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domingo, 7 de fevereiro de 2010

Cronista de mão tremente

Treme a mão do cronista abalada por tantas e tamanhas convulsões. É um sismógrafo sem agulha nem tinta a escrever sobre rolo de papel, mas o telurismo louco dos estremeções do mundo sacode-o igualmente. A violência das convulsões cruzadas acumula-se por fim até ao ponto de paralisar a mão escrevente.
De facto, o cronista sente-se aturdido e confuso no emaranhado de acontecimentos principais em veloz sucessão. Quer deixar constância do seu tempo, registando o essencial, e fica sem saber o que tomar como expressão da geral hecatombe a que assiste. Não é segredo para ninguém, pois todos o sabemos, estamos há anos num processo de feroz decadência e agora afundamo-nos num paradigma de máxima e conscienciosa desonestidade.
A contravenção e mesmo o crime perderam já a carga infamante que tinham. A fraude gigantesca e a trampolinice descarada já parecem afirmar o talento, senão mesmo o génio dos seus executores. A hipocrisia mais cínica e a mentira mais descarada já se justificam como direito legítimo à defesa dos arguidos criminosos.
A busca do negócio lucrativo invade o terreno, contamina instituições de índole não lucrativa. A força do dinheiro é a força do poder, ter dinheiro ficou no lugar da meta suprema ainda que seja à custa de escândalo. O exemplo vem do cimo da pirâmide social e propaga-se até baixo.
Operou-se uma difusa «italianização» da política. As mafias podem influenciar partidos, governantes, administrações. Os antigos «pilares da sociedade», corroídos por lepra que tudo devora, oscilam e baqueiam. Invocar a «consciência» (individual, em criminosos, ou colectiva) não passa de um vulgar truísmo de careca ao léu.
A esfera da política internacional deixa-se invadir por conspirações constantes que negam o primado das leis aplicáveis e das aspirações populares a uma coexistência pacífica. A informação dos media vê-se «normalizada»(isto é, açamada) e berra para proteger a quinta do dono. Torna-se cada vez mais difícil acreditar no sistema democrático, no governo, na justiça.
A palavra, desonrada e aviltada, perdeu o valor. A desestabilização geral entrou por aí, não só num país, também por aí fora. É preciso restaurar a palavra honrada e, por esse caminho, regressar ao que os Homens podem possuir de mais digno e humanizador.
Restauremo-la, pois, urgentemente. Com o remorso de quem sente no peito o peso imenso das monstruosidades vulgares que invadem os nossos quotidianos e já deles querem fazer parte «natural». Vendo claramente vista a monstruosidade maior de todas, que é a de deixarmos de herança às novas gerações a montanha asfixiante dos nossos problemas (nacionais, planetários) que soubemos criar e amontoar e não soubemos resolver!  

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Homens que faltam à vida social

Não vão bons os tempos para uma certa estirpe de homens de qualidade. Isto é perfeitamente claro mas, ainda assim, a consciência da falta que deles se avoluma na vida social parece facilitar pouco a definição do seu perfil. É, ou pode ser em partes desiguais, um misto de intelectual-cidadão, escritor-artista, pensador-interventor...
Também pode agregar, conforme os casos, algo de monástico. A figura do monge mistura-se razoavelmente com o perfil geral da estirpe dos homens que faltam. É alguém que vive na Cidade e, simultaneamente, à margem, como que ostracizado por decisão própria.
Talvez haja por aí algum homem destes e não consigamos senti-lo entre o vozear tumultuoso que nos envolve. É por certo um desconhecido quase ignorado. Não habita no espaço público embora o frequente e é um desconhecido porque foge da esfera mediática.
A disciplina a que se obriga separa com clareza a cultura de massas (que encobre a cultura popular tradicional em extinção tal como a sua matriz, os espaços rurais, substituídos pela invasão do suburbano) da cultura culta. A de massas, para ele, é o consumismo consumidor, o reino do espectáculo alienante e da mediocridade instalada pelo negócio.
Os homens que fazem falta à vida social aparecerão com figura bastante anacrónica e, todavia, podem ser de vanguarda. Avaliam quanto teriam de perder desde logo em autêntica liberdade mental e em coerência ética se embarcassem nas vulgares aventuras. Não lhes interessa a fama, o poder ou o dinheiro - interessa-lhes, por definição, afirmar em plenitude a liberdade criadora do que é humano, do que é estético e deveras redentor.
Quem respira o oxigénio da esfera mediática sujeita-se aos ditames do mercantilismo, da concorrência, das imagens de marca em circulação "pós moderna". Ora o mercado coisifica o que nele entra; o dilema consiste portanto em alguém se deixar coisificar ou não. O intelectual-cidadão (compósito do escritor-artista, do pensador-interventor, etc.) recusa subverter a sua lucidez, a sua independência de espírito na agitação estéril do espectáculo
permanente que serve hoje para o que serviu outrora o "ópio do povo".
A vida social precisa angustiosamente de homens assim, com mentalidade e cultura humanista para opor eficazmente à mentalidade e à cultura tecnocráticas. Capazes de permanecer em retiro, atentos aos sinais do mundo, sempre disponíveis para descer à praça a clamar J'acuse!, e afastarem-se em seguida. Homens de modéstia mas também de altiva dignidade e coragem suficiente para responder ao rei que apenas querem que se desviem um bocadinho e não lhes façam sombra...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Restaure-se o social da economia!

A conclusão a extrair do post anterior é a de que o sistema económico em que estamos a viver contém o sistema moral nele implícito. Não é certo, pois, que toda a economia seja amoral, conforme José Castro Caldas bem demonstra no seu artigo. Logo, não é possível tratar as toxicidades do mundo actual sem tratar do sistema global que as gera, isto é, conseguir limpar as feridas e curar a doença sem eliminar a origem da pandemia.
A conclusão desemboca numa consequência de múltiplos alcances. Este sistema económico é profundamente marcado pela especulação financeira, actividade «económica» privada que gera lucros sem produzir bens socialmente úteis e que gosta tanto de paraísos fiscais ao ponto de os multiplicar onde lhe fazem jeito. Porém, foi por aí que entraram as desregulações todas que desencadearam esta crise – uma crise tão séria e grave que, segundo algumas predições, o capitalismo terá de sofrer grandes reformas ou vai explodir um dia na cama da sua própria insensatez.
Mas seja como for, a globalização financeira, as arremetidas das deslocalizações, a titularização de dívidas, as privatizações de serviços públicos, as portas francas das ofshores, as quebras dos PIB nas economias americana e europeias (de produtores-vendedores de bens de consumo, transformaram-se demasiado em importadoras-compradoras), e etc., derivam das estratégias seguidas pela especulação financeira. Pretende lucros rápidos e gordos, cada empresa e respectiva administração valem na medida em que podem atender ao objectivo.
Assim avançou uma mercantilização geral das relações sociais, o desemprego, o retrocesso do poder real de compra das populações, os endividamentos familiares e o afundamento das classes médias, as falências, as fraudes, a instabilidade. Deste modo, se alguém me diz que a especulação financeira vai continuar por este caminho (como o meu velho amigo A. V. G. fez, a puxar-me pela língua), eu entendo que alguém está a defender, nesta ordem de ideias, a continuação do que antecede, e também um tanto o consumismo e as agressões ao ambiente, a violência doméstica, a prostituição, a emigração forçada ou ilegal, em suma, a defender o rico e forte senhor minoritário contra os fracos - a maioria… democrática.
Na verdade, julgo que não será possível isentar a economia de uma clara dimensão social. Evidentemente, esta dimensão pode ser escamoteada ou obliterada, mas isso resultará numa perversão do sistema conducente a um universo de relações desumanizadas. Será este o sistema caracterizador da fase imperialista do capitalismo (mais acelerada concentração da riqueza, depauperação de populações, risco de uma guerra em larga escala)?
Um sistema económico, qualquer que seja, estabelece no terreno os valores da sua própria moralidade. Portanto, será imoral se o sistema se quiser imoral. Mas que valor tem afinal a sentença aqui ditada? Por outras palavras: poderá um jornalista veterano, arrimado apenas à sua cultura geral, pronunciar-se sobre economia? Talvez sim. O estado da decadência das instituições em crise pede aos cidadãos pronunciamentos corajosos e desassombrados.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

«Economês» confunde economia

Ressoou pelos quatro cantos a frase famosa: «É a economia, estúpido!» Martelada que foi, entrou nos ouvidos e ficou nas memórias a significar que a coisa mencionada seria tão óbvia e tão indiscutível quanto o pôr-do-sol ou a marcha imparável do tempo. Assim se impôs uma economia a valer por si mesma qual soma aritmética, ou seja, sem outra relação lógica que não fosse consigo mesma.
Mas não será isto «economês» balofo e corriqueiro? Será possível, na verdade, que esta economia nada tenha a ver com as consequências que provoca nos planos social e moral? Pode a economia, colocada no próprio lugar do seu funcionamento, ser amoral… ou imoral?
Um artigo de José Castro Caldas, intitulado «A impossibilidade de uma economia amoral» («Le Monde Diplomatique», edição portuguesa, Dez. 2008, p. 2), lança a questão numa surpreendente abordagem que as mentes adormecidas deveriam ler para espevitar. Com efeito, aquele investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra demonstra algo que está à vista e, todavia, continua invisível.
Cito dois trechos: «a crise do capitalismo que estamos a viver é uma crise moral. A crise de uma economia que se pensou a si mesma como nem moral nem imoral, mas antes amoral e que foi sendo politicamente construída à luz desse pressuposto.» «Esta sociedade, ou melhor, este projecto de sociedade, é o que se encontra em crise. Essa crise é, antes de tudo o mais, moral: principia no não-reconhecimento das obrigações e da gratidão mútua.»
José Castro Caldas lembra duas obras de Adam Smith, a Riqueza das Nações, clássica, e a muito menos lida Teoria dos Sentimentos Morais, para as comentar no ponto em foco, uma sociedade de mercadores «que empolgou muitos dos que agora clamam pela ‘moralidade’ e pelo ‘castigo dos culpados’.» Sublinha: «Os contratos são o cimento da sociedade puramente mercantil» para considerar: «Não fosse o sentido de obrigação mútua (de natureza moral) que apesar de tudo existe, os contratos nem sequer seriam concebíveis.»
Chegou-se por aí ao enfraquecimento das obrigações e gratidões mútuas, isto é, a uma sociedade de risco. «O mundo dos negócios é o domínio onde a aversão aos compromissos, ou se preferirmos a preferência pela liquidez, se manifesta de forma mais pura.» O autor liga a J. M. Keynes esta preferência pela liquidez, o designado «dinheiro vivo», que se exprime nos mercados das acções, em instabilidade sistémica e agora descamba na crise financeira e em crise de confiança. O artigo conclui: «A sociedade e a economia caracterizadas pela liquidez estão tolhidas na sua capacidade de realizar projectos em conjunto, de enfrentar colectivamente problemas. Estão bloqueadas, presas numa armadilha. Em crise… moral.»
Devo pedir desculpa a José Castro Caldas pelo temerário arrojo de tentar resumir o seu texto numas poucas linhas, mas pretendi trazê-lo aos outros vossos olhares e penso que me irão agradecer. Derrama uma luz nova, reveladora de quanta manipulação afecta as inteligências, condicionando-as.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A ética da desregulação

Perde vigor a ética nos negócios, aumenta a desconfiança e mesmo o descalabro nas relações sociais. É uma triste verdade, o ambiente de crise desenvolve-se na cama nefasta destas circunstâncias. Importa, porém, notar a particular influência que exercem no descalabro geral as acções e declarações de políticos - os tais que declaram o preto branco e o quadrado redondo conforme lhes convém.
Diversas empresas transformam-se aqui e ali em armas apontadas ao peito dos que com elas lidam, trabalhadores e fornecedores. Os donos e uns quantos administrativos fiéis tornaram-se nómadas predadores, saltam e armam a tenda onde há colheita a fazer, atrás deixando terra queimada, salários em atraso, impostos por pagar, créditos bancários malparados. Acudiram antes a diversos subsídios e apoios públicos, digeriram-nos à pressa enquanto reproduziam a cassete contra o Estado previdência (pois o querem em exclusivo), e abalam em triunfo.
Confiar, hoje, é arriscado e problemático. A palavra honrada, a seriedade das intenções, a rectidão do carácter tornaram-se não a regra, mas a excepção. E foi assim que se implantou o paradigma de uma desregulação no interior das famílias e das sociedades, à semelhança da desregulação global que alterou as relações internacionais.
A metáfora que melhor exprime o descalabro ético do nosso tempo estará talvez no automóveis que vemos parados em fila dupla, com os quatro piscas ligados, a estrangular o trânsito. Quem os conduz age como se os piscas os habilitem a largar o carro onde calha. Colocam-se desse modo na vanguarda marcante, não na exemplar.
Ainda assim, surgem comportamentos tão abusivos e descarados, ou tão impudicos e desonestos, que aos visados, sejam meros clientes, apanhados de surpresa, só resta estarrecer. Comportamentos não de indivíduos, sim de empresas poderosas que têm no topo figuras milionárias. Empresas que andam apontadas por atafulharem os tribunais com processos de cobrança coerciva por dívidas no sector das telecomunicações.
Cito dois casos. O primeiro remonta à data em que cancelei o serviço telefónico da rede fixa. A derradeira factura da PT registou um saldo a meu favor de uns milhares de escudos, levei o documento a uma loja da empresa para o reembolso e foi-me dito que não havia quem me pagasse (as máquinas são mais correctas nas contas do que as pessoas)!
Todavia, a PT reivindicou um pagamento por uma alegada «portabilidade» do meu número de telefone – que afinal não era meu! Esperava-me pior. Aderi à Home da Optimus, o aparelho ou a rede tinha graves deficiências e, sem assistência pós venda, após meses a aturar os chicos espertos da loja Home e de contactos com a sede da empresa, desisti formalmente com saldo a meu favor: uns 48 euros. Três anos depois recebo carta de advogado com ameaça de tribunal - o meu saldo transformara-se em dívida! Fui lá provar os factos, ouvi boas promessas e desculpas, tornei a receber carta para reembolso do IVA pela empresa e… mais nada. Mas a empresa obrigou-me a pagar segunda «portabilidade»! Poderei dizer agora que o número é meu?!

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Jogo: vício e perdição

Peço desculpa, vou apontar para mim mas isso não serve para me inculcar como exemplo. No berço em que me formei, o trabalho honrado era o verdadeiro e único título de nobreza (de sangue vermelho) reconhecido. O respeito pela palavra dada e o cumprimento de todos os compromissos é que davam à pessoa a sua dignidade. Neste ambiente, faziam-se ouvir as vozes mais enérgicas contra todas as formas do jogo. Era a figura acabada do vício e da perdição.
A moralidade que amaldiçoou o vício do jogo ou o hábito de jogar a dinheiro retirou-se, envergonhada e vencida, para os fundos e calou-se definitivamente. Nos tempos actuais, o moralismo corrente parece aceitar bem que um fulano enriqueça muito e depressa, se possível com pouco ou nenhum trabalho. Logo, o trabalho já não dignifica, tal como o cumprimento escrupuloso da palavra dada e das obrigações pessoais.
Quem se mantenha apegado aos comportamentos da antiga cidadania (a velha escola de civilidade) reveste-se de uma pátina inconfundível. É um «fóssil» de outros tempos, uma relíquia assombrosa da idade. Restam pessoas com honra própria, sem dúvida, mas este atributo, sem reconhecimento social que baste apesar da sua rareza, anda escondido nas arcas de cada peito.
Na verdade, o jogo deixou de ter as condenações que já teve. Ao invés, tornou-se quotidiano, normal, aceitável. Não se ouve uma voz a clamar que no jogo só pode haver vício e perdição, tão-pouco se estranha a abundância dos jogos em oferta.
Temos a lotaria, o totobola, a raspadinha, o euromilhões. Temos os casinos – o mais recente nasceu em Chaves –, os casinos on line na Net, os concursos da TV com prémios… Num país pobre e pequeno como o nosso, tanta fartura é surpreendente.
Consta que são os pobres que mais jogam. Em número, quero dizer, não decerto em quantias jogadas. Porém, sendo numerosos, elevam naturalmente as somas totais envolvidas: muitas migalhinhas fazem belos montes. E nem vale a pena comentar por que queimam os pobres na jogatina algo do pouco que possuem, pois todos sabemos que apenas um prémio gordo os salva do seu destino.
Todavia, poucos saberão avaliar o volume da riqueza que é assim drenada semana a semana dos bolsos de uma vasta camada de povo para se acumular em proveito exclusivo de uns poucos. Os jogadores enriquecem alguém desconhecido, que agradece à sorte, não à multidão dos que jogaram e perderam.
A popularidade crescente dos jogos a dinheiro associa-se de algum modo à popularidade do futebol (expandida aos videojogos). Mas o futebol de competição é espectáculo ruinoso, custa mais dinheiro do que por norma consegue render. Os jogos a dinheiro, no entanto, custam só a quem joga: lucram os premiados e, sobretudo, as respectivas organizações. Estas saem sempre a ganhar - e quanto será?!
Em suma, os jogadores enriquecem os premiados e também as entidades promotoras dos jogos. Eis o que deveria merecer, em tempo de crise, a devida consideração à competência política. Numa economia de casino, o jogo legal concorre para agravar as desigualdades sociais e retira mérito ao trabalho produtivo.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Ser parte da solução

Fala-se de crise, já ninguém a discute tão instalada a tem o país. Chega então a maré de lembrar que a quantidade de dinheiro em circulação não diminuiu (será até mais abundante), nenhum incêndio reduziu a cinzas as notas maiores deixando nas caixas do multibanco as de dez e vinte. As maiores desapareceram das mãos da arraia-miúda segundo uma lógica nada democrática; mas por essa lógica se avalia como sabe falar quem diz que são precisos milhares de pobres para fazerem um único rico.
Os pobres, hoje, são os que trabalham por quinhentos ou seiscentos euros mensais executando tarefas de escassas qualificação durante horários e sob exigências disciplinares de crescente severidade. Repetem-lhes que têm que produzir mais para poderem ganhar mais, como se tal fosse viável com tais patrões e directores a dar-lhes ordens. E agora, nesta crise geral (não apenas económico-financeira) que se expande, apenas falta pedir aos pobres - que já vivem com o mínimo ou ainda menos - para baixarem o nível de vida a fim de reduzir os desperdícios do consumismo…
Na verdade, é isto mesmo que anda a ser apregoado pelos media, que aconselham a poupar água, a poupar luz, a poupar dinheiro para aforro. Com o apelo a uma maior produção, temos  a consigna emblemática da Ditadura restaurada: «Produzir e poupar, é o que manda Salazar!» Estarão a coincidir meras aparências?!
Seja como for, os problemas da nossa época, além de sociais, são também ecológicos. Uma sociedade nacional reclama regulações cruzadas em diversos sentidos a fim de obviar a graves rupturas, mas a conservação da natureza, isto é, da biosfera, já surge como condição de sobrevivência planetária. Para todos os efeitos, chegámos ao momento de compreendermos que dependemos vitalmente de recursos naturais finitos, como a água ou o ar respirável.
Somos pessoas cultas e civilizadas, hoje, na medida em que alcançarmos essa compreensão. Este grupo de pessoas será por certo «parte da solução».
Sabe-se, pois o facto é incontroverso, que aumentou desmesuradamente a diferença entre o que ganham uns quantos privilegiados, a minoria, e o que ganham as classes populares. Então, vendo de relance, as classes populares serão muito menos a «parte do problema» (podem querer consumir mas faltam-lhes os meios), do que os poucos que ganham muito e consomem nessa escala. Entre as nações, os Estados Unidos são disso um exemplo eloquente. Impõe-se agora a conclusão: não basta ter dinheiro para ter direito real a consumir certos bens de qualquer maneira (lembrete: menos de 1% das coisas compradas nos Estados Unidos no dia-a-dia não estarão no lixo dentro de seis meses).
As circunstâncias obrigam-nos a questionar o nível de vida da minoria abastada e também os seus modos de vida, lazeres incluídos. Obrigam-nos a não confundir consumismo e qualidade de vida, indo ao ponto de pôr na mesa da discussão o modelo de desenvolvimento vigente. Este bendito «crescimento» tem que ser contido, apenas os incorrigíveis teimarão em supor que iria ser imparável.
Oiçam o padre Fanhais: «Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar».

sábado, 14 de junho de 2008

O poder de saber

Como se relaciona o saber com o poder (e vice-versa)? Umas quantas vezes, no fio dos anos, me detive já a ponderar a questão em busca do equilíbrio que não negasse nenhuma das duas instâncias. É equilíbrio difícil, dirá comigo quem reflicta um pouco sobre o que é saber e o que é poder.
Regresso à questão sentindo que neste ponto preciso avulta um problema que marca a crise maior do nosso tempo. De facto, o que se nos depara em geral é a predominância (a potenciação) do poder, na medida em que o saber a ele se subordina. Assim, na realidade, se nega na realidade este perante aquele.
O saber colocado ao serviço do poder vive dentro de um compromisso. É um saber condicionado por um objectivo prático, pelo que terá o mérito real que esse mesmo objectivo tiver. Abraçado ao poder que serve, com ele partilhará a sorte.
Evidentemente, nenhuma forma de poder prescinde de saber próprio para se exercer. Cito Michel Foucault: «Não é possível que o poder se exerça sem saber». Porém, que saber será esse? Um certo saber pode adquirir-se tão-só para o exercício de um certo poder (conforme se vê no trivial quotidiano): é o caso do engenheiro que estudou para ter a profissão, do bioquímico que investiga no laboratório a cura de uma doença para a indústria dos medicamentos patentear, do político que militou e se formou no partido para governar o país…
Foucault, no passo acima citado, acrescenta: «não é possível que o saber não engendre poder». Então, vejamos agora, que poder será esse?
O poder, nas suas múltiplas expressões (um império, uma nação principal, um magnata de portentosos recursos), sempre foi precário e muito provisório - o mundo que o diga! Tanta precaridade ainda mais salienta a barbárie em que tantas vezes assenta a construção desse poder. Por outro lado, a ruína de um poder grandioso manifesta tanto mais clamorosamente quão longe, e perdido, andou do autêntico saber.
O autêntico saber não se deixa manipular nem corromper. Desconfia até da força pronta para intervir, talvez da própria vontade de intervir. Recusa, desde logo, o poder pelo poder. Sente que é saber enquanto faculdade livre, actividade poética.
O saber aplicado a fins utilitários compromete-se. Vive a contradição do médico (que recebe o preço da consulta quando, por dever deontológico, deveria tratar o seu doente ainda que ele não lhe pagasse). Nestas sociedades mercantilistas, que tendem a medir tudo pela capacidade material de compra e consumo, escasseia espaço livre para o saber brilhar.
Aliás, se quisermos atinar no ponto certo, concluiremos que o saber se dignifica em verdadeiro esplendor apenas quando se aplica na dignificação e na emancipação da pessoa humana concreta. Na minha ideia, os restantes saberes são plurais. Numerosos e de aplicação especializada, perdem a singularidade.
E eis como, em plena idade tecnológica, estamos no mundo a debater-nos com um défice atroz de saber!

sexta-feira, 28 de março de 2008

Em busca da expressão

Tenho a mão mais afeita a escrever que a boca para falar. Na memória auditiva soa-me cada sílaba das palavras que escrevo, mas sou irremediavelmente, como se vê, de pouca garganta. Levo na escrita os cinquenta anos que o velho companheiro e bom amigo S. F. contou (segundo a praxe, que os enumera a partir da data do primeiro livro), mas algo ficou atrás. O escrever começou pelas garatujas ensaiadas nos palimpsestos semanais das folhinhas provincianas e das primeiras revistas. Porque o escrever é a exteriorização corporizada de uma vivência ou de uma ideia que surge com uma dada forma que todavia pode ser inadequada, imperfeita. É preciso escabichar.
Escrever será, portanto, o acto de trazer de uma certa escuridão interior para uma luz iluminante algo que pode resultar como uma espécie de revelação, mínima que seja – e só quando isto acontece vale a pena escrever ou acreditar que se escreveu. Creio que é esforço perdido o escrito que não contenha alguma cintilação, uma qualquer vibração estreme, por muito que andem a circular e a inundar-nos os textos que trabalham ao invés, tratando de indizer, no que se assemelham tanto uns aos outros que já nos cansa a repetição, o pleonasmo, a cacofonia.
Em momentos eufóricos, tenho ouvido amigos dizerem que escrevo bem, mas sabemos que para se escrever bem se necessita, em primeiro lugar, de se pensar bem. Será que penso bem? Sempre?!
Claro, para se escrever bem é preciso escrever pouco e emendar muito. Emendar sem desfalecimento, em busca da ideia, da expressão autêntica. Deitar fora a parra e aproveitar a uva, incansavelmente, até à tortura. Numa quixotesca luta com as palavras-moinhos de vento, apesar das indiferenças dos sanchos panças. É isso que vale a pena. Acredito que a figura do escritor, qualquer que ele seja ou queira ser, emerge a partir daí. Então o seu papel estará a cumprir-se, ele desentranhou-se fazendo-se parteiro da sua criação. O resto ficará por conta do público – e digo-o na persuasão clara de que os leitores, enquanto leitores, têm afinal algumas obrigações a cumprir em seu próprio proveito… se acaso pretendem fugir às massificações.
Afinal, e sem surpresa, o escritor é pessoa com B. I., donde, aquele será o que esta pessoa for. A obra feita espelha o autor por mais que este se furte e esconda nos enleios da criação. Por seu lado, um leitor deixa-se ler pela obra na medida em que sobre ela se pronuncie apreciativamente. E teremos de convir – autores e leitores – que publicar um texto implica entrar numa partilha estabelecida entre quem o escreve e quem o vai ler. O autor criterioso rejeita malabarismos de fraseados hábeis e sonoros, mas ocos; não tenta pôr em comum senão o melhor de si mesmo pelo respeito natural inerente a quem vive com sinceridade a vida e a arte literária. Esforça-se honestamente por conseguir que cada escrito seu, ainda que breve, seja a gota incendiada capaz de reflectir a totalidade do ser. É isso, esse extracto parturejado, que tem mérito para atingir o espaço público onde, não por acaso, se questiona hoje qual o papel que cabe aos intelectuais desempenhar…

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Escritores e intelectuais, hoje

Os escritores e os intelectuais em geral estão, neste tempo de paradigmas perdidos, mais que nunca, colocados no fio da navalha. Sobretudo os mediáticos, fazedores profissionais de opinião. Como atender ao papel que por definição lhes cabe desempenhar na sociedade europeia, hoje? Deixarem-se levar pela corrente pode ser cómodo e apetecível, mas pode também significar traição. Questão fulcral nos anos limiares do século XXI, leva-nos a retomar, com evidentíssimo proveito, alguns trechos de Claude Julien:
«Mas as escolhas daquele que escreve são ao mesmo tempo mais complexas e mais simples. E muito limitadas as opções que se lhe apresentam. Fugindo de negociatas e arrivismos, dedicando-se exclusivamente à sua arte, ele pode optar por se retirar para longe do ruído e do furor que tantas vezes nublam a vista, confundem o entendimento, paralisam a reflexão. Este mundo trepidante, ébrio da sua própria febrilidade, rapidamente condena semelhante retiro; isso de alguém desejar assim abstrair-se da agitação e das tormentas, dir-se-á, é trair a fraternal solidariedade dos homens, abandonar ao seu trágico destino as vítimas das crises que dilaceram o planeta, e talvez enterrá-las mais ainda no seu drama de fome, humilhação e sangue.»



No entanto, para Claude Julien, subsiste a eficácia do recolhimento no mundo dos nossos dias:
«O activismo nunca foi a melhor forma de as pessoas se inscreverem utilmente nos debates contemporâneos. O facto de uma pessoa se lançar para o meio da contenda em nada garante que fique na história, e que alguém se retire numa torre de marfim não é necessariamente uma traição. Muito pelo contrário, a tentação de o fazermos vai-se tornando cada vez mais forte, e cada vez mais justificada, à medida que aumenta a velocidade da máquina de trucidar gente.»
O Autor pondera a questão «o verdadeiro é o que vence?», mas aponta «um único outro modelo possível [nem o do contemplativo nem o do ambicioso]: o do intelectual que não pretende deixar um nome nas crónicas, que nem sequer tem a ilusão de pesar na evolução das ideias e dos acontecimentos. Mas que apesar de tudo luta, mesmo estando convencido de que irá perder o seu combate.» (Prefácio ao livro Le Devoir d’irrespect, Paris, 1979.)


Ando a lembrar-me da resposta que André Gide deu a quem lhe anunciava que um certo leitor pretendia conhecê-lo pessoalmente. «Para que quer ele conhecer-me»?, ripostou. «Já conhece o melhor de mim!»
Percebe-se porque o dito, muito difundido, deixou de circular neste tempo, e até se percebe por que motivo os livros de Gide entraram no desvão literário. Actualmente os escritores querem ser «vedetas mediáticas», actores em cena aberta. E os leitores, arrebanhados, aplaudem.

domingo, 27 de janeiro de 2008

desPALAVRAdamente

O que valem as palavras que hoje se dizem e ouvem, que se escrevem e lêem? Tretas e letras em total descrédito. Estamos no tempo da des-palavra, a destruição da palavra.
Entrámos pela sofística a correr para os recursos argumentativos. A sinonímia apurou-se e ampliou-se, foi mesmo preciso recorrer a vocábulos estranhos para distinguir mais e obter novos efeitos discursivos. Os políticos aprenderam a falar para esconder o pensamento, não já para o exprimirem. E entrou-se na deriva.
Em cada discurso houve que detectar o que nele se exprimia realmente para o separar daquilo que meramente prometia e logo o expurgar. As expressões foram-se distanciado do expressado até que deixou de reinar uma correspondência válida entre o que se enunciava e o teor mesmo da enunciação. Declarou-se por fim a falência das palavras.
Mas a falência prosseguiu e agravou-se. As palavras puderam não exprimir já um conteúdo qualquer servido dentro de uma forma mais ou menos rica de indeterminação, eufemismos e metonímias. Avultou a dimensão simbólica dos discursos em prejuízo do discursado.
De facto, as palavras passavam a poder significar algo na inversa do que diziam. Paz, guerra, liberdade, democracia, segurança, desenvolvimento, terrorismo, patriotismo e tantas outras, depois de mastigadas por bocas infrenes, empanaram o seu brilho e tornaram-se plásticas ou, em caso de conveniência, incorpóreas. Começou a ser custoso perceber onde cada discurso queria chegar.
E a deriva avançou. A treta tornou-se negadora, espectacular. As palavras-força (esventradas, esvaziadas, mortas) serviram depois para exprimir o contrário directo do significado que antes se lhes atribuía. Ninguém mais pôde afirmar que falar de paz era falar de paz, falar de democracia, democracia, de liberdade, liberdade, pois logo se erguiam vozes a questionar, negando: mas que pazes, democracias, liberdades?
Perdeu-se então a inteligência do que as palavras exprimiam, da própria transcendência da expressão verbal autêntica, para se implantar a confusão mental e, nela, alastrar o terrorismo no quotidiano. O dialogante não pôde mais pugnar por uma ideia sem enfrentar a contradita, isto é, sem entrar nos labirintos das discussões enredadas e estéreis. Abundou a capacidade para contraditar. Do televisor onde se faz a política se retira, formatado pelos fabricantes de opinião, o que cada um deve pensar e dizer em resposta (anuladora) ao que outros dizem.
Assim acabou por se consumar a destruição da palavra e assim entrámos na era da incomunicação. Falta-nos agora sentir que não podemos viver sem a restaurarmos plenamente. Todavia, quantos de nós sentem que é a palavra dignificada do homem que nos torna humanos? Tire-se a palavra ao homem e vejamos: o que fica no seu lugar?
Destruí-la provoca também a destruição do próprio ser humano individual no colectivo. Restaurar a palavra ser-lhe-á possível na medida em que puder restaurar-se a si próprio a nível individual e social.