segunda-feira, 13 de junho de 2011

O polvo come-tudo

Dispensam-se os fraseados eruditos dos especialistas que pouco entendemos. Lucraremos ficando com a verdade simples dos factos no osso, o osso que nos dói porque nele sentimos as pancadas. Vejamos: é possível entender o que se passa com a crise da dívida soberana nos países europeus, a designada debitocracia, com a cabeça lavada do cidadão comum.
Basta querer e, desde logo, querer recordar, a experiência que vivemos em Portugal nos últimos trinta anos. A complicação principia quando um governo, assobiando para o lado, gasta em anos sucessivos mais do que o parlamento aprovou sem ter apoio ou explicação em catástrofe imprevista, algum revés grave. De facto, esse desmando até pode envolver responsabilidade criminal para os seus responsáveis (caso da legislação vigente portuguesa segundo parecer competente), mas os políticos escudam-se atribuindo, não à justiça, e sim ao povo eleitor uma condenação puramente «democrática».
Os políticos, façam o que fizerem, querem-se expostos a meras sanções «políticas», colocando-se desse modo, declaradamente, acima das leis que para nós elaboram e promulgam. Porém, na Islândia - aquele recôndito país que teve categoria para recusar a «ajuda» do FMI, caso que os media tanto sonegam - um político que foi primeiro-ministro vai a tribunal acusado de negligência grave de governação (levou o país à bancarrota), o que constitui um precedente memorável neste período de furiosas mudanças. Estranharemos que os partidos da atual maioria da direita portuguesa estejam a reclamar, previdentemente, uma nova Constituição?
Neste ponto, convém averiguar se a mera sanção política contida nuns resultados eleitorais basta para a condenação de governações ou políticas ostensivamente ruinosas. Apesar de a via eleitoral ser o modo legitimário do poder democrático, a verdade é que o modelo corrente deste poder perdeu bastante da sua legitimidade devido à degradação da política como espetáculo (mais um), o colaboracionismo dos media, os altos níveis da abstenção, a débil consciencialização/participação cívica. Parece-me que neste ponto poderemos ver o fiel de uma balança preciosa que hoje vale a pena ter à mão.
Os partidos que, depois de levarem o país à recessão através da progressão imparável da dívida soberana, se mostram favoráveis à entrega da governação nacional à especulação predadora da alta finança, são, por essas mesmas ações e palavras, partidos alinhados à direita. Sem disfarce, praticam uma política que entrega as riquezas do país à ganância do capitalismo globalizado. Arruína a sua estrutura produtiva prendendo o país no  garrote (em círculo vicioso) do endividamento e sugando o povo através dos bancos nacionais.
O desmando dos responsáveis desses partidos merece condenação decerto não somente «política». Pelo contrário, porque, nada democraticamente, aplicam e declaram bons uns comportamentos políticos altamente lesivos do interesse nacional, manobrando inclusive para conseguir prolongar a agonia socioeconómica e os sofrimentos do povo ao serviço da estratégica capitalista dominante. E, contudo, sabem que o país apenas sairá do abismo da «crise» apostando resolutamente numa política de esquerda, que restaure a sua produção própria (nem que tenha de recorrer a medidas protecionistas de emergência), pois não há outro caminho para escapar ao polvo come-tudo.

7 comentários:

Maria Paz disse...

Apetece-me comentar mas não sei o que dizer. Está tudo dito.

Também mem inclino para a esquerda e a produção própria essencial para continuarmos a dizer que somos um país independente.

Anónimo disse...

Caro Arsénio:
Só para dizer que continuo a ler-te e te agradecer o que escreves.
Abraço,
Rui

A. M. disse...

Estes comentários têm estado parados.Mas eis que aparecem dois amigos, aliás uma amiga (creio que distante, que pena), para mim ainda virtual e também com blogues, e um amigo, o Rui, neste caso bem próximo, a quem oxalá hoje mesmo, à noite, possa ir levar o abraço que tarda.
Muito obrigado a ambos.

António Gomes Marques disse...

Arsénio
Paul Krugman é um autor que cada vez me está a interessar mais, não por ser Prémio Nobel, mas por aquilo que nos vai ajudando a compreender.
No Jornal i, de 13 de Junho, escreve um artigo, «O domínio dos credores», que recomendo a todos.
Repara na parte final: «Não, os únicos beneficiários das políticas da Pain Caucus (à parte o governo chinês)são os investidores: banqueiros e indivíduos ricos com as suas carteiras recheadas de títulos.
E isto explica porque motivo os interesses dos credores afectam tanto as políticas; não só é a classe que mais contribui para as campanhas eleitorais como também é a classe que tem acesso a quem faz as políticas - muitos dos quais trabalham depois para essas pessoas quando saem do governo pela porta giratória.»
E finaliza assim: «As políticas que favorecem os credores estão a ferir a economia. Estamos perante um jogo de soma negativa, onde a tentativa de proteger os credores de quaisquer perdas está a infligir perdas muito maiores em toda a gente. E a única maneira de haver uma recuperação verdadeira é parar de jogar.»
Servindo-me de P. Krugman encontrei, penso, a maneira mais autorizada para comentar o teu texto, que não dispensa a leitura do artigo.
Aquele abraço
António
PS - Pain Caucus = Convenção da Dor

A. M. disse...

Meu caro António:

Ainda bem que vieste enriquecer esta abordagem e conversa! Agradeço.
Eu também li esse artigo de Krugman, apreciei os seus argumentos (com os quais concordei, claro), mas acabei a sorrir, pois o homem não dizia nadinha mais do que já é corrente em muitas esferas de opinião especializada e pública, em face da crise em que nos afundamos. Aliás (ponto positivo, mas também significativo), é o pormenor de aquele seu artigo aparecer num jornal português que não tem qualquer perfume de esquerda.
Bom, meu velho, ando a ler há mais de dois anos centenas de textos sobre o assunto em foco, na ânsia de perceber todas as suas implicações, e estou com estas minhas opiniões (neste blogue se arquivam) que, de resto, não passam de uma maneira pessoal de ver. Estamos todos dentro de uma realidade tão complexa que às tantas até não nos deixa reconhecer o facto que nos entra pelos olhos, forçando-os!
Abraço apertado para ti.

Anónimo disse...

Caí aqui por acaso e achei uma certa piada a estes comentários. Mas o problema parece que está todo no resultado das recentes eleições. 78,4 por cento votaram nos três partidos que apoiam a entrega ao FMI e os sócios europeus. A esquerda portuguesa enfraqueceu, portanto Arsénio Mota tem razão, estamos entregues á estratégia da alta finança gananciosa até mais não. É só isso, gentes.

A. M. disse...

Sem atinar bem no sentido deste comentário anónimo, registo-o com agradecimento. Indica a percentagem dos votantes que os partidos da «troika» interna (CDS,PSD e PS) obtiveram apoiando os três sócios da intervenção externa e que entregaram o governo do país à usura insaciável da alta finança. Aqueles 78% autorizaram os dois Governos (um a ir-se embora, o outro, da coligação, a chegar) a contrair mais, e mais, e mais empréstimos que os dez milhões de portugueses que pagam impostos, inclusive aqueles que nascerão amanhã, de corda ao pescoço, irão ter de pagar. Consta que cada cabeça portuguesa já deve algo como vinte mil euros, AGORA, só porque se dá ao luxo de ser português!