quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O fim das democracias

Um sistema eleitoral, a funcionar corretamente, é sempre, por definição, democrático. Chama os eleitores para que escolham os seus governantes, para isso mesmo serve o sistema. Mas não garante, de modo nenhum, que os governantes eleitos entrem a governar democraticamente, nem sequer que venham a cumprir alguma das intenções proclamadas em campanha gozando embora do direito de exercer por inteiro os seus mandatos.
Portanto, umas eleições muito corretas e democráticas, no fim de contas, garantem pouco o que mais importa (lembrando talvez que também Hitler ganhou a eleição): que o poder não fique entregue às mãos de governantes  eventualmente pouco ou quase nada democráticos. Governantes que recorrem ao sistema apenas para ganharem uma aparência de legalidade, ludibriando a liberdade e o sistema. Tentam cobrir-se com pele de cordeiro para disfarçar o lobo a instalar-se no interior do rebanho.
Com a política transformada em mero espetáculo e a satanização massiva de quaisquer políticas de esquerda veiculada pela comunicação social corporativa, fácil é, como se tem visto, promover a eleição de governantes medíocres que acabam de alguma maneira por prejudicar os interesses populares. A satanização massiva envolve as organizações de esquerda, na medida em que se mostrem de esquerda, de modo que o espaço eleitoral das maiorias reflete a contradição: o povo elege o lobo travestido de cordeiro. Basta conquistar a chefia de um partido (de direita) para dispor de dinheiro e suporte de boa propaganda e, na disputa do jogo eleitoral, apostar na eficácia das manipulações.
De facto, evidencia-se a imposição de uma partidocracia, que escapa à lógica do sistema democrático ao fazer eleger como governante da nação o chefe eleito do partido (e com ele os seus próximos apoiantes). O governante de direita elegido pelos parlamentares em nome do povo (logo, por representantes) cai em contradição ao praticar políticas que defendem interesses exclusivos de minorias à custa do povo. Contradiz a essência da democracia, que manda governar, sem sofisma, a favor das maiorias.
Evidentemente, numa sociedade de classes, o sistema democrático aparece mais ou menos limitado a simples aparências formais e com esse pouco se contenta. Mas nega a democracia tudo o que realmente livre os governantes de responsabilidades judiciais, a começar pelas leis que eles próprios fazem e aprovam em pura autodefesa. Em nome da democracia, os governantes tiveram sempre o dever ético de responder criminalmente pelos seus atos, a começar pelas proclamações feitas em campanha eleitoral, e sempre iludem tal dever.
Na presente fase da furiosa concentração capitalista, com as economias ocidentais mergulhadas em profunda crise e o neoliberalismo a galopar, é evidente que os pudores da outrora designada «democracia burguesa» caíram  sob o peso dos Estados correndo a salvar bancos  arruinados com o dinheiro dos contribuintes, os níveis gerais de vida a cair e o desemprego a aumentar.  As forças dominantes optaram: entre a civilização e a barbárie, repudiaram a civilização e o fim desta democracia ficou à vista. Eleitos democraticamente, os governantes trabalham hoje em proveito de caras semiescondidas de potentados das finanças e banqueiros, não trabalham para o povo. Preto no branco, a democracia que houve torna-se totalitária.

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