Mostrar mensagens com a etiqueta cultura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta cultura. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Quem quer publicar livro?

O meu círculo de conhecimentos directos quase me deixa sem dúvidas. A vontade de ser “escritor” a qualquer custo expande-se com a violência de uma virose pandémica. Multiplicam-se os novos autores que por aqui aparecem de livrinho publicado com impressão por encomenda paga do seu bolso.
Portanto, vai florescente o negócio das lojas gráficas que praticam o print on demand pois não esmorece o entusiasmo indómito de quantos sonham pertencer de algum modo, seja pobre ou paupérrimo, à confraria das letras. Sem diminuição vai também a estatística anual (e o espanto) dos livros em edições novas saídos em Portugal no auge deste período de grave crise. Porém, o mercado dos livros-mercadoria, isto é, a venda, ao que consta, não anda a prosperar…
Quer dizer, a edição de livros digitais entre nós é novidade ainda em expansão… com recurso “normal” à edição física, a impressão em papel. Logo, a solução tecnológica nova, electrónica, continua a servir a velha, gutenberguiana. Será porque os espaços domésticos ainda gostam de ostentar filas de volumes, fartas lombadas, leituras feitas ou por fazer, emblemas de status cultural?
Porém, a freima que põe tanta gente a escrever e a publicar-se não terá que se responsabilizar pela carência de leitores de que se queixam os escritores mediáticos das grandes tiragens? A circunstância convida a especular pressupondo que há quantidades de leitores em deslocação por se decidirem agora a escrever os seus próprios livros. Decerto consideram isso preferível a continuarem a comprá-los.
A despesa será maior mas justifica-se como investimento de cada novo autor na sua ilustre pessoa e uma aquisição de especial relevo social – torna-se “figura pública”. Organiza sessões de apresentação da obrinha, concede autógrafos aos seus compradores e fica de ego cheio quando o jornal da paróquia o apresenta como “escritor da terra”. Vê-se perto da (ou já investido) na figura de escritor de nome feito e abençoado pelo mercado.
Certamente, o novo “escritor” leu à pressa uns quantos autores de best-sellers em voga e com eles julga ter aprendido qualquer coisa. Desconhece o que seja a Literatura e, portanto, não reconhece o que seja a mediocridade. Escreve como se habituou a ler, isto é, à pressa, e tudo nele o deixa pronto para acreditar que o sucesso se atinge pela propaganda posta ao serviço do autor, não da sua arte literária.
O observador dos factos socioculturais notará nestas evoluções reflexos de uma banalização da figura do Escritor (outrora prestigiosa como, por exemplo, a do Professor). Serão reflexos de uma banalização mais vasta. Abrange os sistemas escolares, o abaixamento geral dos níveis culturais e o entorpecimento das energias criadoras das novas gerações perante a perda dos valores de referência.

terça-feira, 15 de julho de 2014

O Português nasceu em 1214?

A nossa língua materna existe há oito séculos, assinalaram diversas entidades no próprio dia da efeméride. Basearam-se no testamento do rei Afonso II (1185-1223) feito no dia 27 de Junho de 1214, documento arquivado na Torre do Tombo. Trata-se, porém, de uma data simbólica, pois nenhuma língua aparece feita de um dia para o outro.
O documento foi redigido em Coimbra, pela mão de um certo escriba, seguindo a norma que viria a consagrar-se. Mas, bem entendido, uma nova língua não é elaborada por um único escriba para uso de um povo inteiro (e, então, língua também em uso na Galiza), antes resulta de uma longa sedimentação e decantação de factores diversos presentes no terreno. É obra de uma comunidade inteira, o que nos dá motivo para considerar, à evidência, a nossa língua materna como a mais genial criação dos povos galego-português.
Todavia, houve que esperar três séculos, até 1536, pela primeira gramática de Fernão de Oliveira, publicada em Lisboa, a que se seguiu a de João de Barros quatro anos depois. A língua passou a ter as suas próprias regras de forma e composição, uma morfologia disciplinar canónica. A reluzir ficaram os contributos literários de Gil Vicente (c. 1465-c. 1536), Garcia de Resende (1470-1536), Sá de Miranda (1481-1558), Bernardim Ribeiro (1482?-1552?) e outros, de modo a perceber de relance o “salto” portentoso dado pela língua na primeira metade do século XVI.
O contributo de Luís de Camões (1524-1580), outro artífice da língua, foi marcante para o progresso do Português. Mas a língua, sistema aberto sempre vivo, continuou a evoluir tanto quanto se sabe. Estendeu-se pelo mundo onde pés portugueses se demoraram fazendo nascer, após descolonização, a CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Rodearam a organização da comunidade lusófona grandes expectativas que mais óbvias têm deixado as fraquezas de uma autêntica e eficiente política da língua que Portugal adia. A CPLP parece transformar-se, ao que se diz, sobretudo em centro diplomático de negócios e o falhanço do Acordo Ortográfico de 1990, que prometia um mínimo de unificação, deixa à solta naturais derivas.
A defesa e promoção da nossa língua materna no mundo mostra-se inadequada e inconsistente, com cada um dos países integrantes a seguir ao seu próprio ritmo. Ora, em vez das vozes que entronizam o Português com frases altissonantes, bom seria intervir no espaço da lusofonia em situações como em Timor ou na Guiné-Bissau. Neste país, por exemplo, inserido em região francófona e com uns 56% de analfabetos, as diversas etnias falam algo como 32 dialectos nativos; não existe ensino da nossa língua condigno, sendo o Português falado só por brancos e alguns guineenses escolarizados e o crioulo usado em cidades e zonas do litoral… [Nota: clique na imagem para ampliar.]

terça-feira, 17 de junho de 2014

Editores “fazem” escritores

O campo da edição literária deu uma grande volta e continua a mexer no terreno multiplicando as consequências implicadas. Eu, como qualquer autor idoso, venho acompanhando (isto é, estranhando) as evoluções e mudanças que ocorrem na área. Ora hoje assinalo a maravilha a que chegamos: há editores que já vão ao ponto de “fazer” novos escritores!
Dantes, eram os autores de obras principais que faziam prosperar os editores, dando-lhes futuro. Todos sonhavam com eles, ambicionando ver algum dos maiores entrar-lhes pela porta. Todavia, os ditames do deus-mercado impõem agora outros mandamentos.
Vai-se tornando “normal” que um editor contacte um autor para lhe propor a aceitação de uma encomenda. Quer escrever um livro sobre um dado tema de palpitante actualidade ou sensacional escândalo, que venda muito e depressa, seja um romance, um estudo, uma entrevista? O autor (novato, naturalmente) embarca no convite que porá a soar o seu escasso nome na praça literária e ganhar, escrevendo, um bom dinheiro.
Deste modo, é o próprio mercado que, através do editor, coloca o autor a trabalhar por encomenda na directa dependência da lógica dos interesses comerciais envolvidos. O editor escolhe o “tarefeiro” e, à americana, não se limita a contratá-lo para a tarefa: fornece-lhe pistas, indicações, ajudas várias; orienta-o e por fim até poderá compor-lhe o escrito. O autor passa a escrever em absoluta dependência do mercado.
Evidentemente, vai crescendo o número de autores que almejam ser “escritores” em condições de viverem do seu trabalho de escrita. Objectivo este aceitável mas que em contrapartida os prende às flutuações do mercado, dos gostos massificados e da cultura de consumo de bens efémeros. Dilui-se por completo a independência do autor, a sua pessoal criatividade e alguma dignidade.
Outras consequências substanciais acompanham a perda da liberdade de iniciativa do autor (e uma, relevante, consiste em permitir que o editor seja um real co-autor omisso). Não escreve apenas por tarefa, escreve também por encomenda. Não elabora o livro que considera necessário, abstém-se, optando pelo sucesso fácil quase garantido.
Publicar no mercado editorial o que o mercado está pronto a absorver acaba por ser viciante. O autor, sintonizado com o marketing, seguirá inspirado pela escrita de sucesso fácil. Para ele, que quer sido lido de urgência, literatura para minorias é elitismo, inutilidade.
Lamentável é ver depois as leituras que mais circulam no mercado, produzidas pelos autores das grandes vendas. Abundam de literatura popular assumidamente descartável, simples verbos de encher. Escondem, porém, sob mantos de silêncio e de invisibilidade a literatura viva, autêntica, que nos falta.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Pensamento débil

Os nossos tempos não vão favoráveis à afirmação vigorosa do pensamento. Criações mentais desejavelmente inovadoras parecem recostar-se numa passividade acomodada ou numa conformação indiferente ao que de renovador mais importaria. O panorama como que adormece numa espécie de estagnação pantanosa ou mesmo numa real decadência.
Onde pode o observador encontrar hoje um sinal de rasgada afirmação? Percorre os diversos sectores da criatividade intelectual e o que se lhe depara? A mentalidade tecnocrática, dedicada ao serviço das empresas, sufocou a cultura humanista obliterando a relação de cada pessoa com a espécie integrada na natureza, nosso berço.
Ia prosseguir, desenrolando o fio do meu discurso, mas, neste ponto, parei a escrita. Caiu-me o olhar numa frase em crónica de Vasco Pulido Valente que parecia exprimir a ideia que começava a enunciar. A frase: “A autoridade da ‘inteligência’ desapareceu.”
Mas, então, de onde emana a autoridade que continua a exercer-se nos variados planos da vida social se a autoridade da “inteligência” desapareceu? Se o regime republicano e o sistema democrático continuam vigentes, incluído o sistema da justiça, que processo terá conseguido descartar a preclara “inteligência”? Substituiu-a acaso a mediocracia eleitoral?
Não poderia eu dizê-lo melhor, com menos palavras nem com maior eloquência. Mas a brutalidade da expressão justifica-se pelo seu inegável realismo: a “inteligência” (que outrora distinguíamos como “intelligentsia”, ou escol, elite dominante) perdeu o seu lugar, autoridade, prestígio. É facto tão notório que espalha pela minoria realmente culta um calafrio visceral e um alarme.
E que espécie de autoridade será essa, declaradamente não iluminada pela “inteligência”? Decorrerá da mediocracia da mediocracia eleitoral e poderá ser ainda legitimável como “civilização”? Ou a monstruosidade contida na síntese de VPV, ao causar-nos um estremeção de profundo horror, também nos adverte do sentido de uma geral deriva política em crescente afirmação da direita (da austeridade programada, do empobrecimento do povo)?
Vejamos. Do que se trata não é, afinal, da abolição da “inteligência” da autoridade (do poder governante, da justiça). É da imposição liminar do seu inverso, ou antónimo, pois a inteligência (democrática) que nos tem governado vai sendo absorvida por uma diversa “inteligência” estratégica que se declara presente e omnipotente.
Por este caminho, quanto tempo faltará para se repetir o memorável caso dos anos ’30 do século passado? Decorria a sangrenta guerra civil espanhola, provocada pelos franquistas contra o governo republicano eleito, patamar preparatório da Segunda Grande Guerra. Quem falasse de “cultura” punha franquistas a puxar da pistola… [Imagem: “Zé Povinho com sua albarda”, pintura de Rafael Bordalo Pinheiro.]

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Museu do Neo-Realismo

Encontra-se perto de Lisboa, em Vila Franca de Xira, foi criado em 1990 e tem méritos para ser mais conhecido. Quer dizer, mais conhecido e, realmente, apreciado pelo país culto. Porque é museu de índole única: focaliza os movimentos literários portugueses do século XX e, por natural abrangência, o vasto quadro da cultura envolvida.
Conforme a designação indica, o Museu focaliza sobretudo o movimento neo-realista português, tendo crescido com base num centro de documentação com arquivo e biblioteca. Recolheu a seguir numerosos espólios de escritores, artistas e casas editoras, além de arquivos documentais, audiovisuais, museológicos (pintura, escultura, etc.) relacionados com aquele movimento. Alguns dos primeiros espólios, naturalmente, foram marcantes: Manuel da Fonseca, Alves Redol, Alexandre Cabral, Soeiro Pereira Gomes e muitos outros.
Na verdade, ao Museu do Neo-Realismo foram já doados acervos de autores como Alexandre Babo, Álvaro Feijó, Antunes da Silva, Armindo Rodrigues, Arquimedes da Silva Santos, Carlos Coutinho, Garcez da Silva, Faure da Rosa, Joaquim Lagoeiro, Joaquim Namorado, José Ferreira Monte, Jorge Reis, Júlio Graça, Leão Penedo, Manuel Campos Lima, Mário Braga, Orlando da Costa e outros. São uma “galeria” (em crescimento) dos vultos de escritores e artistas que marcaram o neo-realismo como o esteio principal da nossa literatura no século passado. Todos, por sinal, bastante ligados à parte centro-sul do país, o que pode levantar a pergunta: e então, os autores do norte?
O movimento neo-realista surgiu em Coimbra, quando eclodia a Segunda Grande Guerra, em torno da revista “Vértice” (lembre-se: enfrentando toda a repressão da ditadura). Rompendo com o “presencismo” instalado e inovando energicamente, o grupo inicial (Fernando Namora, Carlos de Oliveira, Joaquim Namorado, Mário Dionísio e outros) impôs a nova estética literária nos variados campos da criação artística e intelectual portuguesa daquele tempo. Pedra angular do movimento neo-realista foi sem dúvida a colecção “Novo Cancioneiro”, recentemente reeditada pelo Museu do Neo-Realismo em edição fac-simile.
O Museu promove outras edições, nomeadamente monografias relacionadas com as exposições documentais periódicas que realiza. Organiza também exposições itinerantes (sobre Manuel da Fonseca, Alves Redol, por exemplo), enquanto atende investigadores e visitantes nacionais e estrangeiros. Recolheu ainda os espólios editoriais da revista “Vértice”, dos jornais “O Diabo” e “Horizonte”, e da editora Cosmos, e os espólios artísticos de José Dias Coelho (1923-1961), de Jorge Oliveira e do arquitecto Castro Rodrigues. Além disso, o Museu possui um vasto conjunto de obras de relevantes artistas plásticos (Júlio Pomar, Lima de Freitas, Rogério Ribeiro, Querubim Lapa, Mário Dionísio, Nuno San Payo, Manuel Ribeiro de Pavia, Cipriano Dourado, Avelino Cunhal e Alice Jorge), bem como arquivos fotográfico, audiovisual e outros.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

As leituras do leitor

É facto indisfarçável: o rol de livros que aprecio nesta coluna em breve nota de leitura vai crescendo. Na maioria são obras publicadas no século XX e só uns poucos são novidades literárias ainda frescas. Ora isto resulta de duas ordens de razões que pedem uma razoável explicitação.
Por um lado, conservo ainda uma quantidade de leituras por fazer, ou refazer. As sofreguidões dos anos vividos impediram-nas ou adiaram-nas, de modo que uns tantos livros escolhidos permaneceram comigo como salvados. São agora uma excelente companhia e lenitivo para qualquer monge laico que se retira do bulício e no silêncio da escrita alheia busca a deslumbrante cintilação das obras mestras.
Mas, por outro lado, desde cedo me habituei a registar as minhas impressões do que ia lendo. Ler é também escrever (e a recíproca vale igualmente), o que lembra a regra do “quanto mais intensivo é o leitor mais facilmente se transforma em autor” conforme parece acontecer amiúde na praça literária. E, sem dúvida, é maximamente gratificante para o leitor este acto de enaltecer a obra admirável que o deixe maravilhado.
Assim tenho vindo a comentar autores de obras como Romain Rolland, Thomas Mann, Hermann Hesse, Boris Vian, Johan W. Goethe, Mark Twain, Ken Robinson. Todos estrangeiros, é certo, mas aparecem também portugueses e brasileiros: Sampaio Bruno, Fernando Pessoa, Alexandre Guarnieri, Pires Laranjeira, António Canteiro… Todavia, um aspecto que para mim é o mais significativo encontra-se na sugestão contida nestas notas e que é....
Pretendo sugerir que vale bem a pena virar as nossas atenções para a literatura que ficou publicada e consagrada no século passado, digamos até 1980, aproximadamente. Pouca ou nenhuma dessa literatura se encontra hoje no mercado. O interessado procura-a em vão nas livrarias; se tentar os alfarrabistas talvez neles consiga o que deseja.
Quer dizer, entre os efémeros sucessos literários da actualidade (de autoria dos fabricantes de best-sellers de cada mês aqui repetidamente desmistificados), e as obras que se consagraram no século passado à luz de diversa exigência, eu não hesito na escolha. Não as tem ao alcance o interessado nas redes do comércio normal? Recorra às bibliotecas públicas!
Nas bibliotecas públicas os leitores são convenientemente atendidos por pessoal habilitado. Têm serviço grátis e podem inscrever-se como leitores, o que lhes permite a leitura domiciliária. Se tudo isto os não conforta, que mais pedirão os leitores? [Imagem: pintura de Almada Negreiros]

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Já “pleonasmou” hoje?

[Texto anónimo de leitor recebido por email]

Todos os portugueses (ou quase todos) sofrem de pleonasmite, uma doença congénita para a qual não se conhecem nem vacinas nem antibióticos. Não tem cura, mas também não mata. Mas, quando não é controlada, chateia (e bastante) quem convive com o paciente.
O sintoma desta doença é a verbalização de pleonasmos (ou redundâncias) que, com o objectivo de reforçar uma ideia, acabam por lhe conferir um sentido quase sempre patético.
Definição confusa? Aqui vão quatro exemplos óbvios: “Subir para cima”, “descer para baixo”, “entrar para dentro” e “sair para fora”.
Já se reconhece como paciente de pleonasmite? Ou ainda está em fase de negação? Olhe que há muita gente que leva uma vida a pleonasmar sem se aperceber que pleonasma a toda a hora.
Vai dizer-me que nunca “recordou o passado”? Ou que nunca está atento aos “pequenos detalhes”? E que nunca partiu uma laranja em “metades iguais”? Ou que nunca deu os “sentidos pêsames” à “viúva do falecido”?
Atenção que o que estou a dizer não é apenas a minha “opinião pessoal”. Baseio-me em “factos reais” para lhe dar este “aviso prévio” de que esta “doença má” atinge “todos sem excepção”.
O contágio da pleonasmite ocorre em qualquer lado. Na rua, há lojas que o aliciam com “ofertas gratuitas”. E agências de viagens que anunciam férias em “cidades do mundo”. No local de trabalho, o seu chefe pede-lhe um “acabamento final” naquele projecto. Tudo para evitar “surpresas inesperadas” por parte do cliente. E quando tem uma discussão mais acesa com a sua cara-metade, diga lá que às vezes não tem vontade de “gritar alto”: “Cala a boca!”?
O que vale é que depois fazem as pazes e vão ao cinema ver aquele filme que “estreia pela primeira vez” em Portugal.
E se pensa que por estar fechado em casa ficará a salvo da pleonasmite, tenho más notícias para si. Porque a televisão é, de “certeza absoluta”, a “principal protagonista” da propagação deste vírus. Logo à noite, experimente ligar o telejornal e “verá com os seus próprios olhos” a pleonasmite em directo no pequeno ecrã. Um jornalista vai dizer que a floresta “arde em chamas”. Um treinador de futebol queixar-se-á dos “elos de ligação” entre a defesa e o ataque. Um “governante” dirá que gere bem o “erário público”. Um ministro anunciará o reforço das “relações bilaterais entre dois países”. E um qualquer “político da nação” vai pedir um “consenso geral” para sairmos juntos desta crise.
E por falar em crise! Quer apostar que a próxima manifestação vai juntar uma “multidão de pessoas”?

Nota - O autor omite um pleonasmo corrente e normalizado: “há uns anos atrás”. [Imagem: de Susana Rocha.]

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Respondo por carta (aberta)

Caro amigo: não te peço concordância, apenas a compreensão que puderes dar-me. Eu sei, é já pedir muito, talvez demais. Mas estou simplesmente a pedir e no pedir, pelo menos, não quero ser peco.
Questionas o mutismo que percebes no teor dos textos aqui editados desde há umas tantas semanas em face de acontecimentos de grande relevo e retumbância internacional. Apontas-me a morte de Eusébio e a “bola de ouro” de Cristiano Ronaldo, sem esquecer os temas da crise feita de crises que devastam o mundo. Consideras estranho que assuntos de tamanho destaque fiquem aqui num silenciamento inexplicável, dado que o cronista escrevia opinando antes sobre o vasto temário que as “Etiquetas” apenas indiciam.
Sem dúvida, meu caro, o teu reparo justifica-se e eu admito-o. Mas... como explicar? Os acontecimentos do dia não têm novidade que preste, o mundo caiu, para o cronista, em confrangedora monotonia.
Que dizer do passamento de Eusébio, do imenso carpir beato de idólatras sobre urna do ídolo morto, ou da “bola de ouro” e lágrima de Cristiano que valessem um átomo mais do que rançosos verbos-de-encher, mais do que estafados lugares-comuns? Não sufocaste até à náusea debaixo das montanhas de papel impresso e das horas, dias inteiros, de rádio e televisão hipnotizadas por tais ocorrências? Mais e melhor: terás sentido, nas gravações de rádio e tv arquivadas e reeditadas, o contraste entre a compostura antiga do relator do jogo e o atroar do actual que aos berros faz passar o golo pelo maior arco de triunfo?
Pobre país com uma cultura onde jornais ditos de referência elevam à suprema categoria de “deuses” uns habilidosos de chuteiras e se dispõem a glorificar um deles como herói no panteão nacional. Triste mundo com uma civilização onde um jogador acumula milhões porque mete mais golos e serve à multidão a droga virtual que a multidão pede. Delírio insano que nem por se ter tornado tão colectivo menos insano será.
Meu caro, devo declarar este (des)interesse: nunca na vida comprei entrada num qualquer estádio; jamais li um jornal desportivo ou discuti pormenores do jogo-espectáculo. Sabes que venho praticando nesta coluna uma modalidade de jornalismo cultural continuando de algum modo o que fiz durante anos, em registo diverso, na prática profissional. Lembrarás também que escolhi o jornalismo aos 33 anos de idade vendo-o como profissão a mais próxima do que eu sentia amar, a Literatura.
Que mais poderei acrescentar? A decência nas relações interpessoais, sociais e internacionais é flor rara do deserto quando massas humanas conformadas, sem vontade nem perspectivas, avançam para a servidão pós-moderna. Onde teremos neste mundo outro Erasmo de Roterdão, igualmente humanista, que desperte as consciências escrevendo um novo e muito mais cabal “Elogio da Loucura”?

sábado, 14 de dezembro de 2013

O que é ”Kitsch”?

O termo veio do alemão e tem utilização crescente. Um vulgar dicionário regista o que significa: “produto artístico, literário, de utilidade doméstica, etc., de qualidade inferior, mas com cunho sensacionalista, que pretende ir ao encontro do gosto popular.” Assunto esclarecido e encerrado?
Não, está em esclarecimento e continua aberto. Assunto agora reavivado pelo contributo de João Medina (“O Kitsch português, reflexões sobre o inautêntico na história cultural lusa”) publicado há dias num blogue (http://malomil.blogspot.pt/2013/11/o-kitsch-portugues.html). Agradeço ao prezado amigo que mo trouxe ao conhecimento.
O termo, na origem alemã, deriva de “atamancar” (obra mal feita) ou impingir como boa coisa de qualidade inferior. Mas, em Portugal, em alguns círculos sociais, o kitsch até tem categoria próxima do belo ainda que, agrega o dicionário, seja “manifestação cultural ou artística que explora estereótipos sentimentalistas, melodramáticos ou sensacionalistas”. Porém, o sentido real do termo é obviamente pejorativo: é tendência, expressão ou conjunto de objectos considerados de mau gosto ou de má qualidade por terem características associadas ao gosto popular.
O trabalho do Prof. João Medina – um ensaio muito ilustrado – desfaz quaisquer confusões assentando desde logo no conceito do que deve entender-se correctamente por kitsch. Abre com epígrafe do ensaísta Abraham A. Moles, autor de basilar livro sobre o tema: “O mundo dos valores estéticos deixou de ser dicotomizado entre o Belo e o Feio; entre a arte e o conformismo estende-se a vasta praia do Kitsch.”
Para Moles, a civilização do consumo produz a cultura de massas, identificável como kitsch. Surge a indagação: poderá a produção industrial ser arte?
Vem a seguir uma outra epígrafe, do espanhol Antonio Muñoz Molina (“«Kitsch» nacional”, Babelia, 21-IX-2013), e é extensa: “…o kitsch é o império dos espaventos descontrolados da emoção e a sensibilidade, da desproporção entre a substância e o invólucro (…). O kitsch define-se por comparação porque a sua natureza é derivada e parasitária. O kitsch está para a arte como a margarina para a manteiga, o Arcopal para a louça, o romance histórico para a História, a Isabel Allende para o melhor Garcia Marquez, (…). O que os anúncios turísticos da Junta da Andaluzia para a realidade da Andaluzia (…). O kitsch é inseparável da efusão nacional porque esta consiste na translação para o público daquilo que em rigor pertence ao âmbito das emoções privadas. (…).”
Estabelecida a abordagem correcta e precisa da questão em foco, João Medina passa a aplicar o conceito exposto ao “kitschismo” acéfalo que invade a realidade portuguesa sem esquecer ideologias e doutrinas conservadoras. À literatura (os best-sellers José Rodrigues dos Santos, Margarida Rebelo Pinto, ou Dan Brown, Leon Uris, etc.) e à arte (Joana de Vasconcelos, José de Guimarães, o Malhoa de “O fado”, etc.) segue-se o teatro, o cinema, a arquitectura, a música… Acende-se, inevitável, a polémica e aí vem a discordância caceteira pedir desforra das “ofensas”. Enfim, o que é kitsch? [Imagem: cartaz-réplica do conhecido quadro "O Fado", de José Malhoa; autoria omissa.]

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Português sem mestre

O crónico praticante da escrita acaba por se enredar nas palavras que usa. Com elas se veste para sair à rua e a elas se prende ao enamorar-se, senão de todas, pelo menos de algumas escolhidas. Então, como fugir ao golpe que sente ao ver atropeladas algumas delas por descuido ou ignorância?
O respeito pela língua materna confundiu-se outrora com o respeito pela pátria e o patriotismo. As regras da educação impunham o máximo primor da linguagem no contacto directo, oral ou por escrito, das relações sociais. Mas os costumes mudaram, esfumou-se a civilidade e deliquesceu a educação tanto quanto a consideração pelo “outro”.
A desvalorização sistemática do próximo acompanhou a desvalorização do respeito pela língua materna como se uma insubordinação civil pudesse tornar mais tolerável uma subordinação larvar imposta pelo sistema dominante em crise (e por aí se avançou até à degradação dos princípios e dos valores). Os atropelos às regras do bem falar e bem escrever vulgarizaram-se ao ponto de se instalar a confusão actual e se banalizarem liberdades e libertinagens. O léxico vulgar e a semântica abriram-se a inovações sem critério alargando-se tanto quanto, por outro lado, se empobreceram.
Exemplos? Vejamos o caso das palavras formadas por iniciais (Pide, laser, sida): têm crescente uso pois simplificam a elocução tornando-a mais eficaz. São, realmente, acrónimos, mas a designação correcta vê-se substituída por esta outra, sigla, termo com significado diverso que os dicionários registam.
Cresce também a utilização de estantes que apoiam microfones e textos dos oradores em variadas sessões. Chamam-lhes pulpitre (ou mesmo púlpito) quando julgam atinar na designação correcta, mas o termo vem do espanhol significando “carteira escolar”. Ora o objecto, conhecido desde há séculos, tem nome bem português: é atril, “estante em forma de plano inclinado, para se pôr aberto o livro, ou o papel, a fim de se poder ler comodamente”.
O anglicismo ranking popularizou-se nas esferas desportivas, escolares e outras. Dispensa vocábulos como categoria, classificação, posição, tal como tranche, galicismo igualmente escusado porque ignora expressões portuguesas aplicáveis como prestação, fatia, parte. Parece que é chique usar estrangeirismos na elocução, comportamento que revela o abandono a que os portugueses votam a sua língua materna, isto é, a sua literatura, a sua cultura, a sua identidade. Mas continuo (e na melhor companhia!) a ver esta língua como a maior criação do génio deste povo… vendo-a, lamentavelmente, a corromper-se no interior da sua própria matriz.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Pintura é “coisa mental”?

Uma frase de Leonardo, o da Vinci, andou-me no juízo às voltas tempos infindos. Dizia simplesmente: “A pintura é coisa mental”. O que pretenderia expressar o génio da Renascença? 
Coisa mental, isto é, criação da inteligência, a pintura, obviamente, é. Então, como admitir que Leonardo ia registar algo tão óbvio (ele que, ó espanto, até caligrafava as frases escrevendo-as pelo inverso de maneira que eram legíveis para um leigo apenas quando “recompostas” num espelho)? 
Quem gosta da arte e aprecia o convívio com pintores, frequentando-lhes os ateliês, habitua-se a descobrir a figura que surge no limiar da imagem. A imagem forma-se naturalmente, quase irresistivelmente, estimulada por algumas sugestões visuais. Logo, é “coisa mental”… 
Toda a pintura? Sim, evidentemente, na medida em que a imagem visual se forma no cérebro que a recebe. Seria este o pensamento, então inovador, de Leonardo? 
Perceber isto, porém, para mim não foi fácil. Mas calhou-me ler um texto admirável de autor creio que japonês sobre o poder da linha, a linha do desenho traçada pela mão do artista, e a sua tremenda expressividade. O nome do autor sumiu-se, ficou apenas a revelação.
Basta a linha, o minimal risco preto-no-branco que descreve no papel um contorno para que o objecto, a coisa nascente adquira forma, volume, relevo – vida! Será esta a ideia contida na frase de Leonardo? Enfim, nesta presunção fiquei até esbarrar, recentemente, num vocábulo velho cuja semântica se alarga, ao que suponho, com um significado novo. 
Os dicionários registam-no assim: “escotoma s. m. (med.) mancha negra ou brilhante que, na doença da retina, se forma diante dos olhos; do gr. skótoma, «vertigem», pelo lat. trad. Scotoma, «id.»”. Outras fontes agregam as derivações “escotoma psíquico” e “escotomização” (“supressão de uma parte do campo visual” e “mecanismo psíquico inconsciente”), sempre em ligação com a oftalmologia, e também “escotópico”, relacionado com a visão em que só são impressionados os bastonetes da retina. Mas aparece agora o neologismo que usa escotoma para significar o fenómeno visual que dá vida à linha e atrai o olhar para a mancha no limiar da imagem (no sentido em que os olhos vêem o que o cérebro quer ver).
Ninguém se atreve a garantir a interpretação correcta da frase mas a ideia de Leonardo parece intuir ali um segredo conhecido e estudado muito mais tarde. Nada surpreendente, afinal, no caso renascentista repleto de prodígios. Pois não continuamos parados diante de milhentas mona lisas no museu imaginário a inquirir se foi pintada por Leonardo e quem retrata, se é homem ou mulher, se sorri ou se…?!

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O futuro da lusofonia


Há poucos dias, uma conferência que reuniu em Lisboa um naipe de linguistas, debruçou-se sobre o futuro da comunidade lusófona. Considerou então que a nossa língua materna, hoje vista num sexto lugar entre as principais do mundo, iria atingir nos próximos trinta ou quarenta anos um ainda mais radioso futuro. Atingiria o terceiro lugar, a seguir ao Mandarim e ao Hindi!
O sentimento patriótico deve ter pulado nos peitos lusitanos com uma alegria de taça conquistada no campeonato e erguida, de braço no ar, em triunfo. Em tão pouco tempo, o nosso Português até iria suplantar o Inglês, língua franca da globalização! A comunidade lusófona seria, finalmente, a suprema coroa de glória do agora tão deprimido povo português…
No entanto, com tamanho optimismo, varria-se para debaixo do tapete um facto tão irrecusável quão comezinho. Não pode ser omitido que... os portugueses não são donos da sua língua! O Português pertence a cada falante e cada escrevente que, algures, resolva utilizá-lo conforme saiba ou entenda porque estará a exercer um incontestável direito!
Somar mecanicamente as populações de cada membro da comunidade e projectar no porvir as taxas dos seus crescimentos demográficos, para inserir os dados num quadro estático, é exercício vão. Vejamos: quantos indivíduos dessas populações dominam actualmente a nossa língua? Quantas, e como, aderem ou vão aderir ao Português?
Perfilhada na comunidade como língua oficial justifica, ao que parece, tiradas grandiloquentes e triunfalismos indómitos dentro do pátrio rectângulo, mas o que vale isso? Quem vai ao Brasil (o Brasil!) é questionado por bastantes dos seus naturais que lhe perguntam “que língua falam os portugueses”? Tente utilizá-la, para glorificar Camões, quem viaje pelo vasto interior de Angola… e talvez nem precise de ir mais longe.
Cada uma das oito nações da comunidade lusófona (repito: excluindo, lamentavelmente, a Galiza) segue as coordenadas de desenvolvimento da sua própria conjuntura. Todavia, são ainda raras as tentativas para apreender cada uma dessas situações particulares e as integrar numa visão complexa do conjunto em perspectiva (foi o que eu fiz em Inclinações Pontuais, Porto: Campo das Letras, 2000, pp 127-173; e, antes, na rev. “Nós”, Braga-Pontevedra, 1986-1988). Bem mais fácil – e confortável - é colocar simplesmente o conjunto lusófono no mapa das derivações românicas…
Afinal, o Português está a herdar os resultados históricos de uma prolongada falta de investimento que tem mantido a “política da língua” em banho-maria. Nem sequer teve a sorte do Inglês ou do Francês, por exemplo, nos decénios posteriores à descolonização portuguesa (até os nossos emigrantes se queixam de perder apoios escolares). Em suma, o futuro da nossa língua materna, no pátrio território, apenas provoca apreensão (conforme digo em
O futuro do Português) e o futuro da lusofonia vai também por esse caminho.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Haja Feiras do Livro!


Dizemos que nenhum livro admirável consegue ser completamente bom nem que um outro, embora medíocre, irá ser completamente mau. A ideia é que muitos livros diversos ou, idealmente, todos quantos existam resultam bons na medida em que uns aos outros se esclarecem e ajudam. E porque o dito condensa uma verdade demonstrável, tornamos a repeti-lo.
Portanto, uma grande biblioteca constitui um Grande Livro e uma Feira do Livro babélica aproxima-se de uma grande biblioteca em projecto. Venha, portanto, muita Feira! Acontece porém que a segunda cidade do país, este ano, ficou privada do certame tradicional que lhe enchia de animação e de livros a Avenida.
Barafustou a organizadora (a APEL, composta sobretudo pelos editores nacionais, atingidos pelo revés que sofreriam as suas vendas directas ao público, i. e., sem intermediação das livrarias). O município local recusou o aumento de uns milhares de euros e o evento, sem tal apoio, emperrou. Ergueu-se então em protesto contra o município um grupo de novos escritores, com José Luís Peixoto na primeira linha.
Gesto comovente! Eram escritores em voga e já apareciam na Feira de Lisboa em canseirosas sessões de autógrafos, davam entrevistas, conversavam, passeavam, tornavam-se ainda mais populares, percebendo bem o que os editores querem quando lhes dizem que “são os autores que vendem”… Reagiram com elevado critério e dispuseram-se a realizar na cidade do “corte à cultura” uma sessão de autógrafos dos seus últimos livros.
Reacção exemplar! Evidenciou a maravilhosa generosidade do grupo que trabalha para se profissionalizar e viver da escrita literária e que se cansa, gastando os pneus, a percorrer o país, no esforço constante da promoção das suas obras e das suas imagens. São escritores em voga, é certo, mas precisam de não perder a corrida pois sabem que o mercado tem memória fraca e que é vital manter uma vela acesa naquele altar.
Felizmente, abundam as feiras, os convites, os encontros, os eventos culturais, oportunidades a não perder para botar figura. Ora, apesar da crise, a Feira de Lisboa rendeu este ano muito mais do que seria de esperar: as vendas globais troçaram da crise.
O animoso grupo dos novos escritores dispõe-se portanto a prosseguir na elaboração de literatura de consumo (o consumo de papel não vai diminuir!): rimas de livros, grossas lombadas e vistosas capas enfeitadas com o nome-marca do Autor em letras garrafais e prazos de validade como os iugurtes.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Novos escritores: apolíticos?

Venho a comentar desde há anos as transformações operadas por uma deriva ideológica que arrasta a literatura portuguesa. Os novos autores, surgidos nos últimos trinta anos, revelam tendências para uma “neutralidade” política nas obras que publicam e essa tendência parece em expansão. Evidentemente, pouco escutada tem sido esta voz recôndita, mas de súbito eis-me colocado em notória companhia.
O escritor Eduardo Pitta, em crónica saída na rubrica Heterodoxias da revista “Ler” de Março passado, que um bom amigo me trouxe, pôs o assunto na mesa com magnífica frontalidade. Alinhou uma dúzia de novos ficcionistas para lhes notar uma “aparente abulia política”.
Que escritores portugueses eram os mais relevantes em abril de 1974?, começa Eduardo Pitta por perguntar. Recorda José Gomes Ferreira, Miguel Torga, Vergílio Ferreira, Óscar Lopes, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Namora, Carlos de Oliveira, Natália Correia, Urbano Tavares Rodrigues e David Mourão-Ferreira. Acrescenta Alexandre O’Neill, Herberto Helder e Ruy Belo, que “eram grandes poetas, admirados e respeitados pelas elites cultas, mas sem peso no Meio”. E agrega ainda, entre os “dominantes”, os “tolerados (Cesariny) e os tonitruantes (Ary dos Santos)” para reconhecer – “todos davam a cara”.
Quer dizer: eram figuras da oposição democrática ao regime da Ditadura; autores de obras literárias impregnadas de valores ideológicos afins e cidadãos prestigiados pela coerência ideológica que demonstravam. Eram!... E hoje?
Pitta confronta-os com os “novos” Rui Cardoso Martins, Gonçalo M. Tavares, Afonso Cruz, Alexandre Andrade, Valter Hugo Mãe, Rui Herbon, Rui Manuel Amaral, Jacinto Lucas Pires, José Luís Peixoto, Sandro William Junqueira, João Tordo e David Machado. São “autores nascido entre 1967 e 1978” e, note-se, distinguidos com prémios e traduções! “Gostava de saber – escreve Eduardo Pitta – o que pensam da falácia europeia, do desemprego sem freio, do empobrecimento geral, dos direitos das minorias”, etc., ou seja, dos problemas que afligem os portugueses na actualidade. Simples equação. Serve para demonstrar a radical limpeza que tem vindo a expurgar a nossa literatura – e não só a ficção – de sinais de envolvimento social dos novos autores. O alheamento ou a recusa de cor ideológica (máxime, de esquerda) implantou-se como regra.
O compromisso dos novos ficcionistas é com o mercado, onde qualquer tendência politica ou ideológica não “natural” (isto é, estranha à opinião vulgar) resulta “incómoda” pelo risco de poder estragar o negócio. Esses autores do verbo-de-encher escrevem histórias apurando os recursos das suas particulares “oficinas” mas, faltando-lhes o envolvimento social, privam-se de histórias novas para contar. Sigam Romain Rolland: “Toda a obra que perdura é feita da própria substância do seu tempo: o artista não foi sozinho a construí-la; reproduziu o que sofreram, amaram, sonharam, os seus companheiros, todo o grupo.”

domingo, 7 de outubro de 2012

A edição literária, hoje

A cambalhota foi rápida. Efetivou-se nuns meses, de modo que o setor da edição literária nacional ficou virado de pernas para o ar. Já lá vão uns três anos e resta por aí ainda quem, escrevendo ou lendo livros, não tenha percebido claramente o que aconteceu e, portanto, estranhe a situação.
As principais editoras caíram na mão do poder financeiro. O livro reduziu ou perdeu de todo a sua dignidade cultural, transformando-se em objeto de negócio puramente lucrativo. Os autores literários mediáticos passaram a produzir para o mercado e os sobrantes viram-se obrigados a aceitar a condição de supranumerários senão mesmo a invisibilidade.
As consequências objetivas da viragem tinham de ser desastrosas nos planos da cultura e de uma normal renovação das linguagens literárias. Os autores de best-sellers, os nossos e os outros, proclamados escritores profissionais, produzem as obras (romances, muitos romances) que o mercado gosta de consumir depressa e em quantidades o mais possível industriais. Os editores querem que sejam os autores a vender com a força da sua imagem mediática e diligência aplicada no terreno, enquanto os próprios autores, profissionalizados, se tornam necessariamente produtores de obras vendáveis por «encomenda» do mercado.
Num pequeno país e, para mais, afundado em profunda crise, cabem poucos autores de best-sellers. A máquina da edição literária lança o preciso para funcionar e refuga os demais (não lucrativos). A comunicação social, orientada para a atualidade mediática que chama às luzes da ribalta os autores badalados, segue na corrente que, por outro lado, a inexistência de uma crítica pronta e atuante deixa correr sem baias.
O resultado ficou à vista. Os leitores, pegando nos livros à venda em supermercados, correios, papelarias e etc. (isto é, consumindo o que lhes metem pelos olhos dentro), estratificam o gosto em leituras padronizadas, feitas para eles pelos fabricantes de textos seguindo indicações estratégicas do marketing. Em suma, a edição literária torna-se monocórdica e repetitiva tanto quanto a imprensa, também caída em poucas mãos convenientes, é tendenciosa e unilateral.
O número das editoras e chancelas em atividade cresceu até à desmesura e a quantidade total  dos livros novos publicados a cada ano causa verdadeira estupefacção. As lojas e barracas de saldos de volumes a pataco mal esvaziam os armazéns atulhados com verbos de encher. Nas livrarias, os clientes arreliam-se porque, entre tanta livralhada, falta lá espaço para as obras de autores clássicos ou mesmo para obras lançadas há dois ou três meses e, se querem encomendar, o livreiro faz má cara - a distribuição está num caos.
Predomina na paisagem o preciosismo da escrita criativa com talento para extrair de  banalidades imenso suco de barbatana. Anemiza-se o envolvimento social do narrador, a palpitação humana autêntica na união sincera da arte com a vida. Boa escrita (liofilizada) não serve a boa literatura.
A intensificação da circulação desta literatura (dita descartável, light) espalha no terreno consequências indesejáveis a vários níveis. A mais saliente consistirá na imposição de um tipo de «cultura popular» capaz de submergir a cultura popular de raiz. Contribuirá também para estratificar nos seus leitores o conformismo ideológico, a debilidade do sentido crítico, o consumismo acéfalo.
Nesta situação confusa, ficam condenados a uma marginalidade nada inocente bons autores interventivos carecidos de «vedetismo» porque vendem pouco e devagar. Tinham editoras, leitores, renome, e a cambalhota reduziu-os quase ao emudecimento. Na sua visceral solidão, vêem-se constrangidos a conservar inéditos originais que não tiram da gaveta.
Mas agora são abundantes, numerosíssimos, os novos «escritores». Surgem e multiplicam-se pelos quatro cantos, parece que está na moda isso de publicar livros e qualquer estreante os publica, pagando a edição, com tiragens reduzidíssimas, do seu próprio bolso, e depois corre a vendê-los a conhecidos e vizinhos dos conhecidos. Escrevem, editam, distribuem e fazem venda direta - será este o caminho que resta aos autores não mediáticos?!
Quem isto escreve optou pela solução que se sabe: publica os seus livros com formato e-book numa plataforma da Internet. Nesse escaparate já alinhou dez títulos e pretende continuar. Os milhares de visitantes que os folheiam nada pagam ao autor mas deixam-no perfeitamente gratificado.
A conjuntura sociopolítica, dominada pelas ganâncias da máquina ultra e neoliberal que tudo oprime e devora, acicata a criatividade individual e coletiva. De qualquer modo, é preciso, é urgente elaborar respostas, rasgar saídas. A liberdade de expressão, a necessária renovação cultural e literária, e a democracia pedem-nas.