quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Judeus ricos x católicos pobres?

O apagamento da memória que a evolução da religião católica teve ao longo dos séculos tende a inculcar a ideia, errónea, de que não houve evolução nem mudança. Todavia, a matriz comum de que nasceram as três principais religiões monoteístas mais conhecidas contém aspetos, por isso mesmo, pouco evidenciados.  Um desses aspetos parece continuar omisso e é o de encontrar uma resposta para esta velha questão: porque são, para os católicos, os judeus tão hábeis em negociar, lucrar, enriquecer?
A questão é assaz interessante e, longe de manchar a boa reputação da religião da maioria dos portugueses, realça, pelo contrário, a beleza da doutrina canónica emanada da basílica de S. Pedro para o mundo. Mas contrapõe, sem mais, um tempo antigo ao nosso tempo. Ora é aquele que fica a brilhar perante este.
É triste, creio eu, ter-se assim perdido um aspeto esplendoroso, embora nada impeça os católicos de considerar quanto queiram uns usurários incorrigíveis os judeus. Mas a questão traz à baila, já veremos porquê, a alteração que o pai nosso, eminente oração do cristianismo, sofreu e que já comentámos nesta coluna. Aponta para a rasura do trecho: «perdoai as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores».
Posso testemunhar que, na minha pequena comunidade natal (situada entre Aveiro e Coimbra), pelo menos até 1945, aquela oração se manteve sem a emenda que depois sofreu. Curiosamente, ninguém deu fé da troca que então pôs «ofensas» no lugar das «dívidas». E mesmo hoje, afinal, pouca atenção merece a emenda daquele trecho da oração ditada por Deus, apesar de toda a magna relevância que assume no plano da orientação moral das relações sociais no universo católico.
Ficou a marcar uma viragem crucial na doutrina canónica vaticana. Finalmente, a Igreja passou a admitir o direito de quem concedia crédito não só de reaver o seu empréstimo como de auferir juros. Escreve Armando de Castro (artigo «juros», Dicionário de História, dir. Joel Serrão, Figueirinhas, Porto, 1981): «É bem sabido que na Idade Média, em Portugal como no resto da Europa, a Igreja combatia a cobrança de juros, justificando teologicamente a proibição com o argumento de que exigi-los seria extorquir valores ao devedor pelo uso do tempo, que era uma dádiva divina.»
De facto, «os princípios éticos e jurídicos medievais não previam sequer  uma retribuição em quaisquer empréstimos em dinheiro ou em espécie.» Escreve o mesmo autor na obra citada, artigo «usura»: «Sendo os juros proibidos pela Igreja durante a época medieval, somente quando o investimento na produção dos capitais mutuados se tornou possível e significativo é que as realidades começaram a levar de vencida as disposições proibitivas. No entanto, mesmo na Idade Média, a cobrança de juros praticou-se esporadicamente» [...], pois, é claro, sempre houve transgressões.
Essas proibições constam, por exemplo, das ordenações afonsinas e manuelinas. Evidentemente, a entrada no período do Renascimento permitiu a expansão do capitalismo, mas, ainda assim, até ao século XX os códigos civis portugueses condenaram a usura acima de um limite legal. Foi deste modo que os judeus, dispensados dos freios de tais dogmas, puderam dedicar-se à atividade financeira mais lucrativa e compensadora... e viraram-se cada vez mais para o espaço apetitoso que os católicos baniam.

2 comentários:

Anónimo disse...

Artigo muito interessante. Nao sabia da alteracao do pai nosso!

"Foi deste modo que os judeus, dispensados dos freios de tais dogmas, puderam dedicar-se à atividade financeira mais lucrativa e compensadora..."

"dipensados".. sim e nao. So para com os gentios (goy), entre eles nao ha juros !
Ou seja trata-se de uma religiao elitista, e se analisarmos o mundo de hoje, é com base no dogma judeu que a banca levou meio mundo a escravidao da divida !

A. M. disse...

Gostaria de explicar ao leitor anónimo, autor deste comentário, que houve uma demora na sua publicação. Foi pequena, por acaso, e ainda bem, pois não demorei a lê-la e logo a publicá-la. Na verdade, quando se trata, como é agora o caso, de um comentário a «post» antigo (de fevº, 2011), o sistema que alberga este blogue submete-o à minha apreciação prévia. Se fosse o meu «post» o mais recente, tal não aconteceria.