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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Direito de autor sofre

O conhecimento e o debate aberto das questões relacionadas com o direito dos autores continuam ainda a ser entre nós frouxas, incipientes. Entre nós, quero dizer, os autores literários e os nossos leitores. Nesta situação, quase me persuadi, por vezes, de que tanto para nós como para quem nos lê, as questões do copyright seguem a regra natural: são toleradas quando contemplam autores e obras afamadas e, nos casos restantes, são nulas por serem injustas e discutíveis se não as vemos cair do céu como chuvas benfazejas.
Ora eu pertenço à esmagadora maioria dos autores que não aparecem na ribalta, iluminados pelos luzimentos da fama. Mas declaro aqui o meu (des)interesse: o que sobretudo me importa desde sempre é poder escrever em liberdade e também em liberdade ser lido. Mas nem um autor nada famoso como eu, que prefere estar no seu lugar pequenino para que possa mantê-lo limpo, está com as suas obras protegidas contra abusos e atropelos.
Descobri recentemente que tinha um livro integrado na biblioteca Google! Livro, portanto, digitalizado. Com que direito e apropriação autorizada por quem (pois o autor não foi tido nem achado para nada)?
É Biografia Fantástica, caderninho 12 x 17 cm, de 53 páginas, edição do autor, impresso em 1960, em Aveiro. Foi, por sinal, a primeira obra que assinei com este meu nome. No entanto, a minha estreia é anterior, de 1955: dois cadernos de poemas publicados em Coimbra por “Arsénio de Bustos”.
Que forças misteriosas terão agido na sombra para pegarem na minha esquecidíssima estreia em prosa, da qual saíram apenas 250 exemplares? Tentei averiguar e apurei que o caderninho esteve presente na biblioteca da Universidade de Wisconsin, Estados Unidos, onde foi digitalizado. Depois aconteceu o que todos sabemos: a biblioteca mundial Google foi criada com os espólios de uma quantidade de bibliotecas, fundos editoriais e arquivos… e lá foi a “Biografia Fantástica”.
O autor declara, para todos os efeitos morais, que é inocente de todas estas tropelias embora reconheça que tudo isso é verdadeiramente fantástico. Quem disser que existem direitos dos autores reais e efectivos está longe deste mundo. Mas quem quiser poderá ir a books.google.books e conseguir ler o caderninho (para minha vergonha) cheio de falhas e descuidos de revisão, que escrevi com nervos e raiva contra a pasmaceira dos domingos ocos daquele tempo.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Abre hoje na sede da ONU, em Nova Iorque, a reunião de 120 líderes mundiais (Barack Obama e outros;  sem Angela Merkel e Xi Jinping) para debater o grave problema planetário das alterações climáticas. Objectivo: reforçar as bases possíveis para a assinatura do protocolo internacional a assinar em Paris no fim de 2015 sobre as emissões de carbono para a atmosfera.

sábado, 2 de março de 2013

Cheira a Primavera Árabe


Sopradas do Ocidente para o Oriente, as brisas da primavera árabe começaram a correr sobre os povos mouros e árabes. Tocaram na Tunísia há uns dois anos, mas já vinham de trás. A valer, ainda sem nome, iniciou-se com a invasão e guerra do Iraque, onde o cheiro do seu rico petróleo pôs à vista aquela acumulação perigosíssima de armas de destruição maciça afinal inexistentes.
A Primavera Árabe, com maiúsculas, ganhou todo o seu esplendor na Líbia, país dos mais prósperos e desenvolvidos da região graças aos seus recursos naturais. Não tardou, porém, a cobrir-se de invernia logo que Kaddafi, ditador pintado de horrores negros como o belzebu, teve fim justiceiro como Saddam Hussein, o outro negregado ditador caído nas mãos dos seus gloriosos vencedores.
Não precisamos hoje de esperar mais para avaliar, em rápida vista panorâmica, os frutos gerados pelas brisas primaveris. Sem Hussein, os iraquianos antes pacificados continuam a digladiar-se na fogueira ateada dos seus problemas intestinos: xiitas, sunitas e curdos matam-se e destroem-se em guerra civil com armas que nunca lhes faltam. Sem Kaddafi, os líbios retalham o país no entrechoque de três partidos opostos, qual deles o mais radical. 
A Tunísia continua também longe da paz. Desde que o regime malvado tombou, correntes religiosas e facções políticas contrapostas fazem reinar a violência, a destruição e a morte: o povo tunisino quer paz e dança no barulho instalado sem encontrar porta de saída. A sul, no antigo Sudão, Darfur, independente em 2011 (rico-pobre de energias fósseis), negros muçulmanos conflituam com árabes e não árabes, enquanto no Mali tropas francesas... 
E a Somália, e... Adiante. Mubarak, o faraó aliado de Israel, tremeu até cair mas as concentrações nas praças continuaram imparáveis porque polícias e militares apoiam o novo poder (teocrático, da sharia), não o povo egípcio. Entretanto, na Síria, uma guerra civil desencadeada por rebeldes armados destroem a República para destruir al-Assad (e dar o poder à jihad = guerra santa?) com pleno apoio da imprensa e de governos adeptos da verdade única. De repente um relâmpago ilumina a noite da memória e o quadro ganha sentido. 
O fundamentalismo islâmico, com ou sem rótulo taliban, espalha-se por países árabes, do magrebe e do continente africano. Saiu do colo das tropas americanas no Afeganistão, depois emigrou (massacres na Argélia, etc.) para onde, por coincidência, reservas de energias estratégicas pediam que era preciso dividir para reinar. O “perigo terrorista” tornou-se tão necessário como foi outrora o “perigo comunista”, mas o pior é haver tantos cidadãos incapazes de perceber o que se passa realmente no mundo e já barulha à sua porta.

domingo, 6 de maio de 2012

Net sob vigilância

Quem manda nos poderes do mundo não desarma. Os ataques continuam a ser lançados porquanto umas ilhotas de liberdade que resistem no espaço cibernético incomodam demais a gente que pretende nivelar tudo por baixo. Depois de SOPA e de ACT, que energicamente soubemos rejeitar, temos agora CISPA (Cyber Intelligence Sharing and Protection Act) a ameaçar de controlo a Internet.
Esta nova ofensiva contra a liberdade de expressão, esteio fundamental da democracia, foi aprovada pela Câmara dos Representantes norte-americana por 248 votos a favor e 168 contra.  O CISPA será usado, alegadamente (acrescenta a notícia), «em caso de possível ameaça informática», ficando esta «possível ameaça», para já, a pairar como a maior ameaça da Net que queremos autenticamente livre. O Governo português nestas coisas é zeloso e não perdeu tempo, aderiu logo.
Sobram, porém, motivos de preocupação. O novo projecto da partilha de informações privadas dos cibernautas por uma «inteligência» planetária, facilitada pelos governos aderentes, entrega aos Estados Unidos o pouco que lhe faltará para ter em posse o domínio efetivo das informações da população pouco menos que mundial. Promete agir em nome da «segurança» e da «proteção» não esclarecendo de que segurança e proteção se trata.
A preocupação avulta até porque o anúncio do CISPA coincidiu com a detenção, pela PSP, por «manifestação ilegal», de alguém que distribuía um papel informativo à porta de um centro de emprego e, em França, de um cientista parece que franco-argelino porque, veja-se isto, escreveu umas «ameaças» num mail. Assinalavámos então o Dia Mundial da Liberdade da Imprensa. E o site da Avaaz, organização consagrada à defesa de causas internacionais justas e humanas, apareceu a queixar-se de um ataque, notando que, pelo seu tamanho, «seria possível só de entidade governamental ou grande corporação».
Vai a onda imperial, finalmente, alagar o planeta e submergir a variedade imensa das ideias e opiniões em confronto vivo da humanidade plural? Ao serviço de quê? Tem a palavra, em primeiro lugar, os cibernautas.

sábado, 10 de março de 2012

O Estado e a crise

Com menos Estado há menos empregos, menos PIB, tribunais e justiça, inclusivamente fiscal, menos cuidados hospitalares e segurança nas ruas. Há menos ensino público, transportes populares, fiscalização e proteção do consumidor. Haverá até, naturalmente, menos contravenções de trânsito e menor permeabilidade das fronteiras para drogas ilegais, além de menos corrupção geral. 
Um Estado forte serve capazmente os seus cidadãos. Não se vê um defensor coerente da Democracia e do desenvolvimento social a exigir menos Estado. Isso é a marca de uma política de direita, alinhada com a defesa dos interesses da classe dominante instalada nos lucros gordos da atividade bancária.
Erguer como bandeira de qualquer programa político o corte de umas pretensas «gorduras» do Estado esconde a intenção de atentar contra os direitos conquistados ou os interesses essenciais da maioria da população nacional. Tal intenção é marcadamente de direita, pois serve uma minoria à custa da maioria. É uma política com simples máscara democrática.
Um Estado forte garante a solidez das instituições, a estabilidade social, o desenvolvimento coletivo. Tem vontade e forças para agir corretamente, com rigor e ética, no plano das relações internacionais que a nação mantenha. E garante a defesa da melhor soberania ainda que a nação atravesse um período de dificuldades económico-políticas.
A fonte legítima da soberania do Estado é, como bem se sabe, o seu povo - o povo que, por definição, forma a grande maioria da população eleitoral. Nesta base, o Estado organizado assume de raiz uma natureza democrática. Ora, na complexidade do tempo presente, quando já nem se discute a natureza de classe (burguesa) do Estado, torna-se imperativo declarar e perceber com clareza máxima que os Estados (sem soberania porque têm dívidas «soberanas»!) foram ou estão sendo tomados de assalto pelas mais poderosas oligarquias conjugadas no projeto da globalização.
Na presente conjuntura, defender o Estado contra o ataque da usura gananciosa lançado pela especulação financeira internacional é dever de todo o cidadão avisado e consciente. Não há outra forma, eminentemente democrática, de evitar a ruína (e a extinção?) das classes médias - a grande maioria eleitoral - e escapar à conhecida e sofrida espiral dos défices crónicos, endividamentos, programas de «ajuda»,  austeridade e recessão, enfim, de todo o ciclo do empobrecimento. Em suma: ou as classes médias conseguem evitar o colapso do «seu» Estado ou se afundam com ele.
É preciso notar que estamos a ser arrebatados por um imperialismo financeiro global que subjuga os Estados para, através deles, espoliar as massas populares. À frente aparece, na União Europeia, o novo Tratado que institui o MEE e outros dispositivos. Tudo se prepara para liquidar a soberania que as nações mais enfraquecidas ainda detenham e estender o drama da Grécia às restantes... caso as massas populares europeias prefiram discutir o sexo dos anjos tendo o inimigo à porta.
No plano do debate das ideias ou em disputa eleitoral, somente uma política radicalmente de esquerda conseguirá opor resistência coerente e eficaz a tal golpe. Porém, não parece admissível que as massas eleitorais, afundadas em apatia induzida, se virem para a esquerda digna do nome reconhecendo embora que essa esquerda jamais se sentou nas cadeiras do poder. Irão, por isso, votar como sempre?! 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O fim da picada

As nações pertencentes ao conjunto do designado mundo ocidental enfrentam hoje desafios e dificuldades verdadeiramente insuperáveis. Porém, os seus governos entretêm-se no dia a dia a iludir os problemas ou a adiar as soluções convenientes, correndo para diante sem ver o caminho. Avançam contentes uns com os outros e assim nos fazem chegar, através do mato, ao fim da picada.
Entretanto, debatendo-se na crise das crises, os povos permanecem alheados, na persuasão tonta de que lhes basta ir votar de vez em quando para serem bons cidadãos, pois a comunicação social posta «em boas mãos», de acordo com os governos, não iria estragar o ambiente com uns sonoros berros. Mas como pode permanecer mudo e quedo quem assiste ao brutal desabar das coisas? O mundo ocidental parece chegado a um ponto limite que lhe impõe cortes e rupturas terminantes com  políticas, governações, mentalidades e comportamentos sociais agora insuportáveis.
Estamos na nova ordem do mundo («ordem criminosa», acusam Eduardo Galeano e Jean Ziegler), extinguem-se as classes médias, baixa o nível de vida, desaparece a democracia, manda mais quem não foi eleito nem tem nome retumbante. Os Estados afundam-se em paralisias económicas, recessões e programas de austeridade, défices crónicos, empréstimos impagáveis. A governação perde transparência, desviada para além de cortinas espessas, deixando à vista muita política degradada como espetáculo.
A própria governança deixou-se contaminar por algo mafioso, suspeito ou clandestino, à margem das leis que a governança soube produzir. A União Europeia, com a sua moeda, vacila e ameaça ruir, a extração do petróleo e do gás natural declina, encarece a energia,  os recursos planetários não renováveis mostram quão finitos são, tudo parece chegar a um extremo que é o momento das rupturas decisivas. As economias abrandam e estagnam, extingue-se a ilusão do crescimento contínuo (os Estados regressam ao nacionalismo e fecham-se, procurando a autossuficiência tal como as regiões e as famílias).
Mas de pé está a economia de guerra e o crescimento da especulação financeira, a repressão e os negócios da vigilância extensiva (a espionagem maciça) exercida por empresas de «segurança». Fica claro também que a dita «globalização» foi promovida por fundações como a Rockefeller, Carnegie ou Ford, por isso acusadas de espalhar, com o seu muito dinheiro, uma «influência corrosiva na sociedade democrática». E fica o Pentágono apontado para a Ásia, gastando em «defesa» mais do que, juntas, as dez nações que se seguem nessas despesas.
Na verdade, os States tornam-se numa «ditadura democrática» e mesmo, para um crítico interno, «um Estado totalitário militar com trajo civil». O imperialismo sonha vir a ter o mundo todo nos seus braços para o digerir. Irá querê-lo aliviado de uma boa parte dos seus sete mil milhões de habitantes? [Imagem: autor, Erik Joahnsson; clique para ampliar.]

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O que é a política, hoje

Poucos eleitores das maiorias que confiam a governação nacional aos partidos que se revezam no poder têm uma compreensão suficiente do processo político. Menos ainda serão os que possuem uma consciência mínima da importância de questões como o debate e aprovação de um orçamento nacional para o futuro imediato do país. A percepção da coisa política, como causa de máxima relevância pública, anda, por este caminho, a empanar-se e a embrulhar-se perante as massas eleitorais.
Em suma, a governação nacional e toda a ação política tem vindo a revestir-se de complexidades insuperáveis para o nível cultural da inteligência comum. Os profissionais da política estabelecem áreas temáticas «protegidas» ou mesmo sonegadas e dispensam-se de prestar esclarecimentos para além da defesa constante dos seus interesses estratégicos. A informação posta a circular através dos media tende assim a ampliar mais e mais um alheamento generalizado da participação cidadã que se traduz em passividade e conformismo.
Nestas circunstâncias, a aquisição de um modesto conhecimento da coisa política (nacional e, naturalmente, também internacional) fica a dever-se ao empenho de cada indivíduo concreto, que vai longe beber em fontes diversas em busca de iluminação. De facto, é de longe que vêm elaboradas as principais políticas que os governos, levados pela onda mais alta que lhes apareça a jeito, se limitam a aplicar. A governação, realmente, faz como vê fazer «lá fora», justificando-se «cá dentro», no papel de relações públicas, com argumentos escassamente originais.
O governo da própria economia, alicerce do desenvolvimento nacional, segue na esteira de outros governos também pressurosos na adopção da última reforma. Os economistas do sistema abrem alas e entoam hinos: é o avanço da globalização, viva o neoliberalismo! A complexidade do ditar a política não está, pois, na governação - que segue comportamentos correntes bastante estereotipados,  e por isso governação tecnocrática, tratando mais de negócios barrigudos que de causas sociais.
Essa complexidade, bem real, esconde-se algures, em clubes de senhores poderosos e sem rosto, que ninguém elegeu mas que ditam os comportamentos da dita globalização. Terão sido tais senhores quem decidiu que os banqueiros saberiam governar melhor o sistema financeiro do que os governos? Terão sugerido, sorrindo à socapa, a criação do euro na União Europeia que desgraça agora tantos povos? [Imagem: autor, Pawel Kuczynski (n. 1976, Polónia.]

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Uma nova Idade Média

Estou a escrever um conto fantástico. Será o último e será tão realista que o seu realismo vai parecer uma fábula fantástica, cheia de boa moralidade para edificação dos povos ocidentais. À entrada do século XXI, anuncia o advento de uma nova Idade Média.
O nosso século virado para o negrume medieval das trevas ignaras? Este século das proezas tecnológicas, dos esplendores da civilização, das liberdades democráticas, dos direitos do homem e da criança, das maravilhas infinitas? Vejamos então: se a realidade se torna pesadelo, a ficção toma-lhe o lugar.
Conta a história como a gente se convenceu a trabalhar mais, a produzir mais e a ganhar menos sob imenso stress. Conta como isso contribuiu, apesar de tudo, para se consumir mais e como a gente foi acusada de viver acima das suas possibilidades. Sem esquecer como os défices apareceram nas contas públicas  e serviram para justificar impostos mais pesados, sucessivos abaixamentos dos níveis de vida, e tudo por aí adiante.
De facto, a história é inacreditável, espantosa. Os patrões barafustavam, achando elevados os salários e os encargos sociais, e continuaram a deslocalizar as suas fábricas e postos de trabalho para longe, onde a mão de obra era descomplicada e baratinha. No seu sítio ficaram as produções ainda lucrativas, mas a sobreprodução desses bens estragou o mercado e o desemprego alastrou.
Os patrões garantiam que o Mercado, como um deus no céu, sabia controlar-se sozinho sem  regulação nenhuma e exigiam menos Estado e melhor Estado para responder à crise. Todavia, o «melhor» era, naturalmente, aquele que o respetivo governo lhes punha ao colo a pingar lucros, deixando para a gente sofrer a Austeridade, ideia de consequências perigosas conforme explica Mark Blyth. Entretanto, nações antes exportadoras tornaram-se importadoras e passaram a gastar dinheiro que antes ganhavam, os défices cresceram e as coisas complicaram-se.
De repente, um tsunami gigantesco surgiu e levou tudo de roldão. Com a falência dos bancos, o sistema financeiro deixou à vista, no seu interior, mais buracos do que pode ter uma torre de térmitas num escaldante deserto. Foi então o momento de a gente perder o sono e entrar em pânico.
As riquezas dos Estados sumiam-se debaixo de montes de dívidas em acumulação, os bancos descapitalizados estendiam a mão aflita para os Estados lhes valerem e a gente pasmada, a perguntar como criancinhas ingénuas onde iam esconder-se todas as nossas perdidas riquezas. Afinal, a gente só tinha de compreender que havia chegado o regime da Debitocracia, ou seja, a autoridade suprema do débito a ser cobrado. Imposto pelo FMI ou o Banco Mundial, em nome da alta finança especulativa, faz tombar as nações, uma a uma, como peças de dominó, e mostra que é ele o poder efetivo que governa o mundo.
Lança a garra ao que tem mais valor - o ouro, as propriedades, os bens raros - atirando a gente para o desamparo, o desemprego e a desvalia social.  Nações inteiras, saqueadas, não interessam aos senhores da Debitocracia depois de lhes tomarem posse dos rios, das estradas e das praças, condenando extensas massas humanas à proletarização.  E porque mais não digo, dou a palavra ao analista financeiro Max Keiser: afirma que o FMI, com o BCE atrelado, coloca em risco a União Europeia e o euro, visionando no horizonte um regresso do feudalismo.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Eis a Nova Ordem Mundial

Esta mão errou ao escrever aqui. Há três anos aspirou por um governo mundial para governar o mundo sem perceber que o mundo  mergulhado em crise já estava servido. E agora, reconhecendo o erro porque consegue ver mais claro, vem corrigir o dito: está a funcionar plenamente uma Nova Ordem Mundial, o verdadeiro rosto do imperialismo.
É o nome de guerra da globalização, desenvolvida com destreza implacável por banksters  do cartel financeiro internacional (os tais das manigâncias impunes) e aplicada contra o euro, agora que o dólar se desfaz em oceanos  diluvianos de papel seco. A ofensiva foi lançada sob a bandeira da luta contra o défice que,  muito convenientemente, surgia nos orçamentos nacionais. Pretexto magnífico: o défice foi cavalo de tróia que entrou pela porta franca dos governos colaboracionistas para se apoderar por dentro, a pouco e pouco, dos Estados.
Serviu para aumentar os impostos, reduzir os encargos sociais, vender ao capital privado património público apetitoso, agravar o desemprego, elevar a inflação, beneficiar os lucros dos bancos, baixar o nível médio de vida, ampliar as desigualdades. Quando o equilíbrio orçamental ia de mal a pior e os Estados entraram em recessão, isto é, quando se fazia notória a necessidade de se mudar de política (da direita), a recessão levou os governos a descobrir que... dinheiro é dívida. Pedir empréstimos, a juros cada vez mais onerosos, transformou-se num jogo aberrante e as dívidas, monstruosas, foram declaradas incobráveis. Mas os banqueiros engordavam e queriam mais e mais.
O consumismo desatado serviu às classes médias para comprar casas, carros, viagens a crédito e agora a austeridade deixa tudo a nu: as famílias, as empresas, os bancos, os  municípios e os Estados encontram-se atolados em dívidas que não veem como podem pagar. Mas agora percebe-se o logro: é a Nova Ordem Mundial a comandar com  o seu  brutal «casino» financeiro. Nem a Islândia, aplicando políticas corretas após a bancarrota (e por isso banida dos media nacionais e internacionais), conseguirá talvez escapar-lhes.
As riquezas dos países ocidentais estão a ser desviadas em caudal para mãos sem rosto escondidas em parte incerta, através da simples troca dos nossos bens e privilégios  autênticos por papéis, rimas e mais rimas de títulos afinal sem valor. Quem duvida, arranje 14 minutos e veja este video no Youtube. Alguém torna a avisar-nos: povos e Estados em sucessão (Irlanda, Grécia, Portugal, Espanha...) enfrentam montanhas de dívidas em crescimento, a pagar pelas presentes e próximas gerações.
É absolutamente crucial perceber, neste tempo de combates mortais entre grandes ditaduras, que  temos de conhecer sem mais demora como funciona o sistema bancário global, ainda que isso possa motivar uma revolução (glosa de frase célebre atribuída a Henry Ford). A aliança objetiva da zona euro com o dólar não parece garantir à moeda única europeia o melhor futuro nesta conjuntura em que se torna vital afiançar um sistema monetário seguro e credível. De contrário, como diz o outro, o nosso dinheiro, na carteira ou no banco, será uma ilusão temporária... [Ilustração: réplica de "O grito", de Munch; quadro executado com vegetais (batata doce), de autor desconhecido.]

sábado, 8 de março de 2008

Governo planetário, já!

A globalização (não a introduzida pela Internet, sim a imposta por interesses e estratégias do comércio e da livre circulação dos capitais) tem espalhado batalhões de braços em riste a bater-lhe palmas. Então, se assim é, vejamos o mundo assim globalizado. Notemos os seus problemas mais instantes e agudos.
A conservação do ambiente natural e da biodiversidade, isto é, o controlo mundial dos gases nocivos, não tem correctivo. A degradação já se torna irreversível.
A paz planetária continua ameaçada mais e mais pela difusão de bombas nucleares, pela militarização do espaço (a «guerra das estrelas») e pelas mobilizações imperialistas dos polos.
E não se vê de onde virá um governo efectivo, ou um colectivo de governos unificados, em condições de dar resposta suficiente aos problemas globalizados.
Todavia, são estes problemas planetários que mais afectam a população planetária. Podem fazer estoirar a Terra. Seria bom que deles falassem quantos falam de globalização com aplausos de braços em riste, em vez de aplaudirem o predomínio das estratégias do comércio e das finanças internacionais. São estas forças (não eleitas, não democráticas, sem rosto) que sufocam, numa pilhagem crescente, o mundo. Fazem-nos sentir ao vivo a falência completa dos governos principais e a necessidade premente de se trabalhar pela formação de um autêntico e eficaz governo planetário. Para que governe o planeta de olhos abertos e mereça os impostos que pagamos…


As descobertas permitidas pelos estudos iniciados em torno das chamadas fontes hidrotermais submarinas, situadas a profundidades por fim acessíveis, obrigam pelotões de cientistas a rever conjuntos de ideias até agora assentes sobre a origem e evolução dos organismos vivos. Admite-se que estará ali, nas profundezas oceânicas, por sinal em ambiente de altíssima pressão, sem oxigénio, sem luz do sol e maximamente tóxico, a matriz primigénia autêntica dos seres conhecidos da natureza. Reacende-se, assim, um debate científico dos mais estimulantes que irá manter-se, quero crer, por muito tempo.
Os astrónomos, que tacteiam as funduras do Universo sondando todas as manifestações de vida, ficam também na necessidade de reavaliar ideias tidas como assentes. Os «modelos» que condicionavam o aparecimento e a evolução dos organismos em determinadas condições naturais preexistentes estão assim a alargar-se, porventura a dissolver-se um pouco e a reajustar-se. Por isso ganha cada vez mais consistência a hipótese de que, quando pensamos a matéria (orgânica ou inorgânica), estamos a pensá-la apenas num certo estado. Ora a matéria, sendo transformável, não é destrutível. Em si mesma contém, indissoluvelmente, espaço e tempo – as duas dimensões fundamentais. Matéria-espaço-tempo é, revelada, a forma absoluta de todas as formas possíveis da génese. E vêm à baila os «buracos negros» no centro das galáxias, os neutrinos…
Enfim, dai-me matéria e dar-me-eis tudo – espaço, tempo e vida em evolução.