![]() |
| Meditação, escultura de Paige Bradlei, Nova Iorque, EUA |
Mostrar mensagens com a etiqueta filosofia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta filosofia. Mostrar todas as mensagens
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
domingo, 15 de julho de 2012
Mando carta aberta
Caro amigo: Lamento mas não o acompanho nessa queixa dos sábios que procuram a tal «partícula de Deus» no Universo. Desde logo, aprecie a beleza poética da metáfora introduzida (pelos físicos?) e a sua expressividade. Sobretudo considere comigo que os cientistas do CERN estão a responder ao que reclama: «E então a "partícula do Homem", quando a buscam, qual é e onde está?»
Concordamos num ponto, a ciência não mata a filosofia. Acho que aquela se relaciona intimamente com esta e que ambas, seguindo linhas paralelas, se inter-influenciam. Dir-se-á, com certa razão e lamento, que na atualidade é a ciência que avança puxada pela evolução geral das tecnologias, e a filosofia (isto é, as Humanidades), que relativamente se atrasa.
Porém, o avanço da investigação que provou a existência de um «bosão de Higgs» está aí a demonstrar precisamente quanto a ciência pode influenciar e mesmo servir a filosofia. Trata-se de conhecer o funcionamento da misteriosa partícula subatómica que recebeu o nome do seu, agora festejado, descobridor. Higgs percebeu que essa partícula teria fatalmente que existir ali para organizar os átomos, ou seja, a matéria.
Ora nós, a humanidade inteira e tudo quanto na realidade existe, somos matéria. Precisamos sem dúvida nenhuma de conhecer todos os segredos desta matéria de que somos feitos. Os conhecimentos científicos mais avançados - e nós, uns leigos, com eles aprendemos - detiveram-se numa «fronteira» teórica que deixa imensas evidências sem explicação, sejam de aparência comezinha como esse bosão indetectável no interior de um átomo ou espetacular como a força que põe a girar uma galáxia inteira ou abre algures um dos chamados buracos negros gigantescos que tudo sugam para um «outro lado» invisível, inconcebível.
Eis o motivo por que me parece fundamental a investigação desenvolvida no CERN, mais fundamental, suponho, do que ir à Lua ou a Marte ou militarizar o espaço (área nova de confrontos bélicos). Suponho que designar o bosão como a «partícula de Deus» lhe cai mal no ouvido, pois o conheço tão agnóstico quanto eu, mas repare: a metáfora, bem apreciada, contém uma pitada de humor. Os cientistas de infinitas gerações avançaram até o ponto em que hoje estão sem jamais encontrarem o Criador e explicando sempre, experimentalmente, os fenómenos naturais; logo, talvez Ele pudesse estar escondido naquela simples partícula que parece abrir para um outro Universo (de antimatéria?) ainda por desvendar...
Ora nós, a humanidade inteira e tudo quanto na realidade existe, somos matéria. Precisamos sem dúvida nenhuma de conhecer todos os segredos desta matéria de que somos feitos. Os conhecimentos científicos mais avançados - e nós, uns leigos, com eles aprendemos - detiveram-se numa «fronteira» teórica que deixa imensas evidências sem explicação, sejam de aparência comezinha como esse bosão indetectável no interior de um átomo ou espetacular como a força que põe a girar uma galáxia inteira ou abre algures um dos chamados buracos negros gigantescos que tudo sugam para um «outro lado» invisível, inconcebível.
Eis o motivo por que me parece fundamental a investigação desenvolvida no CERN, mais fundamental, suponho, do que ir à Lua ou a Marte ou militarizar o espaço (área nova de confrontos bélicos). Suponho que designar o bosão como a «partícula de Deus» lhe cai mal no ouvido, pois o conheço tão agnóstico quanto eu, mas repare: a metáfora, bem apreciada, contém uma pitada de humor. Os cientistas de infinitas gerações avançaram até o ponto em que hoje estão sem jamais encontrarem o Criador e explicando sempre, experimentalmente, os fenómenos naturais; logo, talvez Ele pudesse estar escondido naquela simples partícula que parece abrir para um outro Universo (de antimatéria?) ainda por desvendar...
domingo, 18 de dezembro de 2011
Uma esquiva partícula
Uma notícia salta e é verdadeiramente emocionante. Eu, pelo menos, emocionei-me ao ouvir que uns cientistas estavam a obter grandes progressos nas suas investigações. Trabalham no CERN (Suíça), equipamento dedicado ao estudos de física subatómica e aparecem agora prontos para caçar o bosão de Higgs, aquela esquiva partícula do átomo.
É esquiva porque os investigadores, que explicam o caso, percebem que está escondida dentro do átomo e não conseguem apanhá-la. Mas avançam nos progressos e deles nos falaram com regozijo e esperança de vitória. Acho que ninguém pode desejar outra coisa!
Realmente, conseguir analisar a estrutura complexa do átomo é a façanha científica que nos falta para melhorarmos a nossa geral compreensão do Universo. Tem a magna importância dos factos determinantes a todos os níveis do conhecimento humano nem que seja em mero nível da (minha) cultura geral. Se, apesar de tudo, existem milhões de pessoas no mundo que vivem indiferentes, isto é, que não estremecem quando olham para o céu estrelado, isso apenas indica que andam de olhos fechados para o que, além de surpreendente e maravilhoso, é óbvio.
Penetrar nos derradeiros segredos do átomo habilita-nos a conhecer a matéria (que é espaço-tempo), nas suas diversas organizações. Tarefa ingente, infindável, que já permitiu perceber a presença de algo como uma «antimatéria», decerto muito mais abundante, os falados «neutrinos». Precisamos de conhecer do que somos feitos, assim escancarados para o cosmos e com interrogações maiores que nós, contemplando de longe fenómenos como os «buracos negros» - pelos quais tudo se esvai, galáxias inteiras, inclusive a luz... e nós sem podermos espreitar do outro lado.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
A revolução gandhiana
Ao ler Peregrinação às Fontes, de Lanza del Vasto, referido no texto anterior, tomou-me uma necessidade irresistível de fixar, pela cópia, alguns trechos significativos do que, para o Autor e o seu leitor, era a revolução gandhiana. O que pode extrair-se de um punhado de páginas não caberia nesta coluna, fique pois a migalha como aperitivo e votos de boas festas.
Que o homem seja sempre maior do que aquilo que faz, mais precioso do que aquilo que tem.
Suprimamos a miséria, cultivemos a pobreza.
Sim, o trabalho das mãos é a aprendizagem da honestidade.
A honestidade é uma certa igualdade que se estabelece entre o que se toma e o que se dá.
É preciso adquirir primeiro o direito de dar. Não tem o direito de dar quem não pagou o que deve.
Tenha receio de ser sublime sem profundidade, grande sem fundamento, e perfeito no vazio. Tateie, através dos atos, a verdade que a sua inteligência viu.
Pense assim: recuso julgar-me superior ao comum dos homens. De facto, nada é mais comum do que julgar-se superior. É certo que a humildade não é uma virtude que se adquira deliberadamente. É uma graça que vem do céu para os melhores. Torne-se disponível para a receber.
A intenção de Gandhi não é voltar atrás. [...] A sua revolução, pelo contrário, olha para o futuro com severas esperanças. É o primeiro sábio do Oriente a prescrever o trabalho como um dever para todos e como uma via de salvação. Lançou as bases de uma nova constituição civil, de um novo desenvolvimento económico, assim como de uma nova cultura.
A máquina encadeia, a mão liberta.
O artífice que dá forma a um objeto, que o sabe polir, que o decora, o vende, o apropria aos desejos de quem se destina, realiza um trabalho humano. O camponês que dá vida aos campos e faz prosperar o gado, através de uma vida harmonizada com as estações, realiza uma tarefa de homem livre. Enquanto que o operário, acorrentado ao trabalho em cadeia, que a cada segundo repete o mesmo gesto à velocidade ditada pela máquina, esboroa-se num trabalho sem finalidade para ele, sem fim, sem gosto nem sentido. O tempo que gasta com ele é perdido, vendido: vende não a obra, mas o tempo da sua vida. Vende o que o homem livre não vende: a sua vida. É um escravo.
Não se trata de atenuar a sorte do proletário, a fim de o obrigar a aceitá-la. Trata-se de suprimir o proletariado como se suprimiu a escravatura, visto que, de facto, o proletariado é a escravatura.
A uma civilização cuja caraterística é a luta do proletariado e da burguesia, Gandhi quer opor uma cultura cujo fundamento seja o acordo entre o campesinato e o artesanato.
A uma civilização cuja caraterística é a luta do proletariado e da burguesia, Gandhi quer opor uma cultura cujo fundamento seja o acordo entre o campesinato e o artesanato.
Se é verdade que poupam tempo, como é possível que nos países onde as máquinas reinam só haja pessoas apressadas e que nunca têm tempo?
E os povos inteiros que estão votados à ociosidade, o que se fará deles, o que farão de si próprios?
Quando fizerem do Estado uma máquina, como podereis impedir que um louco qualquer se apodere do volante e arraste a máquina para o precipício?
Quando fizerem do Estado uma máquina, é preciso que vocês próprios lhes sirvam de carvão.
Se as pessoas de hoje estão convencidas do caráter deplorável de um sistema que as levou de crise em bancarrota, de falência em revolta, de revolução em conflagração; que destrói a paz e a torna agitada e inquieta; que faz da guerra um cataclismo universal, quase tão desastroso para os vencedores como para os vencidos; que tira o sentido à vida e o valor ao esforço; que consome a desfiguração do mundo e o embrutecimento do povo; se as pessoas de hoje acusam seja quem for dos grandes males que as oprimem, atribuindo a causa seja ao que for menos ao desenvolvimento da máquina, é porque não há surdo mais mouco que o que não quer ouvir nada.
É preciso que a admiração pueril pelos brilhantes brinquedos com que se divertem, que a exaltação fanática pelo ídolo que forjaram e a que estão dispostos a sacrificar os próprios filhos, lhes tenha dado volta à cabeça e fechado os olhos à evidência, para que continuem a esperar do progresso indefinido da máquina a vinda de uma idade de ouro.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Deus não tem mais Céu
O mistério rodeia as manifestações da vida onde e como surjam talvez porque a vida é o mistério absoluto. Sempre assim foi, de modo que esse mistério deu o berço ao nascimento das religiões. Todavia, o desenvolvimento do conjunto dos conhecimentos científicos foi crescendo ao ponto de, no nosso tempo, se extinguir até ao limite o lugar para quaisquer «explicações» religiosas do fenómeno Vida.
Não resta mais lugar para um Deus criador do mundo, os avanços da ciência extinguiram-no. O derradeiro golpe foi dado por Stephen Hawking no seu novo livro The Grand Design. Assumidamente agnóstico, o físico cósmico explica o Universo através do Big Bang primordial abolindo definitivamente a ideia teísta do criacionismo.
Na verdade, segundo afirma quem já o leu, Hawking procede neste livro a uma completa abolição da hipótese divina. Antes parecia admiti-la como hipótese última, nos limites do conhecimento, mas reafirmando o seu agnosticismo. Agora, por fim, aplicando somente as leis da Física cósmica, transpõe a última fronteira.
Na verdade, segundo afirma quem já o leu, Hawking procede neste livro a uma completa abolição da hipótese divina. Antes parecia admiti-la como hipótese última, nos limites do conhecimento, mas reafirmando o seu agnosticismo. Agora, por fim, aplicando somente as leis da Física cósmica, transpõe a última fronteira.
Degrau a degrau, sucessivamente, pode também chegar à contemplação do cosmos, ou seja, do Universo, quem se põe a cogitar (oxalá que após leituras de Carl Sagan e outros autores não menos estimulantes) nas origens do mundo e da vida. Precisa, porém, de elevar o pensamento para além do que o rodeia, não se detendo em meras aparências, e gostando de astronomia, assim como quem sobe de noite ao telhado mais alto e se demora, ali no escuro, disparando para o céu polvilhado de estrelas as suas interrogações e espantos. Decerto perceberá então que a vida, toda a vida, está contida naquela abóbada fantástica.
A ela pertence o sistema solar que integra o planeta Terra, com a natureza envolvente em cujo seio nasceu a humanidade. Afinal, tudo existe na abóbada celeste, onde tudo é tempo e espaço, isto é, matéria diversamente organizada e porventura transformável mas sempre indestrutível. Sagan o disse em síntese feliz: «somos feitos da matéria das estrelas».
Viver neste planeta sem percepcionar a infinitude sideral, portanto de olhos cegos para a verdadeira luz, como toupeiras no interior dos túneis que escavam, reduz a dimensão humana à sua mais ínfima condição. Rebaixa-a hoje para além do razoável, permitindo a sobrevivência de fenómenos sociais como superstições e crendices vetustas enraizadas no íntimo de gente parada no tempo. Mas a ciência é e torna a ser peremptória: a hipótese de Deus criador não tem mais Céu para reinar...
A ela pertence o sistema solar que integra o planeta Terra, com a natureza envolvente em cujo seio nasceu a humanidade. Afinal, tudo existe na abóbada celeste, onde tudo é tempo e espaço, isto é, matéria diversamente organizada e porventura transformável mas sempre indestrutível. Sagan o disse em síntese feliz: «somos feitos da matéria das estrelas».
Viver neste planeta sem percepcionar a infinitude sideral, portanto de olhos cegos para a verdadeira luz, como toupeiras no interior dos túneis que escavam, reduz a dimensão humana à sua mais ínfima condição. Rebaixa-a hoje para além do razoável, permitindo a sobrevivência de fenómenos sociais como superstições e crendices vetustas enraizadas no íntimo de gente parada no tempo. Mas a ciência é e torna a ser peremptória: a hipótese de Deus criador não tem mais Céu para reinar...
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Krause, pensador com ideias
Estou pronto para as surpresas - que sejam boas, evidentemente -, como eterna criança a sonhar com berlindes coloridos. Ou com as contas de vidro do jogo de Herman Hesse. E eis que uma nova surpresa me chega em página recém-publicada com artigo onde leio diversas alusões interessantes a um autor: o alemão Carl Christian Friedrich Krause (1781-1832).O artigo, de Angel Serafín Porto Ucha, da Universidade de Santiago de Compostela, foca Bernardino Machado e a Institución Libre de Enseñanza no quadro das influências das ideias de Krause nas políticas do ensino na Galiza e em Portugal. Todavia, depressa pude concluir que o interesse pelo conhecimento das ideias de Krause para o nosso tempo, isto é, a sua potencial atualidade, ia além daquela abordagem. Foi preciso sair à descoberta do homem para perceber os primeiros elementos e sentidos da obra.
Na verdade, o horizonte das formulações daquele pensador é vasto, universal. Não se restringem às questões da pedagogia e do ensino em discussão desde o século XIX, ainda que, de facto, pelo que vejo, tenha sido essa a abordagem principal de galegos e portugueses (Giner de los Ríos, Rogério Fernandes e outros) avançada ao longo dos anos. Na Península Ibérica, as suas ideias e propostas espelharam uma forma moderada de liberalismo, tendo irradiado também para a Argentina, Brasil, etc..
Pensador idealista, Krause estudou Filosofia com Schelling, Hegel e Fichte, e pretendeu continuar Kant. Rejeitou a teoria do Estado absolutista para considerar a valia das associações livres que, na sua ideia, serviam uma finalidade universal - a família, a nação - pois a humanidade se compõe de seres que se influenciam reciprocamente. Com esta perspectiva, os períodos históricos surgiam como fases sucessivas de uma ascensão para Deus, que culminaria numa humanidade racional.
Como filósofo da identidade, Krause tentou uma combinação do teísmo com o panteísmo (fórmula: pan-en-teísmo). Defendeu que o próprio mundo natural e a humanidade, sua mais elevada componente, constituem um todo orgânico capaz de se desenvolver e progredir pela formação de unidades sociais maiores. Para ele, a sociedade ideal resultaria pela ampliação do funcionamento do princípio do homem individual para abranger pequenos grupos de homens e depois, finalmente, a humanidade como um todo.
À afirmação emblemática de Krause e do próprio «krausismo» - a união da humanidade - não seria estranha a maçonaria, à qual o pensador aderiu em 1805, após três anos a ensinar Filosofia. Todavia, os seus livros (1803, Fundamentos do Direito Natural; 1804, Esboço dos Sistemas da Filosofia; 1810, Sistemas de Doutrina Moral) não mereceram aplausos francos dos maçónicos. A sua rejeição do Estado (e da dialéctica hegeliana) ia contra a corrente predominante, embora hoje possa aproximar-se de uma concepção anarquista.
Por algum motivo, o professor nascido em Eisenberg, Turíngia, e vitimado por apoplexia em Munique, dedicou-se à produção aforística. Uma sua obra do género foi vertida para Português. Autor: Karl Krause; título, O Apocalipse Estável - Aforismos; seleção, tradução e posfácio de António Sousa Ribeiro; edição, Apaginas tantas [Errata: ver, p. f., Comentários].
Noto que o Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho promoveu em Braga, em 1998, um colóquio «O krausismo na Península Ibérica», cujas atas foram publicadas integrando texto de Acílio da Silva Estanqueiro, «Pensar Krause hoje, ou pensar radicalmente a humanidade». Outras fontes de informação usual são utilizáveis. Estamos, lembre-se, no tempo em que muitos Estados ocidentais decretam a extinção do «Estado social» depois de se endividarem até mais não poderem (sugando ao máximo os contribuintes), e as oligarquias pequenas, grandes e gigantescas reclamarem «menos Estado», isto é, o seu fim.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




