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segunda-feira, 7 de abril de 2014

Janelas da alma

A pupila glauca, quase bovina, da máquina fotográfica pestanejou diante da janela, à frente dos olhos do seu operador e dos meus, contemplativos, ao colher da rua a imagem. Agora, premiada, faz-me pestanejar a mim. O que a guindou à tribuna das melhores fotografias?
Se os olhos já eram as janelas da alma para Rodrigues Lobo, que alma terão as janelas para assim falarem aos nossos olhos?
Na caverna de Platão, e em todas as cavernas, não havia janelas, apenas aberturas. Os palácios começaram por ter simples frestas na parede para darem entrada à luz e ao ar. Eram janelas, sem o serem completamente.
Mais tarde alastrou pelo planeta uma fúria construtora. Paredes e mais paredes, erguidas, dividiram os espaços e separaram os seres que neles habitavam. Ficámos eu-e-eles, nós-e-os-outros.
Multiplicaram-se e então as janelas, que negam as paredes, transformaram-nas sem as destruir.
A etimologia indica que a palavra surgiu como diminutivo de porta de entrada, ou portazinha, antes de significar caixilho móvel com vidros.
De facto, cada parede requer uma abertura praticável, senão aprisionaria os seus habitantes, tomando-os como moscas apanhadas na sua própria teia.
A parede é uma linha de isolamento e também uma fronteira que estabelece um interior e um exterior, dois lados que pela janela ficam em contacto e comunicação.
A janela é posto de fronteira, poro de epiderme opaca que necessita de processar trocas, de respirar através de pequenas alfândegas.
Permite ao que está fora atravessar a parede e vá para dentro sem invasão mas com filtragem e que o dentro se espalhe, até certo ponto, por fora.
Permite que olhos do interior deambulem com segurança pelas cercanias, em pesquisas discretas, sem se afoitarem no exterior. Persianas, cortinas e vidraças de vários tipos servem para deixar ver sem se dar a ver, estar fora continuando dentro, espiar a redondeza.
Pela janela entra a primeira luz do primeiro dia que não viola as retinas.
Trocámos o primeiro olhar quando estavas à janela, como pomba prestes a alçar voo. Deve ter sido alguém como tu que chorou até conseguir, depois do espelho e do pente, que as portazinhas inteiriças de forte madeira tivessem um postigo praticável virado para a rua.
À janela estavas quando poisaste no peitoril o teu seio farto, como mulher generosa que derrama sobre quem acena adeus um açafate de flores.
Nas janelas escancaradas brilham as colgaduras dos dias de festa.
E quando, na noite de S. Silvestre, por aí os trastes velhos caíam arremessados na rua, era também um passado e um futuro que a janela estabelecia sobre a linha de um interior e um exterior já instituídos. E tudo decorria com a sem-cerimónia que dispensa anúncio de “água vai”, despejo feito.
As defenestrações, de Praga por exemplo, exprimem também esse repúdio terminante do que é velho e aparece condenado e a procura do novo mais prometedor, na decisiva fronteira que cada janela estabelece. /.../ [Texto incompleto extraído do meu livro Som de Origem, 1ª ed. em papel: Lisboa, Livros Horizonte, 1984.]

terça-feira, 1 de abril de 2014

Anunciação

Subitamente, hoje de manhã, ao dar com os olhos na rapariga, senti: a Primavera está a chegar!
Esquecera-me de que o Inverno haveria de terminar por fim e ela limitara-se a erguer a mirada do livro quando abri a porta do café, trocando comigo um breve olhar vagamente cúmplice.
Ao sentar-me numa mesa próxima, novamente os nossos olhares se cruzaram em reconhecimento ou saudação. Encontrava-a ali a estudar, matinando numa pequena rima de compêndios, em companhia de calculadora de bolso que, à sua direita, me afligia como um quadro torto na parede e, por isso, sem nos conhecermos, quase nos conhecíamos.
Mas o olhar da rapariga, esta manhã, parecia diferente. Uma anunciação. Vejo-a a sorrir (para si mesma?) e percebo no ar um frémito novo, seivas e sóis a acordar, uma ebulição recôndita a prometer aleluias.
Porém, não entendia o que a tornava diferente. Os seus olhos cor de mel cintilavam, irradiando luz como janelas iluminadas de uma casa aquecida por dentro. Neles, no clarão do seu brilho, podiam ver-se duas figurinhas de crianças a correr entre estevas para colherem flores e uma mulher de corpo maduro voluptuosamente reclinada, em doce expectativa. Apenas isso.
Todavia, aquele olhar abarcava as coisas nos seus lugares, aceitando-as com simpatia; saudava o ressuscitar da natureza no termo da hibernação – concluí eu, pedindo o café e desdobrando o diário. De facto, iluminava-lhe o rosto um esplêndido luar tropical, acrescentei, observando-lhe a epiderme que, revelando a carne escondida, parecia sorrir de contentamento, e os cabelos sedosos como plumagem de rola no cio.
Certamente, o estudo “não lhe rendia” esta manhã, primaveril em excesso para tanta da nossa invernia, e eu tardava a folhear o jornal novo sempre velho, procissão gemebunda de tristuras e misérias. Sabia bem contemplar a rapariga, recebê-las nas retinas como um aceno alegre e cordial, indício cósmico (enganador) de que os piores tempos já haviam passado.
E a rapariga não repelia a observação, agradava-lhe até, como se alimentasse no seu corpo uma fome secreta. Retribuía-os francamente, achando-os naturais, só não compreendendo bem, por certo, que ambos, cada um à sua mesa no café hoje quase ermo, estivéssemos em contacto através de olhares e, como idiotas, não nos apresentássemos a dizer olá, a comunicar oralmente.
/.../ Ela ia afundando mais e mais o rosto nas páginas dos seus livros, rabiscava apontamentos agora com expressão quase diligente. Erguia os olhos cor de mel e passeava-os pelo café, corria-os pela rua através das vidraças. Pareciam rir-lhe na cara luminosa. Ela sabia, de certeza, que “era” bonita, mas provavelmente diria que “estava” bonita, pois as mulheres poucas vezes acham que atingem o ser, basta-lhes o estar.
Eu tinha a sensação reconfortante de que a Primavera já triunfava sobre o frio e a noite, mas comecei a sentir também, de novo, que esta Primavera não nos traria os esperados frutos nem viria como devia vir. [Texto incompleto extraído do meu livro Som de Origem, 1ª ed. em papel: Lisboa, Livros Horizonte, 1984.]                

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Lua cheia na cidade


O batuque percutiu nos ares durante toda a noite. Estrondeou em bum-buns incessantes que faziam tremer o solo, mas não voei para o interior da selva africana. Estou bem dentro da segunda cidade do rectângulo ibérico, poucos habitantes a cair de sono podem adormecer por aqui.
É a noite da festa tradicional que atrai para a Avenida central e para os bairros populares da periferia multidões espessas predispostas para alegres confraternizações. Festejam a chegada da Lua cheia que assinala o Verão, rito de reminiscência agrária outrora marcado com saltos de fogueira pelo rapazio. Levam nas mãos cravos e manjericos, alhos porros e martelinhos de plástico e há balões pelo ar e foguetório luminoso.
Nesta noite cálida das grandes efusões humanas trazida pela folha do calendário, a crise parece arrumada para um canto e negada a austeridade, o desemprego, o empobrecimento. É geral a euforia colectiva, sôfrega como mesa posta para convivas famintos. Quem vai notar no céu a Lua do perigeu, grande, nítida, luminosa, ou o luar que as luzes eléctricas comem e disfarçam?
Nesta rua, porém, umas incontáveis dezenas de jovens fugiram do espaço público e reuniram-se onde a festa, sendo pública, era privada. Uma espécie de clube para meninos e meninas que gostam de muita festa e alguma dança. Em volta do clube cresce a má fama.
A vizinhança queixa-se. Às nove e meia da manhã seguinte os bum-buns ritmados ainda soavam com decibéis potentes, de loucura, no jardim da retaguarda do prédio, a céu aberto. Da sua porta, com carro da polícia ao lado, saíam grupos e mais grupos de meninos e meninas que davam por finda a noitada…
Copos de plástico, garrafas e latas espalhavam-se pelos passeios, manchas de vinho no cimento, papéis, cervejas mal bebidas, lixo. Perto, na padaria, um vizinho protestava aos berros que não dormira, que chamara a polícia mas que a barulheira continuara. Às dez horas da manhã foi possível a um retardatário tresnoitado chegar ao seu carro de boa marca, ali perto, abrir a porta e, de pé, aliviar a bexiga.
Preocupem-se os sociólogos com esta juventude (não os educadores: para eles, é tarde). Aparentemente, não é rasca nem enrascada; não trabalha nem estuda e tem dinheiro para ir aos concertos, aos espectáculos de futebol, às festas de arromba e bebedeiras memoráveis. Não se interessa por política, é contrária a greves, ri-se dos baixos salários sem direitos, não acredita em causas nobres mas pode curtir chutos valentes, daqueles que disparam o desgraçado corpinho para maravilhosos paraísos artificiais. [Imagem: tendas de alpinistas a uns 1200 metros de altura; ilha de Baffin, no Árctico.]

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Sapateiro e político


Uma peripécia vivida ontem acordou-me a memória para uma reminiscência que me traz a sorrir. Vem muito a propósito. Por isso a descarrego e deixo aqui, dando-a como veraz lição de vida.
Naquele tempo, havia na minha comunidade de origem um sapateiro que punha cabedais de molho numa selha e depois os batia sobre os joelhos em pedra chata e redonda como uma broa. Quer dizer, era sapateiro à antiga que víamos no cubículo com avental de pele suja, sovela e fios na mão, sentado em banco baixinho, ao lado de mesinha coberta de ceras, pomadas, fios e formas, tachas e protectores. Fabricava botas e sapatos de encomenda para a vizinhança e botifarras e sapatinhos para as feiras dos arredores.
Eram muitos os talentos do homem (p. ex., bombo, caixa e pratos eram dele na banda que animava os bailes da região) e, humorista à sua maneira, abundava em picardias e matreirices. Quando um cliente lhe aparecia à porta a queixar-se de que os sapatos novos lhe magoavam os pés, recebia-o com irrepreensível gentileza. Estão apertados? Deixe-os aí, sim, sim, vou pô-los na forma e já ficam bem…
O freguês ia recuperar os sapatos, tornava a calçá-los e repetia a queixa. Ah, continuam apertados?! Mas já apertam menos, não? Sim, estão melhorzinhos, mas… Está bem. Vou metê-los outra vez na forma e alargá-los um pouco mais, até posso metê-los em água, com cuidado, é claro, para não ficarem largueirões...
Tornava o freguês a enfiar os pés no aperto, sofria com as bolhas nos calcanhares, até que em desespero voltava à loja do sapateiro. E ele, dando à sovela, admirava-se: Caramba, ainda não estão bem?! Vou metê-los outra vez na forma, vais ver que te assentam como luvas.
O homem não tornava a aparecer à porta com os sapatos na mão e queixas na boca. Nessa altura já os usara, sofrendo, uns tantos dias e os pés, calejados, tinham-se habituado ao sofrimento. Ou desabafara o seu calvário e alguém, caridoso, o prevenira da marosca.
Na verdade, o sapateiro não se inibia de contar as suas proezas aos mais próximos, gozando com a inocência dos fregueses que ludibriava. Prometia fazer e não fazia, pois os sapatos “apertados” ficavam ali, no monte, até a pessoa os buscar. Então pegava neles, passava-lhes a escova cuspindo e era capaz de sentenciar que todos temos nos nossos próprios pés umas formas ideais.
O sapateiro sabia meter em apertos a clientela que mal servia, convencendo-a a aguentar as dores com promessas que sabia tão incríveis que era o primeiro a divertir-se com elas. Acabou mal: sem fregueses, teve de emigrar e entretanto extinguiu-se o tempo dos sapateiros políticos para chegarmos a este desgraçado tempo de políticos sapateiros da classe mais barata, a dos remendões.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Relvado à janela

A minha janela tem vista prazenteira. Coloca-me sobre um pequeno relvado, talvez uns duzentos ou trezentos metros quadrados nem sempre verdejantes. Na sua escassa verdura repouso os olhos cansados que retirei do ecrã do computador.
Porém, mais do que a visão cansada, cansa-me hoje o país, a Europa desunida ou a União unida para o pior. Parece que as sementes transgénicas e os alimentos por elas produzidos, isto é, os interesses nefastos da monstruosa Monsanto se impõem crescentemente em Bruxelas. A biodiversidade, a própria segurança das populações europeias, vacilam e caem vencidas aos pés da multinacional que até pretende patentear os nossos feijões para os contar e meter no bolso.
O relvado banha-me a visão e as ideias de frescura. Na humildade imóvel que se esconde numas traseiras do quarteirão, vai sendo o que sempre foi, canteiro sem árvores nem flores, logradouro sem pretensões de jardim embora um jardineiro matinal lhe tosquie por vezes as ervas em vaivéns de motor a roncar. Mas, ainda assim, é espaço cheio de vida.
Por ali voejam e pousam pombas, pardais e casais de melros e uns pássaros de penas pretas, com manchas brancas no peito e rabo comprido a balouçar. Na minha infância aldeã chamavam-lhes, se não erro, “gaios”. (Mas nem sombra de asa de andorinha adeja, mesmo agora que Maio finda e a Primavera ainda treme de frio!)
Catam o chão em passinhos curtos, chegam-se às zonas mais verdes, ao longo das paredes ou nas zonas de sombra, e encontram comida onde a relva é mais viçosa e crescem plantas intrusivas, de nabos enterrados, que o jardineiro não elimina tal como umas heras que já trepam pelo corrimão de uma escada de acesso. Nas zonas quase calvas do relvado, castigadas pelo sol, pouco ou nada as aves se detém. Mas não há dúvida, o relvado tem vida que suporta muitas outras espécies de vidas.
Quando aparecem gaivotas em revoadas, descendo aos pares dos cimos sobre o terreno num espavento de asas e sons roucos, há reboliço. As aves mais pequenas deslocam-se de imediato para distâncias respeitosas, tal como uma gaivota isolada que os casais escorraçam. O ambiente acalma-se e então algumas torcem o pescoço e a cabeça para o lado e aparentemente adormecem…
Nos dias ventosos, dos ares caem sacos de plásticos vazios, papéis com anúncios, lixos. Ilusão: uma gaivota ao longe a sacudir a asa não é mais que uma folha branca amarrotada que a brisa agita. Quem ouviu a música [que] sobe da erva? – pergunto eu, do lado interior desta vidraça, desejando ir lá fora colar o ouvido ao escuro para sentir a respiração da terra.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Um fio de água na rua

Ando para cá e para lá, a pendular na companhia deste fio de água, pequeno regato que flui silencioso rente a meus pés. Sei que desce lá do cimo e, pela inércia do seu peso, vem ganhando força até surgir no caminho diário do meu ir e vir. É água viva, linfa vital, de céu azul espelhado em revérberos niquelados na corda do seu dorso.
Não vejo pássaros a poisar por aqui, sequer a meter um bico da corrente límpida. As pessoas que passam também vão distantes como pássaros ainda que sem asas nem voo. Ninguém parece ver o que eu vejo, este fio de água aqui tão inesperado que se torna invisível senão mesmo inacreditável.
Também inacreditável foi o ribeiro da minha meninice aldeã que mais tarde soube que fora, um século antes, rio bastante para ter ponte. Espalhei, contente, a novidade e enfrentei dúvidas, incredulidades. Documentei o que dizia, apontei o vale aberto e o assoreamento, e a aldeia continuou duvidosa ou indiferente ao assunto.
Para certa gente, não é fácil acreditar no que pode ver de olhos abertos (ainda que, de olhos fechados, acredite por vezes com toda a força!). Estou a comprová-lo de novo, aqui, na rua, vendo o fio de água, pequeno regato que acompanho passo a passo. Corre ligeirinho no minúsculo vale em suave declive aberto entre a pedra do lancil do meu passeio e o piso de asfalto abaulado, beirando os pneus dos automóveis estacionados, empoçando ou esbarrando em detritos, plásticos e papéis, e avançando até encontrar, lá adiante, uma sarjeta onde forma pequeno lago coberto por camada de poeira fuliginosa, porque acabou entupida pelo lixo, de modo que a corrente avança até à sarjeta seguinte que as próximas chuvas vão também encontrar entupida (a vassoura municipal varre, não desentope).
Corria o fio de água desde há tempo quando vi sair do prédio (antigo, geminado) um senhor, talvez vizinho, a quem pedi licença para notar o regato: saía do prédio contíguo, provinha sem dúvida do telhado. Viu-o, entendeu o que lhe dizia, mas foi-se a manquejar, apoiado na bengala da sua indiferença. Mais tarde, tive a sorte de encontrar um jovem a entrar no prédio exacto…
Repeti-lhe a explicação. Uma habitação do último andar teria tanque de água de reserva no tecto, a bóia estaria avariada, o excesso sairia para a caleira e o abastecimento tornara-se imparável assim como a factura justificada pelo contador. Ser idoso caminhante dá nisto, experiência a mais e jeito de coca-bichinhos.
Sei que este ribeiro não irá atingir o mar seguindo pelo interior das canalizações subterrâneas das águas pluviais. Mas tenho-o presente há semanas e meses a fio, como aquilo que é, um desperdício de água potável. Em breve, quando o “ouro negro”, que é o petróleo, se cansar de poluir o planeta, será este “ouro branco” tão raro e valioso que será motivo para causar guerras… e então ninguém mais o verá correr em fio, sem reparo, pela rua…
Quem perceber neste fio de água solto um reflexo do mundo perceberá igualmente quanto o mundo à solta a si mesmo se perde.

domingo, 24 de março de 2013

Um prémio por castigo


Mulher rica que caia na pobreza não é notícia, mas a pobre mulher do povo que nestes tempos agrestes arrisca duas moedas no totoloto e ganha 51 milhões já tem manchete. Aconteceu desta vez na zona nortenha do país. A sortuda, casada e com filhos, correu logo a Fátima com a família para agradecer à Virgem a colossal fortuna que lhe caía em cima da cabeça e, assim de golpe, virava o mundo do avesso.
Um mundo de loucura. A nova milionária, antiga empregada doméstica, junto com os familiares, têm agora que obedecer a rigorosas medidas de segurança (até escondeu a cara quando deu entrevista à tv) que os agentes lhes ditam: ninguém pode sair à rua, ir fazer compras, dar uma volta. Está presa dentro de uma casa nova, em local secreto, onde foi metida de urgência com a família e todos rodeados de gente estranha paga para os proteger.
E agora todos têm motivos para se perguntar, com genuíno espanto, se um prémio tão bom será castigo. Têm de se entregar, confiantes, a toda aquela gente estranha, seguranças e conselheiros de investimentos, gente desconhecida. E estão a ocorrer coisas absolutamente extraordinárias: o Estado também saiu premiado pois confiscou, do prémio, uns dez milhões de impostos; dizem que um governo de um qualquer país europeu, mandado pela Alemanha, vai confiscar uma parte dos depósitos bancários das pessoas como impostos para pagar as suas dívidas; o patriarca da Igreja daquele país ofereceu os bens da Igreja para ajudar a pagar as dívidas!
Nunca coisas tais aconteceram nos dias da vida! E a sortuda, reunida com os familiares, deita contas ao que lhes resta do bolo dos 51 milhões e já lhe parece pouco. Mas não, o problema agora é outro, o de conservar os milhões que restam a salvo de alguma expropriação legal ordenada por este governo também atolado em dívidas ou de um banco hoje seguro e amanhã falido.
As despesas e encargos da família crescem desalmadamente ainda que isso por ora não lhe doa. Dói-lhe é ouvir que enriqueceu à custa de milhões de pobres que apostaram e perderam no jogo e agora, sem compreensão pelos caprichos da sorte, até discutem a justiça divina ou os rios de dinheiro que saem do país para o jogo em troca de uns raros “camiões-cisterna” que cá entram quando entram. Roem-se de invejas miudinhas, ela conhece-as bem, mas… deixou de ser pobre!
Graças a Deus agora é milionária, quer conservar o que ganhou, pelo menos metade do prémio e com esses milhões ganhar outros tantos. Diz adeus à pobreza antiga, que recorda com crescentes saudades ao atingir uma conclusão. Mais do que ter monte de riqueza tão colossal que nem sabe avaliar, já sente que essa riqueza toda é que a tem a ela, bem amarrada, como fiel guardiã.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Numa figueira, o mundo

Hei-de ser sempre um fervoroso amigo das figueiras, dessas que nascem pelos cantos e por lá ficam a crescer ao abandono. São árvores generosas, que não pedem cuidados e dão sombras frescas e perfumadas quando mais precisamos delas. Além disso, penduram nos ramos os seus frutos, com diversos feitios e deliciosos sabores à escolha.
Já tive uma figueira tão grande, tão imensa, que me parecia o mundo. Trepava pelo seu bojudo tronco, percorria as avenidas que eram, na minha fantasia, os ramos mais grossos, e as ruas, que eram as ramificações menores, aventurava-me depois pelos becos sem saída para estender o braço para os figos maduros. Tinham pele fina e luzidia, quase esmeraldina, de forma oblonga e cheia.
Apeteciam-me mais os que via já de pele morena engelhada como o rosto dos vizinhos muito idosos. Eram intensamente doces e tão deliciantes que, ao abri-los ao meio, sentia logo que eram quase figos secos prontos a elevar-me ao céu das doçuras. Prefiro desde então peças de fruta também idosas, incluso com algum podre para limpar, porque avalio o bem que tem dentro.
Assim também são algumas pessoas de idade. O tempo secou-as por dentro, encarquilhou as peles por fora, mas o melhor conservou-se no seu interior. Quanta riqueza de sentimento, compreensão, humanidade!
Todavia, poucos eram os figos, como as pessoas, assim deliciantes figos secos que eu podia encontrar então nos ramos daquela figueira ou, hoje, nas ruas deste mundo. Os pássaros, em bandos, bicavam-nos e comiam-nos quase todos. Estendia a mão para colher um na ponta de um raminho que repuxava para mim, tão lindo, apertava-o na mão e de repente largava-o porque dele saíam vespas por uma fenda aberta do outro lado e eu, num susto, recuava para não me picarem.
Mas não eram só as vespas que voejavam em torno da frondosa copa de grandes folhas verdes. Nem só os pássaros. Também as abelhas e outros insetos a envolviam com um zumbir de asas tão perfeito e leve como nuvem de gaze. Da ponta redonda como um beijo dos figos maduros saía o pingo de mel que lhes dava o nome. Outros, rechonchudos e bonitos, olhavam para mim com uma expressão sorridente que me lembrava caras conhecidas. Eram os primeiros que os pássaros atacavam: davam-lhes umas bicadas breves e deixavam-nas ali a secar, como certas raparigas enganadas que depois nem os pássaros, só as vespas, queriam.
Era pródiga aquela figueira querida dos meus tenros anos. Desapareceu com a minha infância. Estou agora a lembrar os seus frutos tendo na mão uns outros, escuros, também saborosos, sim, mas não os meus doirados e pródigos pingos de mel. 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Para que serve escrever?

Pôr por escrito o que se pensa não é tarefa fácil. Pode, de momento, apetecer, mas a dificuldade levanta-se logo com a luta a travar pela expressão. Irremediavelmente, o que se pensa e escreve não aparece logo bem traduzido pela expressão encontrada.
Quem escreve lê o que escreveu. Isto é, após decorrer um tempo, mínimo que seja. Debruçado sobre o texto, é ele mesmo o seu primeiro leitor - no fim de contas, de certo modo, um «outro»...
De facto, quando a ideia fica exarada por escrito é que a consciência pode sentir-lhe os alcances e as consequências. Do que resulta, naturalmente, que se pensa melhor pensando por escrito. Corrigir, emendar e polir o texto equivale, assim, a corrigir, emendar e polir a ideia definitiva a pôr no escrito e reescrito.
Da época das disputas liberais e republicanas ficou-nos a notícia de homens que «escreviam» ditando a outrem, decerto melhor calígrafo, os textos de jornais ou revistas. Destinavam-se, obviamente, a ser lidos em voz alta para grupos de ouvintes-participantes de debates ideológicos. Ressoava então no país o verbo inflamado de oradores de botica e tribunos com retórica mais ou menos parlamentar e ecos sonoros que se espalhavam pela província.
Depois, não apenas entre nós,  o verbo perdeu o som. Tornou-se silencioso. A leitura, por norma, passou a ser feita de boca cerrada.
Acontece porém que certos indivíduos (conheci alguns) conseguiam ser bons oradores falando de improviso mas que, escrevendo, debitavam uma prosa baça, sem chama. Donde, a questão: improvisar um discurso ou ditar um texto não será exatamente a mesma coisa que escrever? E para que serve o escrever?
Eça ironizou na página em que resgata o escritor à mísera sorte das couves decerto porque no seu tempo havia mais hortas domésticas e muito menos mãos a derramar textos pelas rimas de publicações que hoje enchem as bancas. A glória e a fama não salvam tanta gente do destino das couves (e sem ganharem sequer para as comprar). Sentirá quem escreve, por compensação, que influencia, persuade ou comove algum pouco os leitores?
Mas haverá leitores para tanta escrita a jorrar? E as prevenções contra os malefícios do tabaco acaso chegaram a convencer alguém? O mundo encheu-se de ideias excelentes e defensores de causas nobres, mas veja-se: os escritores que outrora enrouqueceram a avisar na Europa do perigo iminente da primeira e logo da segunda Grande Guerra - e quem os ouviu?
Quem acompanha no presente a tragédia grega percebendo que a mesma se apronta para nos bater à porta?  Quantos estão alerta para a hecatombe que se abate sobre a Europa, onde as ofensivas da alta finança especulativa internacional, com o Goldman Sachs à frente, prosperam como em mais nenhum lado? Quantos percebem com clareza para onde nos leva o empobrecimento geral da população e a ruína dos Estados?

domingo, 27 de maio de 2012

A crónica exausta

Já se escreveram crónicas sobre todos os assuntos imagináveis, desde a dor de cabeça até à falta de assunto. Já se escreveram crónicas mesmo sobre assunto nenhum deveras oportunas e atinadas.  Assunto de perpétua eleição é o terror do escriba em face da página em branco.
A arte da crónica permite todas as poéticas deambulações, praticadas desde muito antes do aparecimento dos atuais exercícios da infestante escrita criativa que descobre mundos infinitos no buraco de uma agulha. Lamentavelmente, não se pode, ou nunca foi tentado, meter tudo isso numa única página para se ver no que dava. Mas hoje, para este escriba, isso seria bem o modo de fugir a escrever esta crónica exausta.
A mão que escreve é de carne e osso, sangue e nervos, e há dias em que fica tolhida sob a pesada avalancha dos acontecimentos. Isto é, fica sem forças, inerte como a multidão. Nem pergunta já por que ninguém cuida de perguntar por aí, com estranheza e suspeita, por onde se escaparam os milhares de milhões, os biliões, os triliões que na fuga deixaram crivados de dívidas os Estados, os bancos, as empresas, os clubes desportivos, as famílias.
A música ligeira que enche os ouvidos do país (por algum motivo tantas câmaras municipais se endividaram para comprar os velhos cineteatros agora visitados por cantores do rádio em itinerância), o Futebol é sempre a mais apaixonante questão nacional e, no santuário de Fátima, ecoaram as preces dos desempregados que suplicavam emprego (esperando agora vê-lo cair do céu?). Os empregados trabalham muito mais ganhando muito menos, às vezes melhor seria dormirem no emprego e pouparem nos transportes, e parecem prontos para, como dizem, «dar» outra vez os seus votos - dar! - aos políticos que os sangram e agora amaldiçoam. Mas também a população da União Europeia, 495 milhões, lembra cada vez mais a rã da fábula (do escritor suíço Olivier Clerc) a cozer na panela ao lume onde terá um fim inacreditável.
Esta crónica permite-se não ser menos desaustinada do que por aí vai. Nem pitada de humor irónico salva o escriba da exaustão. Fica-se, quieto, lendo a Ópera do Malandro, de Chico Buarque, por sinal com um (memorável) prefácio de João de Freitas Branco.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Gosta de pintura verbal?

Fiz bem cedo a descoberta. Foi, por assim dizer, inesperada como uma revelação. Mas a revelação, num flash súbito, entranhou-se para depois demorar a produzir os seus efeitos.
Lentamente, fui percebendo quanto me marcara a experiência vivida naquela manhã do exame escolar, à saída da antiga quarta classe. A prova exigiu de mim algo de novo, a composição de um texto alusivo à primavera. Então, pela primeira vez, o miúdo que eu era teve de redigir uma dúzia de linhas para descrever como sentia aquela estação do ano.
Torci-me todo para espremer, como quem inventa, o que na verdade conhecia e experimentava ainda sem possuir expressão própria. Esforcei-me deveras - era o meu primeiro exame e um exame vale porque fica, definitivo, para memória futura - e lá consegui alinhar umas doze linhas de palavritas paupérrimas que falavam do céu azul povoado de nuvens brancas, andorinhas a cirandar, rebentos verdes a rebentar de seivas novas nos ramos, o sol aberto e o ar morno, talvez sem aroma de pólens e flores...
O caso marcou-me por dois motivos contrapostos: a) passei a encarar os exames escolares como expedientes justificativos do sistema que saía do ano despreocupado e por fim, com o álibi, se livrava de responsabilidades; b) e descobri que podia encontrar em mim a resposta possível para as minhas perguntas desde que, cavando nos meus adentros como mineiro, com afinco as procurasse.
Assim comecei a gostar de pintar com palavras o que sentia: impressões, pensamentos, recordações. E tanto gostei da minha descoberta que, durante uns anos juvenis, teimei em dedicar àquela mesma estação do ano uma prosa quase poética como se cumprisse um ritual. Empolgava-me esta possibilidade, por assim dizer mágica, de elaborar um texto para comunicar uma determinada mensagem.
A linguagem oral que uma pessoa usa também o possibilita, daí resultando a imagem que ela de si transmite aos seus interlocutores diretos, mas cedo escolhi para mim a expressão escrita. Transcendia as estreitezas do ambiente natal, permitindo-me atingir espaços sem dúvida mais abertos e estimulantes. Os semanários regionais foram portas abertas que franqueei avançando nos verdes anos ao encontro do vasto mundo.
A peripécia vivida com o meu primeiro exame vem constantemente à tona. Ainda ontem, tentando explicar aos meus pequenos ouvintes como me tornei «escritor», evoquei o caso pela enésima vez. Oxalá eles tenham percebido que este gosto de elaborar «pintura verbal» dialoga ao espelho com este meu gosto, como leitor, de apreciar «pinturas» admiráveis em revoadas enormes de páginas ao vento... sejam de crónicas, ficções, poemas.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Vou com as andorinhas

Desapareceram dos meus lugares as andorinhas. Vejo pardais, melros, arvéloas e mesmo gaivotas, umas detestáveis gaivotas que saem em bandos das areias marítimas e povoam as ruas urbanas para disputarem com as mansas pombas, à bicada omnívora, os alimentos. Faltam-me, portanto, andorinhas nos olhos.
Estou com saudades das suas asas negras em revoluteios aéreos ou rasando as estradas adormecidas da minha infância aldeã. Os animais de trabalho de então foram substituídos pelos motores que afugentam o mosquedo: não o acolhem e alimentam para depois, voando, o mosquedo alimentar as andorinhas. Mas com estas evocações tomo consciência de muito mais que me desapareceu da vista e agora me falta.
Faltam-me os ninhos construídos nos beirais dos prédios, ninhos que as andorinhas utilizavam um ano e outro. Ninhos em forma de bolsa com entrada redonda, feitos voo a voo com bicadas sucessivas de lama barrenta trazida,  húmida, de algures e que, depois de seca, era almofadada por dentro com palhinhas. Chegou a ser proibida aos donos dos prédios, queixosos porque lhes estragavam as frontarias, a destruição desses ninhos, de modo que as andorinhas fugiram para as árvores, para os campos do últimos rebanhos e manadas e, por fim, para parte incerta.
Por isso, façam o favor, tragam-me andorinhas para os olhos. Está no fim o verão (que este ano passou e pouco se sentiu) e entramos num outono antecipado. As folhas das árvores, caindo em revoadas amarelas, crepitam sob os nossos passos anunciando a partida iminente das andorinhas para parte incerta e eu estou decidido, vou partir com elas. [Imagem, autor: Pawel Kuczynski, n. 1976, Polónia.]

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A crónica perplexa

Quem escreve a crónica, em primeiro lugar escreve para si. Põe no papel ou no ecrã a expressão que melhor o define. Mas, inevitavelmente, a expressão escrita destina-se a ser lida e, portanto, o escrevente em breve deixa de escrever apenas para si.
Idealizando destinatários, talvez até deseje anular-se por detrás do que escreve para enfatizar ao máximo a expressão que o seu escrito pode ter para quem o leia. Quer justificar o interesse que atribui ao seu texto e que ele próprio quer interessante de tal modo que, ao terminá-lo, sinta que com ele, em primeiro lugar, a si próprio se beneficiou. Mas o escrevente anda agora a sumir-se em perplexidades.
Escrever o quê, para quem? Os seus leitores mostram-se fartos de notícias cada vez mais apavorantes. Preferível é fechar os ouvidos a conversas próximas e não ligar a televisores, rádios e jornais que dia a dia põem a jorrar anúncios de estarrecer em progressão assustadora.
Ninguém gosta de mensageiros de novas desgraças, dá ganas de os pendurar como cartas de prego para abrirmos nas datas aprazadas, quando já for tarde e as ameaças todas que hoje vemos e as do próximo futuro se tiverem consumado como verdadeira tragédia grega por nós revivida. Então, sendo assim, sobre o que vai escrever a crónica? Onde topar asas protetoras que nos abriguem das fúrias da tempestade?
O mundo está em brutal convulsão e Portugal está no mundo. Não sobra lugar para temas sérios mas velhos como a Palestina ocupada e colonizada, o bloqueio ianque a Cuba, a violência desatada no Congo, ou as misérias do povo haitiano após o terramoto, a falência da ONU, as guerras no Iraque e Afeganistão, as calamidades que varrem o Corno de África... O mundo está feio e mau, invadido por angústias, indiferenças ou anestesias, e a crónica, hoje, não pode falar do mundo sem ficar também, para os leitores, um pouco assim.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Como acontece «isto»

Parece que não mas «isto» tem algo que se lhe diga. Querem ver? O tema é para mim tão interessante quanto vivido e decerto também para os apreciadores de crónicas que vão passando por aqui.
Anda uma pessoa de cabeça no ar, cabeça-celeiro de umas tantas ideias postas a amadurecer, até que uma delas ganha corpo e energia. Fenómeno esquisito, este, de uma ideia avultar entre as outras e tão esquisito é que desafia qualquer hipótese de explicação. Será capricho das meninges inquietas a namorar com as sinapses, só isso, ou haverá por ali alguma misteriosa alquimia?
Então, no começo, «isto» não passa de um embrião, uma hipótese informe, algo como um girino que fica a boiar na viscosidade matricial. Mas em seguida qualquer coisa acontece. «Isto» estremece, agita-se dentro do seu alvéolo e cresce por incorporação espontânea de segmentos complementares que andavam soltos.
Agora com cabeça, «isto» principia a ser projeto que já deseja ter vida própria. E deseja crescer, ganhar tronco e membros, botar figura. Está tudo, miniatural, contido dentro daquela cabecinha incorpórea, apenas será preciso executar agora o projeto, concretizando-o.
Tarefa complicada. Vem à rede tanto material corporizável, é tanta a abundância em acumulação que ameaça entupir o projeto porque nele, agora se vê, cabe uma apreciável fatia de mundo. No entanto, «isto» tem que desistir de tentar ser o que não pode ser - um longo discurso sobre apreciável fatia de mundo. Rejeita, portanto, todos os materiais que sobram do projeto inicial e que, à medida que vai germinando, se define.
Mas custa, chega a doer a escolha forçosa do que pode ou não pode entrar «n'isto», afinal tão poucochinho, sacrificando a abundância do que fica de fora. «Isto» faz-se presente, enfim, está aqui de corpo inteiro tal como nasceu, acabou! No entanto (pois «isto» só existe no tamanho da crónica), quanto material interessante ficou omisso desta vez e talvez para sempre... [Escultura de Gustav Vigeland: Oslo, Noruega.]