quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Assim é o povo tuga

Um povo que não se respeita não é respeitável. Nem, ai dele, respeitado. Desiludido de tudo e até de si próprio, não acredita mais em ninguém, apenas na sua capacidade para resistir à sorte que é a que quer no seu destino.
Vota ou abstem-se sem crer que vai mudar deveras alguma coisa. Votar, então, ou não votar, tanto faz. Para o povo tuga, os políticos querem é governar-se e, nada a fazer, quem se lixa é o mexilhão.
Mas os políticos, para este povo, afinal, são os políticos dos três partidos que têm governado o país. Os outros, da esquerda retinta, não entram em consideração simplesmente porque são de esquerda. Para «comunistas» e «comunismo» o povo nem olha, dá um passo à retaguarda e sente-se em perigo.
Após trinta e tantos anos a viver em sistema democrático, os tugas ainda suspeitam da esquerda, pronta a saltar do seu negro covil para lhes arrebatar mulher e filhos, casa e  propriedades. Prefere votar nos mesmos, sempre, porque são políticos familiares e lhes prometem segurança embora se inclinem para a instabilidade quando lhes dá jeito. E se os seus votos, além de entregarem o poder legitimado, servirem também, surpreendentemente, para levar a honra a vencer a infâmia, estabelecendo uma incrível vitória da verdade sobre a calúnia, este povo, habituado a manigâncias, nem resmunga.
Aflito com as dificuldades da vida a crescer, o povo vai perdendo apoios sociais, garantias de trabalho e emprego, enquanto, por outro lado, aceita pagar mais impostos ganhando menos perante a subida geral dos preços. Mas ouve dizer «é a crise» e acredita que a praga veio de fora para o afligir. Logo, assente na regra pelintra do «cada um é por si», vira as costas a sindicatos e a quaisquer apelos para fazer greve ou sair à rua em manifestação cívica de protesto e reivindicação.
Este povo é velho. Entrou em vibração nos gloriosos dias de Abril mas esses dias pertencem a um passado tão remoto como o primeiro baile em que dançou com gosto. Convenceu-se, agora é assim, o mercado manda nos empregos como nas colocações dos jogadores profissionais do futebol, o sexo ou a alta finança.
É deste povo, assim desanimado e com medo, que o governo precisa. Sai para vender mais dívida em cima de dívida a quem a compra em troca de apetitosos juros e o governo volta a cantar vitória porque, vejam bem, continua a ter quem lhe empreste para continuar a cantar vitória. E, se não vende dívida, vende património público.
Um dia nada distante o povo tuga acordará num país, que é o seu, afogado em dívidas colossais, que os governos de direita foram acumulando e ele dormindo aflito com as dificuldades da sua particular vidinha. Não estará sozinho: a seu lado, acompanhando-o no descalabro nacional, terá um outro povo, esse nada tuga, o tal dito maldito «comunista». E ambos, um arrastado pelo outro, juntos na desgraça, pagarão o que for de pagar.
As grandes corporações nacionais, de estatura fortalecida pelos seus negócios com o Estado, demonstram que o dinheiro não tem pátria nem cheiro. Investem fora de portas, onde  a ganância e  a cobiça as chama, deixando para trás, como vinha vindimada, a terra avoenga que as fez grandes. Quem ficará com a santa terrinha ao colo?

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