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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Governo de multimilionários


O termo perdeu força, devia ser actualizado. Um milhão de euros ou de dólares já não chega para colocar quem o possui na, outrora invulgar, categoria de ricos. Verdadeiramente ricos são agora, como bem sabemos, os donos de incontáveis milhares de milhões, tantos, tantos, e a crescer, a crescer…
Girando com rapidez, as rotações centrípetas do capitalismo esvaem as periferias em direcção ao eixo central, onde se acumulam. Os Estados Unidos são o eixo económico-financeiro do Ocidente sendo também a nação mais poderosa e rica pátria (embora a mais endividada) de quase todos os maiores multimilionários que este mundo criou; pátria, também, e decerto não por acaso, onde o seu novo presidente eleito, o multimilionário Donald Trump, junto com os membros do seu gabinete, somam tanta riqueza multimilionária que tal Governo será recordado, sem dúvida, como um caso histórico fenomenal metido na Casa Branca. Novidade estreme é, porém, a vontade súbita que os senhores gerentes de tão colossais fortunas se disponham a governar.
Prometem governar a nação federal conforme governam as suas empresas - bancos, fundos financeiros, investimentos, marcas transnacionais. Mas será isso possível, incluso com a celestial ajuda de todos os santos? De facto, os multimilionários administram as suas empresas orientando-as de maneira a aumentarem os lucros; ora, feitos ministros (ou “secretários”, como por lá se usa), se vão governar tal qual, não irão servir os cidadãos, apenas aumentarão os lucros…
Todavia, a entrada de tantos multimilionários na governação estado-unidense é novidade apontada num outro sentido. Então já não lhes interessam mais as reuniões do Clube Bilderberg, querem mesmo liderar o órgão cimeiro político-administrativo? Isto é, vão dispensar a cambada do sistema bipolar republicano-democrata e mandá-la para a reforma?!
Ouviram? Um estouro aterrador percutiu nas paredes e nos tímpanos dos presentes anunciando o Diabo, que surgiu no palco envolto numa nuvem de fumo. Mostrou o seu jogo.
Os multimilionários são já os donos disto tudo. E sabem tudo. Conhecem as regras do sistema, chega a hora grande de os empresários, homens de colossais negócios, substituírem políticos, diplomatas, jornalistas e arautos de regulamentações incómodas.
Empresários sabidos, sem dúvida. Até sabem o que pensamos, consumimos e fazemos, quer dizer, todos nós, os milhões de entregues à americanização e ao consumismo que em cada país frequentamos os centros comerciais. Naquelas suas mãos concentram terras férteis e recursos hídricos que produzem os alimentos e os artigos que as populações urbanas se habituaram a consumir: bananas e calças, livros e cereais, crédito e vinhos, fotocópias, televisores e smartphones tal como água potável e o oxigénio que respiramos (bens esgotáveis, que se valorizam).
[Pintura de Iman Maleki, artista híper-realista iraniano.]

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A cultura do decrescimento

Serge Latouche, economista e pensador francês, distinguiu-se na defesa de uma causa impopular: a cultura do decrescimento. É autor de vários livros em que justifica as suas ideias por sinal marcadas pela influência recebida de François Partant, outro economista francês. De facto, Latouche co-fundou e dirige La ligne d’horizon, plataforma dos Amigos de Partant dedicada à difusão das suas teses.
Eu apoio, desde a década de ’70 do século passado, a bandeira do decrescimento que, como todos sabemos, se mantém desde então sob rigoroso apagamento. Porém, alguns livros de Latouche foram publicados em Portugal e também no Brasil. Não há dúvida, paga-se um preço nada razoável por se ser crítico do consumismo, do crescer por crescer, porque, para este autor, o crescimento ilimitado é incompatível com um planeta limitado; logo, quem tal diz, “é louco ou é economista”.
O autor pede uma descolonização do nosso imaginário de consumidores compulsivos. Afirma que “a verdadeira riqueza consiste no pleno desenvolvimento das relações sociais de convívio num mundo são”. Ora este objectivo “pode ser alcançado com serenidade, na frugalidade, na sobriedade, até mesmo com uma certa austeridade no consumo material, ou seja, aquilo que alguns preconizaram com o slogan gandhiano ou tolstoísta da simplicidade voluntária.”
Como haveríamos de estranhar o prolongado apagamento das ideias de Serge Latouche (n. em Vennes, 12-01-1940), que o mesmo será dizer da cultura do decrescimento? Ele vai ao ponto de contrariar a ocidentalização do planeta… Em suma, puxa para um lado e o mundo vai avançando para o outro.
Registo agora um caso pessoal intrigante. A Universidade Estadual do Sudoeste Brasileiro indica o meu nome como tradutor da obra Introdução à Cultura do Decrescimento, de Latouche e que a edição se deveu, em 1973, a Publicações Europa-América. Nessa obra se terá baseado um curso de extensão transdisciplinar cujo programa a Universidade transcreve. Ora eu tenho memória (remota!) de algo semelhante; isto é, sem o poder afirmar, acho que traduzi realmente para a PEA, naqueles anos, diversas obras, uma das quais com o tema versado por Latouche, mas o catálogo geral da BN não a regista e eu não a tenho em casa. Aliás, o tema foi aqui abordado, em "Enfim, o decrescimento»", 01-03-2009.
As primeiras edições portuguesas deste autor são recentes (da Piaget e de Edições 70), portanto muito posteriores a 1973. Como explicar, esclarecer, entender isto? Poderá a ajuda de um leitor benévolo e amável esclarecer o enigma?

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Nacionalismo e patriotismo


bola.jpgOs políticos que mais se revezam nos órgãos informativos têm na boca, sempre pronta, uma palavra: nacionalismo. O termo tem significados e sentidos diversos, mas o contexto habitual das frases descarta a semântica. Ao nacionalismo invocado, sempre em sentido pejorativo, opõe-se o antónimo: globalização.

Aquela gente mostra-se inabalavelmente convencida de que a globalização - nas ideias, nas mentalidades, nos comportamentos - é o único caminho a seguir por nações, empresas e cidadãos para progredir e prosperar neste nosso abençoado tempo. São políticos iluminados por grande experiência de vida, que já integraram governos ou aspiram a ter lugar num próximo a formar e que sabem colocar-se em posições estratégicas para vencer. Não têm dúvidas: este tempo é de globalização, ou melhor, de competição.
O nacionalismo foi assim arrumado na prateleira dos conceitos desprezíveis, obsoletos ou quase bacocos por quantos vêem Nova Iorque no centro do mundo e Washington como sua metrópole ideal. Mas, sem nacionalismo, sem nacionalidade, onde pára, onde pode aparecer o patriotismo? Por que motivo este sentimento está a ser tão radicalmente expurgado do discurso politicamente correcto?
À evidência, abunda “patriotismo” futebolístico. Bandeiras nacionais flutuam ao vento por todo o lado, em apelos para que Portugal vença o campeonato e ganhe a taça. Posso testemunhar: nas ruas da minha cidade, quase desertas nas horas do jogo, ecoam gritos, brados, urros impressionantes - altifalantes e gargantas humanas em coro a vociferar a plenos pulmões.
De facto, somente formações políticas minoritárias, com reduzida expressão eleitoral, mantém patriotismo nos seus vocabulários. Hipnotizadas pelo golo na baliza, as massas populares deixaram-se alienar, ficaram sem pátria. Transformaram-se em “cidadãos da bola”, género novíssimo de cidadãos do mundo, esperando talvez que o futebol acabe com o desemprego, a pobreza do crescimento económico, a insegurança social.
Todavia, a globalização tem servido para quê? Para os milhões dos ricaços viajarem pelo mundo sem passaporte e se esconderem nos paraísos fiscais. Para deslocalizar empresas e explorar mão-de-obra barata, sem direitos e tantas vezes infantil, inspirando por cá, na União Europeia, os défices orçamentais, prodigiosos cavalos de Tróia prontos para tudo menos arrancar unhas em vez de no-las ir cortando até ao sabugo.

O sentimento patriótico, livre de egoísmo e exaltações nacionalistas, isto é, educado na solidariedade internacionalista com todos os povos democráticos, requer o sentido da nação a que se pertence para poder nascer e animar o cidadão. Sem patriotismo nenhuma cidadania estará completa. Assim será possível que cada habitante deseje e trabalhe verdadeiramente pelo bem da pátria que é nossa.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

As gerações da globalização

solipsism.jpgMostra o teu lado selvagem, diz a publicidade ali no cartaz. Exposto na parede da confeitaria, não promove somente a barra de chocolate ou a bebida energética que os jovens consomem: promove sobretudo o lado selvagem acreditando que o encontra espalhado e latente, à espera do sinal para se mostrar. Formatadas, as novas gerações gostam de agressividade para afirmarem o próprio ego, a exemplo dos heróis invictos que, de peitos enfunados, enfrentam e esmagam qualquer assomo de resistência.

O lado selvagem campeia em cenas de bullying nas escolas ou de indisciplina nas aulas e na falência da formação escolar. Talvez venha, embrionário, das crises por que passa a estrutura familiar. Mas o ambiente da rua, do bairro, da cidade, do país, do continente e do mundo avança no caminho selvagem tão generalizadamente que estamos perante uma vaga que um novo tempo impõe.

E assim as novas gerações acham perfeitamente natural que os heróis do chuto na bola ganhem cabazes de milhões nem se importam com o preço que pagam para entrar nos estádios pois acreditam no sonho americano mesmo em Portugal. Ouviram os pais a recordar os tempos difíceis que viveram e agora as novas gerações vêem as coisas feitas e arrumadas, tudo organizado. É tempo de festa, haja música, muita música, concertos monumentais, para quê marrar no estudo como as meninas e os meninos queques, ou atender profes de esquerda a dizer que é preciso ter causas, ideais, princípios?
A melhor ideologia é a do mercado, com a cultura das grandes marcas, o conforto da mentalidade estereotipada, a consagração dos gostos e dos costumes kitch. Ser português importa pouco, basta ser habitante e consumidor, portanto longe de questões como saber distinguir o que é patriotismo do que seja nacionalismo. As novas gerações dispensam a cultura geral tão facilmente quão a leitura de informação diária; não entendem de política e tardam a definir projectos de vida supondo que estão disponíveis para a melhor oportunidade por vir.
As novas gerações ignoram por que não querem saber. A globalização (do ensino, da cultura de massas, do espectáculo non stop, do consumismo como estilo de vida) deu-lhes, subrrepticiamente, a matriz essencial do desiderato que importa. Os donos disto tudo podem continuar descansados: poucos são os que se espantam vendo Barack Obama andar por Europa e Ásia a propagandear o famigerado, monstruoso e inaceitável tratado de comércio ao serviço das maiores empresas transnacionais da poderosa nação a que preside.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

A lâmpada de Edison

Edison dizia que o génio consiste numa simples migalha de Inspiração e que o Trabalho muito suado é que era a coisa quase inteira menos a migalha. Mais ou menos nestes termos falava o homem, cientista desprestigiado, de como realizava as suas invenções - e foram mais de duas mil, de acordo com a história. Estaria a referir-se à lâmpada eléctrica de incandescência que tanto o fez rabiar até que acertou no filamento de carbono?

v.volegov.jpgÉ verdade, o homem trabalhava deveras e apaixonava-se pelos seus projectos. Mas já houve quem julgasse que até trabalhou em demasia, apontando para a sua invenção concretizada em 21-10-1879: a velha ampola de vidro ainda se mantinha acesa, algures, na casa-museu que o evoca, irradiando luz e calor. Quer dizer, Thomas Alva Edison (1847-1931) trabalhou tão bem que, talvez já a pensar no seu interesse como empresário, escolheu, entre os diversos filamentos experimentais, aquele que tivesse uma duração conveniente.

Nesse caso, parece que Edison foi autor de uma outra invenção (recorrendo não só à pilhagem de inventos alheios). Descobriu a obsolescência programada dos bens de consumo que por todos os lados hoje nos assalta e devora. Pois não se dizia que, ao fim de uma cambada de anos, a lâmpada daquela festejada data ainda continuava a funcionar?

A iluminação com tubos de néon, posterior, poupava electricidade e produzia menos calor, mas seguia a regra: ao cabo de uma cifra de horas de utilização acabava a relampaguear (e nós em dúvida: como descartar sem perigo os tubos fundidos no ambiente). Agora temos a grande novidade, a luz dos diodos. São de custo elevado mas podem convir porque garantem uma também elevada poupança de energia.
Em que ficamos? Na mesma. Anuncia-se uma próxima novidade nesta matéria absolutamente revolucionária: vão aparecer no mercado novas lâmpadas e alguns outros aparelhos domésticos concebidos por uma nova tecnologia tão avançada e perfeita que lançará definitivamente no lixo tudo o que temos vindo a usar e conhecer.
A nova tecnologia chega, portanto, envolvida nas habituais epifanias que, com esperança inesgotável, acolhemos as novidades: consome de electricidade menos que a lâmpada de Edison, menos que os tubos de néon e até menos que os recém-chegados diodos. E agrega ainda outras conveniências importantes, dizem sem esclarecer os anunciantes. Apenas não cuidam de nos prevenir que teremos de continuar a ir à loja e ao mercado para abastecer o sistema que do capitalismo tem nome e proveito. [Imagem: motivo central de pintura por Vladimir Volegov.]