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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A destruição dos Estados

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, assim começa um dos mais lembrados sonetos de Camões. Mas o tempo é imutável, corre sempre num fluir insensível e completamente alheio às volições humanas. As vontades, sim, mudam momento a momento nas fogueiras dos nervos e das paixões.
O que o verso camoniano enuncia poeticamente é, pois, um tempo mudado pelas vontades colectivas. Logo, os tempos mudam por mudança das vontades humanas, sendo estas que atribuem a “cor” (quente ou fria, belicosa ou quieta) à situação de uma paisagem social. Compreende-se, portanto, que esta nova época histórica emerge em resultado de mudanças tão vastas e profundas a ocorrer no interior da sociedade que marcam este tempo como um “tempo novo”.
Na verdade, um novo período histórico até pode trazer e restaurar um tempo antigo, por exemplo, com algo de escravatura ou de feudalismo. Isto, evidentemente, não de forma plena assumida, antes em restauros parciais do que no essencial interesse à oligarquia dominante. O tempo presente demonstra-o com dramática clareza.
O povo, cada povo, parece esquecido de que, em última análise, corporiza “o Estado” com a sua história, língua e cultura, no território de que detém efectiva soberania. Assiste, desde há anos, em completa passividade, a uma destruição audaciosa programada. O Estado, que é o próprio povo, vai desaparecendo, derrubado pouco a pouco, bocado após bocado.
As funções normais do Estado, que garantem a soberania nacional e a segurança geral da população, além de outras funções, entram em grave crise. A maioria da população sofre com a degradação das suas condições de vida enquanto uma minoria prospera e enriquece, extremando a desigualdade social. Desemprego elevado, empregos precários e salários reduzidos abrem o caminho para a oligarquia no poder do Estado avançar.
Outorga privilégios e mais privilégios às grandes empresas privadas, bancos incluídos, nacionais e internacionais, protegendo-as de reveses e prejuízos. As grandes empresas agem, com os seus trabalhadores e os seus clientes, como estados dentro do Estado. E generaliza-se a corrupção nas instituições e nas entidades.
Por este nefasto caminho de mudanças, o Estado, acompanhado pelas empresas (com gestores formados nas escolas do neoliberalismo retinto), e auto-aniquilado, estabelece sobre o povo domesticado um novo tipo de relação. Vigiando-o por todos os lados e controlando-o pela cobardia do medo, não o pretende mais, nem na aparência, como conjunto cidadão sujeito às regras “democráticas”, apenas como contribuinte, produtor e consumidor. Mas atinge algo mais fundo: instaura o feudalismo e alguma escravidão, com insofrível aviltamento da condição humana.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Uma ignorância (in)feliz

Agora que o aquecimento global já acumula consequências ecológicas irreversíveis e os críticos do facto científico abandonam o combate tendo cumprido o seu papel ao distrair o mais que puderam as atenções, está o planeta a ser invadido por um arrefecimento não menos catastrófico. É um arrefecimento que podemos representar em cor azul, caso vejamos o aquecimento em cor vermelha. Mas esta outra mudança de temperatura não é de ordem da física; é mental, cultural, ideológica, política.
Todavia, é tão vasta, arrasadora e tremenda que está a alterar dramaticamente a existência quotidiana de povos de nações e continentes inteiros, a atentar contra as regras de coexistência entre as nações e a colocar sob ameaça crescente a paz e a segurança do mundo. Só uma mudança planetária tão radical poderia espalhar um esfriamento das mentalidades assim tão violento que impõe à História a transição para uma “outra” época. Os portugueses que iam nos vinte anos no 25 de Abril (1974) e sentem na pele os sacrifícios impostos pela “crise” percebem a mudança: o povo antes participativo e reivindicativo, alegre e solidário, de esquerda democrática, agora anda frouxo, ensimesmado, individualista, apolítico, interessado sobretudo em futebol, telenovelas e fados.
O tecido das relações humanas gerais deixa à vista a dimensão das transformações havidas em quarenta anos. O panorama social que este rectângulo ibérico então ofereceu passou de vermelho para azul - esfriou. E, no continente europeu, ou à volta, mais longe, onde aparece hoje um governo com políticas que não sejam de direita?
A indiferença pelo exercício dos direitos e deveres da cidadania estabeleceu-se como regra comum; o bem colectivo tornou-se abstracto; os governantes aproveitam-se e, em vez de cuidarem dos interesses legítimos de quantos os elegem, apoiam as grandes empresas privadas, bancos incluídos, agravando a pobreza e as desigualdades. Assuntos correntes da maior relevância ou significado, como a “censura” (ilegal) aplicada pela direcção do ISCTE ao último nº da revista “Análise Social” e ao seu director por causa de um artigo de teor político “abusador”, ou como a discussão, no Conselho Europeu, do TTIP, que propõe um acordo comercial entre a EU e os EUA e que vai anular completamente a soberania nacional a favor das empresas exportadoras, quase nem despertam atenções.
Um sinal de toda esta transformação, soprada de algures sobre os povos em transe, esteve diante de mim: uma linda rapariga com 23 anos e casamento à vista, licenciada a trabalhar a recibos verdes, conversou comigo. Quis convencer-me da sua ideia: que o “não saber é o seu caminho para ser feliz”. E não a convenci, ninguém a convence, de que, por tal caminho ela se condena a ser uma (in)feliz ignorante. [Foto do certame Amdan, 2014; autor não indicado.]

quarta-feira, 19 de março de 2014

Pensamento débil

Os nossos tempos não vão favoráveis à afirmação vigorosa do pensamento. Criações mentais desejavelmente inovadoras parecem recostar-se numa passividade acomodada ou numa conformação indiferente ao que de renovador mais importaria. O panorama como que adormece numa espécie de estagnação pantanosa ou mesmo numa real decadência.
Onde pode o observador encontrar hoje um sinal de rasgada afirmação? Percorre os diversos sectores da criatividade intelectual e o que se lhe depara? A mentalidade tecnocrática, dedicada ao serviço das empresas, sufocou a cultura humanista obliterando a relação de cada pessoa com a espécie integrada na natureza, nosso berço.
Ia prosseguir, desenrolando o fio do meu discurso, mas, neste ponto, parei a escrita. Caiu-me o olhar numa frase em crónica de Vasco Pulido Valente que parecia exprimir a ideia que começava a enunciar. A frase: “A autoridade da ‘inteligência’ desapareceu.”
Mas, então, de onde emana a autoridade que continua a exercer-se nos variados planos da vida social se a autoridade da “inteligência” desapareceu? Se o regime republicano e o sistema democrático continuam vigentes, incluído o sistema da justiça, que processo terá conseguido descartar a preclara “inteligência”? Substituiu-a acaso a mediocracia eleitoral?
Não poderia eu dizê-lo melhor, com menos palavras nem com maior eloquência. Mas a brutalidade da expressão justifica-se pelo seu inegável realismo: a “inteligência” (que outrora distinguíamos como “intelligentsia”, ou escol, elite dominante) perdeu o seu lugar, autoridade, prestígio. É facto tão notório que espalha pela minoria realmente culta um calafrio visceral e um alarme.
E que espécie de autoridade será essa, declaradamente não iluminada pela “inteligência”? Decorrerá da mediocracia da mediocracia eleitoral e poderá ser ainda legitimável como “civilização”? Ou a monstruosidade contida na síntese de VPV, ao causar-nos um estremeção de profundo horror, também nos adverte do sentido de uma geral deriva política em crescente afirmação da direita (da austeridade programada, do empobrecimento do povo)?
Vejamos. Do que se trata não é, afinal, da abolição da “inteligência” da autoridade (do poder governante, da justiça). É da imposição liminar do seu inverso, ou antónimo, pois a inteligência (democrática) que nos tem governado vai sendo absorvida por uma diversa “inteligência” estratégica que se declara presente e omnipotente.
Por este caminho, quanto tempo faltará para se repetir o memorável caso dos anos ’30 do século passado? Decorria a sangrenta guerra civil espanhola, provocada pelos franquistas contra o governo republicano eleito, patamar preparatório da Segunda Grande Guerra. Quem falasse de “cultura” punha franquistas a puxar da pistola… [Imagem: “Zé Povinho com sua albarda”, pintura de Rafael Bordalo Pinheiro.]

quarta-feira, 12 de março de 2014

Costumes bárbaros

Por favor, digam-me que estou a confundir os aspectos, a exagerar as proporções. Principalmente, deixem-me ao alcance dos olhos o que negue as sombras que os vai cobrindo de tristeza. Porque, para mim, não tem dúvida nenhuma, os nossos costumes entraram em decisiva barbarização.
A barbárie estendeu-se ao ponto de banir, por inúteis, dos comportamentos sociais da “cultura geral” massificada, preceitos e exigências mínimas de convivência humana. Antigas regras e maneiras preceituadas, varridas, deram lugar às errâncias de um voluntarismo desbragado que sobreveio das lacunas de formação. Vejamos: quem se lembra hoje dos guias, manuais e compêndios de civilidade, educação e boas maneiras que “toda a gente” leu até meados do século XX?
Eram leituras básicas, obrigatórias, numa época em que o sistema escolar e o ambiente familiar impunham deveres, gestos e estilos praticamente em todas as particularidades do dia-a-dia (à mesa, caminhando na rua, convivendo, escrevendo cartas) sob pena de grave sanção. Quem era ou queria ser “civilizado” seguia orientações aplicáveis a cada situação que, sem chegarem a ser “de etiqueta”, valiam como emblemas de boa educação compartilhada. Actualmente, a delicadeza demonstrada arrisca-se a valer como sinal de fraqueza, inferioridade ou subalternização perante um outro amiúde propenso a mostrar arrogância, superioridade agressiva, vontade de vencer, como avançados que, no campo de futebol ou jogando a feijões, rematam para ganhar, nunca para saírem derrotados.
Pela idade, tenho fácil memória dessas leituras comuns no meu período juvenil e, a propósito do tema, fui pela memória conduzido até um livro dos tais, O Perfeito Cavalheiro, assinado por Sevim Akmen e traduzido por M. Osswald (pseudónimos?; 317 pp., Porto, 1949). Folheei-o um pouco para sentir como se distinguem hoje, cruamente postas preto no branco, as duas épocas que levo de vida. Larguei-o, arrependido, ouvindo outros idosos em queixas porque não aturam “isto” e não têm mais mundo para onde fugir.
A competição acesa contaminou as mentalidades e os costumes. Se, caído do céu, um cavalheiro se revela aqui ou acolá, é encarado como figura saída de museu, relíquia talvez agradável mas também ridícula. O tempo já não dá para pieguices de bom-tom, o próprio índice de civismo nos espaços públicos baixou tanto quanto subiu a indisciplina nas escolas, a conflitualidade nos meios familiares, a violência nas relações laborais, o impudor nas promessas dos políticos…
Ora não é só a crise que faz reinar a competição; é o sistema socioeconómico de base (capitalista) que desumaniza as relações sociais e as próprias pessoas. Desvaloriza os indivíduos transformando-os em meros consumidores, “máquinas” produtoras-reprodutoras, simples peças descartáveis das bases de dados ou das estatísticas. Que lugar resta para a civilização em relações sociais norteadas pela regra do “cada um por si”?

sábado, 16 de março de 2013

De dom até dono e domus


Ando a ser perseguido por umas palavras que me agoiraram o miolo. São antigas, mergulham as raízes no latim e provavelmente em outras mais antiguidades. Mas não é verdade que nas palavras se guarda a história do tempo que as fez e que, se nos dispusermos a um esforçozinho para as abrir, veremos a luz que têm lá dentro?
Comecei a empreender no vocábulo dom. Sentia-lhe, desde há tempos, uma esquisitice intrigante. Na escola primária habituei-me, como toda a gente, a vê-lo ligado a reis e outras figuras da aristocracia, depois também a bispos e cardeais e por fim, graças à democratização, a senhoras donas. No tira-teimas, lá estava abonada a semântica: donativo, dádiva, qualidade ou vocação; do lat. donu-, “oferta aos deuses” e, como título, do lat. dominus, “senhor, dono [de casa], possuidor, proprietário; chefe, soberano, árbitro, senhor (com sentido próprio e figurado)”.
Eis quanto foi preciso para ficar agarrado ao tema. O dicionário regista que “dono”, proprietário, provinha do lat. dominu- e remetia-nos para o “dom”. Ora dominiu-, domínio (propriedade, direito de propriedade; banquete solene, festim) conduzia a domina, “dona de casa, esposa, e também senhora, soberana”…
Neste ponto, tendo na mão o dom e respectivas derivações fui, inevitavelmente, até ao lat. domus (casa, morada, habitação, domicílio), que lembra a domus municipalis. Era evidente a correlação existente entre as partes deste conjunto lexical. Apontava para um facto de grande relevância histórica com especial significado.
O facto demonstra que o dom era adquirido pelos felizes, então muito raros, possuidores de bens terrenos, propriedades. Um rei, portanto, adquiria-o por possuir vastos domínios com povos, palácios e castelos. No período feudal esses domínios entraram em progressiva fragmentação (repetiam-se as doações régias), de modo que o número dos senhores “donos”, isto é, com “dom”, foi crescendo.
Mas acaso poderiam assistir a isso os grandes hierarcas da cristandade sem disputa, eles que, no esplendor das catedrais, coroavam as cabeças dos reis sagrando-os em nome da divindade? A Igreja também possuía bens terrenos (e não eram assim tão poucos), ainda que, alegadamente, o seu reino não fosse deste mundo: estaria numa transcendência. Todavia, os “príncipes da Igreja” chegaram a ser titulares de domínios celestes atribuídos pelo soberano absoluto, o papa.
É verdade, os príncipes da realeza e da cristandade, conservadores empedernidos, continuam a manter na actualidade o seu dom, ao passo que outros grandes donos do planeta o dispensam, abraçados como estão aos seus milhares de milhões ou de triliões, mas será de notar que os colonos romanos da antiga Lusitânia, sentindo-se decerto miraculados, dotavam muitas vezes as suas villae com uma capela, costume depois mantido por donos posteriores de palacete solarengo. E por aqui me detenho, sem atender a outras derivações de tão prodigioso dom. [Iluminura medieval: tocadores de sanfona.]

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Os lobos, os peixes e os homens

Tenho por perto um companheiro e excelente amigo que desde a juventude se agarra à terra que embeleza e põe a frutificar; nas horas calmas, sentando-se, lavra cada linha da página em branco para nela depositar a sua semente. A propósito de uma conversa, trouxe-me o sermão do padre António Vieira aos peixinhos:
"A primeira coisa que me desedifica, peixes, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastava um grande para muitos pequenos, mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande."
Evidentemente, António Vieira não defende nem aconselha que o homem seja o lobo do homem. Ao invés, realça que são os mais pequenos que abundam na natureza, lembrando que os grandes se alimentam deles, pois bem sabemos que milhares de pequenos são precisos para gerar um único maior. Se fosse lícito ao homem, destituído de consciência moral, dizimar outros homens, o que ensinaria o padre, que lugar teria no mundo a religião?
Vieira (1608-1697) dirige o sermão aos peixes mas a sua fábula aponta o que seria justo: que muitos pequenos comessem um grande. Bem entendido, os homens não são peixes embora possam juntar-se em cardume e empreender acções de grupo com óptimos resultados. Têm no corpo sangue quente e pulmões em vez de guelras, além de possuírem aquela singularíssima consciência do bem e do mal que serve para tudo, inclusive para crer que existe uma «natureza humana» eterna...
Quero assegurar, com toda a clareza, que os peixes não merecem de modo nenhum que os seus comportamentos gerais sejam assimilados aos dos humanos. Sabem viver correctamente, alimentar-se e reproduzir-se segundo regras integradas que o canal National Geographic expõe à admiração do mundo. No reino animal e mesmo no vegetal, a harmonia entre as espécies decorre naturalmente, como «lei» imutável, que apenas o homem, autoproclamado dono e senhor da natureza, tem o descoco de torpedear.
As ferocidades dos humanos não tem paralelo na natureza. Pretender justificar os seus desmandos com uma suposta «lei da selva» deixa os humanos sozinhos a debater as suas culpas e desmandos. Pior ainda, mostra-os incapazes de perceber as autênticas lições de vida que se contêm na natureza, basta-nos ver ali o que é elementar.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Dizemos que o rei vai nu

A opinião expressa dos portugueses mostra-se nestes dias arrumada em dois campos bem contrastados. Um recusa a «refundação do Estado» proposta pelo governo ultra-neoliberal, rejeitando com indignação e mesmo revolta as políticas de desgraça nacional; o outro campo apoia a prossecução das políticas do governo em nome de uma pretensa «estabilidade» que de estável nada tem, ou seja, apoia a continuação da crise e o aumento imparável da dívida soberana conforme a troika impõe. Entre os dois campos de opinião deve achar-se a velha «maioria silenciosa», a tal que ninguém sabe ao certo onde está porque não se manifesta.
De facto, o povo começou a aperceber-se deveras da verdadeira situação. Generaliza-se portanto a percepção de que o sistema capitalista mudou em geral e que mudou também o comportamento de governos ditos democráticos. Servem agora não os seus eleitores e sim a máxima concentração do poder financeiro, expressão de imperialismo.
Esses governantes, com o seu alegado combate ao défice e mais e mais e mais programas de austeridade (tão bons cristãos que eles são!) estão alegremente a pôr a rabiar de fome e a vasculhar nos contentores do lixo milhões de pessoas no país. Querem obrigá-las a aceitar a miséria, ou a miséria do salário mínimo nacional. Em vez de civilização, promovem a barbárie para agradar aos senhores das terras e dos céus sentados nos tronos dos seus tantos biliões e triliões - é preciso juntar forças e varrer do poder os partidos que há 35 anos o corrompem para começar uma vida nova em novo caminho.
Clamores enérgicos ressoaram por ruas, praças e avenidas a ferver de indignação, ali onde as massas populares se encontram, reconhecem e solidarizam. Os sonoros protestos do povo atroaram os ares e chamaram para a rua quem ainda dormia em casa diante do televisor. Uma interrogação salta agora: quem apoia hoje essas políticas de desgraça nacional?
Apenas os governantes, os dirigentes dos partidos coligados, alguns dos seus adeptos ferrenhos ou ceguetas e poucos mais. Aparentemente, só nesta minoria o governo encontra apoiantes (excluída a «maioria silenciosa», claro). Este cenário traz à lembrança a história do menino que aponta e diz que o rei vai nu.
Quem diz o rei diz o governo e quem diz o menino diz toda a gente capaz de soltar o grito que restabelece a verdade dos factos. Os cortesãos do rei, interesseiros, suportam-lhe as mentiras até que a gente descomprometida (e agredida) no caso grite «basta!». É esta a límpida moralidade da história... [Imagem: clique para ampliar.]

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Em nome da equidade

Basta ver o ambiente social da Índia para o sentir: a pobreza é «normal» onde a riqueza é «exceção». Portanto, são precisos muitos pobres para que haja um rico, o que não é novidade nenhuma. Muitos autores, portugueses incluídos, tem registado por escrito o facto que é realidade tão óbvia e assente que cabe na sabedoria das nações.
Todavia, no mundo de hoje, o ambiente social da Índia repete-se a esmo, por Ásia, África, América Latina... As riquezas dos povos atingem níveis de concentração tão brutais, fazendo crescer zonas de pobreza e miséria tão extensas que ameaçam a estabilidade dos continentes e mesmo do planeta. Sagaz foi quem previu, no século XX, que o imperialismo seria a fase suprema do sistema capitalista (agora em versão selvagem).
Em causa temos, assim, a equidade. A equidade que se perde e que, por isso mesmo, se impõe resgatar em nome dos valores que consideramos supremos. A equidade que é pedra de toque da justiça, da democracia, da liberdade.
De facto, como estamos a ver, uma delirante concentração da riqueza tem consequências destruidoras de tremenda violência nas sociedades. Agrava até à loucura as desigualdades (nos Estados Unidos superam hoje as de 1930, ano do crash), desigualdades que são a negação viva de tudo quanto afirma esta civilização e esta humanidade que a criou. Entrámos numa guerra implacável em que os estampidos das explosões são os programas de austeridade impostos para travar os défices dos Estados endividados.
Esta guerra ameaça varrer o mundo e fazer recuar o viver dos povos, um a um, às escuridões de outra Idade Média. Às estratégias da alta finança internacional e da ganância desmedida da sua especulação dão os governos espaços de manobra. Na União Europeia, agora com o Mecanismo Europeu de Estabilidade instalado para garantir o pleno domínio dos Estados pelas estratégias especulativas, vai o FMI continuar presente e de bandeira desfraldada.
É suposto que os recursos planetários explorados até ao limite não iriam permitir a prossecução dos modelos socioeconómicos que conhecemos e designamos como consumismo desenfreado. Um novo paradigma de vida tem que ser adoptado pelos povos. Mas não este, imposto, que quer convencer-nos a largar já aqui toda a esperança. Quem vai poder calar massas expropriadas explodindo em fúria?

terça-feira, 10 de julho de 2012

Vamos juntos


Acontece tão pouca coisa realmente nova em certos dias que um homem tem tempo para contar os botões da camisa. Se o homem está no desemprego, sobeja-lhe o tempo para refletir. As ideias correm-lhe pela cabeça, agarram-se em cachos umas às outras e o fulano, parado e a sós consigo mesmo, imagina que «o mundo pula e avança como bola colorida nos pés de uma criança»...
Enquanto esteve empregado, viu crescer o desemprego em volta. Continuou, porém, a sentir-se confortável porque o seu lugar parecia garantido, tudo ia bem. Agora percebe a ilusão que o cegava: cada pessoa que perdia o emprego era mais uma ameaça que se acrescentava ao risco da perda do seu próprio trabalho.
Acabou também no desemprego, envolvido no rol do milhão e duzentos mil, a rilhar os dentes na falta de dinheiro para a compra do indispensável. Lançado na situação desgraçada em que antes via os outros, da qual ele imaginou poder livrar-se com esperteza, obediência  e bom serviço, humildade quanto baste. Mas de nada lhe valeram os seus talentos e sacrifícios, acreditando ingenuamente que ali era necessário, considerado, serviçal.
A sua ingenuidade, afinal, foi a de tantos outros também postos na rua logo que o patrão  isso mandou, estava agora a percebê-lo. E, como eles, sempre cego, ceguinho de todo para o grave perigo em que iam ficando eles, os empregados, que viam crescer o desemprego. Agora sim, era evidente o facto: vamos juntos no mesmo barco.
Lição custosa de engolir. Porque houve ocasião e motivo forte para os empregados  manifestarem solidariedade com os despedidos, solidariedade a sério, e houve pouca ou nenhuma solidariedade. A pensar tolamente que os problemas de uns não eram, ou iam ser, os problemas de todos, quer dizer, como se os patrões os empregassem não pelo lucro que lhes davam mas pelos seus lindos olhos. 
E por este caminho chegava a outra reflexão bem pior, mais dura de trincar. O crescimento do desemprego fez baixar mais e mais os salários. Baixou-os até aos níveis da miséria e da precariedade atual. Conclusão: todos os empregados, um a um, devem unir-se sempre na defesa e na proteção do trabalho com direitos para não caírem em desgraça.

domingo, 20 de novembro de 2011

A Europa a saque


Alguém que sabia muito, ou muito pouco e por isso inventava, sugeriu um dia que as espertezas da especulação financeira haviam começado, não na América onde cresciam os ecos das fraudes bancárias e dos produtos tóxicos, mas sim na Europa da União e da moeda comum. Deu-se-lhe nenhum crédito e a voz agourenta sumiu-se. Hoje, porém, num cenário europeu diverso, faz-se lembrar.
A Europa aparece declarada em irremediável e mesmo vertiginosa decadência. Os 17 aderentes do euro, com a Alemanha e a França na frente e a Grécia na cauda, parecem apostados numa navegação em oceanos de dívidas de Estados, bancos, empresas e famílias sem terra firme à vista. Soluções propostas para a crise estrutural arriscam-se a ser meros paliativos que apenas servirão para prolongar a agonia tornando-a mais funda e penosa.
As economias nacionais em geral perdem o vigor e afundam-se em austeridade e paralisante depressão. Já não são apenas os cinco PIIGS - Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha - ou a união monetária europeia que vacilam e ameaçam ruir. Os Estados da eurolândia aparecem à vista encostados uns aos outros como peças de dominó que um a um vão caindo nas garras da ganância internacional e  arrastando consigo os seus mais próximos. Nos Estados mais pobres, esvaídos e arruinados por débitos colossais, as classes médias esbracejam e caem na base da pirâmide social sem ter com que pagar os «buracos» postos a descoberto (isto é, perdendo empregos, habitações, direitos sociais, liberdades) e sem descobrir responsáveis responsabilizáveis.
À vista aparece também a relação íntima estabelecida pelos dirigentes da eurolândia, desde a criação do euro, com os pilares da alta finança internacional sediada em Wall Street: o FMI, o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio. Nessa relação se encontra a chave-mestra para um correto entendimento da «crise»  gerada pelas políticas neoliberais, paradigma este concebido pelo imperialismo de novo formato que avança pelo mundo com apoio de governos e bancos, submetendo povos e países à especulação financeira selvagem.
As manifestações de «indignados» e «ocupas» apontam na direção certa, contra a entrega dos governos a tecnocratas não eleitos (formados na Metrópole-modelo e vindos para nos incivilizar),  a subversão das regras democráticas e o próprio fim da democracia, o espezinhar impune de direitos populares consagrados, a propaganda do medo e do «terrorismo»,  a (des)informação geral. De facto, o mercado, supra-sumo do «velho» capitalismo, foi substituído pelo poder dos «mercados» financeiros, onde atua o cavalo de tróia da oligarquia dominante que põe e dispõe de Estados e governos. A Europa, americanizando-se crescentemente (até nas mentalidades), está a perder de todo a matriz humanista que recebeu com a sua egrégia herança greco-latina e a submeter-se a um saque prodigioso que deixará no terreno um estendal de pobreza e miséria, terreno empapado de sangue, suor e lágrimas mas já sem memória e outra vez aberto para nova guerra sem dúvida entre todas a mais terrível.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O cronista assaltado

Para que lado há-de virar-se? Os golpes e as pancadas chovem de todas as direções por cima dele, é a calamidade do século a jorrar como chuva de inverno e o pobre a senti-la por todo o corpo, sobretudo nas costas doridas, atacadas à traição. Sem forças já para abrir a boca e soltar o berro, morde a mordaça.
Todavia, mesmo sob a chuva das agressões - e cada uma pedia um grande berro descrito em crónica - o amordaçado cresce em espanto e maravilha. Este povo do país não pára de o surpreender. Uma parte, a mais idosa, conheceu a ditadura mas esqueceu-a nuns poucos anos de ensaio democrático; a outra parte, mais nova, teve a sorte de não ter conhecido o racionamento, a censura prévia e a polícia política, mas o resultado é o mesmo.
Perante as sondagens que andam a ser divulgadas das tendências eleitorais populares, porque outro plebiscito se aproxima, resulta inquestionável a conclusão: o povo continua agarrado às políticas de direita e a virar a cara às da esquerda (pois «comunista» é a esquerda que resta). Aguenta com toda esta pancada no lombo e insiste e teima e vota nos seus mesmíssimos partidos. Dizem-lhe da esquerda que esta crise de gravidade excepcional (crise das dívidas pública e privada e tudo o mais de roldão) resulta das políticas impostas pela direita, que têm vindo a governar o país, o povo conviveu dia a dia com a verdade e...? O povo parece agir como os ratos hipnotizados por Hamelin. Sob o ribombar desta tempestade consegue escutar a música dos políticos enquanto vai correndo para a fundura -  é um povo cego e surdo, ou então está encantado. Veja-se então como outros ratos votam!
Os seus políticos prometem deixá-lo com menos hospitais e centros de saúde, menos escolas públicas, menos deputados e funcionários estatais (que têm a missão de o servir)... e o povo tudo admite. Os seus governantes prometem sobrecarregá-lo com mais impostos, e desemprego, e recessão económica, e desordem social, e carestia de vida... e o povo acolhe e apoia, votando conforme sempre votou. Como vai o povo assim fazer-se respeitar, merecer melhores políticas, melhor país?
As políticas de direita vergam Portugal, nove milhões de votos, números redondos, amordaçam a voz de um milhão. Obrigam a privatizar as derradeiras entidades públicas ainda apetitosas para a boca dos financeiros de olho alerta no que lhes pode valer. O Estado, crivado de dívidas, fica sem mais nada para salvar os dedos e então chega a hora da verdade.
Entregue à ganância dos especuladores financeiros, as riquezas do Estado deixam-se devorar pela minoria privilegiada que sempre procurou lucrar à sua sombra. Os impostos continuarão a suportar os custos do funcionamento do Estado, mas pagá-los-á o povo, essas ditas classes médias, porque outra coisa quem manda não consentiria. Logo, é o povo que vai continuar a fazer todos os sacrifícios a troco de uma qualquer mísera cenoura da «política social».
Anunciam os presságios ao que vai dar este caminho. Endividada até às fraldas, a nação será pertença exclusiva da arraia miúda que o Estado tratará como servos. Lembram-se dos servos da gleba do feudalismo? [Ilustração parcial de uma das mais antigas edições da história de Hamelin. Clique para ampliar.]

quarta-feira, 23 de março de 2011

A ideologia do futebol

O futebol traz inerente uma ideologia que é particularmente visível embora poucos a notem. É a ideologia do capitalismo. Lembra-nos que a popularidade do futebol acompanhou o advento da publicidade, do marketing, dos media.
Tudo isso sinalizou a implantação crescente de uma mentalidade capitalista e do sistema socioeconómico afim em acelerado desenvolvimento após, digamos, 1950. No século do petróleo, entrámos no consumismo da era imperialista.
As regras do jogo no campo de futebol são, a nu, as do mercado clássico. Importa perceber, pois, a matriz ideológica que define esse jogo: entusiasma quem alinha na vontade de concorrer, isto é, de competir, partilhando essa vontade com os jogadores da equipa que o espectador apoia na exibição; exalta o herói individual ainda que o integre na equipa quando se torna necessário o esforço conjunto ao modo da matilha que se organiza para a caçada.
No campo de futebol triunfa, tal como no mercado, o protagonista mais forte, sendo mais forte o que dispõe de maiores recursos financeiros para comprar no “mercado” internacional os jogadores profissionais com palmarés recomendáveis. A competição alimenta o espectáculo e o espectáculo faz-se com cada golo introduzido na baliza. Derrotar o adversário concorrente, esmagá-lo e ganhar o jogo, ainda que à custa de investir gigantescas fortunas na equipa, torna-se o objectivo supremo.
O jogo serve para apurar um vencedor, o mais poderoso, e o aplaudir. Transforma-o num “escolhido”, bafejado com um talento raro, valiosíssimo. Se a vitória lhe sorriu, não proveio da sorte ou dos azares do jogo (porque a bola é redonda, o pontapé não aplica uma ciência exacta e o vento sopra em variadas direcções); assinala-o com uma estrela especial tal como os donos de grandes fortunas se sentem miraculados e tão próximos de Deus que o instalam em capela privativa na própria casa.
Mas a façanha do mais forte passa a valer no plano simbólico - o campeonato, a taça. O preço real de cada golo enfiado na baliza de cada vitória atinge níveis tão loucos que deixa os clubes arruinados. Depois de transformar o jogo (que é e deve ser actividade lúdica) em espectáculo consumível, os golos limitam-se a conceder vitória, fugaz porque logo tem que ser continuada-confirmada por outra.
Estimulando a competição pela competição, o jogo justifica a ambição individual e estabelece a desigualdade e a injustiça, lembrando que o capitalismo não é de essência democrática. Como no jogo do Monopólio, também no futebol se infiltra uma ideologia subliminar que interioriza a respectiva ética. As suas regras podem ser subvertidas por árbitros corruptíveis.
Assim o sistema capitalista e o futebol dançam tão bem o tango avançando abraçados pelo mundo que fazem seu. [Ilustração: pintura de Keith Malett.]