Mostrar mensagens com a etiqueta Congo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Congo. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Este Congo que foi belga

Temos a obrigação de saber que a informação que podemos recolher em cada época é uma informação unilateral. Prefere dar voz a um só lado como se quisesse não complicar ou aliviar o discurso informativo. Mas, pior do que ser unilateral, é a informação deficiente. Omite factos que muitos anos depois, quando esses factos já não incomodam, acabam por ser divulgados entre alguma selecta minoria.
Sempre em crescendo, esta evolução tem um resultado cada vez mais óbvio e sensível: as massas afundam-se na ignorância espessa dos que se contentam com pão e circo, enquanto o acesso ao conhecimento dos factos e das realidades do mundo se torna fragmentário e rarefeito no interior de segmentos socioculturais restritos pouco menos que residuais.
A memória dos acontecimentos históricos contemporâneos anda assim a dissipar-se, levada por ventos erosivos cujas consequências poucos cuidam de medir em todos os seus alcances. Mas uma pessoa suficientemente idosa e que tenha permanecido atenta aos acontecimentos sente-se um pouco memória viva. O seu tempo é já tempo da história, podendo por isso lembrar, por exemplo, as mordaças da censura salazarista, o broto revolucionário do 25 de Abril e o baile mandado que se seguiu.
Lembrará também o que foi a descolonização em África. Precisará, porém, de ver num canal popular de tv, de sinal não aberto, um surpreendente trabalho sobre a situação na República Democrática do Congo para despertar. Português, europeu, percebe de súbito que esteve alheado daquela situação devido a um boicote informativo, porque é ingrato, melindroso, falar na Europa de assuntos africanos...
Complexos de culpa que sobram do egoísmo. Mas a situação no Congo-Kinshasa que o vídeo mostrava era terrífico, a extensão do horror acabrunhante. O banditismo generalizado, a violência sem freio, o caos total. Tomada de reféns, violações, escravatura. Miséria infernal e sem lei. Soou como um grito poderoso, lancinante, a reclamar: como é possível?, como é possível?, e nós por aqui sem saber de nada?
Foi então o momento de lembrar o título de um livro de Sidónio Muralha (1920-1982), escritor português neo-realista injustamente esquecido, e colá-lo em título desta crónica. E depois prosseguir nas lembranças para avaliar todo o sofrimento que os povos daquela antiga colónia têm vindo a suportar perante a gelada indiferença dos democratas, defensores de direitos humanos e de tanta civilização exemplar.
Atrocidades horríveis contra os africanos começaram, ao que se sabe, quando em 1884 a Conferência de Berlim outorgou ao rei belga Leopoldo II o Estado Livre do Congo como património pessoal. Época linda! Em 1908 a colónia passou a ser controlada pelo Parlamento belga mas no essencial a situação persistiu até à independência, em 1960. A conspiração imperialista interveio, o Catanga declarou-se independente, o primeiro-ministro Patrice Lumumba (2-7-1925-17-1-1961) é abatido (ele que proclamara à entrada: «A independência política não é suficiente para libertar a África do seu passado colonial, era também preciso que a África deixasse de ser controlada economicamente pela Europa»).
Na verdade, na República Democrática do Congo estavam e continuam a estar instalados poderosos interesses europeus e americanos. Exploram petróleo, ouro, diamantes e outras produções minerais, recursos florestais, etc. Pode-se dizer que a incrível miséria dos congoleses e dos bárbaros e escandalosos sofrimentos que lhes são impostos se explicam somente porque o seu país é soberbamente rico.