Mostrar mensagens com a etiqueta Biodiversidade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Biodiversidade. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A cultura do decrescimento

Serge Latouche, economista e pensador francês, distinguiu-se na defesa de uma causa impopular: a cultura do decrescimento. É autor de vários livros em que justifica as suas ideias por sinal marcadas pela influência recebida de François Partant, outro economista francês. De facto, Latouche co-fundou e dirige La ligne d’horizon, plataforma dos Amigos de Partant dedicada à difusão das suas teses.
Eu apoio, desde a década de ’70 do século passado, a bandeira do decrescimento que, como todos sabemos, se mantém desde então sob rigoroso apagamento. Porém, alguns livros de Latouche foram publicados em Portugal e também no Brasil. Não há dúvida, paga-se um preço nada razoável por se ser crítico do consumismo, do crescer por crescer, porque, para este autor, o crescimento ilimitado é incompatível com um planeta limitado; logo, quem tal diz, “é louco ou é economista”.
O autor pede uma descolonização do nosso imaginário de consumidores compulsivos. Afirma que “a verdadeira riqueza consiste no pleno desenvolvimento das relações sociais de convívio num mundo são”. Ora este objectivo “pode ser alcançado com serenidade, na frugalidade, na sobriedade, até mesmo com uma certa austeridade no consumo material, ou seja, aquilo que alguns preconizaram com o slogan gandhiano ou tolstoísta da simplicidade voluntária.”
Como haveríamos de estranhar o prolongado apagamento das ideias de Serge Latouche (n. em Vennes, 12-01-1940), que o mesmo será dizer da cultura do decrescimento? Ele vai ao ponto de contrariar a ocidentalização do planeta… Em suma, puxa para um lado e o mundo vai avançando para o outro.
Registo agora um caso pessoal intrigante. A Universidade Estadual do Sudoeste Brasileiro indica o meu nome como tradutor da obra Introdução à Cultura do Decrescimento, de Latouche e que a edição se deveu, em 1973, a Publicações Europa-América. Nessa obra se terá baseado um curso de extensão transdisciplinar cujo programa a Universidade transcreve. Ora eu tenho memória (remota!) de algo semelhante; isto é, sem o poder afirmar, acho que traduzi realmente para a PEA, naqueles anos, diversas obras, uma das quais com o tema versado por Latouche, mas o catálogo geral da BN não a regista e eu não a tenho em casa. Aliás, o tema foi aqui abordado, em "Enfim, o decrescimento»", 01-03-2009.
As primeiras edições portuguesas deste autor são recentes (da Piaget e de Edições 70), portanto muito posteriores a 1973. Como explicar, esclarecer, entender isto? Poderá a ajuda de um leitor benévolo e amável esclarecer o enigma?

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O pioneiro da biodiversidade


Foi há um século: o botânico Nikolai Vavilov concebeu em 1916 a ideia pioneira da biodiversidade natural. Percebeu que as plantas, organismos vegetais da natureza, são diferentes devido à genética e a factores ambientais, mas que até são domesticáveis. A ideia empolgou-o tanto que sonhou poder acabar com a fome no mundo.
Vavilov (Moscovo, 25-11-1887) trabalhou em 1913-1914, em Londres, no laboratório de William Bateson, pioneiro da genética, a quem se deve, desde 1901, o sentido actual desta palavra. Os principais artigos que escreveu foram coligidos em volume e publicados em inglês em 1992 com o título Origin and Geography of Cultivated Plants. Além disso, Vavilov dirigiu durante vinte anos o Instituto Vavilov da Indústria Vegetal da União (antes Academia Lenine de Ciências Agrícolas da União [Soviética], fundada em 1920) e em 1924 criou o primeiro banco de sementes do mundo em S. Petersburgo.
Este notável cientista russo bem merece as comemorações do centenário da sua ideia pioneira. Vale a pena conhecer a sua vida e obra e, assim, participar nas homenagens em sua memória. Pelo que fez, Vavilov merece deveras todas as nossas evocações e aplausos.
Foi um viajante incansável e corajoso que percorreu durante dezasseis anos numerosos países, por vezes em guerra, em busca de sementes e conhecimento científico. Aprendeu mesmo quinze idiomas para poder falar directamente com agricultores nos países do globo que visitava. O prestígio internacional que atingia nos anos da Segunda Grande Guerra era indesmentível.
Porém, caiu em desgraça por manobras do seu maior inimigo, Trofim Lisenko (1898-1976), decerto mais político do que cientista e que, por sinal, fora antes promovido por Vavilov. Intrigando, conseguiu que este fosse preso em Agosto de 1940, portanto, nos anos de Estaline, e morreu na prisão de Saratov (Sibéria), em 26-01-1943, com 55 anos, consta que de fome.
Mas não tardou muito a reabilitação do seu nome e obra científica e o próprio Lisenko a cair em desgraça. Foram enormes os prejuízos causados por este à economia, e sobretudo à agricultura, com as suas teorias sem apoio da ciência. Todavia, envolve-se numa espécie de humor negro o facto de Lisenko ter vivido cerca de 78 anos e Vavilov ter sucumbido de fome num subterrâneo secreto.
Outra camada espessa de humor negro estará talvez na situação actual do mundo, onde milhares e milhares padecem e morrem à míngua de alimentos. Parece piada cínica dirigida ao pioneiro da biodiversidade, sonhador confiante no fim das carências alimentares da humanidade. Valha-nos, pelo menos, a existência do Grande Cofre de Sementes Global de Svalbard, nas montanhas do Árctico, inaugurado em 2008 – falta apenas semear todas essas preciosas sementes e banir de vez os transgénicos!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Um futuro sem utopia

abutre.jpg
As riquezas dos povos e das nações acumulam-se mais e mais em cada vez menos mãos. Logo, estas linhas, à entrada, devem recordar ao leitor: “Um por cento da população mundial possui 99% da riqueza do planeta, mas apenas uma décima parte do um por cento é que nele manda realmente.” Consequência: os programas de austeridade impostos aos países mais débeis mostram às claras o que antes escondiam, a voragem crescente da alta finança mundial que leva à falência bancos e Estados, pondo a abarrotar os paraísos fiscais.

A alta finança carecia de uma nova via de investimento para escoar tão gigantesca concentração da riqueza (e disso terão falado os participantes do Fórum de Davos). Essa nova via já aparece: aponta para a financeirização da agricultura. Grandes multinacionais estão a comprar extensíssimos terrenos da melhor produtividade em diversos países “acessíveis” para os dedicarem à agricultura intensiva que seja a mais lucrativa.
Por este caminho, a chamada industrialização da agricultura promete avançar até se tornar global. Mas os investimentos da alta finança mundial na produção agrícola em tão larguíssima escala tornam-se inquietantes e mesmo ameaçadores para a relativa estabilidade que o sistema da alimentação da população do planeta tem tido para funcionar. Certamente, vamos todos entrar num período de convulsão.
Vai generalizar-se a produção de alimentos com utilização dos OGM, os populares transgénicos. Por outro lado, as culturas intensivas irão estender-se por áreas de enorme vastidão com solos propícios. Países e regiões serão votados à monocultura.
Isso terá reflexos graves no ambiente e na biodiversidade, num ambiente já comprometido com as mudanças climáticas. Mas a principal ameaça consistirá sem dúvida na concentração da produção mundial dos alimentos – a propriedade dos solos e dos meios produtivos – em poucas mãos… sem nome nem rosto. Será fácil, então impor quantidades, subidas de preços, condições.
Ora a chamada grande distribuição (a rede dos hipermercados), muito rendosa, está em poder do grande capital. Percebe-se o perigo que está à espreita: a alta finança internacional pode, se quiser, adquirir as redes da grande distribuição e ficar na posse do circuito completo da produção-comercialização. Mas nem precisa de tanto para mandar.
Em foco estarão os consumidores concentrados nas cidades. Neste sentido, calcula-se que em 2025 uns 65% da população mundial estejam a viver em zonas urbanas. Esta população ficará exposta ao novo perigo - a rendição pela fome.
É um futuro sem utopia. Quer dizer, sem localização específica. Ai de nós, pode querer engolir o planeta inteiro!

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Abre hoje na sede da ONU, em Nova Iorque, a reunião de 120 líderes mundiais (Barack Obama e outros;  sem Angela Merkel e Xi Jinping) para debater o grave problema planetário das alterações climáticas. Objectivo: reforçar as bases possíveis para a assinatura do protocolo internacional a assinar em Paris no fim de 2015 sobre as emissões de carbono para a atmosfera.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Em busca de alento

O leitor atento destas páginas deve vir notando o interesse, mesmo o fascínio, que certas palavras carregadas de história em mim despertam. Fascina-me realmente o que podemos encontrar devassando o que nelas se guarda. E assim terão notado quanto me atraía o vocábulo anima, que encontramos na raiz latina da alma”, a tal que os teólogos dizem eterna, e na animação que em tempo recessivo nos escasseia.
Porque a semântica de anima (sopro, ar; alento) aponta para respiração, fácil era perceber que o vivente animado tem alma” na justa medida da sua animação. Mas logo a respiração me guiou para o verbo folgar” que, como recordaremos, não passa de um folegar, dar muito aos foles do peito, portanto de uma animação. No entanto, outras descobertas novas se fazem devassando vocábulos de uso corrente.
A respiração também aparece no alento”, substantivo de abordagem não menos reveladora. Significa, sem segredo, força para respirar; bafo, respiração; força; ânimo. Ou ainda, por outra via - de (h)alenitu - que o Dicionário regista, exalação; respiração
Curioso é que ao falar de anima ou folegar, ou de alento, a semântica aponte de imediato, com impecável pontaria, para a função respiratória. A lembrar-nos, afinal, que é função impreterível de todo e qualquer organismo vivo que vai continuar vivo. Mas, com especial relevância, que é função a mais vital da espécie humana...
Logo, são diversos os vocábulos que aludem ao fenómeno vida, que é respiração, bafo, exalação. E “hálito”? (“ar expirado, sopro, viração, bafejo”, do lat. halitu); e “anelo”? (do v. lat. anhelare, “respiração ofegante”).
Na sua variedade, exprimem a admiração maravilhada que sempre rodeia o fenómeno da vida a eclodir em acto onde quer que se anuncie. Mas como compreender verdadeiramente o fenómeno? A inteligência humana aplica-se, esforça-se e acaba sem mais alento...
Avança pelos organismos vivos, vai do mundo biológico até ao inorgânico, lá onde se dilui a fronteira entre o último ser vivo, digamos um vírus, e os processos físico-químicos. A ciência esclarece mais e mais, identificando a alma teológica com a respiração natural do ser vivo. Mas se quiser explicar o fenómeno da vida tal como o conhecemos no planeta, talvez considere que a Terra foi atingida há milhares de milhões de anos por um asteróide portador de elemento fecundante, uma simples bactéria, trazida do respirar cósmico...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A erosão costeira


O instituto meteorológico nacional mudou a tabuleta, agora designa-se do Mar e da Atmosfera. Compreende-se: é na zona marítima e no ambiente planetário que se concentram as mudanças mais extremas provocadas pela acumulação das agressões humanas contra os equilíbrios ecológicos. As costas continentais, com imensos pontos críticos, estão sob ameaças tremendamente dramáticas e ninguém já discute o aquecimento global porque não tem remédio nem há tempo a perder.
Portugal, país cronicamente mal administrado, tem uma longa costa muito aberta aos assaltos constantes do mar. Eu, que me tomo por especialista de coisa nenhuma, pus aqui “A erosão da costa” em 13-11-2011, e a crónica surpreendeu, oxalá que alarmando também, os leitores que esta coluna tem na minha região natal, a Bairrada. Regresso hoje ao tema, como simples cidadão, curioso interessado, pois na zona me fiz quem sou, com os pés na Ria, passeio à Torreira, banho na Costa, trepa ao farol da Barra, salto à praia da Vagueira ou mais além…
Quero registar, com o devido agradecimento, um estudo do Dr. Paulo Manuel Correia Silva intitulado “A tendência da linha da costa entre as praias da Maceda e São Jacinto” resultante da dissertação do seu mestrado na Universidade de Aveiro. (http://hdl.handle.net/10773/9652) A leitura não é pêra doce, evidentemente, mas, sendo significativa, abunda em conhecimento útil. O Autor considera que aquelas praias, arenosas, estão expostas “a um grande recuo da linha de costa na maioria da área de estudo, devido à redução no fornecimento de sedimentos e a condições de elevada agitação marítima.”
O seu estudo, com 111 pp, baseou-se bastante na interpretação de fotos aéreas obtidas em 1958, 1970, 1998 e 2010-12 na zona costeira em foco. Revelaram “uma taxa de erosão de cerca de 4 m/ano na zona de Maceda e taxas de acreção que alcançam os 11 m/ano na zona de S. Jacinto.” Estas taxas de acreção devem-se “a existência de estruturas humanas, tais como os esporões, que são usados para proteger as áreas urbanas (Furadouro e Torreira) e o porto de Aveiro.” Anota: “As linhas de projecção futuras mostram que em algumas zonas a linha de costa poderá recuar 80 m em 20 anos (Maceda), sendo devastados hectares de floresta. Em S. Jacinto, a norte do molhe do porto, pode haver uma acreção de 220 m[etros].”
Oxalá que o Dr. Paulo M. C. Silva, no seu percurso académico posterior, estenda a investigação para sul (até Mira?), por onde as fragilidades do cordão dunar abrem a costa à penetração das correntes marítimas. Por assim dizer, quase toda a costa que envolve o litoral português - onde se aglomeram tantas populações! – aparece em risco de catástrofe natural que os próprios governantes anunciam desde há anos como inevitável. Avisam mesmo que Portugal não dispõe de meios materiais para deslocar essas populações, que perderão tudo, casas e terrenos, devido à erosão costeira - uma tragédia terrível, pesadelo anunciado.
Nota final. As costas foram declaradas propriedade pública do país em 1864. No entanto, sabe-se em geral quanto os governos se descuidam de governar a valer e quanto os portugueses, concordando com os seus (des)governantes, se descuidam da governação nacional. Mas motivou espanto retinto a notícia do semanário “Expresso” de que 30% das costas portuguesas ainda hoje eram propriedade privada, tal como uma praia muito popular frequentada pelos lisboetas. Espanta-se ainda mais quem tem ideia da quantidade incrível de entidades oficiais que cai sobre alguém com projecto incidente na zona. Existem para quê?!

domingo, 22 de julho de 2012

Eucaliptos: o emblema final

Sobressaltam-se ambientalistas, ecologistas, paisagistas, técnicos de ordenamento do território, amigos da conservação da natureza em geral. O governo declara-se disposto a retirar todas as barreiras legais que impedem ou condicionam a expansão do eucalipto pelo território nacional. É caso para propor que os governantes substituam o emblema que exibem na lapela pelo ícone da árvore que tão bem lhes quadra.
Assim vão ser atiradas para o lixo todas as legislações nacionais produzidas desde o início do século XX que regulavam (pouco) o plantio daquela árvore invasora. Tem poucos amigos, mas poderosos (donos dos lucros das celuloses), e muitos inimigos sem poder. Todavia, sabem reconhecer na árvore um comportamento que até descrevem como «fascista»: come tudo em redor e não deixa nada.
Realmente, o eucalipto cresce depressa esgotando também depressa a humidade e o húmus contidos nos terrenos. Existem largas centenas de tipos diferentes, mas o que por aí abunda são os do crescimento mais rápido, logo os que mais depressa esgotam o potencial produtivo dos terrenos. Os amigos da natureza andam há imenso tempo a prevenir que tal árvore, sendo cheirosa, arruína os solos e expande no país maus cheiros e desertificação.
Ora o governo faz orelhas moucas para o que os tais muitos sem poder dizem e ouve os poucos com poder que lhes dizem o que querem ao ouvido. Tudo o que estes tem vindo a ganhar parece-lhes pouco. Os próprios incêndios na floresta (que este ano, piores que nunca, alastram sem travão), segundo pretendem certas insinuações, acabam por beneficiar de vários modos apenas as celuloses.
Porém, a consequência de maior gravidade que a medida decerto vai ter atinge a existência dos baldios. Herança histórica que remonta ao fim do feudalismo, os terrenos baldios são propriedade comum dos moradores de cada lugar como pastagens e reservatórios de lenhas. Nos anos '60, ocupavam 6% do território nacional; presentemente serão 420 mil ha.
Carlos Rebola, bloguista que lembro com saudade, fez há anos uma pesquisa e colocou em Google.docs um acervo importante de documentos sobre baldios, mas há outra informação disponível. O problema, agora, consiste na dúvida: irá o governo dar rédia solta às empresas madeireiras e deixá-las avançar (apropriarem-se?) por cima dos baldios? Dúvida justificada: a questão dos baldios está aberta desde há muito tempo e estes governantes ultra-neoliberais sentem-se dispostos a entregar tudo de mão beijada.
Portugal vai assim a caminho do futuro que certo economista americano veio apontar-lhe: apostar na produção florestal. Sem outro emprego, metade dos portugueses, de tanga e com rendimento de sobrevivência, cuidarão dos eucaliptais e a outra metade terá orgulho terceiromundista por exportar a pasta, matéria prima, e importar o papel fabricado. (Imagem: desenho de Pawel Kuczynski.)

domingo, 24 de junho de 2012

(In)sustentabilidade

Esperava-se um pouco mais que nada da cimeira no Rio de Janeiro que debateu a sustentabilidade. Não houve, portanto, desilusão. Fica apenas a preocupação quanto ao futuro do nosso planeta cada vez mais ameaçado por milhentas loucuras a trepar por solos, mares e ares durante mais dez anos.
A Terra, suporte vital da humanidade e mesmo habitáculo único que podemos ter no inóspito espaço celeste, acumula tantas agressões e desgastes que os sinais de alarme disparam nos mais diversos sentidos. Não é possível continuar por este caminho, é urgente pôr travões a fundo nas quatro rodas, mas os senhores do mundo, à frente de governos e das grandes corporações, limitam-se a discursar e a sorrir para as câmaras.
O planeta precisa de um governo global capaz de responder eficazmente à situação. Mas onde pode estar ele? A ONU, por infelicidade, caiu nas mãos do poder maior e não tem substituição entre quaisquer organizações internacionais existentes de âmbito regional; a NATO, aliança militar que perdura (apesar de ter desaparecido o «perigo comunista» e o Pacto de Varsóvia), agora talvez por causa da «ameaça terrorista», terá vocação para atear conflitos, não para resolver problemas da sustentabilidade planetária.
Todavia, a exploração dos recursos naturais não renováveis atingiu pontos já sem retorno. As delicadas cadeias da biodiversidade entram em ruptura, problemas endémicos como a pobreza (associando fome, miséria, doença) continuam sem paliativo e os conflitos armados  que se renovam por ali e acolá onde cheire a petróleo somam-se às destruições resultantes das catástrofes naturais. O aquecimento, tão discutido e negado por «cientistas», tem retardado o recurso às energias renováveis, mas sendo hoje ponto assente, resta aos  profissionais da opinião esperar com fé de que a Terra se regenere para lhes dar razão.
Vai sendo tarde, irremediavelmente tarde, para muita coisa decisiva. A crise socioeconómica que contagia países e continentes, impondo programas de austeridade e redução dos consumos, atenuará, nos próximos tempos, alguns dos efeitos nefastos da (in)sustentabilidade. Será porém escasso o alívio.
Demonstrada fica a loucura que coloca o planeta inteiro em poder de quem o arrasta às cegas, de orelhas moucas, para o abismo.  É preciso um governo que garanta a sustentabilidade do planeta e onde, e como encontrá-lo? Aflição!

terça-feira, 22 de maio de 2012

Tecno versus Humano

Eduardo Galeano, numa charla recente, tal como noutras anteriores, sugestiva e sumarenta, que teve a sorte de passar na TV portuguesa (no canal 2, a desoras convenientes), deixou bastante demonstrada a perda da diversidade humana e quanto essa perda se deve a mutilações da variedade humana real provocada pelo sistema dominante. Mas Galeano é um óbvio humanista, reafirmado, por exemplo, no vídeo mais antigo sobre a «Ordem criminosa mundial», com janela de acesso aqui ao lado. Este uruguaio nascido em 1940, autor de livros que recusa ser «intelectual», tem portanto uma voz que ressoa tanto mais no mundo quanto neste mundo já rareiam os humanistas.
Estamos a ficar cada vez mais cegos para a nossa variedade humana obedecendo a um sistema que nos empurra uns contra os outros de forma implacável,
-- fazendo reinar o individualismo egoísta e a mediocridade. A economia de mercado que temos a funcionar é mutiladora da possível e apenas sonhada plenitude humana, mas o presente, hoje mais agudo e dramático, na verdade vem de longe a acumular consequências e danos. Agravaram-se os fatores sociais da distinção por via do racismo, do machismo ou do militarismo (lembra Galeano) a somar a exclusões e segregações de pobres, índios, africanos, etc.
Em meados do século XX, nas universidades portuguesas ainda persistiam estudos humanísticos. Todavia, já então eram notados os riscos de endeusamento de uma Técnica invasora trazida pela onda das máquinas-ferramentas e surgia o «homem sem qualidades». Nos anos seguintes operou-se uma viragem e hoje parece não restar vestígio das velhas Humanidades.
Deste modo, a originalidade (isto é, a criatividade) de cada ser humano fica submersa ou  mesmo perdida em proveito de uma uniformidade social imposta por um silenciamento conformado. O desenvolvimento social e até a dimensão autêntica das liberdades sofrem constrangimentos -- no meio de seres humanos estereotipados, atomizados e fragmentários, induzidos a uma indiferença obediente pela coisa pública, pelos sindicatos, os partidos, a política, o diálogo cultural. O ser humano, em radical solidão e desprovido de memória, encara o seu vizinho não como irmão, um semelhante, sim como um concorrente incómodo, um estorvo.
Nem o próprio teísmo resgata o indivíduo da solidão para o inserir no conjunto a que pertence na sua comunidade e na sua espécie. Projeta-o para um plano celeste inacessível, atirando-o portanto para fora deste mundo em vez de se realizar como re-ligação possível do homem ao seu semelhante. Vale a pena relembrar aqui as ideias do filósofo inglês David Hume, apontadas a uma «religião natural», sem Deus, a «religião da espécie».

domingo, 13 de novembro de 2011

A erosão da costa

Uma agência da ONU virada para a conservação da natureza anunciou há dias que, a não serem tomadas medidas convenientes dentro de cinco anos, irão concretizar-se danos irreversíveis. O anúncio, sem estranheza, passou e de imediato ficou esquecido. Mas tem um alcance verdadeiramente dramático e estou a relembrá-lo por uma obrigação imposta pelas imagens divulgadas também naqueles mesmos dias pela nossa comunicação social.
As imagens e as notícias daqueles dias expunham mais uma vez o problema da erosão que atingia largos tractos da nossa costa marítima. Escrevi atingia, colocando o verbo no passado, sabendo porém que o problema se repete e se agrava desde há muitos anos. A costa portuguesa, em quase toda a sua extensão, sofre ataques das marés vivas em certos períodos do ano nos seus pontos mais baixos e indefesos.
Soam então os alarmes, avaliam-se os prejuízos e tornam os lamentos, em seguida cuida-se de amontoar aqui e ali, nos pontos críticos, mais umas pedras (se já ninguém reclama mais um quebra-mar!) e tudo fica de novo posto em sossego até às próximas investidas do oceano. Todavia, estão bem assinalados os pontos críticos: vão (ver mapa) desde a zona de Esposende até à zona do Oeste. Mas, evidentemente, há outros pontos expostos às investidas da força maior.
As alterações climáticas em curso, com a previsível subida de nível do Atlântico, juntam-se a uma certa acumulação de comportamentos de risco que, embora sonegados, são, segundo opinião credível, bem reais. Os rios selvagens portugueses estão «domesticados» com barragens, o que impede a natural reposição das areias no litoral marítimo, ali onde o mar nos parece teimoso a «comer» os areais das zonas balneares. A conjugação dos factores em presença abre a costa, aqui e ali, aos avanços das ondas salgadas, de modo que o presidente da Administração Regional Hidrográfica do Norte (Lusa/«Público», 12-11-11) aconselha já um recuo das povoações em risco para o interior.
O presidente, António Guerreiro, falou em Castelo de Neiva, Viana do Castelo, oxalá seja ouvido em todo o país.

Avaliando o próximo desenvolvimento da actual situação, é de recear que o mar venha a ocupar em breve grandes porções de território, especialmente na zona abrangida pelos pontos críticos assinalados. O rectângulo continental perderá bastante do seu tamanho, o que irá concentrar a população numa ainda mais estreita faixa pois o interior do país terá um maior ermamento. E a minha Bairrada natal - planície baixa situada entre Aveiro e Coimbra, Águeda e Cantanhede - desaparecerá, junto com a nossa Ria, sob a cobertura das águas, para emergir somente em algumas colinas dispersas acessíveis a embarcações (nessas colinas se radicaram outrora os primitivos habitantes), de modo que o mar vizinho retomará o lugar que há séculos foi seu e o assoreamento lhe secou...

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A origem das espécies

Levou vinte anos a decidir publicar o livro que ficou como a sua obra fundamental. Previa a avalancha de reações adversas, nada científicas, que ia desencadear com a tese que propunha e não se enganou. Por fim, arrostando com preconceitos, insultos, propagandas malévolas e conservadorismos doutrinais, Darwin apareceu a defender A Evolução Natural.
Era o corolário dos estudos iniciados na viagem que fez a bordo da «Beagle». Durou quase cinco anos, até 1836, e deu a volta à Terra. Mas Darwin esperou até 1859 para lançar as bases científicas que permitiram ao mundo culto compreender o fenómeno da diversidade biológica.
Demonstrou que as espécies existentes provêm de um ancestral comum, assinalando ao mesmo tempo o papel da seleção natural. A obra emocionou os setores cultos e revolucionou as opiniões. Hoje, corrido século e meio sobre a primeira edição do seu livro, pode dizer-se, com inevitável tristeza, que os preciosos contributos de Charles Darwin (1809-1882) para a ciência e a cultura, lançados com desassombro e coragem, continuam a enfrentar resistências que, apesar de velhas, parecem inamovíveis.
Boa resposta lhes dá a exposição que assinala desde 2009 o bicentenário do nascimento do lembrado cientista inglês. Em Portugal, esteve patente em Lisboa e agora está no Porto, integrada no centenário da Universidade portuense (no palacete do Jardim Botânico, até 17 de julho). O mínimo que dela se pode dizer é, sem qualquer dúvida, algo como isto: organizada com critério e meios amplos, a exposição coloca-se ao nível dos méritos que distinguem o seu patrono.
Todavia, encontram-se ali motivos de muito diversa atualidade. Além da invalidação sumária do criacionismo, mito segundo o qual Deus criou «para sempre» todas as formas da vida,  que perdura na «Bíblia», a exposição invoca o problema da conservação da biodiversidade global que enfrentamos.  É uma questão, sem sofisma, das mais eminentes do nosso tempo e tanto mais vital quanto mais tem a ver de facto com a própria conservação da vida.
As espécies de flora e fauna que dia a dia desaparecem do planeta por radical extinção rompem os delicados equilíbrios do mundo natural e já ameaçam a segurança futura da espécie humana. Ninguém avalia todas as consequências finais das alterações dramáticas que ocorrem, sabendo-se porém que serão dramáticas. A espécie humana nasceu e desenvolveu-se no seio da natureza e dela faz parte intrínseca (para se alimentar, curar ou meramente existir) de tal forma indissociável que não conseguiria viver à parte.
Por outro lado, os frágeis equilíbrios da biodiversidade estão sob ameaça dos transgénicos  que, mais ou menos à socapa, invadem os campos. Os governos, inclusive europeus,  vão cedendo a este outro tipo de imperialismo: permitem a entrada e uso de sementes de produtos agrícolas com marca patenteada da Monsanto (sementes essas que não poderão reproduzir-se - somente os atos de compras periódicas), empresa americana que se acha no direito de patentear bróculos e couves lombardas, visionando explorações com mais de dez hectares e um mercado abastecido de géneros alimentícios com origem autenticada... e a ruína terminante da agricultura tradicional.

domingo, 13 de junho de 2010

Em defesa da biodiversidade

Nos campos natais da minha infância via espécies de flora e fauna que desapareceram há tantos anos que hoje já quase ninguém lembra. E, façam o favor, serão três quartos de século assim tantos anos? É a duração média de uma vida na atualidade, quando, por contraste, aumenta a extinção de espécies, imensas variedades de plantas e bichinhos que nem chegam a ser conhecidas e estudadas.
Sabemos, porém, que o equilíbrio natural assenta em sistemas de extrema delicadeza e complexidade e que a intervenção humana não cessa de os agredir como se o equilíbrio natural estivesse garantido no céu contra todos os riscos. É um comportamento irracional, ameaçador e suicida, que se estende ao planeta todo. Governantes e poderosas multinacionais dispõem do mundo como senhores absolutos e até ousam autorizar a introdução de mais e mais organismos geneticamente modificados (OGM) estando longe de conhecer todas as consequências desses actos.
A biodiversidade está em crise  e, curiosamente, não apenas no interior da natureza ameaçada. Também na esfera do social avança um processo idêntico. A diversidade humana das opiniões está a ser esmagada no terreno das mentalidades pelo rolo compressor do Pensamento Único.
Efetivamente, torna-se não menos necessária, pois é mesmo imprescindível, uma biodiversidade de ideias correntes para garantir a renovação da vida. Ora não é isso o que podemos ver. De telecomando na mão, percorremos cinquenta ou mais canais de tv por cabo e a monotonia é total: os canais de notícias dão  informações idênticas e os outros, de «género» (desporto, cinema, música, infantil, etc.), especializaram-se tão a preceito que ficaram previsíveis de tão repetitivos.
Os jornais e revistas entraram na onda. Imitam-se uns aos outros de tal jeito que o discurso da informação nem atina como pode renovar-se para adiar a morte que a descida constante das tiragens anuncia. Mesmo a edição literária trabalha bastante nesse sentido, depois de banalizar o livro transformando-o em vulgar mercadoria consumível pelo mercado.
Na ordem social reinante, assim conformada, evitam-se temas e questões incómodas, polémicas, trabalhosas. Discutir, sim, apenas o campeonato de futebol e coisinhas familiares, pacatas e pacíficas que felizmente animem a malta e desatem as línguas açaimadas.
Insulta a mediocracia do ambiente quem aparece a saber algo mais do que o vulgo sabe. Quem mostre duvidar, por exemplo, que Hugo Chávez não é um ditador, que o Irão mente porque quer ter bombas nucleares (para defender o seu petróleo teimando em o trocar por euros?), que a Coreia do Norte ameaça muito mais do que o presidente deposto do Haiti... com certeza não acredita na Casa Branca e no Pentágono. Pratica um sacrilégio. Porque na ordem social reinante toda a gente sabe distinguir os regimes e países que são declarados amigos e democráticos, dignos de simpatia, graças às ideias  superiormente postas a correr. A gente, assim de cabeça feita, nem precisa mais de pensar!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Mulheres confrontam homens

A maioria das pessoas que vemos à espera de consulta num centro de saúde, num lar ou em qualquer outro local onde se concentrem os idosos, são mulheres. Achamos isso tão natural que quase nem vemos o que é visível. Habituámo-nos longamente à desproporção sabendo todavia que o normal é nascerem mais rapazes do que meninas.
A explicação que havia para o facto de a maioria inicial do género masculino depois se perder na demografia nacional apontava para as baixas que os rapazes iam sofrendo enquanto não saíam do período da juventude. Grande razia! Tão grande que entrava também na explicação uma superior resistência das mulheres aos achaques: mulher doente, mulher para sempre, dizia-se.
Mas o paradoxo não está aqui. Começa a aparecer em dados recentes do INE que mostram as mulheres com mais desemprego, aguentando também velhas desigualdades salariais. Trabalhando, ganham menos do que os colegas machos, mas elas são de facto, no conjunto do país, a maioria da população: em 2005 seriam 5,5 milhões, algo como 51,6%.
Segundo o INE, a desproporção aumentou entre 1975 e 2005: ficámos com 94 homens para cem mulheres. Na verdade, estas aumentaram para sete anos a sua esperança média de vida. As raparigas casam-se mais cedo do que os rapazes e, enquanto estudantes, por sinal até se distinguem com melhores classificações.
Apesar de tudo, algo nos escapa na situação. A diferença numérica existente entre os sexos, favorável às mulheres, não ajuda deveras a entender o que se nos oferece à vista. Abunda bem mais o sexo feminino que ensina nas escolas ou trabalha nos empregos mal pagos (caixas de supermercados, cafetarias, lojas), em centros de diversão noturna, etc., e vai-se multiplicando nos recintos desportivos como praticantes ou espetadoras.
Abunda, aliás, por todos os lados: nas enfermarias, repartições públicas, redações dos jornais, forças de segurança, além de escritórios, fábricas... As raparigas correm para fora de casa, enchem a paisagem. E se, comparativamente, casam mais cedo, talvez admitam o enlace com rapazes uns anos mais novos.
Por tudo isto, parece estar a instalar-se a impressão de que é o sexo feminino que sobressai hoje, avultando sobre o masculino. Este como que se encolhe (apenas numericamente?) em face do avanço impetuoso a que assiste, numa especial inversão dos papeis sociais que os dois géneros desempenharam até anos recentes. Mas acaso estará contido nesta anotação um qualquer preconceito machista?
Nem de longe. O que pode fazer-se lembrado é o aviso de que certos plásticos diluídos na água dos rios estarão a contribuir para a multiplicação de espécies de peixes com aparentes dificuldades de gerar machos e portanto de se manterem como espécies. Estudos posteriores, bem mais alarmantes, apontam o mesmo efeito provocado na espécie humana: numa comunidade sob investigação, salvo erro canadiana,  cresce a desproporção dos sexos, pois nasciam cada vez mais meninas e menos rapazes.
Admiração, nenhuma. As cidades pequenas e grandes bebem dos rios. Os químicos presentes nos vulgares plásticos, diluídos, espalharam-se nas águas, nas terras, nos ares... e a espécie humana, com toda a sua imensa e poderosa sabedoria, talvez venha a ter, nos próximos séculos, tanta sorte como a dos peixinhos em degenerescência...

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Terra-berço sob ameaça

Embalados pela melodia dos seus discursos, os políticos não ouvem, não lêem nem querem ver. Os grandes empresários, ainda menos, atentíssimos como estão aos gráficos das cotações e dos lucros. Os ecologistas, esses clamam, mas são poucos e poucos são os que percebem a urgência da mensagem, supondo que podem adiar quando já é tarde demais.
Porque se hoje, por milagre, os poluidores do mundo parassem radicalmente de vandalizar o planeta, os gases já acumulados que produzem o efeito de estufa continuariam a exercer os seus efeitos. Aquilo que a hipotética paragem permitiria, e ainda bem, era atrasar no tempo a eclosão do pior cataclismo. Mas é claro que os poluidores vão continuar, bastante imperturbáveis, a poluir, pelo que o pior, em vez de ser atrasado, é apressado numa progressão imparável, cega e louca.
Entretanto, só não sabe da coisa quem não quer saber. Um querido amigo meu resiste há uns seis anos a crer no aquecimento global, considerando que não estão reunidas provas científicas conclusivas. Todavia, sabemos todos o que aconteceu, por exemplo, com os malefícios do amianto, do tabaco, dos PBC. Os interesses associados às indústrias fazem o máximo que podem para iludir a gravidade das questões – a história não nos ensina outra coisa! – e os governos dão-lhes cobertura.
Os factos actuais impõem-se, nem que seja por simples atitude preventiva, a quem os queira admitir de olhos abertos. Os gases com efeito de estufa, os buracos do ozono na troposfera e outros danos ambientais, vão persistir e agravar-se certamente para além do horizonte de vida de quem está agora a nascer. Os diagnósticos estão feitos e serão cada vez mais catastróficos: a perda das calotes polares, a elevação dos níveis oceânicos, para além dos danos irreversíveis na biodiversidade e nas cadeias alimentares.
Especialistas cuidam que até ao fim do século XXI os mares subirão pelas costas entre dois a seis metros, submergindo largas extensões e mesmo porções vitais de grandes cidades (Londres, Nova Iorque, Nova Orleães?) tão facilmente como já engoliu ilhas do Pacífico. Este nosso jardim à beira-mar plantado pode ignorar a sorte dos londrinos e demais parceiros da desgraça, não pode é esquecer-se da beira-mar. Um pequeno aumento de nível do Atlântico abrirá aqui, ali e além a costa portuguesa à penetração das águas salgadas, submergindo pontos do litoral (nomeadamente: a norte, zonas expostas da ria de Aveiro e as planícies baixas da minha Bairrada natal).
Portugal entregará ao oceano parte do seu território dos 88 mil km2, as Berlengas terão outras companheiras, iremos mudar-nos para o cimo dos montes… se continuarmos, sem fuga possível, dentro deste «automóvel conduzido por motorista suicida que olha pelo retrovisor e não vê o abismo que tem pela frente». O que fazer? Entreguemos antes a condução do mundo às crianças do ensino básico: com toda a sua inocência elas sabem mais que os políticos, que os grandes empresários atentos aos lucros a qualquer preço, que os seus pais-amigos-do-deixa-correr. Até por instinto, as crianças sabem que precisam desta Terra-berço da Humanidade para viver. É única!
[Veja vídeo, 5 min., com discurso de criança em reunião da ONU no Brasil. Apelo eloquente aos senhores do mundo!]

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Comida à mesa

Percorre o mundo um calafrio novo. Vai faltar a comida, o preço dos bens alimentares trepa pelo céu como foguete anunciando a calamidade. É o que vem repetindo a comunicação social mais solícita, os especuladores agradecem.
Sentem o calafrio na espinha os povos empobrecidos e os pobres desde sempre. Os ricos, coitaditos, vêem-se obrigados a reconhecer agora que neste mundo a pobreza é a regra e a riqueza a excepção. Mas, constituindo a minoria, talvez estes se imaginem dentro da nau do novo dilúvio e em fuga da guerra no mundo global.
Os vendedores da Monsanto desfraldam a bandeira dos transgénicos (ou organismos geneticamente modificados) e redobram a grita tentando impingir o seu discurso. A mim, filho de agricultores rurais em zona de minifúndio, a propaganda dos transgénicos traz-me à memória a treta que levou meu pai a substituir os estrumes orgânicos por adubos nos anos ’20 e ’30. Os agentes da CUF pintavam então com as cores mais radiosas um porvir de abundância e paz para todos… que engordou em paz a Companhia União Fabril.
Pois bem, hoje querem convencer-nos de que os alimentos são também formas de energia, comparáveis ao petróleo ou aos biocombustíveis. Deste modo, os seres humanos são vistos como «máquinas produtivas» carecidas do combustível que é cada vez mais caro e mais raro. Situação preocupante? Não em Portugal!
Os governantes desdramatizam. Sorriem, apaziguadores, e recomendam calma. Têm razão. O espaço rural nacional, com a agricultura quase completamente arruinada e que leva o país a importar pelo menos metade do que come, não é motivo de preocupação. É verdade que dois milhões de portugueses foram postos a viver no gueto da pobreza estreme e que a classe média baixa caminha para lá ou já lhe bate à porta, mas, caramba, o país dispõe de óptimos recursos!
Se e quando as cozinhas e as despensas portuguesas estiveram minguadas, teremos para comer os golos nas balizas, tão nutritivos que cada um vale milhões.
Teremos as relvas, inclusive dos campos de golfe que se multiplicam pelo país, relva viçosíssima, rica em clorofila, que vão atrair-nos como burros esfaimados.
Teremos os carros de luxo e toda a abundância circulante que coloca o índice nacional de automóveis-população entre os mais altos europeus.
Teremos os telemóveis excedentes que resultarão da colheita por confisco a quem possua mais de um.
Teremos as toneladas de papel estragado com carinhas larocas e frivolidades, as colecções das lojas de confecções a abarrotar de última moda e os sortidos das sapatarias para mastigar como o Charlot dos tempos difíceis.
Teremos para sobremesa, perfumadora de hálitos, as estantes de chiclets com a gama completa de sabores espalhadas por todo o lado.
Bem pode a comunicação social multiplicar os alaridos contra a falta de comida que já assola o mundo. O governo português não tem realmente que se preocupar, ora essa. Sabe governar ou não sabe?

sábado, 8 de março de 2008

Governo planetário, já!

A globalização (não a introduzida pela Internet, sim a imposta por interesses e estratégias do comércio e da livre circulação dos capitais) tem espalhado batalhões de braços em riste a bater-lhe palmas. Então, se assim é, vejamos o mundo assim globalizado. Notemos os seus problemas mais instantes e agudos.
A conservação do ambiente natural e da biodiversidade, isto é, o controlo mundial dos gases nocivos, não tem correctivo. A degradação já se torna irreversível.
A paz planetária continua ameaçada mais e mais pela difusão de bombas nucleares, pela militarização do espaço (a «guerra das estrelas») e pelas mobilizações imperialistas dos polos.
E não se vê de onde virá um governo efectivo, ou um colectivo de governos unificados, em condições de dar resposta suficiente aos problemas globalizados.
Todavia, são estes problemas planetários que mais afectam a população planetária. Podem fazer estoirar a Terra. Seria bom que deles falassem quantos falam de globalização com aplausos de braços em riste, em vez de aplaudirem o predomínio das estratégias do comércio e das finanças internacionais. São estas forças (não eleitas, não democráticas, sem rosto) que sufocam, numa pilhagem crescente, o mundo. Fazem-nos sentir ao vivo a falência completa dos governos principais e a necessidade premente de se trabalhar pela formação de um autêntico e eficaz governo planetário. Para que governe o planeta de olhos abertos e mereça os impostos que pagamos…


As descobertas permitidas pelos estudos iniciados em torno das chamadas fontes hidrotermais submarinas, situadas a profundidades por fim acessíveis, obrigam pelotões de cientistas a rever conjuntos de ideias até agora assentes sobre a origem e evolução dos organismos vivos. Admite-se que estará ali, nas profundezas oceânicas, por sinal em ambiente de altíssima pressão, sem oxigénio, sem luz do sol e maximamente tóxico, a matriz primigénia autêntica dos seres conhecidos da natureza. Reacende-se, assim, um debate científico dos mais estimulantes que irá manter-se, quero crer, por muito tempo.
Os astrónomos, que tacteiam as funduras do Universo sondando todas as manifestações de vida, ficam também na necessidade de reavaliar ideias tidas como assentes. Os «modelos» que condicionavam o aparecimento e a evolução dos organismos em determinadas condições naturais preexistentes estão assim a alargar-se, porventura a dissolver-se um pouco e a reajustar-se. Por isso ganha cada vez mais consistência a hipótese de que, quando pensamos a matéria (orgânica ou inorgânica), estamos a pensá-la apenas num certo estado. Ora a matéria, sendo transformável, não é destrutível. Em si mesma contém, indissoluvelmente, espaço e tempo – as duas dimensões fundamentais. Matéria-espaço-tempo é, revelada, a forma absoluta de todas as formas possíveis da génese. E vêm à baila os «buracos negros» no centro das galáxias, os neutrinos…
Enfim, dai-me matéria e dar-me-eis tudo – espaço, tempo e vida em evolução.