quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Em volta dos livros

Ainda há, e continuará a haver, gente que pede numa livraria central o livro que lhe interessa e se espanta porque ali não o têm. O espanto salta para estupefação porque não o encontra em lado nenhum: as livrarias, embora atulhadas, não têm para vender obras principais de autores portugueses contemporâneos e quem atende vai mostrando que até não os conhece. Ao freguês falta saber que só as novas edições em dois ou três meses encheriam por completo a livraria!
De facto, o ritmo dos editores portuguesas tornou-se delirante. Saem agora mais edições novas num único mês do que, até há poucas dezenas de anos,  na roda do ano inteiro. E agora acontece isto: em 2009 terão saído em Portugal algo como 14 mil novas edições; e nos primeiros onze meses de 2010, a Agência Nacional do ISBN já tinha atribuído mais de 16 mil registos, total recorde atingido por aquele organismo nos seus vinte anos de vigência portuguesa!
Perante isto, uma pessoa fica maravilhada. Todavia, o portentoso himalaia de pelo menos quinze mil novos livros lançados em 2010, coincidiu, por sinal, com um desanimador anúncio do Gabinete de Avaliação Educacional do Ministério de Educação. No seu relatório do mesmo ano assinala, em 500 alunos do ensino secundário + 1200 do 3º ciclo do ensino básico, dificuldades de raciocínio na escrita e incapacidade para resolver problemas na matemática.
Ainda assim, desenvolveu-se notavelmente a circulação de livros e a leitura entre os alunos do ensino básico em resultado de iniciativas diversas (criação de bibliotecas escolares, Plano Nacional de Leitura, hora do conto, etc.). Mas o apregoado «prazer de ler» da idade infanto-juvenil como que se esfuma ou reduz em cada nova geração à entrada na adolescência. Tende a contentar-se com o mínimo trivial, os manuais escolares e talvez as redes sociais da Net...
A explicação do fenómeno dos 16 mil novos livros encontra-se em outro lado e tem sido mesmo comentada neste blogue. O total anual das edições vai crescendo porque aumenta a quantidade de autores nacionais diversos que querem publicar os seus escritos e aceitam pagar essa despesa. Por outro lado, vai crescendo também a quantidade dos autores estrangeiros traduzidos e editados em Portugal.
Acentua-se, nesta situação, uma clivagem óbvia: temos os autores, nacionais e estrangeiros, publicados pelas editoras «normais», com nome de marca e marketing de promoção, e temos os outros autores, sem nome sonoro nem marketing, que publicam pagando do seu bolso. Os livros daqueles autores têm as tiragens e os lançamentos habituais (devem vender-se depressa porque já estão os seguintes a ser produzidos), enquanto os destes outros autores atingem tiragens mínimas, de umas dezenas de cópias que não alcançam as livrarias. É o ateliê gráfico com o print-on-demand de porta aberta por todo o lado.
A clivagem tem efeitos realmente dramáticos. Enche os olhos do público com as edições literárias do negócio comercial - chegaremos a presumir, cegos perante tamanha abundância, que nada mais há para além - e deixa na invisibilidade uma avalancha de obras e autores, portugueses ou não, capazes de sonhar com a literatura viva. Retomo aqui a ideia: hoje os livros do negócio comercial, produzidos para o mais rápido consumo do mercado, integra-se numa verdadeira cultura popular (a que resta), enquanto na outra, marginalizada,  pode morar (oxalá que sim!) a semente da renovação.

2 comentários:

Anónimo disse...

Caro Amigo:

Mantenha viva a sua voz, por esta e por outras causas, pois nós, atentos e em silêncio, vamos ouvindo e lendo o que diz.

Um grande abraço,
António Canteiro

A. M. disse...

Pois é pena, caro amigo, fazer crescer tanto silêncio! Pessoas como você tornam-se cada vez mais desejáveis por todo o lado. Pois não dizia o outro que precisamos é de desligarmos a televisão e de ir discutir a situação para o café?!
Meu caro, dê um abraço apertado ao nosso prezado João Cruz e receba outro deste seu grato companheiro.