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quinta-feira, 27 de junho de 2013

Lua cheia na cidade


O batuque percutiu nos ares durante toda a noite. Estrondeou em bum-buns incessantes que faziam tremer o solo, mas não voei para o interior da selva africana. Estou bem dentro da segunda cidade do rectângulo ibérico, poucos habitantes a cair de sono podem adormecer por aqui.
É a noite da festa tradicional que atrai para a Avenida central e para os bairros populares da periferia multidões espessas predispostas para alegres confraternizações. Festejam a chegada da Lua cheia que assinala o Verão, rito de reminiscência agrária outrora marcado com saltos de fogueira pelo rapazio. Levam nas mãos cravos e manjericos, alhos porros e martelinhos de plástico e há balões pelo ar e foguetório luminoso.
Nesta noite cálida das grandes efusões humanas trazida pela folha do calendário, a crise parece arrumada para um canto e negada a austeridade, o desemprego, o empobrecimento. É geral a euforia colectiva, sôfrega como mesa posta para convivas famintos. Quem vai notar no céu a Lua do perigeu, grande, nítida, luminosa, ou o luar que as luzes eléctricas comem e disfarçam?
Nesta rua, porém, umas incontáveis dezenas de jovens fugiram do espaço público e reuniram-se onde a festa, sendo pública, era privada. Uma espécie de clube para meninos e meninas que gostam de muita festa e alguma dança. Em volta do clube cresce a má fama.
A vizinhança queixa-se. Às nove e meia da manhã seguinte os bum-buns ritmados ainda soavam com decibéis potentes, de loucura, no jardim da retaguarda do prédio, a céu aberto. Da sua porta, com carro da polícia ao lado, saíam grupos e mais grupos de meninos e meninas que davam por finda a noitada…
Copos de plástico, garrafas e latas espalhavam-se pelos passeios, manchas de vinho no cimento, papéis, cervejas mal bebidas, lixo. Perto, na padaria, um vizinho protestava aos berros que não dormira, que chamara a polícia mas que a barulheira continuara. Às dez horas da manhã foi possível a um retardatário tresnoitado chegar ao seu carro de boa marca, ali perto, abrir a porta e, de pé, aliviar a bexiga.
Preocupem-se os sociólogos com esta juventude (não os educadores: para eles, é tarde). Aparentemente, não é rasca nem enrascada; não trabalha nem estuda e tem dinheiro para ir aos concertos, aos espectáculos de futebol, às festas de arromba e bebedeiras memoráveis. Não se interessa por política, é contrária a greves, ri-se dos baixos salários sem direitos, não acredita em causas nobres mas pode curtir chutos valentes, daqueles que disparam o desgraçado corpinho para maravilhosos paraísos artificiais. [Imagem: tendas de alpinistas a uns 1200 metros de altura; ilha de Baffin, no Árctico.]

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A crise exposta

Deixai aqui toda a esperança quantos ainda teimam em acreditar que foi benéfica para Portugal a sua adesão à União Europeia. Arruinou a agricultura, desbaratou as pescas e abriu a zona marítima nacional a outras frotas, limitando mais e mais a exploração do mar que é nosso. As «ajudas» que deu ao país serviram quase sempre para ampliar a corrupção em obras de luxo ou de fachada, não para fomentar a produção de bens, e criaram camadas de milhares de novos milionários.
Deixai aqui toda a esperança quantos ainda teimam em acreditar que a adesão à moeda única europeia contemplou o interesse do povo. Serviu o sistema bancário e, através dele, os interesses dos Estados da zona euro mais fortes e desenvolvidos lançados na exploração dos menos desenvolvidos. E agora se vê quanto isso serviu também para atrelar a União Europeia às ganâncias especulativas da alta finança internacional.
Deixai aqui toda a esperança quantos ainda teimam em acreditar que os partidos que tem sido governo desde há trinta anos agiram inocentemente ao endividar o Estado, isto é, pondo-o a jeito para desmantelar a pouco e pouco, com a rapidez conveniente, o Estado Social. Esses partidos aplicaram aqui e ali as políticas neoliberais aprendidas nos centros onde uma colossal acumulação da riqueza gerava o imperialismo e ensinava como este devia ser servido por governantes em geral. Só uma radical mudança de governantes, portanto dos partidos que se revezam no poder, poderá impor outro caminho por uma maioria de eleitores esclarecidos.
Deixai aqui toda a esperança quantos ainda teimem em acreditar que pode ser encontrada uma solução para a crise nacional mediante os processos eleitorais. Os partidos apropriaram-se do sistema democrático colocando-o deveras ao seu serviço. E a maioria da população (as classes médias), atormentada pela crise, talvez ganhe medo a mais crise até por fim rebentar.  
Deixai aqui toda a esperança quantos ainda teimem em crer que esta crise irá acabar, porque em breve ficará controlada a dívida soberana, e acabar a austeridade (iniciada há três anos; na Grécia há seis), o desemprego, a depressão económica e social, a emigração forçada da melhor força de trabalho. Desenganem-se: são as dívidas, melhor do que as armas, que vergam as nações. Os salários baixos e os empregos sem direitos vão generalizar-se pois o desemprego vai continuar alto e a maioria da população continuará sem dinheiro para consumir.
Deixai aqui toda a esperança quantos ainda teimem em acreditar que os bancos e todo o sistema bancário não lucram e prosperam com o esmagamento atual das classes médias. Esta governação que empobrece o povo trabalha para os engordar junto com as maiores empresas internacionais. A política sem máscara aproximou-se do que é descaradamente mafioso a coberto da manta protetora estendida por quantos esconjuram os perigos do «papão comunista».

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Fumadores postos na rua

Bem podem os viciados do tabaco arder em fogachos de escândalo. Compram os cigarros cada vez mais caros e tem ainda que admitir nos maços o aviso de que fumar mata, obrigando-os a fazer de conta que são cegos ou analfabetos. Mas, pior que tudo, a determinação de proibir o fumo em locais públicos e certos  espaços comerciais, em vez de revolta, implantou-se no povo manso sem provocar chispa.
Habituámo-nos a vê-los, incluso em tempo de rigorosa invernia, sentados à beira de cafés e restaurantes, nas esplanadas que parece terem sido criadas para seu uso exclusivo. Livram do fumo os interiores e quem lá trabalha, junto com a clientela, agradece. Por outro lado, não os ouvimos a reclamar mais abundantes lugares onde possam atentar livremente contra a própria saúde.
Também nos acostumámos a vê-los parados nos passeios, encostados às paredes, a fumar sozinhos ou em pequenos grupos. São funcionários de escritórios e repartições contíguas, o vício expulsa-os para o exterior. Conversam, falam ao telemóvel ou aquecem a pele com um pouco de sol.
Sucedeu, portanto, o que podia esperar-se: os fumadores saíram em quantidade para as vias públicas. Quer dizer, foram postos na rua. Alguns capricham em fumar postados no umbral dos cafés e outros locais comerciais, como que a dividir salomonicamente o corpo entre o dever de largar para o exterior as baforadas e o seu direito antigo de permanecer no interior - acharão acaso que a equidade estará no meio termo, naquela meia porta?
Acontece assim que os passeios das ruas se enchem de fumadores e de fumo. Vai o cidadão abstémio caminhando e avançando através das exalações sucessivas de cigarradas que, tendo que respirar, tem que inalar. Pode mudar de passeio, mas é luxo que nem sempre o trânsito lhe permite.
Sorte idêntica cabe a quem segue um fumador solitário de cigarro nos dedos, a ir adiante com a mesma pressa e que acelera quando vai ser ultrapassado. O cheiro que o abstémio sente no ar (o nariz emenda: não é cheiro, é fedor)  provoca-lhe náuseas decerto porque foi fumador ativo e passivo. Todos já fumámos demais «fumando» de variadas maneiras e mesmo sem cigarro aceso - precisamos urgentemente de ar puro, no mínimo de mais ventilação!

sábado, 16 de junho de 2012

O jogo da vida

Venho de um outrora em que qualquer passatempo servia apenas para passar o tempo em ociosidade. Por outras palavras, reconheço e assumo os anos já longos que levo de vida, sentindo agora que esta idade não tem só pungências, também algumas competências. Pelo menos terá uma, a de poder perceber a extensão que foram ganhando os chamados tempos livres e as «ocupações» que os foram preenchendo e absorvendo.
Antigamente havia poucas pausas para descanso, logo, poucas distrações. A disciplina do trabalho era exigente: viver do esforço honrado valia para o trabalhador como um brasão, a ociosidade era apontada como um desperdício, quase um vício. Nesta ordem de ideias, o jogo, máxime qualquer jogo de azar, que leva dinheiro e não feijões, desaparecia das vistas condenado por uma densa nuvem de sentenças morais.
Mas foram surgindo as lotarias, os casinos, os totobolas, os totolotos, mil sorteios sem sorte... Os maridos deixaram de ganhar o suficiente para sustentar suas famílias, as esposas tiveram que ajudar aceitando salários mais baixos, e ambos perdiam imenso tempo nos transportes. Sua majestade o futebol impôs-se como espetáculo de massas, alcançou mesmo o estatuto de «indústria», e a televisão das telenovelas, cantigas e concursos completou o quadro das distrações obrigatórias.
Habituámo-nos a dispor dos tempos livres até criarmos deles uma forte dependência, mas, contraditoriamente, habituámo-nos também a lamentar que, andando sempre a correr, não temos tempo para nada. Nem conseguimos ver o lugar central em que pusemos os jogos nas nossas vidas. O jogo da bola é um deles e tão absorvente quanto se sabe.
Aliás, absorvente e alienador. Instala a competição entre pares, a ambição da vitória a qualquer preço, e vulgariza a degradação dos vencidos. O patriotismo, o brio e a própria honra nacional dependem do pontapé da sorte que faz entrar uma bola na baliza.
Mas, assim, para onde são varridos, pelo mesmo golpe, o sentimento patriótico e o brio nacional dos povos arrebanhados e adormecidos em camas de resignação onde sonham alto? Acreditarão que é possível ter direitos e liberdades cívicas sem se incomodarem quanto for preciso na sua defesa? Ou terão de perceber um dia que a loucura é tão contagiosa quanto qualquer medo?
O jogo preenche a vida (individual, coletiva) que por outro lado se esvazia de sentido. Mas poderá a vida resumir-se ao jogo? O que será jogar a vida? 

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Medíocres contra criativos

O observador atento passa em revista os quatro cantos do mundo conhecido, vai para cima, volta para baixo, e  o que vê deixa-o confrangido e mesmo arrepiado. Para onde quer que se vire encontra mediocridade a reinar. Mediocridade estabelecida como modelo consagrado, normalizado, canónico.
Não é apenas a falta de um Mestre, com autêntico prestígio e autoridade moral, que sobressaia da vulgaridade o que marca em desgraça este tempo. O nivelamento cultural violentíssimo imposto pelas forças dominantes ao longo da segunda metade do século XX avançou pelo terreno esmagando mais e mais os brotos da diferenciação. Assim fomos levados na onda massificadora que tudo nivelou por baixo: formação escolar, participação cidadã, mentalidades, gostos predominantes, comportamentos políticos.
Nesta situação, considero muito estimulante o livro intitulado O Elemento (Porto Editora, 2010). O autor, Ken Robinson, aponta uma série de casos de sucesso conhecidos para destacar a criatividade revelada pelas respetivas personalidades. A mensagem tem a força da evidência: se essas pessoas não tivessem tido a coragem de ser «diferentes», ter-se-ia perdido o seu potencial inovador.
É absolutamente essencial para o desenvolvimento das sociedades que os dons (as vocações, as «paixões» cf. Ken Robinson) naturais de cada indivíduo se afirmem com a maior espontaneidade. Não basta declarar que a empresa, a escola, o governo ou centro de investigação querem descobrir novos talentos se não houver aí lugar para a inovação. Porque, se este lugar não estiver aberto, a inovação será travada.
Facilitadas estão somente as «mudanças na continuidade», que têm acolhimento garantido na mediocridade reinante pois parecem ser «de continuidade». Todavia, nos grupos sociais, pequenos ou grandes, uma inovação desafia a coesão do rebanho acomodado em conformismo. De facto, a dinâmica de grupo tende então a salvaguardar a mediocridade reinante contra o elemento inovador.
A expansão de tal clivagem gera e reforça as cumplicidades no interior do grupo em cada setor de atividade. Promove o mesmo-diferente, não o inovador, e assim se reproduz, passo a passo, nas hierarquias empresariais, institucionais, partidárias ou governamentais a ascensão de camadas de medíocres. Estes, habituados à hipocrisia e à lisonja, detestam os «outros» - rivais diferentes, inovadores, criativos num qualquer sentido - porque, concordando com Ken Robinson, dão vida  própria ao seu Elemento.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Assim é o povo tuga

Um povo que não se respeita não é respeitável. Nem, ai dele, respeitado. Desiludido de tudo e até de si próprio, não acredita mais em ninguém, apenas na sua capacidade para resistir à sorte que é a que quer no seu destino.
Vota ou abstem-se sem crer que vai mudar deveras alguma coisa. Votar, então, ou não votar, tanto faz. Para o povo tuga, os políticos querem é governar-se e, nada a fazer, quem se lixa é o mexilhão.
Mas os políticos, para este povo, afinal, são os políticos dos três partidos que têm governado o país. Os outros, da esquerda retinta, não entram em consideração simplesmente porque são de esquerda. Para «comunistas» e «comunismo» o povo nem olha, dá um passo à retaguarda e sente-se em perigo.
Após trinta e tantos anos a viver em sistema democrático, os tugas ainda suspeitam da esquerda, pronta a saltar do seu negro covil para lhes arrebatar mulher e filhos, casa e  propriedades. Prefere votar nos mesmos, sempre, porque são políticos familiares e lhes prometem segurança embora se inclinem para a instabilidade quando lhes dá jeito. E se os seus votos, além de entregarem o poder legitimado, servirem também, surpreendentemente, para levar a honra a vencer a infâmia, estabelecendo uma incrível vitória da verdade sobre a calúnia, este povo, habituado a manigâncias, nem resmunga.
Aflito com as dificuldades da vida a crescer, o povo vai perdendo apoios sociais, garantias de trabalho e emprego, enquanto, por outro lado, aceita pagar mais impostos ganhando menos perante a subida geral dos preços. Mas ouve dizer «é a crise» e acredita que a praga veio de fora para o afligir. Logo, assente na regra pelintra do «cada um é por si», vira as costas a sindicatos e a quaisquer apelos para fazer greve ou sair à rua em manifestação cívica de protesto e reivindicação.
Este povo é velho. Entrou em vibração nos gloriosos dias de Abril mas esses dias pertencem a um passado tão remoto como o primeiro baile em que dançou com gosto. Convenceu-se, agora é assim, o mercado manda nos empregos como nas colocações dos jogadores profissionais do futebol, o sexo ou a alta finança.
É deste povo, assim desanimado e com medo, que o governo precisa. Sai para vender mais dívida em cima de dívida a quem a compra em troca de apetitosos juros e o governo volta a cantar vitória porque, vejam bem, continua a ter quem lhe empreste para continuar a cantar vitória. E, se não vende dívida, vende património público.
Um dia nada distante o povo tuga acordará num país, que é o seu, afogado em dívidas colossais, que os governos de direita foram acumulando e ele dormindo aflito com as dificuldades da sua particular vidinha. Não estará sozinho: a seu lado, acompanhando-o no descalabro nacional, terá um outro povo, esse nada tuga, o tal dito maldito «comunista». E ambos, um arrastado pelo outro, juntos na desgraça, pagarão o que for de pagar.
As grandes corporações nacionais, de estatura fortalecida pelos seus negócios com o Estado, demonstram que o dinheiro não tem pátria nem cheiro. Investem fora de portas, onde  a ganância e  a cobiça as chama, deixando para trás, como vinha vindimada, a terra avoenga que as fez grandes. Quem ficará com a santa terrinha ao colo?

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Vamos jogar matraquilhos?

Tempos maus, estes que vivemos. É o dito dos que não  são banqueiros e governantes, ou seja, todos nós, a imensa maioria. Até os dirigentes desportivos já entram no coro dos queixumes, vendo os seus estádios a encherem-se de moscas.
É verdade, desde há muito se sabia que o futebol de competição, o tal com honras de «academia», era actividade ruinosa. Dava bem mais despesa que receita porque era preciso alimentar a indústria dos golos metidos ou sofridos  e isso pedia compras e contratos milionários com jogadores, treinadores, seleccionadores, empresários e senhores das equipas. As dívidas acumuladas dos principais clubes e outros problemas em acumulação constituem um nó górdio que só um golpe de espada poderá desatar, cortando-o.
Estamos na hora de fugir por outros caminhos dos problemas que nos abafam. E de praticar desporto, não de o tomarmos como espectáculo. Descobrindo com ingénua surpresa que a competição pela competição, transformada em espectáculo de massas, de custos incomportáveis e mesmo ruinosos, matou barbaramente o desporto, que é actividade lúdica saudável, bela e prazenteira.
Cortemos então, cerce, com um golpe de espada, o nó do problema. Joguemos matraquilhos, todos, de norte a sul e regiões autónomas. Jogando de pé, dois de cada lado, quatro praticantes por bilhar em animados confrontos, braços em movimento, manápulas firmes nos manípulos, olhos fitos na bola chutada e em corrida para a baliza.
A procura dos bilhares, sem dúvida, irá sair da apatia em que se encontra para atender as encomendas. Mas são fáceis de fabricar e nem requerem compras de componentes no estrangeiro, temos cá dentro tudo o que é preciso. E note-se a diferença de custo entre um estádio, que pode ser novo e para demolir, e um jogo de matraquilhos pronto a usar.
Acresce que os portugueses - portugueses de todas as idades e géneros -, estão a ficar com excessos de peso. Saltem, portanto, do sofá ou da bancada, fiquem de pé como gente, e pratiquem desporto. Mexam-se jogando matraquilhos.
Há quem acredite que, mexendo-se assim, irão conseguir activar as meninges do outro hemisfério. Pouco a pouco, decerto, mas será esse o caminho da salvação. De costas para o desporto-rei, a vibrar com entusiasmo e a disparar pontapés certeiros na bola rolante, os jogadores não mais serão espectadores de outros jogadores e sim, finalmente, jogadores praticantes eles próprios e de sangue a borbulhar na guelra.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

E continuo no país

Mal comparado, um prédio assemelha-se a um país. A portaria dá para os negócios estrangeiros, no primeiro piso temos a produção económica. No teor do regulamento interno encontramos o sistema legal em vigor, na administração podemos ver o governo nacional... e por aí acima até ao telhado, cobertura da justiça e da segurança social.
No condomínio, é a administração das partes comuns que governa o essencial no interior das casas. Porém, a gente da nação-prédio manifesta uma indiferença, quando não um desprezo pela governação das suas partes comuns. Diz, convencidíssima, que, se são de todos, não são de ninguém.
A gente quer lá saber disso! Tem mais que fazer, vamos lá. A propriedade colectiva é metáfora incompreensível.
Do que é «público» cuidem os «políticos», que se colam à coisa como as sanguessugas à perna, mas que por isso mesmo e por muito mais que não vem ao caso, a gente olha de revés ou com desprezo. Não fazem nada e ganham balúrdios, diz a gente. Sabemos bem o que se passa, aquela malandragem a nós não nos engana.
De facto, o prédio-nação mete água por todas as frestas. De momento parece estar num coma induzido, mas logo, atingido por um disparo, acordará dentro de um pesadelo. Ou estará a lembrar-se daquele especialista que veio estudar-nos e partiu dizendo que, se não fosse a corrupção, teríamos por cá um nível de vida médio igual ao da Finlândia?
Felizmente, nunca escassearam «políticos» para se devotarem, voluntariosos e sem queixas, ao serviço público. Quando uns se reformam e saem da liça, sobra sempre um pequeno exército de pretendentes. Todavia, as reservas dos melhores anos estão como que esgotadas, até já vem recrutas de divisões distritais e  juniores.
Os papéis estão distribuídos e aceites, tratem «eles» da coisa pública que nós sabemos o nosso lugar. Ah?! Sim, ouvi dizer. Discute-se actualmente na assembleia o novo orçamento? É o segundo rectificativo, as despesas têm crescido em barda? Correu-se a salvar os bancos, os elevadores, a coluna de água, as receitas minguadas sem previsão nem aviso prévio? Que gente portuga liga a isso? Isso é para «eles», nós temos que trabalhar, ir à vidinha... Haja alguém que nos governe.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

No meu prédio estou no meu país

Tenho habitação num prédio em regime de propriedade horizontal. Estou aqui - porque daqui vejo o mar - há mais de trinta anos e ando agora a remoer uma ideia esquisita. O meu prédio lembra-me o país em ponto pequeno e os associados no condomínio parecem-me cada vez mais uma amostra elucidativa do povo portuga.
O prédio é muito mal administrado e não é lá grande coisa quanto a categoria. Falta-lhe ambiente cuidado porque reina indisciplina nas partes comuns. Há obras que são autênticos despedícios. Até a limpeza e a arrumação são medíocres.
Todavia, a administração faz-se pagar. A despesa do condomínio sobe constantemente. Todos reclamam e protestam quando o elevador avaria ou umas lâmpadas fundidas demoram a ser substituídas nas escadas, murmuram e cochicham de boca na orelha apontando o preço alto das últimas obras e dos remendos por tapar que essas obras deixaram à vista. Mas é difícil convencer um condómino a aceitar o cargo de administrador.
As assembleias são demoradas, fatigantes e, no entanto, improdutivas. Fala-se muito para o ar, em queixas e queixinhas de uns contra outros que nada têm a ver com a ordem de trabalhos. Ignoram-na tão irremediavelmente como ignoram a regulamentação legal dos condomínios. Querem sentir-se livres para avançar por cima do que der jeito.
Nas reuniões não abrem o bico para soltar reparos sérios, críticas pertinentes. Guardam isso para as suas conversas de corredor ou desvão de porta, onde repudiam decisões que antes aprovaram em reunião. E foi assim que concordaram com uma proposta surpreendente, para pagarem melhor a administração, e dizem agora que o senhor ganha muito e quase nada faz.
O telhado reclama revisão e conserto urgentes há muitos anos... e nada. Um condómino ousou pensar numa solução e expôs formalmente em assembleia o projecto que resolveria decerto o problema sem gastar dinheiro: estudar ali a instalação de painéis fotovoltaicos. A microgeração seria financiada por banco, a exposição solar do prédio e as dimensões da instalação eram verdadeiramente apropriadas, o contrato tinha boas garantias e até o velho problema do telhado ficaria resolvido...
Mas era um projecto extraordinário. Prometia um rendimento bonito para o prédio? Cuidado, portanto!
E os meus vizinhos continuam beatificamente a ver as telenovelas e o futebol, a espiar o que faz ou não faz a vizinhança e a mexericar pelos cantos. Tão entretidos no dia a dia que nem vêem o que pagam e ainda sem medir o que poderiam poupar... para viver melhor.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Monstruosidades vulgares

As monstruosidades impressionam, causam horror e pânico. Mas existem monstruosidades de vário tipo. Se forem de tipo vulgar, isto é, se se repetem, tornam-se um tanto habituais: como que perdem a malignidade e transformam-se em meros aleijões familiares.
Assim aconteceu outrora com a escravatura, a segregação racial, a pirataria, o canibalismo, a tirania do forte sobre o mais fraco, os atentados contra a criança e a mulher, a desumanidade em todas as suas formas. Entramos neste esplendoroso século XXI cheio de civilização, riquezas e tecnologias, a proclamar orgulhosos «direitos humanos», e que acontece? Somos informados que há gente a trabalhar escravizada, a segregação étnica continua, há piratas a assaltar navios e a fazer reféns, canibais matam e comem em orgias de superstição, crianças e mulheres são caça apetecida inclusive para exploração sexual, a força maior ainda aplica as mais brutais formas de exploração do homem lobo do homem!
Somos informados e no entanto quantos de nós sabem ou querem saber? Quem advertiu, por exemplo, a emenda das frases que no «Pai nosso» cristão aludiam a dívidas e devedores, motivo antigo de escravização? As monstruosidades estendem-se pelo mundo nas agonias do nosso tempo, banalizam-se pela multiplicação, mas nunca deixam de ser monstruosas, de causar pânico e horror.
A crise mais dramática no nosso tempo concentra-se precisamente no ponto em que verdadeiras monstruosidades se tornam vulgares, não por serem leves ou pequenas, mas porque são apenas… vulgares («normais», frequentes). Parece que as multidões se vergam a tolerar o intolerável, resignando-se a uma qualquer fatalidade imaginária que inalam, como um veneno, neste ambiente. É, porém, à relação do homem com os outros homens que devemos regressar para reencontrarmos o diapasão, a pedra de toque de tudo o que é determinante no tecido limpo das relações sociais.
A atitude como cada pessoa encara e trata uma outra e toda a gente reflecte o estofo da sua própria humanidade e, por aí, a sua ideologia, o pulsar da sua opção cívica e política. Não é possível estar de barriga cheia e contente ao lado de quem, perto ou longe, sucumbe de fome. Ninguém pode, sem grave contradição, ser de esquerda e apoiar hoje uma (des)governação de direita que dizima as classes médias.
Monstruosidades vulgares giram hoje no carrossel que põe a desfilar os basbaques de gesso defensores da democracia política, esquecendo, porém, que tal democracia, esvaída dos seus conteúdos económico e cultural socialmente humanizados, vale pouco menos que nada assim reduzida a figura de retórica. Um problema, no entanto, subsiste: alguém poderá viver bem e sentir-se em segurança neste mundo escalavrado que acumula tensões e contradições explosivas? Ainda que se distancie das multidões, metido dentro de espessas muralhas?
Um bom e velho amigo em visita, há poucos dias, deixou-me envolvido nestas reflexões. Alinha na «esquerda», aplaude a terceira via, mas declarou-me «de esquerda» aos seus acompanhantes. Nenhum de nós, porém, vai rodear-se de muralhas…

quarta-feira, 9 de abril de 2008

AJHLP roída por dentro

Dedico esta página a umas notas evocativas da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP). Também foi conhecida como Casa dos Jornalistas no tempo em que os homens que redigiam os jornais portuenses não tinham profissão regulada nem caixa de previdência. A Associação foi tudo isso, sendo ainda um polo importantíssimo de irradiação cultural.
Foi criada para honra e memória de António Rodrigues Sampaio no trigésimo dia do seu falecimento, a 13 de Outubro de 1882, proclamando-o desde então «insigne jornalista, benemérito da Pátria e da liberdade». Os Estatutos da Associação ficaram aprovados por alvará de 1 de Maio de 1897 e a sua utilidade pública foi declarada por decreto a 19 de Janeiro de 1927. Mais tarde, já na vigência do regime de Salazar, o Governo Civil do distrito aprovou uns Estatutos reformados a 11 de Novembro de 1948.
Nesta data, a associação de cultura possuía o prédio-sede e, entre os seus objectivos, afirmava «a obrigação moral do auxílio na doença ou falta de trabalho [pelo sistema mutualista], e torná-la efectiva pelos recursos pecuniários da Associação» junto dos profissionais da imprensa ou das letras. Dispunha de uma vasta e valiosa biblioteca e de cantina, promovia conferências e outros eventos culturais de relevo no país e publicava uma revista mensal de cultura. Obtinha receitas das rendas de uma fila de lojas instaladas no rés-do-chão (esquina das ruas do Bonjardim e Rodrigues Sampaio), das quotizações dos sócios e de dádivas diversas.
O valor material do seu património cresceu com a doação de uma moradia em Paços de Ferreira, para descanso ou trabalho de jornalistas e escritores, e com a posse de um parque de campismo na Madalena, Gaia. Era, sem dúvida, património de valor bastante elevado, a condizer com o prestígio da sua acção social e cultural. Corporizava o esforço de sucessivas gerações de homens dos jornais e das letras que sacrificadamente tinham vindo a derramar-se em generosidade para dar vida e esplendor à Associação. Porém, no fim dos anos ’70, entrou-lhe o bicho através de umas obras de ampliação da sede - e foi assim.
O centenário da morte de Rodrigues Sampaio, em 1982, não o tirou da sombra, as obras ficaram a meio, foi-se a biblioteca levada pela ventania junto com outro recheio, a moradia dissolveu-se como floco de neve, o parque de campismo também se sumiu e as lojas do rés-do-chão foram sendo encerradas (resta uma) e as rendas extintas. Mas as obras nunca mais avançaram por alegada falta de dinheiro, que era pedido em vão a uma e outra entidade, embora nas contas relativas a 1999 se aponte um conjunto de disponibilidades cujo valor líquido ascendia a 26.197 contos (então ainda reinava o escudo).
Porém, o mais curioso é que tudo isto decorreu até hoje na mais clamorosa indiferença do meio jornalístico e literário portuense, imperturbável perante a lenta agonia e perda irremediável de uma instituição que tanto e tão prolongadamente honrou a cidade e o país. Apenas uma voz intercede, mas quem a ouve? O que mais irá acontecer à AJHLP?

segunda-feira, 3 de março de 2008

O povo e o ícone

Emerge Salazar à tona dos dias quando algo remexe nas águas profundas do colectivo nacional. E não admira. Apesar dos anos que levamos de regresso ao sistema democrático, o país aparece restaurado conforme o desenho que dele herdou. Salazar é o ícone fatal que reflecte a matriz do povo português ao ponto de se poder perguntar se não será mais este povo que engendrou aquele ícone e nele se compraz.
Para além das aparências «democráticas» em diluição, vê-se instalado no terreno o essencial do regime da ditadura. A comunicação social toda, sob eficaz domínio, deixa o povo entreter-se com futebol, telenovelas e miúdas invejazinhas; a justiça e as polícias governamentalizadas; os milionários (agora contam quinze mil, quando Salazar morreu, seriam milionárias quantas famílias portuguesas: seis?), enriquecendo aqui dentro e saindo a investir lá fora; a governação atraindo investimentos estrangeiros a todo o preço e adiando uma estrutura económica menos aleatória; os assalariados tolhidos por medos e angústias em crescendo; as populações embaladas em promessas de consumismo sonâmbulo e adiando o despertar… Não era diferente deste o país que Marcelo Caetano, após Salazar, pretendeu. E então, acredita quem tal viu, abundava mais cidadania, mais solidariedade e capacidade participativa; havia quem visse, ouvisse e lesse. Tudo isso desapareceu, foi varrido ou esmagado. Quem tem uma verdade importante, de notório interesse geral, e a proclama em público expondo-se aos zelos alheios, fica ciente de quantas atenções agencia. No meio da praça, em cima de um banco, falará na Travessa do Fala Só.


Uma outra estória, neste caso profundamente embebida na memória popular, conta que o ditador convidou para uma refeição diversos chefes de governo, ministros e líderes estrangeiros. Querendo pôr a reluzir perante as visitas a sua sabedoria de governante, mandou pôr na mesa um único limão, que circulou pelos comensais até que lhe chegou às mãos. Todos os presentes acharam que Salazar não conseguiria espremer melhor o que já estava bem espremido, mas enganaram-se: o ditador apertou ainda mais o limão e, para geral espanto, extraiu do mirrado fruto quanto precisava.
O povo reconta a estória saboreando-lhe a graça. O ditador até dava lições, era mesmo económico!...
Porém, quem a inventou (pois o caso não é rico de verosimilhança) certamente não pretendeu, nem de longe, exprimir tal conclusão. Pretendeu denunciar, não espalhar gracinha. Quis dizer que até de um povo pobre, atrasado e oprimido era possível extrair quanto o ditador quisesse – e, com todas as ajudas dos seus apaniguados, conseguiu-o. A lição, política, ficava à vista. Mas o povo (o limão), mesmo depois de viver em regime democrático, insistiu sempre em não ver, preferindo deixar-se espremer para continuar a saborear a gracinha.