do proletário, a fim de o obrigar a aceitá-la. Trata-se de suprimir o proletariado como se suprimiu a escravatura, visto que, de facto, o proletariado é a escravatura.
A uma civilização cuja caraterística é a luta do proletariado e da burguesia, Gandhi quer opor uma cultura cujo fundamento seja o acordo entre o campesinato e o artesanato. 
Se é verdade que poupam tempo, como é possível que nos países onde as máquinas reinam só haja pessoas apressadas e que nunca têm tempo?
E os povos inteiros que estão votados à ociosidade, o que se fará deles, o que farão de si próprios?
Quando fizerem do Estado uma máquina, como podereis impedir que um louco qualquer se apodere do volante e arraste a máquina para o precipício?
Quando fizerem do Estado uma máquina, é preciso que vocês próprios lhes sirvam de carvão.
Se as pessoas de hoje estão convencidas do caráter deplorável de um sistema que as levou de crise em bancarrota, de falência em revolta, de revolução em conflagração; que destrói a paz e a torna agitada e inquieta; que faz da guerra um cataclismo universal, quase tão desastroso para os vencedores como para os vencidos; que tira o sentido à vida e o valor ao esforço; que consome a desfiguração do mundo e o embrutecimento do povo; se as pessoas de hoje acusam seja quem for dos grandes males que as oprimem, atribuindo a causa seja ao que for menos ao desenvolvimento da máquina, é porque não há surdo mais mouco que o que não quer ouvir nada.
É preciso que a admiração pueril pelos brilhantes brinquedos com que se divertem, que a exaltação fanática pelo ídolo que forjaram e a que estão dispostos a sacrificar os próprios filhos, lhes tenha dado volta à cabeça e fechado os olhos à evidência, para que continuem a esperar do progresso indefinido da máquina a vinda de uma idade de ouro.

2 comentários:

Anónimo disse...

"Se é verdade que poupam tempo, como é possível que nos países onde as máquinas reinam só haja pessoas apressadas e que nunca têm tempo?"
Perguntas destas não as oiço nas nossas televisões...
Obrigado, Arsénio. Vou divulgar.
Abraço,
Rui

A. M. disse...

Caro amigo:

Continuas atento, muito obrigado.
Pois é, Rui, há pensamentos que nos fazem parar a pensar. Para mim, quero confessá-lo, Gandhi é um dos heróis magníficos que mantenho na máxima admiração. Por toda a sua Obra!
Abraço cordial.