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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Gosta de pintura verbal?

Fiz bem cedo a descoberta. Foi, por assim dizer, inesperada como uma revelação. Mas a revelação, num flash súbito, entranhou-se para depois demorar a produzir os seus efeitos.
Lentamente, fui percebendo quanto me marcara a experiência vivida naquela manhã do exame escolar, à saída da antiga quarta classe. A prova exigiu de mim algo de novo, a composição de um texto alusivo à primavera. Então, pela primeira vez, o miúdo que eu era teve de redigir uma dúzia de linhas para descrever como sentia aquela estação do ano.
Torci-me todo para espremer, como quem inventa, o que na verdade conhecia e experimentava ainda sem possuir expressão própria. Esforcei-me deveras - era o meu primeiro exame e um exame vale porque fica, definitivo, para memória futura - e lá consegui alinhar umas doze linhas de palavritas paupérrimas que falavam do céu azul povoado de nuvens brancas, andorinhas a cirandar, rebentos verdes a rebentar de seivas novas nos ramos, o sol aberto e o ar morno, talvez sem aroma de pólens e flores...
O caso marcou-me por dois motivos contrapostos: a) passei a encarar os exames escolares como expedientes justificativos do sistema que saía do ano despreocupado e por fim, com o álibi, se livrava de responsabilidades; b) e descobri que podia encontrar em mim a resposta possível para as minhas perguntas desde que, cavando nos meus adentros como mineiro, com afinco as procurasse.
Assim comecei a gostar de pintar com palavras o que sentia: impressões, pensamentos, recordações. E tanto gostei da minha descoberta que, durante uns anos juvenis, teimei em dedicar àquela mesma estação do ano uma prosa quase poética como se cumprisse um ritual. Empolgava-me esta possibilidade, por assim dizer mágica, de elaborar um texto para comunicar uma determinada mensagem.
A linguagem oral que uma pessoa usa também o possibilita, daí resultando a imagem que ela de si transmite aos seus interlocutores diretos, mas cedo escolhi para mim a expressão escrita. Transcendia as estreitezas do ambiente natal, permitindo-me atingir espaços sem dúvida mais abertos e estimulantes. Os semanários regionais foram portas abertas que franqueei avançando nos verdes anos ao encontro do vasto mundo.
A peripécia vivida com o meu primeiro exame vem constantemente à tona. Ainda ontem, tentando explicar aos meus pequenos ouvintes como me tornei «escritor», evoquei o caso pela enésima vez. Oxalá eles tenham percebido que este gosto de elaborar «pintura verbal» dialoga ao espelho com este meu gosto, como leitor, de apreciar «pinturas» admiráveis em revoadas enormes de páginas ao vento... sejam de crónicas, ficções, poemas.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Aqui há quatro anos

Este blogue completa hoje quatro anos. Apareceu em 27 de janeiro de 2008, proposto como «O Juízo do tempo ~ no tempo do Juízo». A legenda, de jeito um tanto risonho, invocava as sentenças dos velhos almanaques. Mas sobreveio um imprevisto, o tempo mudou num ápice e começou logo ali a declarar-se a crise - política, financeira, económica, social - que levou o cronista-cidadão a virar-se para aquele lado.
Assim, em vez de se estender pelas digressões prazenteiras nas margens do jornalismo e da literatura que o temário pessoal antevia, constituiu-se este blogue também como narrativa de uma crescente deriva, esta incrível deriva de tão trágicas consequências. Terminava o século XX (conforme os atentados do 11 de setembro assinalavam)  e entrávamos, esfregando os olhos, na era do pleno unilateralismo, do novo paradigma (imposto pela alta finança), da desregulação global, da pauperização das classes médias e do empobrecimento geral programado. Relembro: investiu-se então o cronista, a pouco e pouco, do papel de espect-ator conforme os termos arquivados nos dois tomos de E Foi Assim, o primeiro publicado em março e o segundo em setembro de 2011, ambos disponibilizados em formato e-book  (ver «etiquetas»: o tema crise política avulta)...
A experiência obtida com estas publicações resultou de tal forma que à primeira logo se juntaram outras, sempre com ligação (link)  através deste blogue. Teve isto a ver com as alterações surgidas no setor português da edição literária. Foi tomado de golpe pelo grande capital e as dificuldades introduzidas pela crise fizeram o resto.
Os leitores deste blogue encontram no meu escaparate de e-books, atualmente, mais oito títulos. Estão ali, desde março de 2011, quatro livros inéditos ou em nova edição e dois outros títulos (um em parceria, sobre literatura para crianças, e o outro com poemas de autoria anónima), todos registando 3.500 entradas ou mais e cada um com muitos milhares de páginas lidas. Recentemente coloquei ali mais dois inéditos: um pequeno conjunto de contos («o amor em tempo de crise») com ilustrações do pintor Avelino Rocha e, a rematar, este gesto extraordinário: um célebre conto «infantil» de Oscar Wilde, recontado por mim em breve, procura demonstrar ao leitor o que deve entender-se por literatura para crianças.
Vai agora este blogue entrar no quinto ano. Em período tão calamitoso, como irá ele prosseguir?... Que, pelo menos, viva e que, sem grande demora, possam aparecer naquele escaparate, já ilustradas, duas histórias para crianças, inéditas, de minha autoria.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Pois, sem diplomas!

Cuidar da imagem não é só ter carrinho de boa marca para que saibam quem somos ou deixar cair sobre a testa uns cabelos displicentes. É bastante mais do que isso, toda a gente que se preze o sabe falando, com língua de pau, «à política». Mas que fazer,  se há sempre alguém extraviado como se andasse neste mundo sem querer a sério fazer parte dele.
Contra mim falo assim falando. Fui capaz de publicar aqui umas linhas parece que inesperadas ou estranhas e mesmo algo escandalosas, numa crónica que escrevi à sombra no Verão do ano passado e que desde então é visitada regularmente por leitores não sei se curiosos ou incrédulos. O caso está todo na página «Sem diplomas».
Mas devo explicar que os bloguistas têm, se quiserem, informação sumária de alguns índices estatísticos deixados pelos seus visitantes. Nada de especial, é claro. Todavia, esse recurso indica-me como aquela página continua a ser frequentada.
O pormenor é-me grato e, no entanto, pergunto-me o que haverá ali de especial (inquietante?). Fui lá agora reler o escrito e... Ouvi então, sussurrada por cima do ombro, uma advertência singular: «Foste descarado, ficaste na rua sem cara».
Engoli em seco e quedei-me na dúvida. Enrodilhados como andamos nas subversões correntes (pela regra: centra a tua vida no triunfo pessoal), teremos já coragem para achar escandaloso, portanto descarado, quem afirma um simples elemento factual do seu percurso biográfico? A emoção parece vir da frase: «estar na literatura, tal como estar no jornalismo, requeriam tão só, no 'meu tempo', saber de experiência feito.»
Hoje, consabidamente, não é assim. Mas já foi conforme digo: os autores literários e os jornalistas afirmavam, praticando, as suas capacidades pessoais, pois naquele tempo não tínhamos cursos que a tal habilitassem. Fiquei, pois, sem diplomas por muitos anos, embora tenha e possa mostrar um monte de papéis luxuriosos.
Por todos os motivos, aquele tempo é inesquecível para quem o viveu. Os cursos de Letras existentes não serviam então para formar escritores, formavam professores. Os autores literários portugueses da época podiam ter cursado Letras - casos de José Régio, Vergílio Ferreira entre tantos outros - mas isso devia-se à simples coincidência de a formação profissional adquirida coincidir com a vocação.
Uma quantidade de escritores dos maiores do século XX tornaram-se admiráveis sem qualquer curso específico. Eram engenheiros, como Jorge de Sena, ou médicos, como Fernando Namora, Bernardo Santareno ou Miguel Torga, ou, noutros casos, não tinham sequer chegado à Universidade. A preparação atinente à sua vocação obtinham-na por via autodidática, isto é, lendo e escrevendo, logo, mostrando o que valiam e fazendo-se estimar por isso.
As licenciaturas (sobretudo as de feição tecnológica!) tornaram-se tão vulgares que pode resultar chocante que um autor literário travestido de jornalista veterano (ou a inversa?) se declare sem uma pelo menos, para disfarçar. Mas, cá por coisas, eu ando a preferir ler  ou reler os autores de há mais de trinta anos e a sentir quanto ganho com isso.  Convém lembrar, ninguém perguntou a José Saramago nobelizado que escolarização tinha, perguntaram-lhe, sim, como iria ele usar o dinheiro recebido do prémio...

quarta-feira, 9 de março de 2011

Sempre em Galiza

Os portugueses denotam uma certa relutância, ou indiferença, perante as hipóteses de relacionamento solidário, a sério, com os vizinhos da Galiza. É uma sensação que aparece no terreno, a um certo nível das relações intelectuais, à medida que descemos do Alto Minho para sul, especialmente a partir de Coimbra. Ao transpor as águas do Tejo, dilui-se nas brisas.
Talvez haja uma explicação para isso, uma explicação advinda do complexo de circunstâncias acumuladas pela história. Observando o documento cartográfico de 1066 (aqui ao lado), que indica a verde a velha Gallecia do período romano, pode-se ter uma primeira visão do assunto. Abrangia uma franja peninsular desde a Corunha, no topo norte, e terminava além de Leiria, embora outras fontes, porventura mais consistentes, se detenham na linha do Mondego.
Os amigos galegos gostam de nos lembrar que a Gallecia foi por muitos séculos o nosso território comum com capital na augusta Bracara. Eu, quem sabe se por força das minhas origens, acho que é fácil e bom gostar do povo galego, posto que tenha levado o pé ligeiro a Tui já com 18 anos e andasse nos 40 quando entrei a valer em contacto com a sua cultura (lembro-o aqui). Manifesto-lhes, a esse povo e sua cultura, uma solidariedade desvaliosa mas sincera, apoiando, se apoio me pedem, e lamentando atitudes de quem lhes responde com escusas e polidas reticências.
Comecei a sentir esta resistência há uns bons quarenta anos, quando a Galiza lutava por autonomizar (leia-se: proteger) a sua fala materna da contaminação pelo Castelhano. Uma porção de intelectuais portugueses ou desconhecia o berço de origem do Português ou, pura e simplesmente, virava as costas ao assunto. A nossa indiferença declarou-se ao nível oficial e diplomático aquando da organização da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, composta por oito Estados (Timor-Leste incluído)... e sem a Galiza.
Gostaria de pensar, sem saber o que pensar, que continuamos ainda virados para sul, em luta pela Reconquista, em assédio a Lisboa e projetados até Faro. Demoro-me, porém, a contemplar o povo irmão que temos a norte do rio Minho, hoje com uma pitada de nostalgia porque encontro num blogue de lisboetas motivo para evocação e saudade. Benedicto Garcia aparece ali a considerar que José Afonso e ele cantavam a mesma canção (de protesto) e que a Galiza, para Zeca, foi «pátria espiritual».
Não se lembrou aquele amigo galego que veio cantar ao Porto, no início dos anos '70, por convite meu. Tinha então creio que um único disco com quatro cantigas, editado em Barcelona em 1968, e pertencia ao grupo Voces Ceibes (Vozes Livres). Foi o comum amigo Manuel Maria que nos pôs em contacto (estava eu a publicar-lhe a primeira obra de poesia junto com outra, de outro poeta galego, Celso Emilio Ferreiro) e os caminhos ficaram abertos para novos  encontros.
Tantas lembranças a vir (e serão só minhas?!): Benedicto deu cá entrevistas na rádio, as suas cantigas entraram no ar, actuou ao vivo, estabeleceu contactos entre nós. Um deles foi com Manuel Freire, então com a «Pedra filosofal» em evidência. Logo, em 1972, visitou Zeca em Setúbal e começou a amizade luso-galega documentada com nome de rua em Santiago de Compostela, onde nasceu em 1947 o próprio Benedicto.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

E vão três anos

Este blogue apareceu a 27 de janeiro de 2008, há três anos. O software que o alberga conta uns 270 posts, onde se encontrarão talvez mais de duzentos escritos em jeito de crónica.  Note-se que os textos editados, num período inicial, ficaram recolhidos no E Foi Assim..., volume em oferta para «os meus amigos» (ver na coluna ao lado).
Hoje ponho aqui estas letras sem foguetório comemorativo para estoirar, que não tenho, simplesmente para olhar um pouco para trás e deixar um convite. Gostaria que os amigos  pudessem ter esta coluna já longa como um rio que vejam a correr - isto é, lessem - sentados na pedra de um miradouro. E, com Bertolt Brecht, não apontassem a violência ou qualquer remoinho desta corrente sem verem também a violência das margens que a apertam ou chegam a sufocar.
No caudal deste «rio» têm surgido, ultimamente, abordagens diversas a temas aqui um tanto inesperados (que podem conter informação comentada ou serem comentário de informação). É verdade, o blogue não nasceu deveras para isso, pois se pretende virado para a literatura, o jornalismo, as artes, as viagens, as convivências saboreáveis. Mas os acontecimentos mudaram de paradigma ao vermos os governos, desde há décadas, de braço dado com banqueiros a cozinharem a crise que se declarava, isto é, preparando a situação que o sociólogo Boaventura Sousa Santos (entrevista ao jornal «i», 01-01-2011, título «Os mercados cometem crimes contra a humanidade) agora descreve: «Os abutres dos mercados financeiros estão a destruir a riqueza do mundo para se enriquecerem escandalosamente sem nenhum controlo e há-de haver um momento em que o povo, os governos, vão dizer basta.»
Se alguém acha coisa pouca enormidade tão gigantesca, faça a si mesmo o favor de ocupar uns minutos preciosos a visionar o video que está em http://www.youtube.com/watch?v=vsVlcJZ1YtU&feature=player_embedded#
Enfim, foi preciso escrever algo sobre tão clamorosa situação. Atento ao seu tempo, ao  cidadão cronista coube também o dever de apontar outra mudança geral de paradigma: o terrorismo como estratégia substituíra no plano político a guerra fria que tão amiga fora das indústrias armamentistas e do realismo político. E o bloguista partilhou assim da sorte dos mensageiros das más novas que, em vez de alvíssaras, obtêm desgosto e consternação.
Esta coluna deseja continuar a ser lida ainda que não aspire a ter abundantes seguidores - apenas interlocutores, imaginem porquê. Está na blogosfera... logo, naturalmente, tem interlocutores em Portugal, no Brasil, nos Estados Unidos e um pouco pela Europa, restante América Latina, etc. Avisando que os textos (sempre abreviados: leitura de um par de minutos) vem com a nova ortografia unificada agora a entrar oficialmente em vigor. Não se aflijam os contestatários do Acordo: a ortografia é pouco mais do que uma convenção...

domingo, 25 de julho de 2010

Sem diplomas

O tempo concreto, do calendário existencial, que cada ser humano tem para viver, é facto dos mais notórios e mesmo irrecusáveis. Aparece entre as principais pertenças no sistema em que cada indivíduo se integra. Pertença tão comezinha parece soar, porém, como novidade estreme a certos ouvidos e por isso torno à ideia. 
Pertencemos, para todos os efeitos, ao tempo biológico que nos cabe em sorte. O «meu tempo» é este, iniciado em 1930, não outro qualquer à escolha (como o lugar de nascimento, o nome, os pais e restante família, a língua materna, a religião).  É sem dúvida - querem ver? - um fator dos mais marcantes do meu e de qualquer outro percurso existencial.
Comecei a escrevinhar em jornais no alvor da primeira juventude mas ingressei na profissão do jornalismo somente quando ia nos 33 anos. Escolha feita sem segredo: a literatura, meu primeiro amor, sorria-me de cara linda sem me prometer juntar os trapinhos passando a viver comigo de casa e pucarinho. Logo, eu precisava de estabilidade, uma profissão, e aquela ia manter-me ligado à escrita, a escrita jornalística.
Mas não alongo mais o preâmbulo. O que pretendo é explicar que, no início dos anos '60, nem a literatura nem a imprensa, no Portugal amordaçado pela ditadura, eram ofícios cujos praticantes devessem possuir habilitações específicas. Os escritores e os jornalistas mostravam o que valiam «tarimbando» - uns e outros escrevendo por norma em jornais e revistas até se fazerem reconhecidos - durante os períodos de inicial afirmação.
A «tarimba» da experiência viva era, pois, a «escola», para a qual entravam como soldados rasos. Havia, é claro, licenciaturas em Letras, mas todos sabemos que formavam professores, não escritores. Estes eram amiúde médicos, advogados, engenheiros, jornalistas...
Os primeiros cursos de Jornalismo apenas surgiram em Lisboa e no Porto, após demoradas reivindicações e lutas, já com o regime democrático. Entretanto, foi-se tornando claro que nas redações dos jornais de informação geral tinham cabimento licenciados com variadas formações, o que abriu a entrada a professores, advogados, engenheiros, operadores sociais, economistas... Então, os poucos licenciados que começaram a chegar às redações nos anos '60, multiplicaram-se.
Serve isto para apontar duas coisinhas:
1 - Nunca precisei de estudos superiores, nem jamais alguém mos pediu, para trabalhar como sempre trabalhei (estudando) e sempre estudei (trabalhando). Realmente, estar na literatura, tal como estar no jornalismo, requeriam tão só, no «meu tempo», saber de experiência feito.
2 - Avalie-se agora o embaraço em que me vejo quando grupos de jovens me perguntam que cursos fiz, que formação escolar recebi. Empurro-os a todos para a Escola declarando-a indispensável, sem conseguir justificar, a seus olhos, o meu autodidatismo. Assumo-o com toda a honra, é verdade, mas, sem diplomas e nesta idade, devo parecer-lhes completamente despido...

NOTA [em 23-12-2011] - Esta crónica continua a ter procura, novos leitores. Tenho um pedido especial a fazer-lhes. Não percam uma outra crónica, posterior, que a complementa. Tem o título de «Pois, sem diplomas!» e está aqui.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Foi-se o cantar da Tila

Fui assaltado por uma notícia esta manhã. O lugar comum justifica-se: uma notícia pode apanhar-nos de súbito e despojar-nos de qualquer coisa muito nossa. Acabo de saber que morreu Matilde Rosa Araújo.
Foi-se o cantar da Tila, foi-se também a prezada amiga. Um outro lugar comum repete que, quando morre um escritor, fica a sua obra. Consolação mínima, pois sempre o que escreveu e fomos lendo nos colocou em admiração.
Eu vinha acompanhando Matilde desde 1962, ano da publicação do seu livro de contos Praia Nova que recenseei em apreciação crítica. Mas ela (nascida em 20-07-1921) iniciara o percurso literário antes, em 1943, com A Garrana. Só então começou a nossa amizade e companheirismo.
Porém, conhecia já O Palhaço Verde e O Livro da Tila, livros anteriores para a infância que me haviam deslumbrado. E habituava-me à caligrafia larga, rasgada e angulosa, muito feminina, da Matilde, a responder-me às perguntas de uma entrevista que apareceu a seguir já não lembro bem onde. Entretanto, apercebia-me de que, nela, a sua dimensão literária coincidia com uma dimensão humana igualmente apurada.
Nesta moldura era já Matilde considerada em Lisboa (onde nasceu, viveu e morreu) e então só tive que notar a justeza do conceito. Efectivamente, na lavra da escrita que ela prolongou por quase setenta anos se espelha a personalidade ímpar da mulher que ela foi. Agora se pode ver «a sua vida como obra e a sua obra como vida», coincidência rara que eu próprio gostaria de atingir. Continuo a supor que é graças a este encontro da pessoa concreta com a pessoa poética que a arte acontece.
Ora a Matilde Rosa Araújo era um ser poético. Quer dizer, foi tão admirável a Mulher quanto a Escritora. Frequentou a Faculdade com Sebastião da Gama e com ele parecia ter ficado a compartilhar um irradiante amor à humanidade, sobretudo às crianças «de pés frios», e à natureza, que exprimia com uma candura tocante e emocionada beleza.
Amanhã sairá o seu funeral da Sociedade Portuguesa de Autores, onde recentemente lhe foi prestada homenagem. Outras se recordam em maré de saudade e recolhimento, em especial a realizada na Biblioteca de Cantanhede. Trago para aqui uma foto evocativa dessa sessão, para a qual muito contribuiu comigo João Cruz, amigo que de algum modo me fará presente na despedida.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Depois do vírus entranhado

Mantenho uma grande relutância em falar de mim, dos meus livros. Sempre achei mais interessante ouvir cantar os outros do que abrir a própria boca para arejar o ego. Mas há excepções que me puxam para fora do hábito da modéstia e então...
O título destas linhas recorda o meu livro de contos saído em 1999 e apreciado num blogue em termos que comentei há dias na crónica «A obra também lê o leitor» (28 de Maio). A seguir encontrei-me com amigos na Feira do Livro e a conversa recaiu sobre a mesma obra porque eles a tinham pescado num stand. Verdade consensual entre nós: fora de dúvida, a obra também lê o leitor (na medida em que na leitura se espelha a personalidade do leitor), ponto este que explica como a apreciação do autor do blogue, Jorge Candeias, se reviu mais na obra do que terá sido capaz de a perceber.
O que o blogger quis achar no livro era, sem segredo, o que lhe interessava: literatura fantástica e ficção científica, caminho que pode comunicar com algum «mundo» cultivando a história pela história. Não percebeu, portanto, o realismo contido nas metáforas e alegorias das narrativas. Melhor leitura foi, afinal, a de uma jovem jornalista que na sua recensão, se bem me lembro, notou no livro um «pessimismo» de quem temia os nebulosos perigos do milenarismo...
Realmente, em 1999, estávamos prestes a largar o escudo e a entrar no euro, a discutir se o novo milénio começava no ano dois mil se no ano seguinte, e com insónias porque os sistemas informáticos iriam estoirar com a mudança da numeração automática dos anos... Mas havia percepções menos superficiais que anunciavam mudanças mais peremptórias. Os treze contos, escritos no fim dos anos '80, avisavam precisamente de que o dito «vírus» estava «entranhado».
Debatemo-nos desde então em plena crise desatada. O vírus agiu como um exército de térmitas, invadiu e corroeu por dentro as estruturas financeiras, económicas e sociais em que vivemos e que vemos por aí em queda livre, a desabar como castelos de cartas ao vento desabrido de janela aberta. Ora este blogue é disso mesmo que vem falando como quem põe cartas de chumbo em cima da mesa.
Entre o meu livro de 1999 e este meu blogue existe portanto uma relação. A viragem que ali se exprimia com toques surreais e de alguma loucura já instalada evidenciou-se plenamente através do mundo. Hoje ninguém duvida da «crise»  que dizima as classes médias porque a sente e lhe dói na pele. Mas continuará a duvidar de quem lhe anuncie a próxima viragem que se prepara: a de um possível «governo planetário» da alta finança, nomeado e a funcionar oficialmente para governar a crise provocada pela alta finança...
O bichinho trabalha no escuro e as populações têm mais com que se preocupar. Faltam os empregos e o dinheiro para consumir, e consumir, e consumir, até faltam pão e circo para distrair e aliviar o stress. Por isso as populações em confusão já imploram: oxalá apareça quem queira tomar conta disto tudo! Como crianças grandes, ainda acreditam no Pai Natal. [Foto aérea: imagem da poluição industrial. Clique para ampliar.]

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Da República à Democracia por vir [3/3]

Os défices orçamentais crónicos (que se transformaram em arma de arremesso contra as classes médias em tantos países atolados em dívidas «convenientes»: justificam os impostos sobre rendimentos individuais e constantes privatizações), pedem criminalização. De outro modo, as classes médias nacionais aparecerão ainda mais em evidência como os principais suportes pagantes de cada Estado. Com suficiente intervenção estatal, as economias têm de voltar a ser produtoras de bens de consumo, largando os gordos lucros da especulação financeira. A conservação do meio ambiente deverá abrir-se para a utilização correta dos recursos naturais.
Uma sociedade de integral ou avançada Democracia tem garantidas nessa matriz as melhores condições de paz e desenvolvimento. Rejeita as deslocalizações ávidas de mão de obra pouco menos que escrava e o neoliberalismo, tal como rejeitará as indústrias de guerra, a militarização do espaço. Em suma, os políticos eleitos para os órgãos do Estado têm que pôr as mãos na condução da economia, reconhecendo que o mercado nunca soube auto-regular-se. Exijam por palavras e atos o acompanhamento constante de uma opinião pública enérgica, esclarecida e criteriosa, por mais que isso requeira, a prazo, uma reforma cabal das políticas, desde logo escolares, geradoras do estendal instalado de conformismos e mediocridades.
É tempo de sairmos de vez do século XX, limpando os pés e recolhendo os ensinamentos que o passado nos deixou de mistura com os sofrimentos; é tempo de encetarmos a nova centúria com a decisão clara de vivermos por fim um período de paz e fecunda estabilidade… em nome da civilização. Deparam-se-nos amontoados de problemas ingentes e de impasses cruciais. A regra dos três RR (reduzir, reciclar, reutilizar), por exemplo, pode ser bem-vinda se vier a espelhar atitudes coletivas de recusa a consumismos e comodismos fáceis. E há muitas outras opções sérias a fazer, rupturas e mudanças dramáticas à espera no plano das ideias, das mentalidades e dos comportamentos gerais.
Sem dúvida, levantar-se-ão as forças de bloqueio habituais contra qualquer esforço de autêntico progresso humano. Mas os imperativos das novas realidades dispõem de voz para falar mais alto em cada situação. Os políticos e os governantes que pretendam legitimar-se perceberão com inteligência que o discurso-modelo terá que mudar de registo para conquistar a adesão lúcida dos eleitores. Sairão prestigiados tanto mais quanto conseguirem abolir a mera propaganda e falar verdade, a comesinha verdade dos factos, sem manipulações. Neste limiar do século XXI aberto em crise, abre-se lugar para a esperança.
De facto, os desafios do presente mostram-se rotundamente dilemáticos. Haverá obstáculos a transpor, desvios, atrasos (a concentração da riqueza no topo atinge cotas explosivas). Mas as sociedades democráticas republicanas acabarão certamente por aprofundar essa sua matriz, demonstrando na prática o que guardam no seio - um projeto de virtualidades inesgotáveis, pronto para inaugurar um esplendoroso futuro. E, finalmente, a política irá recuperar do atraso e acertar o passo com a história.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Da República à Democracia [2/3]

A Democracia continua a ser o melhor sistema por afirmação consensual. Democracia republicana, evidentemente, para que a letra condiga com a careta. Conforme se diz e repete, o sistema tem defeitos; todavia, esses defeitos parecem derivar apenas dos escassos aprofundamentos que esvaem a Democracia de conteúdo. Devidamente instaurada, a Democracia ver-se-ia livre de adjetivações redutoras ao ponto de realizar por fim, consumando deveras, o projeto do socialismo.
Esquecem este ponto os discursos correntes porque o sistema democrático-republicano vem conhecendo práticas que lhes desvirtuam os pressupostos essenciais e deixando à vista pouco mais do que meros rótulos. O nó górdio do problema – a organização da sociedade – está, não no próprio regime republicano ou sistema democrático em vigência, sim na estrutura de classes da mesma sociedade. Regressemos, pois, ao ensinamento de Marx, enfrentando o problema: poderá reinar a igualdade, qualquer que seja, no interior de uma sociedade dividida em classes?
O patrão não se iguala ao assalariado, o rico ao pobre, o culto ao analfabeto, o capitalista ao proletário. Uma mesma lei não atinge os cidadãos de forma idêntica quando difere a respetiva condição social. Até o dinheiro, uma mesmíssima nota, tem valor real diverso consoante a mão que a detém. Portanto, para efectivar plenamente a Democracia, bastaria decerto resolver na base o problema de classes (isto é, resolvendo o problema da propriedade dos meios de produção) para instaurar a igualdade com liberdade e fraternidade.
Nas classes se concentra a expressão das tremendas (e, apesar disso, crescentes) desigualdades sociais que caracterizam o nosso tempo. A concentração da riqueza e do poder real permitido pelas «economias de casino» atingiu níveis altíssimos, mais uma vez à custa de ingentes perdas e sofrimentos das camadas populacionais intermédias (são, lembre-se, o «corpo» da nação afora os segmentos do topo e do lastro). A dita globalização, por um lado, e a especulação financeira como atividade económica principal, por outro, deixaram a nu comportamentos de máxima gravidade. O capitalismo, que se conforma mal com a democracia republicana em períodos de crise económico-social, entrou em pré-ruptura, depois de conjuntos partidários haverem tomado como refém a Democracia perante massas de eleitores anestesiados. Viu-se então, em variados países ocidentais, como governantes medíocres haviam entregado de bandeja, a bancos e sectores financeiros internacionais, o poder recebido dos seus eleitores. A governação requintara-se em (des)governança…
Em 2010, a questão do poder democrático republicano coloca-se, tem de colocar-se forçosamente, numa formulação nova capaz de responder a cada uma das crises que entretecem o manto da crise global que recobre o nosso tempo. O predador século XX, embebido em petróleo e poluição, fecha com outro crash monstruoso e nada pode continuar agora como antes. Impõe-se uma completa renovação de paradigmas. Para se dignificar, a política terá de saber defender-se de assomos de «profissionalização» (clientelismo) e de tornar a revestir-se de valores éticos convincentes. A cidadania, para existir e reinar, tem que libertar-se da massificação (tirania em curso).

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Da República à Democracia por vir [1/3]

Deixou meu pai de ser vassalo, ou súbdito, graças à República. Festejou-lhe o advento com entusiasmo, sentindo que fora demasiada a espera. Mas eu, logo ao nascer, fui declarado cidadão de corpo inteiro. Sem mais sujeição a privilégios de casta, tive direito à Cidade entre outros iguais. Despontava, no azul céu das aspirações, o penacho guieiro da Democracia…
O primeiro republicano, para mim, foi meu pai. Nascido em 1895, ia nos quinze anos quando chegou o regime agora centenário. Coerente com os seus ideais, partiu em 1917, como expedicionário, rumo às trincheiras de La Lys para combater a invasão dos boches. E também pela República foram meus tios maternos, entre outros familiares. Todos republicanos e liberais, todos de sangue vermelho a espirrar, viam no honrado trabalho produtivo o único título legítimo de nobreza.
Liberais queria dizer, então, que eram pela liberdade – a sacrossanta liberdade que em 1935 uma brigada da polícia política de Salazar levou presa de casa de meu pai. Um simples pano, mero símbolo, uma antiga bandeira, foi apreendida aos olhos arregalados do menino de cinco anos que eu era, apenas porque o pano simbolizava uma certa «União Liberal».
Sem discussão: a liberdade tão linda sabe-nos a pouco na Cidade onde reinam tamanhas desigualdades sociais. Mas por ela haveremos de chegar um dia à igualdade e à fraternidade, consignas da Revolução Francesa guardadas no coração dos povos que pouco mais têm de alimento do que a esperança. E vamos aprendendo que a liberdade tem que ser conquista diária sobretudo quando a perdemos de golpe (como o meu tio, já idoso, levado e torturado pela PIDE, que tornou ao seu leito para morrer), ou perdendo-a pouco a pouco, como as rãs na panela ao lume da fábula de Olivier Clerc que acordam em plena cozedura já sem forças para saltar fora.
Era ele, e o meu pai, e todos os meus tios, republicanos liberais. Nos anos ’60, sob a Ditadura, alinhávamos pela Democracia eu e um filho daquele tio, portanto meu primo, e também nós experimentámos no corpo a brutalidade repressiva da polícia política salazarista a arrancar «confissões» sob tortura. Confirmámos então, com Maiakovski, que a liberdade que se vai perdendo para os outros se perdia igualmente para nós porque, ao bater-nos à porta a repressão, já era tarde demais.
Depois, a República portuguesa – a primeira, segunda ou terceira – caiu assim ou assado em poder de oligarcas que a tornaram miragem na medida em que se assenhorearam da coisa pública ou a dominaram de facto. Permaneceu, todavia, como modelo ideal do regime do povo, pelo povo e para o povo. Mas o povo foi sendo cada vez mais afastado da coisa pública que directamente lhe dizia respeito. A participação cidadã entrou em gradual declínio após o «25 de Abril». A governação foi sendo entregue a políticos de carreira, militantes de partidos assentes em estratégias eleitorais pessoais focadas na tomada do poder. Avultou, portanto, o carreirismo e minguou a entrega à causa do povo. A política esvaiu-se de ideais, enchendo-se de pragmatismos interesseiros e transformando-se em espectáculo mediático.
A política perdeu a dignidade de serviço público e políticos sem ética foram condenados pela opinião popular quando leis oportunas por eles promulgadas os isentavam de abusos e transgressões inaceitáveis. O regime republicano como que esbateu a cor vermelha, dita jacobina, e até o próprio conceito de Democracia como que empanou o fulgor na medida em que se apresentou aqui e ali com geometria variável. Mas o desgaste dos conceitos, obra de utilizações oportunistas, apenas exige uma refundação corretora, não substitutos a inventar.

domingo, 25 de abril de 2010

Recordar e comemorar

É dia de recordar e comemorar. Mas, quando a memória dos momentos felizes nos põe a recordar, estamos também a comemorá-los. Comemorar, assim, é o ato de puxar pela memória, um recordar.
O «25 de Abril» aconteceu há 36 anos. Coincidiu com o dia do meu aniversário natalício. O movimento dos «capitães de Abril» foi para mim o derrube da negregada ditadura salazarista-mercelista e, simultaneamente, a melhor prenda  e festa de anos que poderia ambicionar.
Passei então, em 1974, a ter o aniversário garantido no feriado nacional. Mas já ia nos meus 46 anos, vividos no regime antidemocrático repressivo. Era tempo, caramba! Experimentara o jornalismo sob a vigilância da censura prévia, sentira diversas vezes a mordaça que proibia a publicação de certas afirmações nada revolucionárias em jornais ou em livros (apreendidos), e provara mesmo a «hospitalidade» da polícia política, que quis acolher-me durante três meses.
Não tardou, tive de desistir daquele jornalismo - o possível. E foi graças à democratização que tornei à profissão finalmente dignificada.
Pedem-me muitas vezes para recordar aquele dia glorioso da libertação. Evoco-o sempre com gosto, mas isso (e ainda menos a erosão que destrói, minando o sistema, os partidos e etc.) não vem agora para aqui.
Agora lembro apenas: completo hoje 80 anos. Existe este blogue desde 27 de janeiro de 2008 - recordo a data pela primeira vez. Aqui foram editados 216 posts - crónicas, ao todo, serão quase duzentas. Meus caros, façam o favor, digam-me se é tempo de parar! Ou não estão cansados ainda desta companhia?

terça-feira, 9 de junho de 2009

Vendo na gota o oceano

Caminho por esta avenida desde há uns cinquenta anos. Encontrava-a então com a louçania da novidade. Era poiso da burguesia abastada, invisível para além dos muros das suas amplas e ostentosas mansões. Todas exibiam estes espaços ajardinados com entradas de garagem.
Era agradável caminhar por aqui, pelos passeios orlados de arvoredo. Jovens criadas devidamente fardadas passeavam bebés nos carrinhos das senhoras. Não eram largos apenas os passeios, também a avenida se estendia de lado a lado no sossego de coisa adormecida a crescer ao sol.
Evoco estas imagens confrontando o antes com o agora. Antigamente, o trânsito era escasso e corria nos dois sentidos. Agora segue em sentido único e a fila abunda de ligeiros e pesados. E já não aparecem carrinhos de bebés.
Os moradores antigos saíam de manhã para as suas empresas, localizadas nos arrabaldes; hoje moram nos arrabaldes e vêm trabalhar na cidade.
Em cinquenta anos, os bebés cresceram, já não moram aqui. A avenida que foi poiso da burguesia abastada (a brilhar com nome do país tido como pátria da cultura europeia desde a sua Grande Revolução) tem as moradias ocupadas não com famílias e sim com negócios. As fábricas e fabriquetas de antigamente fecharam onde estavam, os donos descartaram-se de empregados e converteram-se ao novo paradigma.
Estas moradias, aparatosas mansões, albergam agora empresas diversas, de pouquíssimo pessoal. Aparentemente, nenhuma esbarrou com dificuldades burocráticas quando quis deixar de ser habitação para ter outra serventia. Ou, se teve dificuldades, soube resolvê-las.
Umas poucas estão a ficar decrépitas, desabitadas e ao abandono. Contrastam no ambiente da avenida, mas os negócios em geral não estão agora propriamente risonhos e em expansão. Pelo menos para os que ficaram, como «vencidos da vida», sem esperteza para trabalhar com importações, transportes marítimos, seguros, sociedades financeiras e etc...
Numa esquina próxima, uma destas moradias serviu para acolher um novo banco quando foi criado, há anos. Provavelmente, o seu dono passou a ser um dos novos banqueiros. As três letras do acrónimo desse banco andam por sinal, há meses, nas bocas do mundo.
Uma avenida não é uma cidade e uma cidade não é um país. Estamos entendidos. Mas acaso não poderemos ver, numa simples gota de água, o oceano?
Vejamos. A luz do sol concentra-se na gota até a fazer brilhar como um diamante. Se a encontramos a repousar em cima de uma folha verde, mostra-nos as nervuras dessa folha. Ajuda-nos, portanto, a ver com mais luz essa imagem ampliada.

domingo, 31 de maio de 2009

Como ler um dicionário


São de vário género os dicionários existentes. Quase todos, porém, partilham a característica distintiva: contêm informação útil. Servem para consultas, tirar-dúvidas ou tirar-teimas. Mas um dicionário, pelo menos, pede propriamente uma leitura. Não aspira a ser consultado apenas pelas entradas que contém, quer também suscitar uma apreciação de outro nível.
É o caso do dicionário que publiquei em 2001 para recensear os escritores, artistas, músicos, poetas e animadores de teatro popular nascidos ou ligados de algum modo à Bairrada. Embora servindo para o que todo o dicionário serve, pede uma abordagem diferente. Será esta uma opinião suspeita? Passo a explicar.
Pela primeira vez, ao que parece, aquela obra tentou coligir todos os autores (então já falecidos) que constituíram e de algum modo compuseram o mosaico da «paisagem cultural» de uma região caracterizada. E eis o que fica então à vista: as circulações e práticas culturais, nas suas variadas corporizações vivas ali ocorridas ao longo do tempo. O meu dicionário oferece uma visão panorâmica da imagem do que tem sido «cultura» na Bairrada até aos nossos dias.
Surpreende decerto que a obra recenseie uns 170 autores tendo em conta a relativa pequenez e o ambiente rústico tradicional do espaço em foco. Mas a Bairrada, planície baixa bastante fértil situada entre Aveiro e Coimbra, quase bate à porta da lusa-Atenas, o que poderá explicar alguma coisa. Além disso, como é natural, sempre houve bairradinos cultos que se enraizaram na região enquanto outros se dispersaram. A obra referencia mesmo autores de origem externa que, por relações pessoais de amizade ou outras, marcaram presença na terra do vinho e do leitão, colaborando nos seus jornais ou deixando intervenção memorável.
É notório, de facto, o relevo que a região atinge graças a obras devidas a vultos como António Feliciano de Castilho (autor do romance Mil e um Mistérios) cuja juventude ficou tão ligada à terra natal de seu pai, ou como António Augusto de Aguiar, Fialho de Almeida, Machado de Castro, António Lima Fragoso, Manuel Rodrigues Lapa, Alexandre da Conceição, António de Cértima, Tomás da Fonseca (revelou o Poeta-Cavador, escreveu o romance Filha de Labão), Samuel Maia, Emídio Navarro, Visconde de Seabra, Fausto Sampaio, Luís de Albuquerque, Arlindo Vicente, e tantos, tantos mais. Compuseram música e poesia, pintaram, escreveram ficções, estudos… Alguns destes autores principais dispõem de informação acessível, mas o Dicionário de Autores da Bairrada referencia imensos outros que andam omissos ainda que tenham avultado no seu tempo. E será o único a registar as ligações de todos à Bairrada.
Com este «modelo», decerto algo inovador, o dicionário dá a ver a realidade de um movimento cultural no terreno, percebendo quanto sai do espaço regional para o espaço nacional, e vice-versa. Admirará que uma segunda edição digital, corrigida e aumentada, esteja em oferta para descarga neste blogue porque a reedição impressa ficou inédita? Era resultado previsível atendendo à rareza do conceito «região» entre nós, em divergência, por exemplo, com Franceses ou Espanhóis.

sábado, 2 de maio de 2009

1930 em visita

Fazer anos não tem nenhum mérito especial. Mas quando isso nos deixa quase à porta dos oitenta, os amigos reforçam os cumprimentos, apreciando e festejando decerto a longevidade. Merecem que em sua intenção escreva uma resenha dos acontecimentos principais registados no ano em que nasci.
Em 1930 estava uma boa metade do mundo a debater-se no buraco do famoso crash que, visto a esta distância, parece recuar a um remoto século, a uma outra era. Dizem agora os entendidos que o crash actual, designado como crise económico-financeira, é bem pior buraco do que o antigo, afinal um simples degrau preparatório a descer para o abismo.
Apesar de tudo, 1930 foi um ano efervescente. Salazar, ministro interino das Colónias, promulga o Acto Colonial e surgem os caboucos da União Nacional. O nazismo avança na Alemanha (onde os socialistas ganham 143 lugares e os comunistas 77, enquanto os nazis obtêm 107 lugares sobretudo à custa dos eleitores moderados). A cidade de Constantinopla, antes Bizâncio, passa a chamar-se Istambul. Mahatma Gandhi inicia na Índia a sua campanha de desobediência civil que desembocará na independência do poder colonial inglês pela via da não-violência.
J. M. Keynes, apoiante do nacional-socialismo hitleriano, publica o Tratado sobre o Dinheiro, Ortega y Gasset A Revolta das Massas, Albert Einstein Sobre o Sionismo, Leão Trotsky a sua Autobiografia e Wilhelm Reich Maturidade Sexual, Continência, Moral Conjugal. Na União Soviética 55% dos camponeses ficam integrados em unidades colectivas de produção e são inventados o plástico acrílico e o flash. Segismundo Freud publica O Mal-Estar da Cultura e o bispo de Leiria declara dignas de crédito as aparições de Fátima.
O Salão dos Independentes lança a polémica sobre as tendências da arte e Robert Musil aparece com O Homem sem Qualidades, Vladimir Maiakovski com Os Banhos e Dashiell Hammett com O Falcão de Malta. Arnold Schönberg estreia a ópera De Hoje para Amanhã e Igor Stravinski a Sinfonia dos Salmos. Aquilino Ribeiro lança O Homem Que Matou o Diabo e Ferreira de Castro A Selva. Bertolt Brecht põe no palco A Excepção e a Regra enquanto Andre Bréton divulga o Manifesto do Surrealismo.
Os realizadores cinematográficos andavam num idêntico frenesim. Manoel de Oliveira fazia Douro, Faina Fluvial, Leitão de Barros Maria do Mar, J. von Sternberg O Anjo Azul, René Clair Sob os Telhados de Paris, Alfred Hitchcock Assassínio, etc. Tudo isto tem hoje um cheiro inconfundível a mofo, a insinuar que a nossa vida vivida já possui algo de histórico... e, veja-se, nascemos quando Raul Brandão se finava e Herberto Helder nascia (a 23 de Novembro). Assistimos à popularização da radiofonia, ao aparecimento da televisão e dos motores a jacto. Escapámos à Segunda Grande Guerra e sobrevivemos ao racionamento, à repressão salazarista, à moral farisaica. Envolveu-nos, depois da democratização, a onda da comunicação de massas, a massificação das telecomunicações, a informática, a internet...
Massificados ficámos? Consumidores consumidos pelo deus mercado todo-poderoso? Incapazes, sempre, de exclamar com saudade: «ai, no meu tempo, é que foi»!

sábado, 4 de abril de 2009

No Dia do livro «infantil»

Comecei a publicar com regularidade literatura para crianças por volta de 1985, há mais de vinte anos. O ambiente, nessa altura, já estava em mudança mas era ainda diverso do de hoje. Talvez valha a pena recordar o percurso feito e a experiência recolhida na passagem do Dia do livro «infantil».
Naquele ano registava-se de certo modo a presença em cena de um conjunto de elementos transformadores: os avanços da escolarização, a multiplicação das bibliotecas derivada da criação da rede de leitura pública em ligação com o desenvolvimento das editoras literárias e da indústria dos bens culturais em geral que animou também o mercado livreiro. O comércio do livro «infantil» começou deste modo a ganhar uma preponderância económica de evidente relevo.
Isso, até certo ponto, foi bom. Vulgarizou-se o livro, expandiu-se o campo da leitura. Novas camadas de autores interessaram-se pela literatura infanto-juvenil e correram para as editoras que, por seu turno, iam reforçando o negócio.
Foi bom, digo, até certo ponto. A «rotação das novidades», isto é, o tempo de permanência nas livrarias dos novos títulos do género, em crescente aceleração, mostrou ter graves consequências. Autores e obras estimáveis de um tempo recente ficaram sem demora eclipsados pela voracidade do mercado, que aprecia uma renovação constante dos consumos para obter os melhores resultados. Outra consequência nefasta resultou na vulgarização de um tipo principal de livro dito infanto-juvenil porque esse tipo conveio ao mercado.
Na verdade, declarou-se um nítido excesso presente no mercado da oferta de novelas, ou pequenos romances, de aventuras juvenis, normalmente em formato «livro de bolso». Tornou-se difícil encontrar leitores adolescentes para tanta aventura, convenientemente alegre, divertida e com um fio de mistério. Entretanto, avolumou-se a escassez de livros «para a infância»…
A apreciação crítica das obras e dos autores nunca terá sido a desejável em nenhum momento. Era como se a pequenez dos seus destinatários ideais menorizasse também, por qualquer contaminação, os próprios livros. Ainda hoje tal menorização parece persistir, em contraste com a categorização académica que mestrados e doutoramentos atribuem a certos casos.
Não é, porém, a categorização académica que terá efectiva influência no comportamento dos consumos e dos leitores no sentido de uma intervenção regular orientadora. Nestas condições, instalou-se bastante a ideia de que são bons todo o autor e todo o livro que vendam muito. Alguns historiógrafos do género assimilaram a ideia, transpondo-a para os seus estudos, e alguns autores, incansáveis, puseram-se a percorrer o país para obterem mais mercado.
A literatura infanto-juvenil passou então a valer mais como negócio, formaram-se grupos de interesses convergentes com expressão nas editoras, na composição dos júris de prémios, etc. A ideia simplória de que é melhor o que mais se vende, enraizada, mantém-se. Os grupos de interesses querem agora fundir-se num só.
Nota: Avaria no computador atrasou esta crónica, que deveria ter sido editada anteontem, dia 2.
[Na foto: borboleta transparente; existe na América do Sul.]

domingo, 14 de dezembro de 2008

Mosaico inacabado

Contei-as agora. Somei cento e trinta as crónicas editadas neste blogue iniciado em Janeiro. É altura de balanço no mês terminal do ano.
Naturalmente, cada uma das crónicas é um texto que o leitor recebe como peça autónoma, assim como um «todo». O cronista escreveu-as ao longo do ano, página a página, ora evocando as suas memórias pessoais, ora recordando peripécias e figuras com que lidou. Mas também comentou acontecimentos da actualidade e reflectiu, debateu ideias ou questionou mentalidades.
Com efeito, no meu percurso existencial, assisti ao deflagrar da Segunda Grande Guerra e ao advento da penicilina, dos motores a jacto, dos plásticos, da televisão. Acompanhei a propagação da rádio, do cinema, dos automóveis, o avanço da físico-química, da astronomia, e aguentei sob o regime de Salazar. Os anos já longos que levo de vida, todavia, não me poupam ao que sinto quando vejo recordado como História factos que para mim são «do meu tempo».
Apesar de todas as suas maravilhas, não se me afiguram ditosos os meus anos de vida. Por isso exarei a exclamação «Que tempo!» à entrada do blogue, no Limiar. Sempre trabalhei e estudei conforme pude e soube, mas isso atendeu a uma função tão vital e primária como a de respirar. As maravilhas do «meu tempo» histórico perdem-se, a meus olhos, em sombras e negrumes que certos discursos apontam como a falência geral do progresso moral perante o progresso técnico.
Esta perda, pela obnubilação, tem vindo a aumentar dramaticamente. Sinto com pungente nitidez que não estava preparado para viver num ambiente social deste género. Por supor que mereceria melhor sorte na fase última da existência? Ignoro.
Eis o que tenho vindo a querer exprimir no conjunto destas crónicas. Gostaria que, depois de terem sido lidas uma a uma, possam agora, a outro nível, serem percebidas como uma espécie de mosaico. É mosaico mental composto pela agregação das peças com formas e tonalidades diversas, mas de tamanho quase regular como numa calçada à portuguesa. Que a visão lúcida do leitor ilumine o conjunto!
Eu julgo que em cada pessoa pode conter-se um universo e que cada pessoa, ao exprimir-se, poderá exprimi-lo o mais possível, trazendo-o para a luz. O «meu tempo», vivido no meu lugar, tem sido marcado por vivências talvez sem adequado registo. Ora o cronista tem por função o papel de testemunha e de espectactor. Aqui deixa o juízo do seu tempo no tempo do juízo, narrando: E foi assim…

sábado, 27 de setembro de 2008

Tanta ausência, amiga!

Porque gosto de vir a este café e escolho sempre este lugar? E porque teimo em manter os olhos fitos na entrada?! Em outras ocasiões esperava-te sem dúvidas, ias surgir num instante para o encontro combinado, mas hoje, eu sei, não irás aparecer e, no entanto, continuo atento à porta - tanta é a minha saudade, amiga!
Lembro-te sentada na cadeira do outro lado desta mesinha tão pequena que nos permitia a proximidade de mãos nas mãos, o olhar mergulhado até ao fundo no outro olhar, a intimidade da conversa sussurrada, cúmplice. Por vezes uma expansão de alma, uma recordação dolorida, uma lembrança a sangrar em carne viva soprava nuvens, a chuva batia e punha a pingar as tuas lindas janelas antes luminosas. E quantas vezes me emocionei também eu, contigo, sentindo-te mulher inteira e de verdade?!
Mas eram nuvens passageiras aquelas no céu que nos cobria. Em breve sorrias, de rosto erguido para mim, envolvida pelo beijo especial desta amizade que nos comove. Sei, sabemos, que em volta nos verão certamente como dois amantes apanhados num encontro furtivo, pois é atraente a tua figura de mulher madura, só não vêem que tenho anos que chegariam para ser teu pai…
…E nunca provei dos teus lábios, sabendo todavia que neles poderia colher o mel dos pólens das mais bonitas flores do mundo. Respeito, amiga, a tua condição de mulher cônjuge, o teu pudor de mãe. E rimo-nos de todas as suspeições, de todas as torpezas, hipocrisias e fealdades do decoro corrente, meras fachadas, que miram de soslaio uma amizade como a nossa e se põem a imaginar.
Ainda reina o preconceito: será digna a casada que tem um amigo e com ele se encontra e conversa? Serão realmente limpas as intenções de um tal homem? Enfim, poderá existir uma amizade pura entre homem e mulher e, para mais, casada?!
Ai, amiga, se esta gente soubesse que a nossa amizade é ternura estreme, amizade e ternura que vêm da sinceridade dos corações! A comunhão é, entre nós, plena e sem disfarces. Damo-nos um ao outro em entrega imaterial, felizes por existirmos sendo como somos e nos encontrarmos em perfeita sintonia.
Talvez esta nossa amizade seja amor, uma qualquer forma de amor, porque eu continuo atento à entrada e, momento a momento, vejo a tua cadeira vazia. A divagar, pergunto-me: alguém poderá sentir-se preenchido por uma mesma pessoa durante todo o tempo? Lembro, de Florbela Espanca, dois versos: «Quem disser que se pode amar alguém / durante a vida inteira é porque mente!» Porque a pessoa amada e a pessoa amante se transformam, deixam de ser as mesmas.
Querida amiga, confirmas-me neste ponto preciso: é normalmente nova, isto é, diferente, cada experiência de amor ou de amizade que cada pessoa empreenda, pois que a pessoa envolvida em cada caso é diferente. O que trocamos, amiga, não foi expropriado a ninguém. Avalia nesta base a falta que me fazes, aqui, para, como disseste, beber um café, nos ouvirmos ou abraçarmos, nos olharmos em silêncio, a sonhar com viagens ou a filosofar futilmente, soltando as imaginações no ar livre!
[Ilustração: escultura de Benson Park, Loveland, Colorado, jardim desde 1985 com mais de cem obras.]

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Olhar sem ver?

Somando impressões e sinais, convenço-me de que olhamos muito e vemos pouco. Por isso temos como certo que o melhor modo de esconder o objecto que desejamos guardar é deixá-lo bem à vista. Digamos então um exemplo: entramos num café, numa cervejaria ou num restaurante e, observando de relance o ambiente criado pelas respectivas decorações, poderemos sentir a «cultura» que ali se respira avaliando a concepção e o gosto que o decorador e o patrão do negócio exibem, detectando mesmo alguma da ideologia que os impregna.
De facto, habituei-me a pensar que é preciosa a quantidade de sinais, logo de informação, que podemos recolher da realidade objectiva. Falei disso há anos num trecho de certa narrativa. Mas hoje pergunto: quem concorda comigo se disser que outro tanto poderemos obter, por exemplo, da imagem com que se apresenta um autor literário numa sessão com os seus leitores?
O tema foi-me sugerido há dias por um estimado amigo que me questionou querendo apurar do que me servia para «ler», de certo autor, os seus (e outros) livros quase sem os abrir. Pois basta ter olhos e, além disso, ver…
Veremos o conteúdo determinar o estilo da mensagem. Entrevistado ou a palestrar, um autor mostra como e para quem escreve. Se tem livros no supermercado ou ambiciona vir a ter, o autor apresenta a imagem própria envernizada ao gosto de quem pretende vendê-los no supermercado. Note-se o que diz e como o diz. O seu nome aspira a ser popular, com valor de «marca». Propõe à admiração geral os seus livros, referidos entre apreciações encomiásticas de outros nomes sonantes. Representa-se a si próprio. Interessa-lhe seduzir para vender.
Esse autor aparece em público negligenciando algo de novo que poderia anunciar e considera «natural» o seu esforço de autopromoção. Quer igualar-se aos autores mediáticos, seus mestres, que lhe dão boas lições: vê-os como relações públicas ou mesmo vendedores ambulantes das suas obras. Para ele, realmente, os leitores compram um livro desde que esse livro seja badalado quanto baste. Logo, para esse autor, não se requer talento, génio, arte para vencer - apenas marketing, força de venda.
Autores literários deste tipo, assim tão esfusiantes e gárrulos, parecem ser muitos e, todavia, não são numerosos, apenas se acotovelam no proscénio. Distinguem-se da grande maioria dos «outros», que duvidam da boa qualidade que possa trazer a quantidade até porque o mercado dos best-sellers funciona para gerar lucros e não para atribuir qualificações literárias.
Estes «outros» apostam na diferença. Se aparecem em público, é para estabelecer comunicação de teor cultural com dimensão humana.
Só a um «outro» poderia acontecer esta peripécia: um dia encontrou na rua um conhecido, parou, e a seguir apareceu outro. O recém-chegado, após as apresentações, traçou um perfil do autor, enaltecendo-o generosamente, conversa que fez virar o primeiro conhecido, velho amigo, para o autor, numa reclamação algo escandalosa: «Então eras assim importante e não dizias nada?!» Há realmente quem diga pouco da sua importância. Acredita que os leitores têm deveres a cumprir para consigo mesmos…

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Diários generalistas, adeus!

Sujo os dedos nos jornais diários há imensos anos. Posso contá-los (são uns 65), pois estou a ver-me, adolescente, debruçado nas páginas de «O Primeiro de Janeiro» abertas como velame de caravela. Rugia em 1944 a Grande Guerra no mundo (os políticos prometiam-nos que ia ser a última!) e chefiava a redacção do jornal portuense Jaime Brasil, que deixou fama de homem sério, competente e democrata autêntico, amordaçado porém, como todos os jornalistas, pelo regime da censura prévia imposto por Salazar. Neste período, o «Janeiro» colocou-se à frente dos outros órgãos da imprensa diária nacionais ao surgir impresso com duas cores que, misturadas, permitiam a tricromia, novidade apetecível entre a negrura da concorrência.
Acontece que ando agora a sujar não apenas os dedos, também o precioso miolo que o crânio, pela sua dureza, protege. Eis porque estou a despedir-me do último jornal que ainda leio cada vez mais irregularmente, exclamando no íntimo todas as manhãs: adeus, diários generalistas!
O velho «Janeiro» finou-se há semanas após lenta agonia, e passou a jornal gratuito. Foi solução da sobrevivência para o que já estava caduco. Mas os tempos vão maus, vão mesmo péssimos para os diários ditos de informação geral, idem para o jornalismo e para os jornalistas. Não por acaso, a informação já nem se distingue bem da publicidade ou da propaganda!
Depois de ter ficado com o jornal menos mau, verifico que todos são igualmente maus e vou-me convencendo de que que não valem o tempo de os folhear. Podem aprimorar os grafismos, abundarem as fotos, imprimirem-se a cores… porque as vendas caem, as tiragens baixam, e então os ditos correm em busca dos anúncios, muitos anúncios, mais e mais anúncios…
Diz-se por aí que os jovens não lêem imprensa (apesar de convertida ao tabloide), que preferem a Internet. É verdade, pelo computador chega-nos imensa e muito variada informação a casa, mas a dimensão virtual da Net não nega o mundo tal como é, cheio do fervilhar constante de acontecimentos diversos à tona dos dias, cheio de superficialidades e enciclopedismos baratos, pois por ali se expande tudo quanto de nefasto o mundo tem, por vezes até com manipulações horrendas a que não falta cheirinho a enxofre.
Os públicos vão ficando menos informados, ou desinformados, do que realmente acontece na actualidade autêntica que os envolve mas da qual vão sendo arredados, de olhos postos no caminho da bola como se dela possa vir honra e fortuna, ou entretidos com questões de lana caprina. Avulta em crescendo no país um défice de informação jornalística (isto é, fiável, clara e correcta) que se traduz, noutro plano, num défice de cidadania.
Evidentemente, a Net alberga também matérias dignas deveras interessantes e positivas. Mas têm a sorte das vozes que, fora do mundo virtual, apelam para a clarificação das inteligências: a maranha total abafa-as. Enfim, há quem vaticine a morte breve dos jornais de referência. Teremos então chegado ao tempo das ignorâncias e alienações instaladas, propiciadoras de soluções totalitárias?