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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O cronista suspende-se

Não é por canseira, esgotamento de forças. É por esgotamento das suas pessoais reservas de pachorra. Esvaíram-se, gastas até ao sabugo, nos últimos anos, por joguinhos cibernéticos de gato a brincar com o rato.
O rato estava nesta coluna a coçar os dentes nas letras que dispunha em linhas horizontais, que são a posição de equilíbrio, e o trapezista cibernético, sentado ao computador talvez do outro lado do oceano, num outro continente, divertia-se. Uma vez este blogue ficou bloqueado. Outra vez, e outra vez, o rato via-se sem internet ou o seu computador se engasgava… enquanto o nariz, cheirando, o advertia “aqui há gato”!
Mas onde já vai isso do “teu” computador? Compraste-o, pagaste-o, é teu, até o identificas com o teu nome, e depois descobres com indignação e espanto que o tens em casa ao serviço de gente desconhecida. A trabalhar ao serviço de interesses desconhecidos.
Estás a dormir tranquilamente, com tudo apagado e em silêncio? Alguém tem artes secretas de ligar o teu computador, usa a bateria e a placa de rede sem fios e acede aos teus dados. Rouba para abrir ou actualizar a tua ficha (à ordem do Grande Irmão).
Querem saber o que consomes, o que fazes e o que pensas, do que gostas, com quem convives, as viagens que fazes… Quererão mesmo saber quanto tens no banco? Querem saber tudo!
Ora se o rato, cronicando há já mais de nove anos, não esconde que é de esquerda num mundo que vira radicalmente para a direita (lembrando que a Democracia não é bem garantido para sempre). Exerceu somente o direito à livre expressão cidadã? Pois sim, mas despertou a atenção.
Conquistou visitantes-leitores em quantidades significativas nas três maiores potências mundiais. Entrou em cena o famoso algoritmo informático e, cronicando, o rato viu-se com a sua sombra ampliada, assustadora, estendida à frente dos pés. Era, assumidamente, espectador-actor participante, ou seja, um espectator, mas, caramba, os Estados Unidos, a Rússia e a China façam o favorzinho, entendam-se!
O rato pensa que fez a parte que lhe cabia. Recebeu aqui muitas dezenas de milhares de visitantes-leitores e chegará em breve ao seu 87º aniversário. Chega?
Talvez não, porque, ponhamos por exemplo o esmagamento e a eliminação, passo a passo, da Palestina e do seu povo é um caso dos mais espantosos e terríveis dos últimos setenta anos do mundo dito civilizado. Quer dizer, há questões que interpelam assolando a consciência da humanidade inteira. E assim o rato deixa escrita no ar com luz laser, em suspensão, a despedida:
- Até mais ver!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Uma sombra assustadora


Assustou-se. Viu a sua sombra estender-se na rua, alongar-se prodigiosamente diante dos seus passos, muitos metros à frente. Tornara-se grande, uma pessoa altíssima: ocupava espaço excessivo, portanto… cuidado!
Sentiu-se em perigo. Parou, pensativo, a estudar a sombra imóvel, invadido por uma espécie de remorso, uma sensação de culpa. Daí o susto, o alarme.
O sol estava a pôr-se e o dia ameno naquele fim de tarde, mas, ainda assim, de súbito, o instinto acordara-o. Prevenia: estava a exceder-se, a expor-se a complicações, a experiência acumulada advertia-o: atenção, cuidado!
Não devia avantajar-se, ser maior do que era, e ele via-se prolongado em altura, ali mesmo à frente, cinco ou seis metros. De pouco ou nada valia pensar que era uma sombra que iria desaparecer com a noite ou que era figura irreconhecível, anónima. Mas ele estava a ver-se, reconhecia-se naquela sombra verdadeiramente assustadora, era dele, a sua figura estampada no passeio da rua, caminho dos seus passos.
Projectar-se em público envolvia riscos. Era um espaço habitado por gente privilegiada, possuidora de um dom qualquer, não por si. Ele morava do lado da multidão espessa, que inveja os privilégios alheios e briga contra quantos os têm, considerando que as figuras mediáticas constantemente em exibição vivem ricamente refasteladas na imoralidade e na devassidão.
Sentiam que o seu barco ia naufragar mas continuavam a acotovelar-se na praça-palco que ocupavam e o espectáculo prosseguia porque à multidão espessa pouco mais era dado ver. Mas era no ambiente das figuras mediáticas, ali, no espaço público, que estavam os sinais todos da decadência. Agora, como nos tempos de antigamente, a decadência aparecia quando a imoralidade, a devassidão, a homossexualidade se tornam de regra, a exemplo do que acontecia na capital helénica (apesar de “vencida, vencer”), eclipsada por Roma, antes sua colónia, outra metrópole apagada com a decadência do império…
Sim, ele lera uns livros, conhecia umas histórias, por isso se defendia rijamente do espaço público, com o qual nada queria assim dominado por quem fabrica diariamente a opinião dita popular comendo à tripa forra à sua mesa. Sim, ele temia deveras a projecção pública da sua figura, uma projecção é sempre uma ampliação e, portanto,
uma duplicação (uma duplicidade: o ventríloquo e o seu boneco). Pretendia simplesmente ser quem era, no seu tamanho natural sem retoques fotogénicos, efeitos de luz ou recursos de make-up.
Pretendia, afinal, evitar a selva onde havia licença para caçar todo o ano disparando contra o que apetecia abater. Ele apostava tudo em quem mais estimava e melhor conhecia: aquela figura vulgar que encontrava de manhã no espelho e que, na penumbra do anonimato, dentro da multidão espessa, queria continuar.
[Foto - parcial - de Rod.Costa.]

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

A plasticidade da Crónica

A vontade de cronicar persegue o cronista. Já editou aqui, página a página, umas largas centenas e no entanto cá está ele outra vez a matutar. O que tornará tão atractivas estas prosas?
É ponto assente, são textos que ficam a meia distância entre jornalismo e literatura. Pelo jornalismo por renderem tributo, até pelo designativo, ao deus Cronos e, portanto, serem tão efémeros quão as notícias do dia ou as frutas da época; pela literatura por se vestirem com halos ora de ficção, ora de poesia, ou do que esteja ao alcance do autor. Óbvio: trata-se de um híbrido versátil, resistente produto da mestiçagem de dois géneros.
A Crónica tem tanta plasticidade que serve para tudo, incluindo mesmo o nada. Para mim, tem servido amiúde para registar as evoluções e revoluções do nosso tempo (no meu caso, tempo longo: nasci em 1930). O conjunto será uma espécie de palimpsesto em continuada renovação ou um “diário” nada íntimo posto em público por espectactor que testemunha.
Quem anda há anos a cronicar ou a ler crónicas já percebeu que algo da urdidura literária se lhe associa naturalmente. Quer dizer, também não dispensa o fermento para levedar a massa do texto que vai ao forno para sair pronto. Mas algo mais parece avizinhar-se do específico literário quando o autor ensaia a forma adequada como irá abordar o seu tema ou assunto – digamos que “encena” o texto a apresentar no “palco” da página.
No fundo, o autor “encena” realmente o seu texto ao procurar a forma ajustada à expressão formal que procura. Sente afinal que não está a escrever um artigo de opinião política, uma reportagem ou uma carta à família. Quer escrever conforme deseja e é então que percebe que a Crónica obedece a um registo preciso, portanto a uma estética.
Naturalmente, assume infinitas variantes, infindáveis tonalidades no leque extensíssimo dos seus praticantes actuais e de sempre. Contudo, podendo ser dramática ou pueril, atormentada ou lírica, nostálgica ou pessimista conforme a disposição do humor de cada autor a cada hora, a Crónica mantém a sua fisionomia reconhecível. Por ela mesma a identificamos e celebramos.
Tão amigo de cronicar como sou (até imaginei um dia compor um romance apenas com crónicas, lembram-se?), obriga-me a registar que não encontrei estas ideias sobre a Crónica em nenhum lado. São da minha cabeça, portanto originais. Se alguma meninge adormecida no recôndito de um cérebro acordar e a roda gigante de Londres começar a girar simultaneamente, a mim caberá toda a responsabilidade pelos dois milagres.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Em louvor da memória

memória.jpgDamos pouquíssima atenção à memória que temos a funcionar no cérebro. Tão natural e continuadamente, e tão intensamente a usamos que nem podemos, por um momento sequer, atentar no que em nós funciona. Apenas ficamos aterrados se acaso se nos apaga deixando às escuras num espaço vazio…

Um clássico francês do período iluminista, querendo divertir-se, escreveu um livro sobre o que aconteceria se as pessoas perdessem a memória. Os patrões não distinguiriam os seus empregados dos clientes nem suas mulheres os maridos, os comerciantes os preços das mercadorias… Seria a confusão total.
De certo modo, talvez possamos ver a memória no centro fulcral do que uma pessoa é com o seu passado, o seu presente e o projecto de vida futura que tenha em mente. Lembra-se do seu nome para dizer quem é. A sua identidade engloba tudo quanto memoriza, conheceu e consegue recordar, incluso o rosto que lhe aparece no espelho a cada novo dia.
É, evidentemente, uma função do cérebro de capital valor. O tempo vivido parece constituir-se no indivíduo em camadas sucessivas, de tal maneira que, ao recordar algo muito antigo, terá a sensação de uma proporcional “descida”, como se a memória pudesse ser descascada, camada a camada, como as cebolas. Então, por mais que descasque, por mais que “desça” às funduras, a memória, inesgotável, continua presa nos meandros dos seus próprios corredores e labirintos.
Há umas dezenas de anos ainda havia quem defendesse a teoria dos “três cérebros” presentes no homo sapiens sapiens, logo, na espécie humana actual. Seriam eles o “cérebro reptiliano” e os seguintes herdados da nossa evolução antropológica; poderiam contribuir para o estudo científico de alguns casos de características comportamentais remanescentes. Mas o vento arrumou a teoria.
A complexidade do cérebro humano tem na capacidade funcional da memória uma imagem expressiva. Foi essa, sem dúvida, a intenção primeira do autor iluminista que li há quase setenta anos (Voltaire?) e que agora, por pirraça, a minha memória não me deixa citar. Imaginou uma situação verdadeiramente hipotética e descreveu as possíveis consequências.
José Saramago fez outro tanto ao escrever, por exemplo, os romances em que imagina uma população toda condenada à cegueira e a península ibérica separada de França, à deriva no Atlântico. Todavia, o autor francês conseguiu demonstrar bem, com fino humor, que todos os homens nascem iguais e que a desigualdade social vem depois… com a memória. Estamos em época de extremadas desigualdades, mas aqui fica, para o que hoje me falta, um louvor!

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A passageira do autocarro

escultura.jpgNaquela manhã o autocarro já vinha cheio e na paragem ficou congestionado. As pessoas comprimiram-se, contrafeitas, no corredor e junto à saída, onde podiam estar de pé. O autocarro arrancou pesadamente e logo alguém anunciou que ia ali uma mãe com bebé ao colo.

Cena vulgar: quem ouviu permaneceu sentado, na lógica ilógica que torna uma regra que a todos incumbe obrigação de ninguém. Até os ocupantes dos quatro lugares obviamente destinados a grávidas, mães com filhos ou incapacitados em cadeira de rodas, continuaram ausentes. Então uma passageira de pé comentou: “Não sabe dar aos outros quem ainda menos sabe dar a si mesmo.”
Cabeças e ombros do grupo que se comprimia ondeavam com os solavancos e as travagens como limos em pedras escovados pela corrente fluvial. Outro passageiro, gracejando, introduziu o vernáculo popular. Apontou com o queixo e comentou: “Aqueles quatro nem com o rabo sabem ler!”
Também ele ia no grupo de pé. Olhou com atenção: a senhora que falara tinha no semblante uma serenidade especial. Aliás, no seu comentário parecia não haver a usual crítica ou censura, apenas um triste lamento perante a pobreza exposta.
Era invulgar. Mas ele sentiu no dito da senhora um eco, uma reminiscência que de súbito o ligou a uma vivência e mesmo a um conjunto semântico, palavras carregadas de sentido especial, e a memória acordou-lhe um tempo remoto. Bastante remoto, sim, de quando estudou história e filosofia dialéctica.
Trocou um olhar com a senhora. Realmente, poder dar e poder receber, incluindo a nós próprios, o que sobretudo nos falta e nos faz bem, é muito mais difícil do que parece. Era isto que ele presumia que ela quis dizer.
Ceder a outrem é também, dialecticamente, ceder a si próprio, pessoa entre pessoas decerto não menos carecida de tolerância bem como da compreensão que pode dar aos outros e que, afinal, nunca será melhor do que a que dá a si próprio. Aquela senhora mostrava, portanto, uma consciência dialéctica que lhe permitia iluminar estas questões. Entretanto, o autocarro aliviou-se numas paragens e ele conseguiu aproximar-se.
A senhora conversava com outra passageira e ele, ouvindo-a, confirmava as suas impressões. Porém, a outra alardeou: “Gostava de a ter como amiga!” Ele não se conteve: “E eu apreciaria ter uma mulher como a senhora por perto!”
Mas ela de repente chegou ao destino, saiu apressada e, já a seguir pelo passeio, acenou com a mão de um certo modo. Lembrou-lhe: como pretendia Vinicius de Morais, quando se encontra um novo amigo, não se conhece, reconhece-se. [Imagem: Arte em espaço público: escultura-abrigo.]

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Considerando a Vida...


planeta.jpg
A notícia correu há dias e… qual a novidade? Nenhuma. Apenas a de que a sonda Kepler, disparada há anos para fora do nosso sistema planetário - ou seja, para lá do cantinho onde o planeta azul gira a circundar o Sol, o nosso solzinho que tanto nos atrai e anda a esconder-se atrás de nuvens invernosas desta Primavera sombria – que a sonda, dizia, funcionava e que enviara imagens de muitos outros sóis também com sistemas planetários e planetas provavelmente idênticos à mãe-Terra…
Ora pois, novidade nenhuma. Qualquer cabeça munida de cultura geral suficiente não ignora com certeza que abundam no cosmos milhões e milhões de estrelas, sóis e mais sóis a brilhar dentro dos seus sistemas planetários. De resto, basta abrir bem os olhos e considerar o céu cósmico onde avulta a esplendorosa “estrada de Santiago”, designação de antigos caminheiros em peregrinação a Santiago de Compostela que corresponde, em astronomia, à galáxia inteira onde o nosso sol ocupa um cantinho…
Considerar o céu, disse, praticando conscientemente um pleonasmo, porque con-siderar é, etimologicamente, estar com o sidério, espaço sideral tão vasto e maravilhoso que por vezes até podemos ficar em contemplação, siderados (perplexos, atónitos, atordoados, fulminados). Realmente, a sonda Kepler apenas atingiu os arredores do nosso sistema planetário e recolheu imagens do que sabemos que por lá existe. Na galáxia a que pertencemos existem milhões e milhões de incontáveis sóis e planetas, buracos negros poderosos que tudo engolem, e, mais longe, outras galáxias, algumas em espectacular colisão e, sobretudo, espaço, imenso espaço, infinito espaço em expansão.
A experiência viva que um mínimo de conhecimento astronómico nos pode dar conduz inevitavelmente à percepção de que não será colada à dimensão terrena que uma consciência humana chegará a compreender algo do fenómeno Vida. Carl Sagan gostava de dizer que somos feitos da matéria das estrelas. É uma boa forma de dizer o mesmo.
Precisamos de dilatar a imaginação pela imensidão celeste (mexer as pernas da imaginação é exercício dos mais salutares!): por exemplo, atravessar a nossa galáxia no seu ponto mais estreito, demoraria, em anos-luz, tão poucos que pudessem caber na escala humana mais louca? Iremos deparar-nos com a questão essencial: quem somos, o que fazemos aqui. A resposta está na abóbada cósmica, povoada por matéria nas variadas formas que pode assumir; matéria, leite materno, afinal indestrutível, só transformável; matéria que é, na sua outra dimensão, espaço-tempo.
Nota final. Escrevi estas linhas evocando o saudoso amigo arqº Fernando Lanhas, pintor de múltiplas ocupações e preocupações, imaginando-o em conversa comigo e sentindo a falta que me faz.

segunda-feira, 28 de março de 2016

O meu gato

gato.jpgO meu gato é selvagem. Vive na rua, é um pobre sem-abrigo, sem regaço nem almofada para ronronar numas sonecas. Conhecemo-nos há uns anos e somos amigos, ele lá fora no cantinho abrigado onde apanha sol e eu, aqui à janela, civilizado a imaginar-me também selvagem, a vê-lo.
Somos, pelos vistos, dois solitários. Assomo à janela, a meio da tarde neste limiar da Primavera, e ele ali está, a vinte metros de distância, sozinho, quase imóvel, aquecendo-se. Mas, dizendo eu que é “o meu gato”, esclareço que é assim como falo do meu amigo Alcides ou do amigo Andrade, um na margem sul do rio e o outro do lado extremo do oceano e do seu continente.

Porque, não há dúvida, este gato, malhado, quer ser mesmo um autêntico radical. Ter toda a liberdade, toda a independência. Um dia apareceu ali acompanhado por outro felídeo, seria uma gata namoradeira, tomou o seu banho de sol afastando-a meio metro, as tardes seguintes foram de feliz noivado, mas logo depois a bichana, descontente ou desiludida, desapareceu.

Este gato é dos que caem sempre de pé. Para chegar ao seu lugar ao sol tem que trepar, na rua, uma parede alta. Mas ele, no passeio, afasta-se medindo a distância, apoia-se nas patas traseiras e dispara o salto já de unhas afiadas para, como alpinista, marinhar muro acima e saltar para o interior do terreno.

Evidentemente, aquele lugar foi escolhido com a maior exigência. É um pedaço de cimento liso, na orla de um matagal bravio em terreno abandonado onde não é fácil penetrar nem foi fácil descobrir. E aquele pedaço liso, e limpo, fica no sopé de uma parede virada a sul onde o sol refulge, glorioso, toda a tarde.
Quentinho e sossegado para estar com o lado bom da vida. Não é fácil isto, não, ao que se vê por aí, tanta carne viva a arder nas chamas das fogueiras do burnout. Mas este gato sem nome sabe bem o que quer, sabendo querer pouco.
Descansa dormitando, de rabo encolhido, patinhas dobradas e a cabeça quase parada mas de atenção desperta. Uma única vez, porém, ergueu os olhos para a minha janela, olhámo-nos naquele instante e demo-nos a conhecer. Passou então a ser o meu gato.
Penso que ele consegue o milagre de saber tudo quanto precisa de saber. Não o posso garantir, mas talvez ele, ali cavilando, filosofe. Muda de sítio, deita-se agora num outro bocado de cimento batido pelo sol, talvez se inquiete com os refugiados da guerra que a Europa expulsa, com os palestinianos da pátria ocupada, com a situação no Iraque e na Líbia, com a paralisação global da economia e o poder sem freio da alta finança internacional que abraça asfixiando o mundo…

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

A tineta da Crónica


Os leitores que acompanham de algum modo o que tenho vindo a publicar conhecem-me a tineta: parece que fiquei amarrado com juras de amor eterno à Crónica. O Conto e outros géneros literários também aparecem na minha bibliografia mas, ai de mim, é a Crónica que sobressai no conjunto. Ora isto não serve para graduar um autor pois, como muito bem realçou o amigo Arnaldo Saraiva na apresentação que estou a lembrar de obra de um conceituado cronista brasileiro, apenas o Romance pode distinguir o escritor com o autêntico selo literário.

Flores,Açores.jpgIgnoro se o autor brasileiro, ali presente, engoliu em seco. Eu concordei de boamente, conformado com a modéstia da condição que aliás reivindico, percebendo no entanto que nesse ponto exacto coloco a pedra angular do que é e vale para mim a Literatura. Afinal - e aqui está o busílis – importa-me tão pouco ser escritor distinguido na feira das vaidades!
Venho de um tempo em que os autores, incluídos os principais, quase pareciam fugir da “visibilidade” que os autores de hoje tanto perseguem. Colocavam-se por trás do que escreviam, esperando que os seus trabalhos circulassem e brilhassem, não a própria pessoa escrevente recolhida em penates. Os escritores dispensavam-se então de acções de public relations, isto é, de circular em postura bem falante e poses mediáticas porque a Literatura não existia ainda como espectáculo nesta sociedade que tudo mercantiliza (outrora acontecia isto: Jorge Amado causou escândalo porque perguntou ao seu editor, F. Lyon de Castro, à chegada ao aeroporto da Portela, se os seus livros vendiam bem – e ainda não chegara a Gabriela Cravo e Canela).
Virei contra mim a fragmentação que, página a página (centenas e centenas, de espetactor no seu mundo),  andei a praticar levado nas ondas de um entusiasmo, uma respiração voluntarista que me afastou sempre da realização de obra de largo fôlego (o romance). Quer dizer, não produzi volume memorável, negligenciei a famosa “visibilidade”. Realmente, muito pouco me interessou ganhar - ganhar fama, protagonismo, dinheiro, honrarias – e, muito mais, seguir a minha estrela.
Todavia, não lamento coisa nenhuma neste percurso; ao invés, apraz-me provir de um tempo em que os bons escritores eram remunerados conforme o que escreviam, de maneira que posso agora perceber quanto dano causou a vulgarização que banalizou a Literatura. Sim, agora há muitos mais autores mas o número dos autores presentes no mercado e em concorrência acesa aumentou paralelamente, provocando uma diminuição geral do valor dos seus trabalhos e expandindo o costume (vicioso) das colaborações não pagas. Ganhar “visibilidade” na praça, exibir a “marca” que é o nome de cada autor tornou-se investimento difícil mas vital como garantia de futuro…

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Para quem escrevo

IM000190.jpg
Ao iniciar um texto, disponho-me a escrever para toda a gente. Algo me convence (um heróico optimismo?) de que é importante lançar umas considerações sobre o assunto que me ocupa e que se me afiguram de interesse geral. Porém, a disposição esvai-se logo com as ideias envolvidas nas primeiras frases: não é mais possível acreditar que vou poder atingir (merecer) a generalidade dos leitores.
Terminado, um texto (a página da crónica), parte em voo solto como canção nova que esvoaça na rua e quer chegar a ouvidos que a façam sua. Sendo como é, agradará mais ou menos ou deixará na indiferença quem alcance, assim, naturalmente, pois o texto se apresenta revestido de uma fisionomia própria, que é ou será a da personalidade de quem o escreveu. Não será apenas pelo tema abordado, a perspectiva específica ali esboçada ou a expressão verbal do autor: será o todo que se funde no texto.
No que escrevo, não pesco à linha com isco de eficácia garantida e, muito menos, com rede de arrasto e malha estreita que deixa os fundos varridos. Sei o que todos sabemos, que nenhuma página consegue interessar e, cumulativamente, agradar a todos que a leiam, pelo que, acima de tudo, me importa garantir a quem chega à minha página tanta liberdade quanta a que eu tive na escrita. Porém, se então ocorre o encontro do texto com o leitor que o faz “seu”, esse texto encontrou plenamente o destinatário que desejava e eu para quem o escrevi.
Tais encontros terão decerto alguma coisinha de epifânico. Logo, um texto pode permanecer longamente sem encontrar disponível o leitor a que aspira. Escasseia espaço nos circuitos da leitura onde tantos leitores parecem precisar de ser atraídos, seduzidos e mesmo enganados por imagens e jogos de retórica fácil que os divirtam.
Confesso: em primeiro lugar, escrevo para mim (mas, pequeno como sou, devo ter assimilado muita gente na minha pequenez, os muitos autores que li, admirei e me formaram o gosto). Em último lugar, ao terminar o texto continuo a escrever-me a mim próprio. Porque, em boa verdade, espero que os meus escritos sejam avaliados e valham pelo que de intrínseco possuam, não pela cara do escrevente (afinal bem pouco conhecida ou mediática: gosto deveras de andar incógnito pela rua).
Há pessoas, umas quantas raridades, que nunca pretenderam ser mais do que eram per se, na sua radical simplicidade. Escrevem como quem se analisa ao espelho da sua consciência e, incessantemente, se interroga “quem és?” porque essa é a questão fundamental que procuram esclarecer. Por algum motivo eu já punha em título (crónica de 02-07-2008) a declaração: “Estou no que escrevo”.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Combustão humana


Estas duas palavras até podem parecer mas não são metáfora para as massas migrantes que podem fugir das devastações causadas pelas guerras do capitalismo globalista e que cruzam o Mediterrâneo já não berço, e sim, agora, cemitério da civilização. Uma crónica intitulada “Humanidade combustível” foi escrita por mim creio que em 1960 para o “Jornal de Notícias” do qual era então colaborador semanal. Porém, o regime da Censura prévia interditou a publicação e o jornal enviou-me a prova tipográfica. O texto permaneceu inédito até data recente, pois o Museu do Neo-Realismo reproduziu a prova (que guardei e depois doei, junto com outro espólio, ao Museu) no livrinho com que acompanhou a exposição documental denominada “Uma vida como obra”. Dali transcrevo os parágrafos iniciais.

“Quem pôde abeirar-se, no último Inverno, dum bom fogão de lenha crepitante e se deteve uns minutos a observar o bailado das línguas de fogo consumindo as achas, deve ter pensado que estava ali uma imagem da vida.
Com efeito, a vida é uma acha que incandesce os homens à nascença e depois, ao longo dos anos, os vai percorrendo e devorando, transformando-os em archotes ardentes. Que são os velhos senão tições de brasa morrediça no meio das cinzas? Que são os homens irrealizados, frustrados por mutilações sem remédio senão achas húmidas que jamais tiveram um calor benfazejo que as secasse?
Arder é, pois, o destino unânime de todos os homens. Existimos ardendo, consumindo a matéria que nos faz, confiando-nos à fogueira que nos habita, à vida que, afinal, servimos. Somos pasto das chamas que, empolgando-nos, nos libertam. Se há homens que se poupam à destruição, crendo ingenuamente garantir-se uma durabilidade, tais homens iludem o sentido do seu destino, traem-se de algum modo a si mesmos.
À semelhança de algumas achas que alimentam as cálidas fogueiras de salão ou de borralho rural, há homens que não “ardem” tão bem como outros. Esses não amam o fogo quanto ele revela de insano, irremediável, definitivo. Incombustíveis, o fogo da vida apenas os chamusca…
É digno de nota o facto de uma acha sozinha não arder facilmente. As achas ardem na fogueira porque fabricam e repartem calor entre si, porque se irmanizam no sacrifício capital, ajuntando-se mutuamente para guardarem no centro o potencial calorífico necessário ao atear da fogueira. Um graveto sozinho não arde porque lhe falta exactamente o concurso, a solidária adesão de outros gravetos em número capaz de fazer monte e crepitar.
Podemos aplicar este fenómeno às relações humanas. Ninguém se realiza isoladamente, eis o caso. Um homem só é sempre um homem diminuído na sua humanidade. É repartindo o seu calor fraternal que os homens dignificam a vida que é deles, mas que é de todos, enriquecendo-se termicamente”…

quinta-feira, 14 de maio de 2015

O autor de “best-sellers”

Da primeira vez que o olhar lhe caiu no rosto estampado a preto e branco em toda a página e leu a frase, sorriu, da segunda vez achou piada ao homem, mas à terceira ficou a pensar, o caso não era para menos, uma grande editora do país, que publicava o retrato em catálogo de saldos, inseria na imagem a frase estupenda: “Contar histórias é um dom concedido por Deus”, portanto, ele, romancista, contador de histórias, estava impregnado por divino dom, era quase um taumaturgo a fabular como um xamã ancestral nas sociedades tecnocráticas actuais, lembrava aqueles fidalgos antigos que juntavam ao palacete uma devota capelinha de cruz ao alto na frontaria a indicar que Deus estava com o senhor da casa e que com o carisma que Deus lhe concedia chegara a rico, decerto Deus, com os pobres, punha-se a olhar para o lado, mas este contador de histórias não exibia cara reconhecível de fidalgo, tinha uma pele tisnada, fina e muito enrugada, vincos na testa verticais e horizontais, um tecido de rugas e, nas órbitas, um olhar fixo e firme, inclemente, capaz de perseguir algum fugitivo por todos os cantos da casa, não, uma cara destas não pertencia a americano que nos aparece depois de exercer uma quantidade de profissões extraordinárias e de atravessar sozinho um deserto poeirento montado no seu cavalo tristonho levando na bandoleira o rifle e o revólver no coldre, será mais certamente um inglês conservador até à medula, apoiante ferrenho da monarquia britânica, porque, se assim não fosse, como poderia o homem pretender possuir um dom prodigioso para contar histórias quando, no catálogo dos saldos, a editora anuncia mais de duzentos livros com preços reduzidos para metade, ali havia ficções para todos os gostos, ficções traduzidas para o nosso idioma ou de nossa autoria e quando já tanta gente quer ganhar a vida singelamente a contar histórias, até os autores de cantigas se pretendem escritores de canções e contadores de histórias, e, vejamos, não estavam todas as histórias possíveis do mundo já esgotadas até ao sabugo e o mercado a abarrotar de histórias gastas sem novas histórias para contar?, ou seria aquele mirífico “dom concedido por Deus” mera esperteza do escritor sabido, atentíssimo às volições das preferências e dos gostos do mercado, que o elevava à categoria de autor de best-sellers internacional, um romancista famoso, traduzido em todo o mundo, portanto lido em variadíssimos idiomas e países, de Tóquio a Londres, de Paris a Nova Iorque, de Moscovo a Sidney, de Santiago do Chile a Oslo, da Manchúria à Conchinchina?, talento altamente rendoso e altamente apreciado pelas editoras de livros de todos os países que se esforçam ao serviço dos leitores com obras cada vez menos sortidas, isto é, menos variadas, procurando decerto realizar um sonho, pôr todo o mundo globalizado a ler um mesmo livro, ou um reduzido número de livros decantados pelas dinâmicas do mercado, quer dizer, expurgados de perturbadoras dissemelhanças, da autoria feliz de uns poucos fabricantes de best-sellers mundiais.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Folhinha ao sol


Uma pequeníssima vibração. Ou mero pressentimen-to? Todavia, a ponta de uma raiz, e logo outra e outra, estremunharam. Saíram da letargia a indagar: o que acontecia em redor?
Quase nada. O terreno deixara de ser pisado havia tempo e chuvas abundantes tornaram-no frescal.
Sumidas na escuridão da terra, algumas raízes do esporo perceberam a subtil mudança e aproveitaram-na. De facto, sabiam tudo quanto deviam saber. Cresceram na direcção certa, a porta rente ao passeio da rua que abria o terreno a quem entrasse. Mas a porta, imobilizada, cobria-se de musgo porque o terreno estava ao abandono.
Pela fresta da porta suspensa na moldura entrava uma claridade apetecível e foi para ela que sem erro se orientou o esporo. Metido na terra, sentiu a força do seu chamamento fazendo surgir à superfície uma pequenina cabeça.
Gente a passar tê-la-ia esmagado se antes ousasse irromper ali, rente à porta, na terra endurecida, mas agora desenvolve-se, viceja. Já aponta para a fresta um brotinho vegetal que pouco a pouco se estende e alarga. E mostra, nascente, uma folhinha. 
Tenra folhinha sem idade, que esboça um tom verdoso ainda esbranquiçado enquanto, crescendo, se aproxima da fresta para receber a iluminação vinda do exterior. Já chega à porta, a brisa percorre-lhe suavemente o dorso arqueado que aponta para a luz e cresce mais, estende-se, atravessa a linha que separa a penumbra interior do esplendor da rua, e toca com a ponta o ambiente pleno, a liberdade. 
Atinge por fim o cálido e brilhante sol. Recebe-o na parte exposta, que se expande, transformada em colector solar à ordem das raízes, e a folhinha avança mais por cima do passeio. 
Foi essa a folhinha que um cronista viu, brotando e verdejando por baixo da porta fechada. Uma folhinha carnuda, cheia de seiva fresca, à espreita, a espirrar verdura. 
O cronista sentiu um abalo íntimo. Parou. A folhinha parecia luzir de alegria no sáfaro cimento urbano, pois era, ali, a única afirmação de vida. 
A olhar, parado, o homem emocionou-se. Percorria aquela rua nos seus trajectos habituais, a pensar na próxima página que iria escrever (porque uma crónica por semana era, para ele, preocupação diária), mas sentiu-se inundado de compaixão, uma compaixão decerto tola e piegas, pois o alvoroçou a ideia de que os passos cegos dos transeuntes iriam calcar contra a dureza do cimento aquela tenra folhinha tão atrevida que assomava ao sol. 
O homem escrevia sobre os graves problemas do mundo, o perigo de uma terceira guerra mundial e a necessidade da paz, a urgente defesa do ambiente planetário, a violência que se generaliza, a justiça que escasseia. O homem, contemplativo, avaliou de repente toda a sabedoria de um esporo. Então decidiu: recusou grandiosos temas porque… a sua última página lhe aparecia escrita numa simples folhinha.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Após consoar, veja a língua

A noite da consoada é costume antigo que o calendário marca uns dias depois da entrada do solstício de inverno. Mas em que medida o costume é antigo? A questão está contida na própria palavra que designa o costume e, como tantas vezes acontece em casos tais, a sua origem etimológica parece incerta e nebulosa.

Os linguístas têm-se desunhado a escabichar e apenas topam as mais recuadas referências ao substantivo em textos do século XIII. Já o verbo consoar aparece em registo do século XV e por sinal com duplo significado: partilhar a consoada; soar juntamente, rimar (do lat. cum+sonare). Em que ficamos, então, sobre o costume que o Dicionário da Porto Editora descreve como a “pequena refeição que se toma à noite, nos dias de jejum; ceia em família, na noite de Natal; presente que se dá pelo Natal”.
Certamente, a alusão a pequena refeição à noite em dias de jejum, em face da actual vertigem consumista até pode parecer uma piada. Os grandes centros comerciais e lojas pejaram-se de multidões em frenesins de compras, prendinhas e mais prendinhas para contemplar toda a família e outra gente prendada. É de crer que a totalidade de smartphones e quejandos aparelhos com ligação à Net já vendidos tenha excedido, nesta data, a cifra estatística da população portuguesa, incluída a emigrada!
Crise? Onde está a crise?, perguntam o desempregado, o pobre pensionista, o subsidiado de rendimento mínimo, o estagiário não remunerado. Talvez estejam em acreditar nos especialistas de saúde mental do país que consideram a população nacional afectada nuns 40% de casos.
Evidentemente, as intoxicantes campanhas publicitárias lançadas pelas empresas conquistam resultados. Lançam modas e seduções (“dias” dos papás e das mamãs, dos namorados, etc.) e há gente que morde o isco, a moda pega, opera-se a massificação do consumo no mercado massificado. Consumir, consumir, é ou parece ser o supremo desígnio de massa acéfala que vai em frente: avança às cegas porque sim, todos correndo uns atrás dos outros, contentes por irem no rebanho.
Todavia, se a noite de consoada junta a família à luz do novo solstício que vai alargar a duração dos nossos dias até ao pino do Verão, viva o Natal! Ora aos linguístas não passa despercebido um pormenor: o substantivo consoada é anterior ao verbo consoar uns séculos. O costume da substanciosa e fraterna ceia em família pode não ser tão antigo quanto isso, mas a acção do verbo propriamente dita (agora a deixar os lares e a preferir os hotéis) é bem mais recente…

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Eremita em sua casa

Estou perto de um homem que vive como um eremita. Único habitante da sua ampla casa recheada de livros, é na clausura daquelas paredes que parece usufruir da liberdade de que precisa e soube conquistar. Liberdade, afinal, varrida quanto baste dos ruídos de um mundo em agónica convulsão.
O homem trabalhou longamente até ganhar, no termo da carreira, o remanso do seu recolhimento que, aliás, quer manter produtivo, criador. Para trás deixou a docência superior e universitária consagrada à formação de formadores e apostada, dir-se-ia, na melhor qualificação do sistema escolar nacional. Antecipou um pouco, vencido mas não convencido, a retirada a fim de poder continuar com esperança num afã que, apesar de tudo, pode realmente valer a pena.
É autor de uma notável lista obras publicadas mas insiste em se considerar um mero “escrivedor”. Desiludiu-se da edição literária massificada e consumista ao ponto de as suas obras desaparecerem do mercado livreiro normal. Não circulam e raras vezes aparecem nos catálogos dos alfarrabistas; logo, como autor, anda “invisível”.
Mas, na sua condição de eremita, continua a trabalhar. Agora centrado, como leitor, em clássicos dos séculos XV e XVI que lê nos originais grego ou latino, e como tradutor, vertendo-os para Português. Esses textos clássicos empolgam-no tanto quanto descura hipóteses de edição ou eventuais proventos do seu trabalho, concentrando-se apenas na dimensão do projecto pessoal que tem em andamento.
Mergulha deste modo na cultura humanística tão grotescamente ostracizada pela invasão da cultura tecnocrática a predominar desde os anos ’80 do século passado. Para trás deixa, definitivamente, a cultura superficial, cultura do efémero e de trivialidades correntes na qual o conhecido processo de Bolonha imprimiu a sua marca de água. O “escrivedor” (escreve-com-dor?) recupera assim, para sua imediata fruição, obras fundamentais da nossa civilização e cultura.
Ninguém lê hoje (e desde há muito tempo, talvez desde o século XIX) aquelas obras cimeiras da cultura humanística: incunábulos bafientos, livros amarelecidos e poeirentos retirados das prateleiras para as funduras dos arquivos. Mas o eremita não recupera somente para si mesmo as nossas matrizes identitárias que têm no mar Mediterrâneo o seu berço. Demonstra também que o passado não está liquidado, morto, antes bem vivo, como brasa ardente em monte de cinzas, e capaz de nos ajudar num dos problemas fulcrais do tempo presente.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Semblantes esculpidos

Agora é muito difícil descobrir por aí um rosto de pessoa idosa que me dê autêntica vontade de retratar, disse ele. Encarei-o, estranhando, porque era uma frase singular de um amigo também já idoso. Conheciamo-nos desde os tempos da nossa juventude e ele, desde então, continuava apaixonado pela fotografia.

Gostava de fotografar semblantes de mulheres e homens bem curtidos pela vida tanto como detestava fotografar bebés e crianças. Procurava-os e descobria-os em romarias, feiras e encontros ocasionais, primeiro com o seu “caixote” Kodak de película em rolo de 6 x 9 cms a preto e branco, e em seguida com outras máquinas de mais evoluída técnica. Mas eram sempre figuras populares dos campos em redor que o atraíam, nunca habitantes do ambiente urbano homogeneizado.
Acompanhei, partilhando enquanto pude as suas artes como fotógrafo amador até que me cansei da novidade. Entretanto, andei a trocar máquinas e a enviar pelo correio os rolos usados para revelar, aprendendo a corrigir os erros que notava nas imagens impressas no papel e se nos amontoavam nas gavetas. Era o tempo de medir as distâncias focais, graduar a abertura do obturador conforme a luz ambiente, a velocidade do disparo… antes de haver flash como acessório, filme em rolo de 35 mm, filtros, diapositivos, projectores, Photoshop… e muito, muito antes da actual abundância de cameras digitais com tantos automatismos incorporados que só pedem que alguém carregue no botão.
O meu amigo queria captar os traços que numa fisionomia anónima vincam as marcas da sua especial humanidade. Desprovido de tais marcas, um rosto humano era para ele uma página em branco: nada lhe dizia com notável interesse, ao modo da carinha de elegante e sedutora rapariga, bonita de ver ou mesmo desejar, e ponto final. Decerto por isso, repetia, citando Balzac, que todo o homem com mais de trinta anos é responsável pela cara que apresenta.
A frase que acabava de lhe ouvir puxou-me pela memória. Acordou-me. O meu amigo parecia lamentar a raridade, talvez a desaparição, das “suas” apreciadas fisionomias de uma gente de trabalho honrado e sofrido que tinha o olhar claro e sereno posto no futuro sabendo da vida o bastante para aceitar com estoicismo o que não tem remédio e rir-se a mangar do que afinal não tem remédio.
Compreendi o meu velho amigo. Este país deprimido cobria-se de seniores, porque os jovens saíam em massa, emigrando, e a natalidade baixava, deixando à vista o seu desgraçado e envelhecido povo. Um povo que teimava em resistir no seu pátrio chão, já sem as marcas viris de um heroísmo quotidiano sem tréguas afirmado na dignidade da sua condição modesta mas honrada.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A crónica como palimpsesto

Conforme é de uso, o cronista pode, querendo, debruçar-se sobre umas telúricas ocorrências do seu próprio umbigo, ou, mergulhando na cachoeira dos episódios do quotidiano, escrever sobre o escândalo do dia ou peripécias várias. Ora, se o próprio umbigo deste vosso cronista é lavado no banho diário e, por manifesto pudor, logo fica tapado pela camisa, e se também quer fugir o mais possível dos chinfrins da rua, sobre o que vai ele escrever? Vai, suponho, tentar a captação de sinais mensageiros que perceba no ambiente.
Apoiado nas informações de que disponha, tentará reflectir uma pessoal prospectiva do que pode esperar a colectividade no próximo futuro. Quer dizer (assumindo um pouco do estilo dos velhos almanaques), o cronista tenderá a elaborar uma espécie de “juízo” do seu e nosso tempo.
Por este caminho vem há seis anos, desde que criou este blogue em Janeiro de 2008. O propósito inicial teve que acompanhar os acontecimentos que então se precipitavam em espantosa cadeia. Eram inacreditáveis, calamitosos, desvairados, de estarrecer.
Bancos e sociedades financeiras de relevo mundial declaravam falência e grandes empresas internacionais deslocalizavam-se para explorar mão-de obra quase escrava no estrangeiro e usavam paraísos fiscais para esconder os lucros e fugir aos impostos devidos. E foi então que vimos os governos a intervir com montes de dinheiro recebido dos contribuintes, esmagados por impostos acrescidos, pela austeridade e o desemprego, na salvação de empresas privadas, e a demonstrar com máxima clareza que governavam não em prol do povo eleitor mas sim em apoio das oligarquias financeiras, empresariais ou militares. Os sistemas político, financeiro e bancário, tal como funcionavam, acabaram igualmente por atrair as atenções e este blogue para o cronista, que seguia tais acontecimentos, transformou-se no seu palimpsesto.
Foi preciso, realmente, acordar na aflição de uma ordem nova a reinar em meio mundo e com ímpeto tão avassalador que parecia já envolver todo o planeta. Os sinais traziam mensagens claras e abundantes, continuam a povoar a atmosfera em que vivemos, cada vez mais claros e inequívocos, mas, para além de uns segmentos cultos, os sinais têm-se diluído nas distracções populares proporcionadas pelos espectáculos diários servidos pelos canais dos media. A realidade desta crise política, uma crise especialmente avassaladora porque é estrutural (marca a transição de um tempo “velho” para um outro ainda enigmático, ameaçador), é sonho mau que as massas esconjuram supondo que só existe de facto o que querem ver. [Imagem: cartoon de Poleur.]

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Hoje não há crónica

Sim, hoje não há crónica. A mão que escrevia pende, inútil, ao longo do corpo ou estende-se sobre a mesa e adormece. Há dias assim, vazios por tão sobrecarregados.
O dia até começava bem. O texto saía, a página compunha-se. Assim:

«O sistema democrático implantado no país há quarenta anos é hoje mero resíduo, um rótulo conveniente. No entanto, proporcionou transformações decisivas que pedem avaliação, em jeito de balanço sumário. A democratização do ensino e o aparecimento de uma cultura de massas são dois exemplos expressivos do avanço geral e logo dos recuos que o sistema permitiu com os resultados que no mesmo período se evidenciam.
Conjugados com os efeitos da concentração das empresas jornalísticas e das editoras de livros, estes dois fenómenos aparecem na base que formou, deformando-a, a realidade social portuguesa como na actualidade se nos apresenta. Massificado, o ensino afastou-se dos modelos pedagógicos de formação reconhecida, com disciplina escolar e memorização dos conhecimentos, a caminho de uma torpe facilitação; o eclipse do Grego e do Latim assinalou o completo afundamento da cultura humanística e, na onda da “americanização” da Europa, acentuou-se a viragem para um ensino tecnocrático atento às necessidades, não das pessoas, sim das grandes empresas nacionais e transnacionais. No mesmo período, a estrutura familiar tradicional foi alterada pela entrada das mulheres no mercado de trabalho (o casal teve que ir ganhar o que antes o chefe de família garantia sozinho).
A relativa ligeireza dos conteúdos escolares juntou-se à ligeireza da informação jornalística que entretanto se generalizou. Realmente, as notícias também “formam”, pois os cidadãos pedem-nas para ter opinião, e o jornalismo, vergando a cerviz, foi-se enchendo de imagens e de cores, querendo-se agradável e ligeiro, varrido de textos longos ou de interpretação “difícil”. Assentou-se na verdade única, narrativa simplificada de situações e acontecimentos cuja explicação cabal é reservada a eleitos.
O povo, maioria que elege e legitima governos e políticas, arredado cada vez mais dos assuntos que o afectam,»

Neste ponto, uma vibração íntima suspendeu o gesto escrevente. Fez o cronista pensar: quem precisava de ler isto não quer saber; quem o vai ler já o sabe. Então o homem saiu à rua e por lá se demorou vendo uns miúdos a brincar.

terça-feira, 22 de julho de 2014

O velho e o cão

Um velho caminha lentamente pela rua. Alto e magro, apoia a mão direita na bengala, atento aos desníveis do passeio tortuoso, e coxeia um pouco. Aparecem covas, buracos, declives, pedaços de cimento roto, pedras de lancil gastas, e o homem avança, cauteloso, tentando evitar quedas. 
Adiante uns metros, um cão fraldiqueiro, pequenito, sentado mas erguido nas patas dianteiras, espera enquanto a dona, trela na mão, conversa com pessoa assomada à porta. De repente, o cão fica atento ao avanço do velho. No seu olhar, além de atenção, há também uma carinhosa simpatia. 
Vê o homem aproximar-se passo a passo, pois carrega idade muita e fôlego pouco para governar as pernas bambas sobre as quais, mal seguro, dança. O cão parado, de olhos fitos, parece esperar a chegada da pessoa conhecida e amiga. Mas o velho, já próximo, não o nota, cuidando apenas de seguir rente aos prédios para evitar choques com transeuntes apressados ou distraídos, em grupo imóvel, de cigarros nos dedos a fumegar, e ele se desequilibrar, cair. 
Quando a perna esquerda do velho chega ao alcance do nariz do animal, ele está pronto. No instante em que a perna se imobiliza para logo seguir em alternância, cola o nariz à calça e aspira com força (será beijo canino?). Depois volta a cabeça, de olhar já entristecido, e vê o velho afastar-se. 
Talvez um dia o homem lhe tenha oferecido algum bocado de comida, uma carícia, mas esqueceu o gesto. O cão, porém, não o esqueceria. Ou terá pressentido no velho a tristeza de uma solidão maior que a sua, que tem a sorte de ser fraldiqueiro embora ature a dona que pára aqui e ali a conversar em vez de continuar o passeio. 
Faz supor que o cão pressente no homem tamanha tristeza, tanto desgarramento que gostaria de o beneficiar com amizade. Duas solidões compartilhadas teriam menos solidão. Mas o cão não sabe que o velho se desprendeu de tudo, até de uma amizade canina, e que o cantinho onde vive está repleto de ausências, saudades, lutos, memórias, sofrimentos e sem espaço para nada mais. 
Diferente é a sorte do sem-abrigo ancorado em frente do mercado municipal. Consegue viver bem com seis ou mais cães que o rodeiam habitualmente, todos em família sobre uns farrapos. Recebe a comida que as senhoras piedosas lhe dão para os animais e com eles come.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Um pé de camomila


O relvado apareceu coberto de florinhas, manto de brancuras que pintalgava a verdura mais densamente na zona onde o terreno se afundava um pouco numa bacia de frescura e depois diminuía em torno até se esgotar na periferia. Era um tapete de camomilas que despontava noutros pontos do parque, adensado nos baixios onde humidade e húmus se concentram. Camomilas bravas, quero dizer.
Enfim, ervas entre outras ervas, de hastes erguidas à mesma altura, mas não só ervas, também eram flores, de corolas orientadas para o sol que as inunda e já sem o rocio matinal deixado pela noite pois a tarde em promessa se abria. Manto de florinhas humildes surgindo de repente no relvado. Surpresa de quem, esquecido da Primavera, encontra concentradas no mês de Maio as quatro estações de todo o ano.
Na orla do relvado, rente aos pés que transitam pelo estreito passadiço, ergue-se, solitária, uma camomila. Paro a vê-la, assim isolada na ilharga do manto, pertencendo ao conjunto e, ao mesmo tempo, afirmando-se numa solidão individualizada. Arrastada para a orla, a semente soube cumprir a função que lhe cabe e ali está ela florida como todas. 
Mas eis que uma criança, com pezinhos de ave a sair do ninho, corre pelo coberto verde de florinhas brancas atrás de bola colorida que rebola. Pega-lhe, erguendo-a nos braços, e sorri, feliz, para os pais como se posasse para fotografia ou quisesse oferecer-lhes uma imagem querida para guardarem. Eu torno a contemplar a camomila solitária, mas vejo ainda uma criança a caminhar, com passos inseguros, em direcção aos pais. 
Leva a bola nas mãos. A bola é o seu mundo. Redondo, completo.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Corpo ardente


Não temos vida fora do corpo. Melhor, ter corpo é ter vida. Procura então senti-lo intensamente, vagarosamente, até se revelar o denso território dos teus limites e saltarem as primeiras interrogações. Habita-lo, ou é ele que te habita? És o corpo, ou com o corpo?
Não tens olhado quanto baste para o que se passa no seu interior, daí o espanto. Amar, porém, a vida, e fruí-la, implica amar e fruir o corpo, pois nem aqui podes separar o conteúdo do continente. E quem o ama, quem o sente ou preza? Quem, ao menos, o conhece e atende?
A mão que redige é a mesma que avança e procura o corpo dado, ardente tocha de carne, porque interrogar é apalpar o ser no escuro, entre o santo e o sarro, nesta ânsia de o descobrir por inteiro após longo adormecimento.
Eis o corpo em toda a sua apetência sensorial. Tem a forma e a duração exacta da vida que nele se faz. Todavia, poucos o assumem. E ele, mil vezes esquecido, aqui jaz numa câmara a deslado dos percursos quotidianos, à espera, em silêncio mas não silencioso, a estrebuchar desde tempos imemoriais contra as paredes da privação.
O desejo anima-o. Dizem que liberta (quando isso resulta de se desejar pouco). Nada liberta apenas e o próprio desejo é contraditório, sacode e incendeia a carne deixando-a calcinada, porque é vasto e ondulante, infatigável como o oceano. Conduz em emigração partes caras do ser, deixando-o aberto e dorido.
Porque o desejo é uma projecção generosa saída de uma solidão; é uma entrega hedonista do ser a mover-se em direcção a outro. E os desencontros são regra na divisão das encruzilhadas.
/.../ Com tudo isso, desvaloriza-se o corpo, suporte da vida, e (sem compaixão) a própria vida. Até as pessoas aparecem desvalorizadas, desfeadas. E cada vez mais falta quem esteja disponível, agradável e conversador, saudavelmente tranquilo, porque mesmo isso requer o corpo e poucos o assumem.
O corpo deixa de ser motivo de alegria. Morre às mãos de quem com ele respira. É prótese de mutilados de uma guerra invisível, fardo incomodativo que se carrega tal como o viajante leva as provisões para atravessar um deserto, rumo a nenhures.
Em tempos de antanho, o corpo era tido como a parte impura do ser. Agora a dúvida: será menor o menosprezo, tenha ele sentido diverso, que hoje o rodeia?
Devíamos ser para o corpo o que os melhores jardineiros são para os seus canteiros floridos, cultivando nele o prazer das coisas boas, saudáveis, luminosas, cálidas, alegres, e poupando-o a sensações, pensamentos, experiências não gratificantes.
Na verdade, desta ou de outra maneira, com ou sem alegria, com ou sem desprazer, a estrebuchar na câmara onde jaz ou plenamente assumido, o corpo é sempre, porque não pode deixar de ser, tocha de carne ardente. O gelo da morte queima não menos que o fogo da vida. 
[Texto parcial extraído do meu livro Som de Origem, 1ª ed. em papel: Lisboa, Livros Horizonte, 1984.]