quarta-feira, 16 de março de 2011

Debruçado à janela

Assomo a esta janela para entabular conversa com quem passe e queira deter-se uns momentos a falar comigo. O tempo não vai de feição para expansões de alma, as pessoas andam a ensimesmar-se e, quando uma fala, desatam-se as línguas e todas querem falar para o monte. Quer-se dizer, debruço-me à janela e poucos interlocutores me calham dispostos à conversa estando eu a crepitar de espantos e maravilhas.
Continuem os amigos a pedir crónicas poéticas, literárias, bonitinhas, porque ainda não será hoje que os meus dedos se põem a dançar nas teclas ao som dessa melodia. A canga que a classe média carrega aos ombros já derreia com tanto peso novo acrescentado e, em vez de indignação, repúdio e revolta, parece que se espalha por ali um medo insidioso, de quem sente medo de ter medo. E eu aqui a maravilhar-me sozinho com autênticas maravilhas.
Aos peixinhos que me atendem ouvirei então perguntar, em desafio, se acaso não foi surpreendente o conjunto de manifes de sábado, 12, que animaram Lisboa e diversos pontos do país.  Sim, também surpreendeu pela energia da sua afirmação: gerações à rasca, professores na corda bamba, licenciados a recibo verde, pensionistas e trabalhadores com descontos, tudo coube nas reivindicações populares. O sucesso atingido pela concentração convocada, pela primeira vez, à margem de qualquer partido ou sindicato pode vir a ter sequência e mesmo alguma consequência.
Os políticos do país tremem quando o povo sai à rua e enche as avenidas,  povo especialmente a arder com quatro programas de austeridade impostos, um a um, em poucos meses, no alegado «combate ao défice». Mas os políticos conhecem o povo. Esperam cansá-lo deste outro fogacho emocional, mirrando-lhe os frutos, para que o povo desanime e torne a adormecer no atoleiro nacional da passividade.
A maravilha maior, porém, será a de o país, pela mão do Governo, multiplicar o pedido de empréstimos, largas centenas de milhões, ou mais de mil milhões de cada vez, e ninguém, uma única alma caridosa aparece a explicar porquê, para quê. Então Portugal precisa daqueles empréstimos todos para «financiar a sua economia» e seguir vivendo?
Nem sinal de que se destinam a investimentos produtivos, geradores de emprego e diminuição das dependências nacionais. Servirão para pagar os juros dos empréstimos já conseguidos, conforme se aventou, e fazer subir, num círculo vicioso, ainda mais os juros para a gula dos benditos «mercados»? Como pode assunto de tal magnitude e gravidade manter-se sem a mínima alusão, comentário, esclarecimento derramado em público?
E não menor maravilha é haver neste país desgraçado três milionários já a figurar em lugares muito cimeiros na lista mundial dos seus pares. Claro, a reforma da supervisão financeira, anunciada em 2009, mantém-se na gaveta ganhando os bancos como nunca. Maravilha final: o conflito líbio, orientado pelo imperialismo, promete envolver a União Europeia, principal consumidora das suas energias fósseis, cujos preços, naturalmente, irão elevar-se  em seguida e agravar a estagnação económica, provocando mais inflação, desemprego e miséria. [Ilustração: de Isa Ventura com seus alunos.]

Sem comentários: