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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A cultura do decrescimento

Serge Latouche, economista e pensador francês, distinguiu-se na defesa de uma causa impopular: a cultura do decrescimento. É autor de vários livros em que justifica as suas ideias por sinal marcadas pela influência recebida de François Partant, outro economista francês. De facto, Latouche co-fundou e dirige La ligne d’horizon, plataforma dos Amigos de Partant dedicada à difusão das suas teses.
Eu apoio, desde a década de ’70 do século passado, a bandeira do decrescimento que, como todos sabemos, se mantém desde então sob rigoroso apagamento. Porém, alguns livros de Latouche foram publicados em Portugal e também no Brasil. Não há dúvida, paga-se um preço nada razoável por se ser crítico do consumismo, do crescer por crescer, porque, para este autor, o crescimento ilimitado é incompatível com um planeta limitado; logo, quem tal diz, “é louco ou é economista”.
O autor pede uma descolonização do nosso imaginário de consumidores compulsivos. Afirma que “a verdadeira riqueza consiste no pleno desenvolvimento das relações sociais de convívio num mundo são”. Ora este objectivo “pode ser alcançado com serenidade, na frugalidade, na sobriedade, até mesmo com uma certa austeridade no consumo material, ou seja, aquilo que alguns preconizaram com o slogan gandhiano ou tolstoísta da simplicidade voluntária.”
Como haveríamos de estranhar o prolongado apagamento das ideias de Serge Latouche (n. em Vennes, 12-01-1940), que o mesmo será dizer da cultura do decrescimento? Ele vai ao ponto de contrariar a ocidentalização do planeta… Em suma, puxa para um lado e o mundo vai avançando para o outro.
Registo agora um caso pessoal intrigante. A Universidade Estadual do Sudoeste Brasileiro indica o meu nome como tradutor da obra Introdução à Cultura do Decrescimento, de Latouche e que a edição se deveu, em 1973, a Publicações Europa-América. Nessa obra se terá baseado um curso de extensão transdisciplinar cujo programa a Universidade transcreve. Ora eu tenho memória (remota!) de algo semelhante; isto é, sem o poder afirmar, acho que traduzi realmente para a PEA, naqueles anos, diversas obras, uma das quais com o tema versado por Latouche, mas o catálogo geral da BN não a regista e eu não a tenho em casa. Aliás, o tema foi aqui abordado, em "Enfim, o decrescimento»", 01-03-2009.
As primeiras edições portuguesas deste autor são recentes (da Piaget e de Edições 70), portanto muito posteriores a 1973. Como explicar, esclarecer, entender isto? Poderá a ajuda de um leitor benévolo e amável esclarecer o enigma?

domingo, 1 de março de 2009

Enfim, o decrescimento?

A espiral do desenvolvimento económico que vem marcando as economias desde o termo da Segunda Grande Guerra envolveu as sociedades ocidentais numa espécie de embriaguez. A onda do consumismo expandiu-se e acabou por se agigantar como tsunami devastador que empurra o mar pela terra dentro e tudo engole em mortífera subversão.
Agora há lições a tomar e atitudes claras a assumir se quisermos reduzir ao mínimo as consequências. Decisões dramáticas impõem-se e tais decisões não podem quedar-se entregues somente às mãos dos políticos que governam ou dos senhores do mundo que sobre eles exercem influências. O povo de cada país, atingido na cara pela hecatombe, precisa de despertar dos sonos induzidos e de perceber por fim o verdadeiro lugar que lhe compete ocupar na história.
O consumismo, atiçado por um marketing de nefastas técnicas (e apoiado por apelos constantes ao endividamento fácil), é um dos aspectos da mentalidade corrente que pede emenda. Tem que se considerar no mínimo aberrante (logo, contrariável), por exemplo, uma viagem de avião para sol e areia de praia longínqua quando não faltam sol e areia aqui por perto e sem avião. Os sonhos lindos tiveram forçoso despertar, o consumismo não trouxe felicidade. É impossível continuar a acreditar num crescimento económico infindável quando já esbarrámos de encontro à parede dos limites.
Atingimos, pois, o momento das viragens cruciais. A designada crise financeira colocou a questão maior no centro de todos os debates sérios e urgentes a fazer. Tenhamos do problema muita, pouca ou nenhuma consciência, o problema perdurará na medida exacta em que deixarmos sem alteração nem remédio essa realidade.
Este modelo de desenvolvimento socioeconómico em que temos vivido está esgotado. Completamente. Não vai poder subsistir com as formas que lhe conhecemos, tal como, e cada vez mais, se vem repetindo.
É preciso aprender a viver com pouco - de qualquer modo, com menos - para continuarmos a viver. A onda do consumismo habituou-nos ao supérfluo, não ao essencial, como se os artigos dos comércios mais lucrativos fossem realmente os mais benéficos para os consumidores. Descurámos mesmo algum bem essencial. Agravaram-se as desigualdades dentro da população de cada país e de uns países perante outros.
Por este caminho iremos cair no abismo do irremediável. Chocaremos todos, a humanidade inteira, na parede fatal dos limites, e então, caídos na desgraça, nos saberemos vencidos. Basta continuar cegamente a gastar… e a gastar os recursos não renováveis da natureza: ar respirável, água potável, terra não poluída.
Decrescer no plano económico impõe-se não menos do que muitas outras opções a tomar em variados planos e com variados alcances. Os recursos do planeta são os existentes no planeta e podemos agora medir-lhes a duração que irão ter gastando-os por este caminho. Uma nova racionalidade, esclarecida e exigente, deve aplicar-se a controlar a dinâmica económica e as perversões do mercado, a partir dos órgãos estatais, mas os povos terão que acatar as opções. Esta nossa civilização está mergulhada em crise.