Mostrar mensagens com a etiqueta crise política. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta crise política. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A onda passou e o que ficou?

Há cerca de um mês, uma poderosa onda emocional varreu a Europa e parece que todo o Ocidente. Atroou praças e avenidas o grito das multidões que exigiam “liberdade de expressão”. Os ecos de tamanho clamor popular devem percutir ainda em algumas memórias menos frágeis, chega agora o momento de considerar o acontecido.
Manifestar o direito público à liberdade de expressão evidenciou desde logo a índole conformista do gesto: encobria que a informação da actualidade fornecida pelos media, sendo incompleta, parcial, tendenciosa, serve cada vez mais a Verdade Única do pensamento dominante. Resultou numa manobra descaradamente populista e, na presente situação da prática objectiva do jornalismo, também hipócrita e algo cínica. A informação e o jornalismo estão sob um crescente controlo que filtra o que aparece na imprensa, na rádio e na televisão, em obediência a um breviário de “verdades” assentes contra o que seja tomado como de esquerda.
Defender a liberdade de expressão no actual contexto? Seria pouco, se isso valesse a pena. Muito melhor seria denunciar a manipulação, a parcialidade, o seguidismo massificador da informação que as empresas de comunicação social servem ao público e pedir outra, diferente, capaz de ouvir sempre o “outro lado” das questões.
O que aconteceu acirrou os ânimos já aquecidos pela conflitualidade atiçada entre radicais muçulmanos e cristãos; o radicalismo islâmico ganhou mais base e a direita europeia, festejando, cresceu. De súbito, a União Europeia viu-se a cair nos braços abertos da América. Com os seus milhões de desempregados e a baixa dos salários imposta pelos programas da austeridade + estagnação económica, a zona euro dispensa a barateza do “canalizador polaco” e a emigração clandestina da margem sul do Mediterrâneo, pelo que se propõe rever o acordo de Schengen da livre circulação, até porque a ameaça jihadista também mora cá dentro.
Este velho e retalhado continente ficou mais inseguro e ameaçado, além de mais intolerante e xenófobo, isto é, mais afastado da Liberdade, Igualdade, Fraternidade carimbada nos direitos humanos. No mundo de hoje, o terrorismo, venha de que lado vier e que sinal tiver, presta-se a aproveitamentos oportunistas e a conspirações obscuras de interesses ideológicos e políticos contraditórios, em função de estratégias e propagandas mistificadoras tão confusas que já parecem compor um cenário pré-bélico. O jornalismo de uma imprensa livre iria naturalmente investigar cada situação, mas, nas presentes circunstâncias, nem espaço lhe sobra para questionar, por exemplo, porque foram abatidos os alegados dois irmãos do atentado ao “Charlie”, tal como o indivíduo que interveio na loja kosher, assim como abatidos foram, sem interrogatório policial nem julgamento, Sadam Hussein, Khadafi ou Bin Laden.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O sagrado em reflexão

A ordem das coisas sagradas não é hoje, ou pode não ser, apenas uma questão religiosa, matéria de especulação teologal. Sagradas podem, e devem ser, vidas humanas em risco, aspirações de mais alta justiça, mais liberdade, mais paz. O sagrado dos crentes coabita no mundo com o profano dos não crentes ao ponto de se (con)fundirem nas duas faces de Janus.
Aparentemente, os progressos científico e tecnológico, que permitiram conhecer a estrutura do átomo e a vastidão do cosmos, comprimiram o lugar antigo das religiões, pouco a pouco invadido pelas mentalidades modernas e os costumes da vida laica. Basta, porém, notar, por exemplo, os temas que vão correndo em filmes e romances populares, tão alienantes, recheados de magias incríveis, crendices retrógradas ou fantasias sobrenaturais, para de relance se perceber quanto mudou na paisagem da cultura religiosa vulgar. Ainda assim, note-se, sem paradoxo, a crescente agressividade que os manifestantes cristãos e muçulmanos europeus, acusando-se mutuamente de fanatismo, actualmente revelam.
Uma dimensão sagrada, qualquer que seja, parece inerente à condição humana normal. Sem se imbuir da noção do que é sagrado, proveniente de formação religiosa ou outra, sem deus, mas cultural e humanizada, as pessoas ficam privadas do atributo que supomos estrutural. Por isso, o problema do nosso tempo reside talvez no apagamento de uma formação que, em última análise, confunda educação religiosa ou cultural, ética e humana. 
Daí a interrogação antes posta: o que resta de sagrado no mundo, hoje? É perante o que temos de sagrado que se estabelecem os interditos, as obrigações gerais da ética, os princípios humanos basilares. Ora, o apagamento do que seja sagrado (quer dizer, do “sacrário”, lugar íntimo onde guardamos os valores supremos, imateriais, sem os quais os indivíduos e a espécie ficam sem defesa) expõe os povos a incalculáveis perigos. 
Não há dúvida, a barbarização dos costumes está a progredir e a (in)civilização do século XXI a descambar, avançando cegamente, conforme algumas vozes previnem, para uma nova Idade Média e, provavelmente, uma terceira grande guerra. 
As massas habituaram-se ao seu próprio aviltamento e à violência – nos campos de futebol, nos filmes, nos televisores – e praticam-na quotidianamente, de variados modos, nos ambientes familiares e nos espaços públicos. A decadência da Europa vai além da estagnação económica e da crise geral em que se afunda. Envolve os desvios sofridos pelos sistemas escolares, a fraqueza da criação e fruição cultural autênticas, o abandono de programas de elevação colectiva das pessoas e dos povos.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Esvai-se a dimensão do sagrado


O que resta de sagrado neste nosso mundo, hoje? A interrogação é pertinente e, de modo especial, ganha toda a oportunidade na moldura dos atentados em Paris, há uma semana. O primeiro atingiu o semanário “Charlie Hebdo”, matou oito dos seus jornalistas mais quatro pessoas e espalhou pelo espaço mediático a gloriosa bandeira do “Todos somos Charlie”, levando um nosso jornal a citar novamente Mark Twain (referido na minha última crónica) agora com um esconjuro: “Coragem é a resistência ao medo, domínio do medo, e não a ausência do medo.”
Manifestações populares estrondosas, de bastantes milhões, com um nutrido leque de governantes de variadas nacionalidades à testa, apoiaram uma liberdade de expressão da Imprensa sem restrições, portanto com sátiras impiedosas e blasfemas. E foi bonito. Mas tamanho estrondo levantou esta velha e sempre renovada questão: a liberdade de expressão é uma entre as várias das liberdades cívicas essenciais à plena vigência da democracia, que se realiza apenas no plano de uma igualdade efectiva no mundo onde crescem as desigualdades... 
Os órgãos jornalísticos, obedientes ao pensamento único que dita a verdade única mundial, informaram sem explicar os acontecimentos, como matéria sensacional. Emocionaram e pouco mais, em vez de contextualizarem, recuando, se fosse preciso, ao início do século XX e à “economia do petróleo” ou às mudanças operadas desde então no Médio Oriente. Agravaram-se as contradições existentes no terreno, as ideias e as políticas de direita expandiram-se e deram mais força aos profetas da “islamização da Europa” que apontam para o “choque de civilizações”. 
Quer dizer, alastraram os motivos do medo e do ódio ao “outro”, da intolerância e da xenofobia, radicalizando, com recurso a propaganda manipuladora, a crescente oposição entre cristãos e muçulmanos. É esse, afinal, o caldo de cultura (caldo espesso de oposições apoiadas em crenças subjectivas, sem suporte racional nem razões concretas) em que se desenvolve a violência que pode alimentar o terrorismo no interior de populações massificadas. Ora o terrorismo convém a uns tantos (e não só de um lado), quando serve uns interesses estratégicos de quem sabe agir e continuar longe, invisível. 
A Ocidente, a questão parece estar hoje no apagamento da dimensão do que antes era sagrado. Os europeus declaram-se cristãos mas reduzem a religião, banalizada, à prática eventual de algumas tradições. Sagrado, para eles, é sem dúvida o deus-Mercado (apanágio da democracia, dizem!) e o seu direito indiscutível ao consumo massificado ainda que estejam agora sob rigoroso regime da austeridade imposto pelos governos. 
Mas vejamos. Se o sagrado se esvai (e o que seja venerável, respeitável), não deveriam brilhar com luz rutilante e vermos, onde quer que estivéssemos, os princípios humanizantes, isto é, os Direitos do Homem colocados à altura mais eminente? Não deveriam ser sagrados e consagrados, em primeiríssimo lugar, por toda a população do planeta?

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O voto não é a arma do povo?

A surpresa esperava-me na última página do jornal, onde pensamentos de autores diversos aparecem citados. Parei, embasbacado, a ler: “Se votar fizesse diferença, não nos deixariam fazê-lo. Mark Twain (1835-1910)”.
Então o voto já não era mais a proclamada e tão pacífica “arma do povo”? E era um jornal dito de referência que, naquela manhã, vinha lembrar-nos o dito do grande escritor e humorista norte-americano segundo o qual as eleições não serviam para nada?! Ah, sim, pois, é claro: naquele mesmo dia os deputados gregos iam votar em Atenas a dissolução do parlamento, convocar eleições antecipadas e, talvez, por esse caminho, dar a vitória ao partido de esquerda, Syriza…
A mensagem implícita, portanto, era clara. Não vale a pena fazer eleições quando o sistema económico-político estabelecido impõe pagar as dívidas nacionais à usura financeira internacional ainda que a economia do país e o seu povo estejam de rastos. Todavia, é exactamente neste ponto que a questão se estabelece nos seus precisos termos. 
O jornal, ao enunciar o dito de Mark Twain, colou-o a uma situação que o escritor não poderia prever. Alinhou, além disso, com toda a direita política que defende os programas da austeridade justificados pelas dívidas dos Estados criadas na armadilha dos défices. Quer dizer, tomou partido, admitindo incluso um ostensivo desprezo pela vontade de uma possível maioria eleitoral manifestada democraticamente. 
É certo que o sistema democrático tem vindo a perder conteúdo até se transformar no indigno rótulo tão frequente que já parece normal. Mas o sistema, e de igual modo, o regime, são de geometria variável tão larga que se estende do socialismo retinto à corruptela designada como democracia burguesa. Todavia, são as nações com sistemas de mero rótulo democrático reduzido à simples alternância de dois partidos afins no poder que mais impõem os modelos da sua democracia ao mundo. 
Assim, os tempos não vão bons para a cultura da Democracia. O que em geral predomina é o discurso da direita política, incluso nos media, abertos à Verdade Única em circulação e reticentes no acolhimento de qualquer assomo de pluralismo. Um regime de esquerda democrática (e pode ser um governo de Syriza) torna-se hoje tanto mais suspeito e merecedor de campanha de descrédito quanto mais se mostrar de esquerda: discute as dívidas nacionais, quer um reescalonamento, relançar a economia, etc. 
De facto, a “cultura” democrática mudou de signo. Os donos disto tudo capturaram governos, políticas e meios de comunicação mundiais e querem convencer os povos a aguentar. Veremos em seguida se as massas (i. e., as classes médias) vão continuar, resignadas, a estrebuchar com a corda na garganta na forca da austeridade perpétua ou se, finalmente, acordam de vez para outra sorte.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A crónica como palimpsesto

Conforme é de uso, o cronista pode, querendo, debruçar-se sobre umas telúricas ocorrências do seu próprio umbigo, ou, mergulhando na cachoeira dos episódios do quotidiano, escrever sobre o escândalo do dia ou peripécias várias. Ora, se o próprio umbigo deste vosso cronista é lavado no banho diário e, por manifesto pudor, logo fica tapado pela camisa, e se também quer fugir o mais possível dos chinfrins da rua, sobre o que vai ele escrever? Vai, suponho, tentar a captação de sinais mensageiros que perceba no ambiente.
Apoiado nas informações de que disponha, tentará reflectir uma pessoal prospectiva do que pode esperar a colectividade no próximo futuro. Quer dizer (assumindo um pouco do estilo dos velhos almanaques), o cronista tenderá a elaborar uma espécie de “juízo” do seu e nosso tempo.
Por este caminho vem há seis anos, desde que criou este blogue em Janeiro de 2008. O propósito inicial teve que acompanhar os acontecimentos que então se precipitavam em espantosa cadeia. Eram inacreditáveis, calamitosos, desvairados, de estarrecer.
Bancos e sociedades financeiras de relevo mundial declaravam falência e grandes empresas internacionais deslocalizavam-se para explorar mão-de obra quase escrava no estrangeiro e usavam paraísos fiscais para esconder os lucros e fugir aos impostos devidos. E foi então que vimos os governos a intervir com montes de dinheiro recebido dos contribuintes, esmagados por impostos acrescidos, pela austeridade e o desemprego, na salvação de empresas privadas, e a demonstrar com máxima clareza que governavam não em prol do povo eleitor mas sim em apoio das oligarquias financeiras, empresariais ou militares. Os sistemas político, financeiro e bancário, tal como funcionavam, acabaram igualmente por atrair as atenções e este blogue para o cronista, que seguia tais acontecimentos, transformou-se no seu palimpsesto.
Foi preciso, realmente, acordar na aflição de uma ordem nova a reinar em meio mundo e com ímpeto tão avassalador que parecia já envolver todo o planeta. Os sinais traziam mensagens claras e abundantes, continuam a povoar a atmosfera em que vivemos, cada vez mais claros e inequívocos, mas, para além de uns segmentos cultos, os sinais têm-se diluído nas distracções populares proporcionadas pelos espectáculos diários servidos pelos canais dos media. A realidade desta crise política, uma crise especialmente avassaladora porque é estrutural (marca a transição de um tempo “velho” para um outro ainda enigmático, ameaçador), é sonho mau que as massas esconjuram supondo que só existe de facto o que querem ver. [Imagem: cartoon de Poleur.]

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A destruição dos Estados

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, assim começa um dos mais lembrados sonetos de Camões. Mas o tempo é imutável, corre sempre num fluir insensível e completamente alheio às volições humanas. As vontades, sim, mudam momento a momento nas fogueiras dos nervos e das paixões.
O que o verso camoniano enuncia poeticamente é, pois, um tempo mudado pelas vontades colectivas. Logo, os tempos mudam por mudança das vontades humanas, sendo estas que atribuem a “cor” (quente ou fria, belicosa ou quieta) à situação de uma paisagem social. Compreende-se, portanto, que esta nova época histórica emerge em resultado de mudanças tão vastas e profundas a ocorrer no interior da sociedade que marcam este tempo como um “tempo novo”.
Na verdade, um novo período histórico até pode trazer e restaurar um tempo antigo, por exemplo, com algo de escravatura ou de feudalismo. Isto, evidentemente, não de forma plena assumida, antes em restauros parciais do que no essencial interesse à oligarquia dominante. O tempo presente demonstra-o com dramática clareza.
O povo, cada povo, parece esquecido de que, em última análise, corporiza “o Estado” com a sua história, língua e cultura, no território de que detém efectiva soberania. Assiste, desde há anos, em completa passividade, a uma destruição audaciosa programada. O Estado, que é o próprio povo, vai desaparecendo, derrubado pouco a pouco, bocado após bocado.
As funções normais do Estado, que garantem a soberania nacional e a segurança geral da população, além de outras funções, entram em grave crise. A maioria da população sofre com a degradação das suas condições de vida enquanto uma minoria prospera e enriquece, extremando a desigualdade social. Desemprego elevado, empregos precários e salários reduzidos abrem o caminho para a oligarquia no poder do Estado avançar.
Outorga privilégios e mais privilégios às grandes empresas privadas, bancos incluídos, nacionais e internacionais, protegendo-as de reveses e prejuízos. As grandes empresas agem, com os seus trabalhadores e os seus clientes, como estados dentro do Estado. E generaliza-se a corrupção nas instituições e nas entidades.
Por este nefasto caminho de mudanças, o Estado, acompanhado pelas empresas (com gestores formados nas escolas do neoliberalismo retinto), e auto-aniquilado, estabelece sobre o povo domesticado um novo tipo de relação. Vigiando-o por todos os lados e controlando-o pela cobardia do medo, não o pretende mais, nem na aparência, como conjunto cidadão sujeito às regras “democráticas”, apenas como contribuinte, produtor e consumidor. Mas atinge algo mais fundo: instaura o feudalismo e alguma escravidão, com insofrível aviltamento da condição humana.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Entramos em nova época


O mundo que nós e os nossos filhos conhecemos nos anos de ’60 e ’70 do século passado entrou em processo de rápida mudança. No início do século XXI acelerou a fundo numa deriva gigantesca que já nada parece conseguir travar. Estamos envolvidos numa transformação demolidora que nos empurra para dentro de um período histórico radicalmente diverso.
Os povos estão domesticados e a deixar-se cozer como as rãs na panela da conhecida fábula de Olivier Clerc, escritor suíço de expressão francesa. Se, incomodados, quiserem saltar fora para não sucumbir, já não têm forças. Despertam de uma situação aparentemente benigna ou mesmo agradável, nadando em círculo no seu ilusório conforto, para encarar uma sorte verdadeiramente terrível.
O despertar, porém, só é possível para minorias cultas e atentas mas sem peso eleitoral e portanto sem condições (objectivas, normais) de alterar as regras do jogo das forças políticas estabelecidas. Os sistemas - legislativo, eleitoral, económico-financeiro e outros - estão convenientemente blindados contra qualquer possível brecha. Jeff Sparrow, autor do livro Communism: A Love Story, australiano, adverte: “Tudo o que temíamos acerca do comunismo – que perderíamos as nossas casas e as nossas poupanças e nos obrigariam a trabalhar eternamente por escassos salários e sem ter voz no sistema – converteu-se em realidade com o capitalismo.”
Resta, portanto, focalizar a questão essencial e perceber as “fraudes legais, a oligarquia legal e o primado da lei” - escreve o jornalista José Vítor Malheiros (“Público”, 12-11-2014). “As leis tornaram-se demasiado complexas, a sua produção quase secreta e a sua alteração quase impossível”, destaca. Verifica-se, em suma, uma autêntica subversão do sistema supostamente democrático.
Uma apresentação, ou powerpoint, que circulou há dias na Net estabelecia um contraste chocante. Mostrava simplesmente uma porção de fotos que evocavam os costumes e ambientes daqueles anos ’60-’70 no Afeganistão. O contraste tornava-se fortemente dramático por contrapor à paz, tolerância e cultura (europeizada) de então o inferno sangrento da violência, do sectarismo fundamentalista e do atraso geral, impressionante retrocesso, que atinge agora a população mais pobre e desgraçada do mundo.
O caso afegão demonstra um facto de inesperada actualidade. Demonstra que é possível liquidar as conquistas da civilização alcançadas por todo um povo, afundando-o em guerras sectárias, ódios fanáticos, fundamentalismos irracionais. O que nos obriga a pensar num sério aviso: que aos povos domesticados resta uma saída – para a barbárie. [Na foto: cume da cordilheira dos Andes no Peru: montanha Ausangate.]

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Uma ignorância (in)feliz

Agora que o aquecimento global já acumula consequências ecológicas irreversíveis e os críticos do facto científico abandonam o combate tendo cumprido o seu papel ao distrair o mais que puderam as atenções, está o planeta a ser invadido por um arrefecimento não menos catastrófico. É um arrefecimento que podemos representar em cor azul, caso vejamos o aquecimento em cor vermelha. Mas esta outra mudança de temperatura não é de ordem da física; é mental, cultural, ideológica, política.
Todavia, é tão vasta, arrasadora e tremenda que está a alterar dramaticamente a existência quotidiana de povos de nações e continentes inteiros, a atentar contra as regras de coexistência entre as nações e a colocar sob ameaça crescente a paz e a segurança do mundo. Só uma mudança planetária tão radical poderia espalhar um esfriamento das mentalidades assim tão violento que impõe à História a transição para uma “outra” época. Os portugueses que iam nos vinte anos no 25 de Abril (1974) e sentem na pele os sacrifícios impostos pela “crise” percebem a mudança: o povo antes participativo e reivindicativo, alegre e solidário, de esquerda democrática, agora anda frouxo, ensimesmado, individualista, apolítico, interessado sobretudo em futebol, telenovelas e fados.
O tecido das relações humanas gerais deixa à vista a dimensão das transformações havidas em quarenta anos. O panorama social que este rectângulo ibérico então ofereceu passou de vermelho para azul - esfriou. E, no continente europeu, ou à volta, mais longe, onde aparece hoje um governo com políticas que não sejam de direita?
A indiferença pelo exercício dos direitos e deveres da cidadania estabeleceu-se como regra comum; o bem colectivo tornou-se abstracto; os governantes aproveitam-se e, em vez de cuidarem dos interesses legítimos de quantos os elegem, apoiam as grandes empresas privadas, bancos incluídos, agravando a pobreza e as desigualdades. Assuntos correntes da maior relevância ou significado, como a “censura” (ilegal) aplicada pela direcção do ISCTE ao último nº da revista “Análise Social” e ao seu director por causa de um artigo de teor político “abusador”, ou como a discussão, no Conselho Europeu, do TTIP, que propõe um acordo comercial entre a EU e os EUA e que vai anular completamente a soberania nacional a favor das empresas exportadoras, quase nem despertam atenções.
Um sinal de toda esta transformação, soprada de algures sobre os povos em transe, esteve diante de mim: uma linda rapariga com 23 anos e casamento à vista, licenciada a trabalhar a recibos verdes, conversou comigo. Quis convencer-me da sua ideia: que o “não saber é o seu caminho para ser feliz”. E não a convenci, ninguém a convence, de que, por tal caminho ela se condena a ser uma (in)feliz ignorante. [Foto do certame Amdan, 2014; autor não indicado.]

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Hoje não há crónica

Sim, hoje não há crónica. A mão que escrevia pende, inútil, ao longo do corpo ou estende-se sobre a mesa e adormece. Há dias assim, vazios por tão sobrecarregados.
O dia até começava bem. O texto saía, a página compunha-se. Assim:

«O sistema democrático implantado no país há quarenta anos é hoje mero resíduo, um rótulo conveniente. No entanto, proporcionou transformações decisivas que pedem avaliação, em jeito de balanço sumário. A democratização do ensino e o aparecimento de uma cultura de massas são dois exemplos expressivos do avanço geral e logo dos recuos que o sistema permitiu com os resultados que no mesmo período se evidenciam.
Conjugados com os efeitos da concentração das empresas jornalísticas e das editoras de livros, estes dois fenómenos aparecem na base que formou, deformando-a, a realidade social portuguesa como na actualidade se nos apresenta. Massificado, o ensino afastou-se dos modelos pedagógicos de formação reconhecida, com disciplina escolar e memorização dos conhecimentos, a caminho de uma torpe facilitação; o eclipse do Grego e do Latim assinalou o completo afundamento da cultura humanística e, na onda da “americanização” da Europa, acentuou-se a viragem para um ensino tecnocrático atento às necessidades, não das pessoas, sim das grandes empresas nacionais e transnacionais. No mesmo período, a estrutura familiar tradicional foi alterada pela entrada das mulheres no mercado de trabalho (o casal teve que ir ganhar o que antes o chefe de família garantia sozinho).
A relativa ligeireza dos conteúdos escolares juntou-se à ligeireza da informação jornalística que entretanto se generalizou. Realmente, as notícias também “formam”, pois os cidadãos pedem-nas para ter opinião, e o jornalismo, vergando a cerviz, foi-se enchendo de imagens e de cores, querendo-se agradável e ligeiro, varrido de textos longos ou de interpretação “difícil”. Assentou-se na verdade única, narrativa simplificada de situações e acontecimentos cuja explicação cabal é reservada a eleitos.
O povo, maioria que elege e legitima governos e políticas, arredado cada vez mais dos assuntos que o afectam,»

Neste ponto, uma vibração íntima suspendeu o gesto escrevente. Fez o cronista pensar: quem precisava de ler isto não quer saber; quem o vai ler já o sabe. Então o homem saiu à rua e por lá se demorou vendo uns miúdos a brincar.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Tanto comodismo!

Habituámo-nos, como alunos obedientes, à passividade. Premimos teclas e botões, compramos comidas confeccionadas, utilizamos máquinas que executam por nós imensas tarefas manuais, sentamo-nos em fofas almofadas para ver televisão, pegamos no carro para ir ao café próximo… Caindo na inércia, transformámos o comodismo num estilo de vida ou, pior, num traço de carácter.
É traço tão popular que o comodismo se limpou da condenação antiga - injuriado como porta aberta para qualquer vício - e até já se pretende virtude. Parece evitar canseiras, complicações aborrecidas ou mesmo maçadas e perigos pois todos vêem que “as coisas não estão fáceis”. Evita aderir ao sindicato e à greve, entrar na manif, abrir a boca para o que vai no coração e reclamar contra a austeridade, o governo e a desgraça em que o país se afunda.
Mas, associado ao comodismo, o medo infiltra-se como água mole através das porosidades e frinchas das rochas. Põe a reinar o receio de nova perda a somar ao que já se perdeu e venha complicar ainda mais a vidinha, porque, não estando fáceis, as coisas, ainda assim, vão indo. Convém não fazer ondas, agitação, esperemos um pouco, isto há-de compor-se…
O medo associa e acompanha o comodismo. Ganha força com a inércia de quem se resigna a perder comodidades supondo saciar a fera selvagem que as devora e já avança com renovado apetite para outras partes do seu bem-estar. Abre a porta do galinheiro ao lobo esfomeado que, a salivar, mente ao prometer defendê-lo.
Comodismo é o que dispensa o cidadão de votar nas eleições a pretexto de que o seu voto não vale nada. É querer viver sem “entender a política”, as decisões dos governantes, a importância da aprovação de um orçamento de Estado. É condenar os políticos e os partidos do governo por corrupção e continuar a votar neles ou, com idêntico resultado, manter-se na abstenção.
Comodismo é dispensar-se de pensar e de ter memória. É assumir opinião alheia como própria. É ser emocional e não racional.
Comodismo é aceitar a austeridade imposta pela crise financeira (a debitocracia = democracia expulsa pela dívida). É acreditar na onda da manipulação que impõe a Verdade Única, crer no crescimento contínuo da economia, na segurança geral do mundo. É aplaudir o consumismo acrítico, delirar com os gooolos do espectáculo do futebol.
Comodismo é desistência sem luta em troca de medo. Quarenta anos depois do 25 de Abril, o regime democrático não lhe diz nada. A direita, crescendo, aproveita.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Pensamento débil

Os nossos tempos não vão favoráveis à afirmação vigorosa do pensamento. Criações mentais desejavelmente inovadoras parecem recostar-se numa passividade acomodada ou numa conformação indiferente ao que de renovador mais importaria. O panorama como que adormece numa espécie de estagnação pantanosa ou mesmo numa real decadência.
Onde pode o observador encontrar hoje um sinal de rasgada afirmação? Percorre os diversos sectores da criatividade intelectual e o que se lhe depara? A mentalidade tecnocrática, dedicada ao serviço das empresas, sufocou a cultura humanista obliterando a relação de cada pessoa com a espécie integrada na natureza, nosso berço.
Ia prosseguir, desenrolando o fio do meu discurso, mas, neste ponto, parei a escrita. Caiu-me o olhar numa frase em crónica de Vasco Pulido Valente que parecia exprimir a ideia que começava a enunciar. A frase: “A autoridade da ‘inteligência’ desapareceu.”
Mas, então, de onde emana a autoridade que continua a exercer-se nos variados planos da vida social se a autoridade da “inteligência” desapareceu? Se o regime republicano e o sistema democrático continuam vigentes, incluído o sistema da justiça, que processo terá conseguido descartar a preclara “inteligência”? Substituiu-a acaso a mediocracia eleitoral?
Não poderia eu dizê-lo melhor, com menos palavras nem com maior eloquência. Mas a brutalidade da expressão justifica-se pelo seu inegável realismo: a “inteligência” (que outrora distinguíamos como “intelligentsia”, ou escol, elite dominante) perdeu o seu lugar, autoridade, prestígio. É facto tão notório que espalha pela minoria realmente culta um calafrio visceral e um alarme.
E que espécie de autoridade será essa, declaradamente não iluminada pela “inteligência”? Decorrerá da mediocracia da mediocracia eleitoral e poderá ser ainda legitimável como “civilização”? Ou a monstruosidade contida na síntese de VPV, ao causar-nos um estremeção de profundo horror, também nos adverte do sentido de uma geral deriva política em crescente afirmação da direita (da austeridade programada, do empobrecimento do povo)?
Vejamos. Do que se trata não é, afinal, da abolição da “inteligência” da autoridade (do poder governante, da justiça). É da imposição liminar do seu inverso, ou antónimo, pois a inteligência (democrática) que nos tem governado vai sendo absorvida por uma diversa “inteligência” estratégica que se declara presente e omnipotente.
Por este caminho, quanto tempo faltará para se repetir o memorável caso dos anos ’30 do século passado? Decorria a sangrenta guerra civil espanhola, provocada pelos franquistas contra o governo republicano eleito, patamar preparatório da Segunda Grande Guerra. Quem falasse de “cultura” punha franquistas a puxar da pistola… [Imagem: “Zé Povinho com sua albarda”, pintura de Rafael Bordalo Pinheiro.]

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Estamos no desaforo total

Observou Bertrand Russell: “A humanidade tem uma moral dupla: uma que prega mas não pratica, outra que pratica mas não prega.” O filósofo britânico (1872-1970), prémio Nobel e grande divulgador da filosofia, condena nestes termos essa duplicidade tão velha quanto o mundo. Mas o que diria nestes nossos tempos de subversão total?
O desaforo maior, mais escandaloso, não é apenas permitido e praticado. É assumido como regra normal, aceitável e justa quando “convém” aos interesses instalados, por altos governantes e outras figuras públicas de relevo principal. Assim, os pilares da sociedade desabam e, no meio dos destroços, põem a reinar a insegurança e a aflição. 
Exigências éticas e legais, consciência da justiça, respeito humano, procura da paz social – vacilam e caem na lama com restos do que foi honradez, carácter, brio pessoal. O valor que vale a sério reside agora, em primeiro lugar, no esplendor dos milhões que a ganância do lucro gordo, fácil e rápido acumula, pois o poder, a honra e a dignidade – de uma nação, uma empresa ou de um indivíduo - estão na força atribuída à riqueza material. O que importa, portanto, é acumular, seja como for, essa riqueza (que dá honra, dignidade, poder) para que o indivíduo, a empresa ou a nação cresça e se glorifique. 
Comportamentos escandalosos parecem agora toleráveis e facilmente olvidáveis na precipitação contínua de novos escândalos. Mas quem esquece os governos que usaram dinheiro público para salvar bancos privados falidos na América e na Europa? E quem lembra os depósitos avultados, de bastantes milhões, que o Iraque fizera em bancos ingleses, entre outros, antes que Saddam Hussein fosse derrubado e que foram “congelados” - dinheiro do povo iraquiano que depois caiu… em que mãos? 
Quem pode lembrar os milhões também substanciais que a Líbia depositava em bancos europeus no tempo de Khaddafi e que foram também “congelados” – para onde terá ido o que era do povo líbio? É difícil ter memória pronta quando se impõe a regra do vale tudo… A conspiração desestabilizadora ou mesmo a guerra ofensiva não declarada, com ocupação militar, de uma nação poderosa contra outra enfraquecida acontece e a ONU, e instâncias de direito internacional calam e consentem. 
Tudo isso, no entanto, não passou de um calculado avanço passo a passo da ofensiva geral da subversão em curso. Conduziu por fim à decisão da troika, com a Alemanha à frente e a Holanda atrás, de obrigar os cipriotas com depósitos nos bancos da ilha a perder sessenta por cento das suas economias para os salvar da falência – esses bancos que em data recente foram considerados por peritos europeus de stress com nota positiva! A confiança dos povos europeus ficou terrivelmente abalada. 
Sabem agora esses povos o que, um após outro, os espera. Têm diante da cara, nua e crua, a força destruidora da subversão gerada pelas políticas da estratégica neoliberal. É preciso, é urgente esmagar o monstro para restaurar os valores da civilização e do desenvolvimento social!

sexta-feira, 29 de março de 2013

De olhos nos jornais


Os jornais deste fim de semana pascal aparecem com manchetes e outras letras gordas, nas capas e páginas interiores, bastante sugestivas e animadas. Paro à entrada do quiosque em apreciação das capas de semanários e diários sentindo pelo menos a ilusão de um sopro de vento novo a correr. Quase nem preciso de sujar os dedos a folheá-los para decidir que hoje quem escreve a crónica são os títulos, subtítulos e destaques da imprensa. 
A manchete do “Público” avisa: “Tensão”. Não é para menos: “O PSD pressiona Tribunal Constitucional a ter em conta «contexto económico» do país | PS diz que eleições são «única saída democrática» para a crise | Partidos trocam acusações no Parlamento sobre Silva Carvalho” [o espião] 
O “Sol” anuncia: “2º Resgate à vista. Passos avisou vices do PSD para a probabilidade de um segundo resgate [da troika] após o chumbo do Tribunal Constitucional e apresentou dois cenários possíveis 1. Governo de Salvação Nacional. 2. Eleições imediatas”. 
A capa do segundo caderno do “Expresso” põe a ler: “Ficar o sair do euro, eis a questão”. Outras frases em destaque: de Barry Eichengreen, “O cenário está montado para uma década perdida na Europa”; de João Duque, “O eurogrupo acaba de criar um euro fraco”; de Luís Marques, “Selassie levou um ano a perceber o país”; de Manuela Ferreira Leite, “A decisão do Eurogrupo [Chipre] não tem perdão. Mais uma acha para a fogueira”. 
O jornal i afirma na manchete: “Portugueses perderam confiança na austeridade da Troika. Popularidade do Governo cai a pique”. E mais: entrevistado, José Ribeiro e Castro declara: “Esta União Europeia não presta”. Adiante pergunta: “Como é que o Eurogrupo aceita ser presidido pelo rosto [holandês] de um modelo fiscal de corsários? É uma vergonha!” 
Nas páginas interiores, o i publica: “O PS é favorável que este governo cesse o seu mandato”; “OCDE apela à zona euro a pôr um travão a medidas de austeridade”; “Passos e PSD aumentam pressão sobre Tribunal Constitucional”. Refere também resultados do inquérito Barómetro i /Pitagórica: “Maioria já não acredita no sucesso do programa da Troika”. Acrescenta: “Mais de dois terços dos inquiridos consideram insuficientes os resultados da renegociação com a troika das metas do défice e dos cortes na despesa que permitiram ao governo ganhar um ano”. Distingue-se uma frase: “Cipriotas sentem que estão «a ser assaltados pelos europeus» mas mantêm calma”. 
Hoje os jornais portugueses ficam a ganhar ao cronista. Venceram-no. Ele não seria capaz de escrever um texto, de tão animado, assim tão animador…

sábado, 2 de março de 2013

Cheira a Primavera Árabe


Sopradas do Ocidente para o Oriente, as brisas da primavera árabe começaram a correr sobre os povos mouros e árabes. Tocaram na Tunísia há uns dois anos, mas já vinham de trás. A valer, ainda sem nome, iniciou-se com a invasão e guerra do Iraque, onde o cheiro do seu rico petróleo pôs à vista aquela acumulação perigosíssima de armas de destruição maciça afinal inexistentes.
A Primavera Árabe, com maiúsculas, ganhou todo o seu esplendor na Líbia, país dos mais prósperos e desenvolvidos da região graças aos seus recursos naturais. Não tardou, porém, a cobrir-se de invernia logo que Kaddafi, ditador pintado de horrores negros como o belzebu, teve fim justiceiro como Saddam Hussein, o outro negregado ditador caído nas mãos dos seus gloriosos vencedores.
Não precisamos hoje de esperar mais para avaliar, em rápida vista panorâmica, os frutos gerados pelas brisas primaveris. Sem Hussein, os iraquianos antes pacificados continuam a digladiar-se na fogueira ateada dos seus problemas intestinos: xiitas, sunitas e curdos matam-se e destroem-se em guerra civil com armas que nunca lhes faltam. Sem Kaddafi, os líbios retalham o país no entrechoque de três partidos opostos, qual deles o mais radical. 
A Tunísia continua também longe da paz. Desde que o regime malvado tombou, correntes religiosas e facções políticas contrapostas fazem reinar a violência, a destruição e a morte: o povo tunisino quer paz e dança no barulho instalado sem encontrar porta de saída. A sul, no antigo Sudão, Darfur, independente em 2011 (rico-pobre de energias fósseis), negros muçulmanos conflituam com árabes e não árabes, enquanto no Mali tropas francesas... 
E a Somália, e... Adiante. Mubarak, o faraó aliado de Israel, tremeu até cair mas as concentrações nas praças continuaram imparáveis porque polícias e militares apoiam o novo poder (teocrático, da sharia), não o povo egípcio. Entretanto, na Síria, uma guerra civil desencadeada por rebeldes armados destroem a República para destruir al-Assad (e dar o poder à jihad = guerra santa?) com pleno apoio da imprensa e de governos adeptos da verdade única. De repente um relâmpago ilumina a noite da memória e o quadro ganha sentido. 
O fundamentalismo islâmico, com ou sem rótulo taliban, espalha-se por países árabes, do magrebe e do continente africano. Saiu do colo das tropas americanas no Afeganistão, depois emigrou (massacres na Argélia, etc.) para onde, por coincidência, reservas de energias estratégicas pediam que era preciso dividir para reinar. O “perigo terrorista” tornou-se tão necessário como foi outrora o “perigo comunista”, mas o pior é haver tantos cidadãos incapazes de perceber o que se passa realmente no mundo e já barulha à sua porta.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Democracia ou partidocracia?

Os partidos assenhorearam-se do sistema democrático, colocando-o flagrantemente ao seu serviço. É essencial que existam para que o sistema funcione, bem o sabemos, mas na condição única de que os partidos sirvam realmente a democracia e não a inversa.
De facto, as organizações partidárias, em particular as que ocupam habitualmente as cadeiras do poder, onde se substituem numa rotina assente em função das  maiorias eleitorais, apregoam grandes exigências de “transparência democrática” estando na oposição ou governando. No entanto, essas declarações de formal conveniência não chegam para que os actos da governação ou a vida interna dos partidos alcancem o nível razoável de transparência que a democracia supõe. Temos que denunciar a torpeza da situação para fazer reinar os princípios democráticos ou, em alternativa, reconhecer a sua falência.
É o funcionamento concreto dos partidos da órbita do poder que começa e acaba por atestar e validar a saúde do sistema. Nesta base, uma questão avulta desde logo com crucial relevância. É a mesma questão que agita nestes dias a Espanha, ameaçando de demissão o governo PP de Rajoy - a do financiamento desses partidos.
Uma opacidade esconde do conhecimento geral as fontes onde os partidos obtém os proventos que lhes permitem prosseguir posto que rodeados de dispositivos de controlo faz-de-conta. O erário público subsidia-os, recebem doações e donativos ocasionais de montante com máximo estabelecido e os seus militantes pagam quotas. Mas há leis em vigor da iniciativa de partidos que os próprios são os primeiros a desrespeitar e uma delas é a que estabelece a apresentação das respectivas contas integrais para competente análise e aprovação.
Essas contas, em geral, não são tidas como claras, completas e convincentes. Documentam uma parte da actividade desenvolvida e, alegadamente, deixam na sombra receitas e despesas talvez tão elevadas que se afundam numa escuridão clandestina sem deixar rasto. Por outro lado, sofre constantes atrasos a apresentação dessas contas.
Alguém sabe, sequer pergunta, quanto vencem mensalmente os líderes dos partidos da oposição ou do governo em funções? E os restantes dirigentes desses partidos? Será isso um segredo aceitável? Ou não será uma negação viva da transparência?
Acusam Mariano Rajoy, primeiro-ministro espanhol, no caso Bárcenas, de receber do PP um “mensalão” canalizado por empresas construtoras. Em Portugal, banqueiros e empresas multinacionais parecem também muito próximos dos partidos que se revezam no poder ao ponto de provocar graves insinuações. A corrupção pode entrar por aí, pela porta dos partidos e dos políticos que os protagonizam; existindo dentro do sistema que os permite e requer, esses partidos e políticos podem virar-se contra a democracia e chegarem a subvertê-la, deixando à vista a ilusão de uma simples aparência.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Um povo incompreendido?


A folhinha não mente: a semana começa ao domingo, mas a ordem estabelece que a provação dos cinco dias entra à segunda-feira e logo de manhã. Uma pessoa sai então à rua de mau-humor, entra no café para ingerir o seu quente, escuro e perfumado viático matinal, aprecia o calor do ambiente e dos comentários aos resultados da véspera, solta uns remoques azedos pois continua mal-humorada e corre para o emprego, onde, com mais vagar, entra no fórum habitual que por ali já o espera…
É preciso comentar tudo, mesmo os comentários dos comentários e isso, que já vem da véspera, vai estender-se pela tarde e a noite, nos jornais e nas conversas de rádios e canais de televisão. E… querem ver?! Um relâmpago golpeia o negrume cerrado que parecia amortalhar tanta gente, nela iluminando de golpe novidades maravilhosas.
Subitamente, este país aparece habitado, de norte a sul, por uma população atenta e participante, pronta a tomar a palavra e a intervir em defesa da sua opinião, porque a tem e exerce o direito de se fazer ouvir. Está bem informada e - como é isto possível? - sabe juntar e analisar os factos com lucidez, declarando ou apenas deixando transparecer a inclinação que deveras sente pela cor da sua bandeira. E sabe exprimir-se, e fala com entusiasmo e convicção!
Mas outras surpresas, ainda mais incríveis, saltam. Este povo mostra possuir muito boa memória! Mergulha e torna a mergulhar nos seus arquivos individuais, vasculha nas suas recordações, cita leis, regulamentos e regras aplicáveis, compara factos, raciocina com segurança, analisa, conclui...
Quem diz agora que este povo, a tal maioria silenciosa do Portugal profundo, que não tem memória? Que, por exemplo - chegando uma ou duas horas antes ao seu lugar - não participa com entusiasmo nos confrontos que lhe interessam? Quem diz agora que se afunda em apatia quando lhe sobram motivos para reagir e, zangado, se encabritar?
Uma sucessão de escritores aplicaram-se tentando estudá-lo, entender a sua alma esquiva: desde Estrabão até Antero de Quental, Almeida Garrett, Oliveira Martins, Agostinho da Silva, Eduardo Lourenço, José Gil… Não concordam entre si e nós, hoje, não podemos concordar com eles.
Dizem por aí que somos um povo enigmático? Tão incompreendido quão incompreensível? Pois seja, os tugas perdem a cabeça no jogo da bola e ficam depois sem cabeça para as questões da política (por isso o neoliberal Gaspar os vê como valioso ativo nacional!), mas nada do que é humano lhes é estranho. [Autor da imagem (parcial): Rafael Bordalo Pereira.]

sábado, 29 de dezembro de 2012

O direito à pensão

Tenho um amigo a ferver de indignação, pronto a explodir em revolta acesa. Tal como a tantos outros comeram-lhe, além dos subsídios, um pedaço da sua pensão. E, oh espanto em cima de espanto!, preparam-se para continuar a comer com imenso à vontade e declarada desfaçatez.
O percurso existencial e profissional daquele amigo tem alguma semelhança com o meu (jornalismo, literatura, livros), daí o confronto que ele faz dos nossos casos. Talvez procure consolação mas termina cada conversa a espirrar desespero. É mais novo, nasceu uma dezena de anos depois...
Evidentemente, toda a pessoa de boa fé reconhece sem hesitar o direito que nos assiste à indignação e mesmo à revolta. Estamos a ser espoliados - ilegalmente, imoralmente - de uma parte da pensão, palavra esta cuja semântica, neste caso, requer explicitação para lhe realçar o significado: pensão é renda vitalícia, foro, encargo, ónus, pois o vocábulo deriva de pensione = «pagamento». É, portanto, um direito essencial para o trabalhador usufruir quando as forças o abandonam e chega ao crepúsculo da vida.
Pagou esse direito mês a mês, ano a ano, sem regatear e por fim o receber tão proporcional quanto o pagou. Mas até neste ponto o meu amigo se encrespa, lembrando o período que dedicou a traduzir livros para editoras (antes do 25 de Abril) em que pagou Imposto Profissional sem usufruir da mínima contrapartida. E lembra bem: eu e outros tradutores pagámos o imposto, abrangidos por equiparação a profissão liberal.
Quer isto dizer - clama e reclama o meu amigo - que pagámos bem pagas as nossas reformas, assim negando o que afirmou o tagarela governante. O Estado não nos dá nada que não tenhamos entregado confiadamente, por imposição da lei, à sua guarda, assumindo connosco uma dívida... de honra. E o Estado é a tal «pessoa de bem», ou não é?
Parece que o governo, administrador do Estado, tem opinião diversa e avisa sem descanso que a Caixa Nacional de Pensões vai falir. Ouvindo-o, o meu amigo explode. Aos berros, aponta uma lista de factos como se para mim fossem novos, como se eu ignorasse os saques e outros desmandos que têm comido o bolo amassado com o suor dos descontos obrigatórios, isto é, como se eu não tivesse aturado a ditadura, vivido o processo da democratização e esteja só agora a aturar uns rapazinhos saídos da catequese neoliberal... 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Dizemos que o rei vai nu

A opinião expressa dos portugueses mostra-se nestes dias arrumada em dois campos bem contrastados. Um recusa a «refundação do Estado» proposta pelo governo ultra-neoliberal, rejeitando com indignação e mesmo revolta as políticas de desgraça nacional; o outro campo apoia a prossecução das políticas do governo em nome de uma pretensa «estabilidade» que de estável nada tem, ou seja, apoia a continuação da crise e o aumento imparável da dívida soberana conforme a troika impõe. Entre os dois campos de opinião deve achar-se a velha «maioria silenciosa», a tal que ninguém sabe ao certo onde está porque não se manifesta.
De facto, o povo começou a aperceber-se deveras da verdadeira situação. Generaliza-se portanto a percepção de que o sistema capitalista mudou em geral e que mudou também o comportamento de governos ditos democráticos. Servem agora não os seus eleitores e sim a máxima concentração do poder financeiro, expressão de imperialismo.
Esses governantes, com o seu alegado combate ao défice e mais e mais e mais programas de austeridade (tão bons cristãos que eles são!) estão alegremente a pôr a rabiar de fome e a vasculhar nos contentores do lixo milhões de pessoas no país. Querem obrigá-las a aceitar a miséria, ou a miséria do salário mínimo nacional. Em vez de civilização, promovem a barbárie para agradar aos senhores das terras e dos céus sentados nos tronos dos seus tantos biliões e triliões - é preciso juntar forças e varrer do poder os partidos que há 35 anos o corrompem para começar uma vida nova em novo caminho.
Clamores enérgicos ressoaram por ruas, praças e avenidas a ferver de indignação, ali onde as massas populares se encontram, reconhecem e solidarizam. Os sonoros protestos do povo atroaram os ares e chamaram para a rua quem ainda dormia em casa diante do televisor. Uma interrogação salta agora: quem apoia hoje essas políticas de desgraça nacional?
Apenas os governantes, os dirigentes dos partidos coligados, alguns dos seus adeptos ferrenhos ou ceguetas e poucos mais. Aparentemente, só nesta minoria o governo encontra apoiantes (excluída a «maioria silenciosa», claro). Este cenário traz à lembrança a história do menino que aponta e diz que o rei vai nu.
Quem diz o rei diz o governo e quem diz o menino diz toda a gente capaz de soltar o grito que restabelece a verdade dos factos. Os cortesãos do rei, interesseiros, suportam-lhe as mentiras até que a gente descomprometida (e agredida) no caso grite «basta!». É esta a límpida moralidade da história... [Imagem: clique para ampliar.]

domingo, 25 de novembro de 2012

Porque se arruínam os Estados

Não há mais lugar para dúvidas: o chorrilho diário de subtilezas, enganos e mentiras nada pode contra tão fortes evidências. Agora até os mais distraídos percebem, com toda a clareza, o que se pretende com essa treta da «refundação do Estado». Não liquidaria apenas os derradeiros vestígios conquistados com a democratização do 25 de Abril; quer recuar mais para trás da previdência do Estado Novo salazarista, de negregada memória.
A cada ano, com cada orçamento, temos mais desemprego, mais paralisia económica, mais cortes de serviços públicos, mais endividamentos e dependências do exterior, ou seja, mais austeridade em acumulação irremediável. Todavia, os cidadãos vão pagando impostos mais e mais elevados e todos os sacrifícios que façam não chegam, alegadamente, para pagar as migalhas que ainda sobram do Estado social. Para onde vai então o dinheiro dos contribuintes?
Esse dinheiro vai saindo do país para pagar os juros das dívidas do Estado, mas acontece que essas dívidas e juros tem vindo a crescer loucamente, sem travão. Pergunte-se então que sorte de governantes endividam assim tanto os seus países ao ponto de os arruinar, deixando cativa a respetiva soberania. Faz-se lembrar, neste ponto, o Tratado de Maastricht, de 07-02-1992 - para ele somos remetidos.
No Artigo 104, o tratado consagrou a proibição de os bancos centrais de cada país financiarem os governos. Era e é uma condição inexplicável e notavelmente absurda, mas os governantes da zona euro assinaram-na e passaram a depender dos bancos (isto é, não diretamente do Banco Central Europeu) para obter financiamentos. Ora os bancos pedem e recebem os financiamentos do BCE a 1%, ou menos, e depois, emprestando ao Estado, obtem lucros chorudos de mão beijada. 
«Calcula-se que os Estados europeus vêm pagando à banca privada uns 350 mil milhões de euros por ano a título de juros desde que deixaram de ser financiados pelos seus antigos bancos centrais e depois pelo Banco Central Europeu» - afirmaram Jacques Holbecq e Philippe Derudder no estudo-denúncia La dette publique, une affaire rentable: A qui profite le système? (Paris, 2009), obra publicada em Portugal; quanto pagarão em 2012?! Uma demonstração concreta de que são os juros financeiros e não a despesa social do Estado a causa da dívida soberana deve-se a Eduardo Garzón Espinosa: «se os saldos primários que o Estado espanhol foi tendo desde 1989 houvessem sido financiados a uma taxa de juro de 1% por um banco central (como é lógico que deveria ter sido) o peso da dívida pública espanhola seria agora de 14% do PIB e não os 87% actuais». Por sua vez, Juan Torres López, professor de Teoria Económica na Universidade de Sevilha, sustenta que é «esse, portanto, o verdadeiro fardo que agora lastra [sobrecarrega] as economia europeias e não o peso insuportável, como querem fazer crer, do Estado Previdência.»
Conclusão: a alta finança especulativa, com o FMI à testa, entranhou-se na zona euro ao ponto de lhe inspirar as políticas e deixar a União Europeia em risco de implosão. O fim da moeda única é previsto pelo menos para os países sob «resgate» e, se tal ocorrer, teremos a consumação da desgraça. Vozes prudentes aconselham: mais vale antecipar a saída para minorar os custos... 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Menos justiça, menos liberdade

Um ponteiro serve para apontar mas agora vai servir para molhar a ponta na superfície de um tema. Na gota que fica a pender, iluminada por este sol frio de outono, aparece refletido o anúncio há poucos dias feito pela ministra da Justiça. Aquele e alguns outros ministérios vão ter menos 500 milhões para gastar no próximo ano...
Não vão ser eliminadas «gorduras» do orçamento. Vão ser eliminados serviços estatais de indiscutível e primeiríssima necessidade social. É nestes serviços que o governo ultra-neoliberal «economiza» mais e mais, cortando a eito, para deixar o Estado entregue aos donos dos bancos e às empresas dos amigos que os governantes tratam por tu.
O Estado é pago pelos cidadãos contribuintes mas cada vez os serve menos e acaba mesmo por não os servir conforme lhe competia. Estou de olhos postos na gota que, vergando ao seu peso, vai cair, e nela vejo, miniatural mas nítida, a imagem de um caso particular. Na miniatura pode perceber-se o resultado prático que vai ter o anúncio da ministra na cobrança coerciva de uma pequena dívida - um dos tantos processos que aos milhares e milhares entopem os tribunais.
Há anos o carro de um sujeito foi abalroado por outro num cruzamento da cidade. Os semáforos estavam intermitentes, no amarelo, desde há muitos dias, e o carro abalroado surgiu da direita - logo, tinha prioridade. Além disso, o para-choques foi embater sobre a roda traseira do lado do condutor atingido.
O choque foi ligeiro, mas, como o carro abalroador nada sofreu, a sua condutora alegou que os semáforos estavam a verde e recusou-se a assumir a responsabilidade. A polícia recolheu todas as provas, havia testemunhas e a própria câmara municipal documentou que, ali, a sinalização luminosa, avariada há meses, estava ligada a amarelo intermitente.
Não havia dúvida nenhuma, nenhuma escapatória: o seguro do carro causador do dano devia proceder à indemnização (a módica quantia de uns 1.300 euros, desembolsados). Último recurso: o tribunal. Porém, tão entupido ele está que o anúncio da srª ministra o dispensará de julgar o caso tarde e a más horas graças ao bendito dispositivo da prescrição.
Em suma, não há justiça que acuda os pequenos credores. E porque não há justiça (ficam impunes as patifarias dos pequenos que aprenderam a imitar os grandes), também não há liberdade. Assim, onde iremos encontrar escondida a democracia?