quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

WikiLeaks expõe segredos

Ao que parece, os jornais gratuitos nem já conseguem atrair quem antes acudia às bancas onde agora se empilham e arrefecem. Agora andam a aparecer pelas ruas, oferecidos na ponta de um braço ambulante que passa a distribuir o papel crivado de anúncios. Sabemos hoje que estes jornais não desmerecem assim tanto em comparação com os jornais que os leitores compram e pagam, mas foi deveras chocante ter de reconhecer tal evidência: todos se nivelaram por baixo.
Todavia, a Imprensa ainda conserva algum do seu prestígio antigo. É o único media de comunicação escrita em suporte de papel, que permite ler e reler ou, querendo, seleccionar temas, guardar e consultar. Portanto, foi para os jornais ditos de referência de Nova Iorque, Londres, Paris, Madrid ou Berlim que a WikiLeaks encaminhou, mais uma vez para tirar dos cofres e mostrar ao mundo, outra montanha colossal de documentos secretos da política estado-unidense.
A ampla divulgação das «matérias quentes» pretendida pela organização de Julian Assange acabou, porém, de novo, por não acontecer. A autenticidade dos documentos foi confirmada, mas os jornais, em vez de divulgação, entraram num debate marginal que apenas serve para desviar as atenções. Os 251 mil documentos, com mais de 700 enviados da Embaixada EE.UU. em Lisboa, copiados pela WikiLeaks através de intromissão nas redes governamentais, foram sumariamente despachados.
Alegaram os jornais que nada ou muito pouco do que os documentos revelavam era novidade, assim demonstrando que os jornalistas sabem muito mais do que publicam. A NATO-OTAN, naturalmente, condenou a ação e a Casa Branca reclamou: o «polícia do mundo» via em perigo a segurança do mundo. E, nos jornais acomodados na sintonia do que pensa o «amigo americano», instalou-se um debate bizantino para decidir até que ponto pode ir a liberdade de informação quando se trata de segredos de Estado.
Ora é esse mesmo o mérito maior da ação de Julian Assange. Demonstra quão frágeis são de facto as estruturas de segurança em vigor ao mais alto nível, por parte da potência que tanto se deleita a especular sobre os perigos do terrorismo. Mas, acima de tudo, demonstra que as políticas dos diversos governos envolvidos por aquele manancial de documentos andam, no fim de contas, a ser escondidas dos cidadãos.
A informação que chega à maioria que elege os governantes democráticos é amiúde um chorrilho de meias verdades e venenosas deturpações, logo mentiras, fornecidas em ondas contínuas. A imprensa, queixosa da baixa das tiragens e vislumbrando o seu fim, e os media em geral, renunciam à função que lhes cabe de verdadeira utilidade social mesmo que isso lhes custe a extinção. Sem dúvida, os cidadãos deveriam exigir uma informação mais completa, esclarecedora e credível aos seus governos e seus media, mas os cidadãos foram postos a dormitar nos baloiços do consumismo que os consome e, por seu lado, nem os governos nem os media irão despertá-los.
Vê-se: a diplomacia e a política, a governação de cada país e dos continentes entraram numa fase quase críptica. Aparecem ao alcance apenas de alguns iniciados próximos das esferas do poder executivo real. Eis o que pode extrair-se da corajosa iniciativa da WikiLeaks.

3 comentários:

Isabel disse...

Pois, caro Arsénio, a comunicação social deixou de ser uma potência com valor informativo para se tornar numa potência de lavagem cerebral.
E não se têm saído nada mal!... Isto, a avaliar pela enorme acomodação das massas à propaganda que acompanha cada uma das grandes revelações que vão surgindo...
É lamentável!
Imagino o quanto te deve custar a ti, jornalista da velha guarda, claro, ver a informação tão descaradamente manipulada em prol de uns quantos endinheirados sem escrúpulos...
São tempos muito difíceis!

Isabel

Anónimo disse...

Caro Arsénio:
Apesar de já só me faltarem 6 horas para dormir, vim procurar novidades tuas e, como de costume, valeu a pena.
Obrigado pela lucidez e clareza. Amanhã divulgarei o teu "post" pelos meus "correspondentes".
Abraço,
Rui

A. M. disse...

Agradeço a estes dois amigos as suas gratificantes palavras. Entretanto, veja-se: a organização WikiLeaks sofre ataques constantes e vai resistindo porque já os esperava, e o seu fundador, Julian Assange, que já tinha a cabeça a prémio, tem agora a cabeça a valer ouro a centuplicar... Mas, por enquanto, ainda tem voz para dizer que o militar EE.UU. que o pôs a caminho de todos esses segredos de Estado (está preso e vai ser julgado), sim, ele é que é um verdadeiro Herói!