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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A cultura do decrescimento

Serge Latouche, economista e pensador francês, distinguiu-se na defesa de uma causa impopular: a cultura do decrescimento. É autor de vários livros em que justifica as suas ideias por sinal marcadas pela influência recebida de François Partant, outro economista francês. De facto, Latouche co-fundou e dirige La ligne d’horizon, plataforma dos Amigos de Partant dedicada à difusão das suas teses.
Eu apoio, desde a década de ’70 do século passado, a bandeira do decrescimento que, como todos sabemos, se mantém desde então sob rigoroso apagamento. Porém, alguns livros de Latouche foram publicados em Portugal e também no Brasil. Não há dúvida, paga-se um preço nada razoável por se ser crítico do consumismo, do crescer por crescer, porque, para este autor, o crescimento ilimitado é incompatível com um planeta limitado; logo, quem tal diz, “é louco ou é economista”.
O autor pede uma descolonização do nosso imaginário de consumidores compulsivos. Afirma que “a verdadeira riqueza consiste no pleno desenvolvimento das relações sociais de convívio num mundo são”. Ora este objectivo “pode ser alcançado com serenidade, na frugalidade, na sobriedade, até mesmo com uma certa austeridade no consumo material, ou seja, aquilo que alguns preconizaram com o slogan gandhiano ou tolstoísta da simplicidade voluntária.”
Como haveríamos de estranhar o prolongado apagamento das ideias de Serge Latouche (n. em Vennes, 12-01-1940), que o mesmo será dizer da cultura do decrescimento? Ele vai ao ponto de contrariar a ocidentalização do planeta… Em suma, puxa para um lado e o mundo vai avançando para o outro.
Registo agora um caso pessoal intrigante. A Universidade Estadual do Sudoeste Brasileiro indica o meu nome como tradutor da obra Introdução à Cultura do Decrescimento, de Latouche e que a edição se deveu, em 1973, a Publicações Europa-América. Nessa obra se terá baseado um curso de extensão transdisciplinar cujo programa a Universidade transcreve. Ora eu tenho memória (remota!) de algo semelhante; isto é, sem o poder afirmar, acho que traduzi realmente para a PEA, naqueles anos, diversas obras, uma das quais com o tema versado por Latouche, mas o catálogo geral da BN não a regista e eu não a tenho em casa. Aliás, o tema foi aqui abordado, em "Enfim, o decrescimento»", 01-03-2009.
As primeiras edições portuguesas deste autor são recentes (da Piaget e de Edições 70), portanto muito posteriores a 1973. Como explicar, esclarecer, entender isto? Poderá a ajuda de um leitor benévolo e amável esclarecer o enigma?

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Os afluentes da confluência


A deriva que subverte o nosso mundo, virando-o do avesso em aspectos decisivos, tem avançado com redobrado ímpeto apoiado na confluência de variados contributos parcelares. A conjugação aparentemente espontânea desses contributos na corrente principal da deriva deu-lhe força esmagadora, indiscutível como imposição de uma nova ordem das coisas. Notemos agora a confluência gerada por alguns desses contributos.
A voga da globalização (isenta de patriotismo e ecumenismo) aparece em destaque. Apoiada na livre circulação de capitais, em “paraísos fiscais” e offshores, aproveitou a empresas transnacionais, banqueiros e governos. Não debilitou apenas o vigor industrial, o crescimento e o emprego de economias desenvolvidas; também abriu o caminho a corrupções e situações de trabalho quase ou mesmo escravo (só crianças asiáticas?).
Porém, a globalização tem arautos entusiastas, infatigáveis desde há anos a festejar o que, à evidência, empobrece os povos nuns países e explora outros povos ainda mais pobres. Mas tanto entusiasmo derramado nos media – televisão, imprensa e rádio – não parece convencer a população que se debate com desemprego e baixos salários, embora inspire governos, origine défices orçamentais e endividamentos nacionais acatando o neoliberalismo de porta aberta para a austeridade programada. Mas põe a lavrar no povo a desconfiança e a revolta.
Os sistemas escolares público e privado, reformados, contribuíram igualmente para alavancar a deriva. Avançaram para além do “facilitismo”: concentraram-se sobretudo em estabelecer um ensino de tipo tecnológico-pragmatista em substituição do “velho” ensino humanista. E pior: as novas gerações formadas em tal modelo educativo são em grande parte provenientes de meios familiares desestruturados.
Estas e outras correntes da deriva espelharam-se dia após dia no conjunto dos media acríticos, acomodatícios em face das versões oficiais da Verdade Única, de modo que os órgãos de informação nela se envolveram activamente. De facto, o jornalismo trabalha junto das instâncias de poder seja ele político, governamental, económico, social, financeiro. Apenas não tem que se lhe submeter para sobreviver, mas a situação de crise atingida pela função noticiosa entrou em descalabro, contribuindo na inversa para a resposta “populista”.
O alinhamento dos media com a deriva geral caucionou sensivelmente o avanço das figuras e das políticas de direita. Também a liberdade de expressão e de Imprensa, tal como os profissionais do jornalismo, vêm sofrendo gravíssimos ataques (em especial na Turquia, Egipto e noutros países referidos pela organização Repórteres Sem Fronteiras num quadro internacional).

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A classe média existe!


Escuso de me repetir, é a realidade dos factos que agora, bem melhor do que eu, o demonstra. A classe média existe mesmo (aí temos em prova o resultado das eleições nos EUA), votou em massa e, de acordo com o sistema eleitoral vigente, levou de vencida Donald Trump até à Casa Branca. Mas os factos demonstram mais: o povo americano votou percebendo que a globalização o empobrece e que muito melhor será a nação começar a fechar-se em si própria.
Bastantes sectores da classe média europeia já sentiam na pele que a globalização trazia a austeridade e todos os sacrifícios impostos pelas políticas do neoliberalismo, a subordinação da União Europeia às estratégias da especulação financeira mundial. Talvez agora decidam virar também as costas às suas elites: os seus cosmopolitas e outros intelectuais. Provavelmente virão a tê-los na consideração liminar em que já têm os políticos e os partidos que se revezam nos governos: tudo escumalha mentirosa, não merecedora de confiança e por vezes corrupta.
Inquietem-se, portanto, os adversários do populismo. Venceu nos Estados Unidos, onde a vitória do candidato independente à Presidência ficou a dever-se ao imenso apoio que recebeu dos media… populistas. Ora o populismo está em franca expansão pela Europa e pelo mundo.
Na verdade, as populações estão fartas de partidos alternantes, políticas demagógicas, dificuldades de vida inaceitáveis. Podem ler poucos jornais, ouvir pouca rádio, mas vêem televisão. A informação que passa pelos canais noticiosos envolve-se quase sempre muito mais de propaganda que informação, abundando em espectáculo, mero espectáculo para entreter crianças de todas as idades.
Donald Trump soube interpretar o sentir profundo das massas populares, suas tradições conservadoras, hoje receosas das mudanças sempre para pior, ou seja, que o eleitorado, dividido, queria ouvir quem o atendesse. Arriscou-se a negar o sistema em bloco, foi ao ponto de atribuir aos próprios americanos o atentado dos aviões contra as torres gémeas nova-iorquinas, a propor boas relações com a Rússia, o Irão… Com ele, a política como espectáculo atingiu novo limite, o que deliciou com opíparos fartotes os media.
Os dados estavam lançados e os resultados do jogo deram no que deram: Trump é o presidente eleito. Prometia políticas ora com visos ora de esquerda, ora de direita, mas um cavalo de Tróia está postado à porta da cidade.
Ninguém vai acreditar que Trump caia em beliscar interesses de milionários espertos como ele. Seguirá, portanto, políticas de direita, as tais que alvoroçam multidões de manifestantes em cidades estado-unidenses acentuando a deriva ideológico-política que se dissemina pela Europa e em outros espaços. Temos a dúvida: até que ponto o designado underdog irá unir a sua palavra à acção?

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Jornalista: pedra angular da informação


Cada cidadão tem, ou deveria ter, uma noção esclarecida da primeiríssima relevância que a informação cumpre no plano social quando lê as notícias do jornal ou liga rádio e televisor. Com essa consciência se afirma a cidadania para, quando necessário, exigir aos meios informativos um trabalho livre, isento e plural. Se estes meios sofrem adulterações e desvios de conduta reconhecidos em geral sem que ecoem reacções críticas a exigir os correctivos indispensáveis, isso indicará que a consciência cidadã se deixou adormecer.
Efectivamente, é possível detectar uma afinidade íntima entre o vigor da cidadania num país e a qualidade jornalística, ética e estética, praticada no terreno pelos seus meios informativos. Ambas se espelham. Andam a par, variando consoante a tensão do pulsar democrático das suas outras instituições.
Neste quadro de quebra de participação cívica e de reduzida afirmação democrática quando a Democracia se esvai é que os jornalistas chegaram à penosa situação em que hoje se encontram. A precarização dos vínculos laborais acompanhou a degradação geral das suas condições de trabalho, salariais e outras. Facto incontroverso é, todavia, que são mesmo os jornalistas a pedra angular do edificar diário da informação.
Ora os modelos da informação em uso não primam pelo rigor e, desde logo, negligenciando a regra da neutralidade perante os assuntos. A liberdade, a isenção e o pluralismo, princípios consagrados pelo Jornalismo, acomodaram-se aos factos correntes de narrativa acrítica em circulação que acatam porque está assente e é cómoda, dançando com bastante jogo de cintura ao ritmo da cantiga “somos todos americanos”. Um jornalista de esquerda que não se cale e ouse manifestar opinião livre duvidando dos factos assentes, arrisca-se a forte penalização.
A conformidade, pelo menos aparente, tal como o medo, espalhou-se pelas redacções, não a sentirão somente uns raros jornalistas de prestígio firmado (e vigiados). Por algum motivo se tem ouvido desabafos de alguns profissionais: dizem que trabalhar não é melhor agora do que foi no tempo da ditadura e da censura prévia… Remédio para isto talvez possa pedir o impossível: a mudança da estrutura das empresas informativas, tornando-as públicas.
Eis como bem se justifica o quarto Congresso em organização, sob o lema
Afirmar o Jornalismo, pela Casa da Imprensa, o Clube e o Sindicato dos Jornalistas quase vinte anos depois do terceiro. Vai decorrer em Lisboa (cinema São Jorge, dias 12-15 de Janeiro), presidido por Maria Flor Pedroso. Desta vez a idade afasta-me da participação, mas, ao menos, aqui fica esta nota.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A Cultura da desertificação

ler!.jpgAcredito que haverá por aí, em revistas e livros, estudos esclarecidos e esclarecedores sobre o que escapa ainda hoje à cabal compreensão de tantos leitores: por que motivo desapareceram assim tão radicalmente suplementos e páginas culturais ou literárias da imprensa portuguesa? O que vale dizer: que força danada terá impelido toda a imprensa a converter-se à formatação tabloide e a rádio e a televisão a seguirem-lhe o exemplo? Sim, sim, lembrando que tal aconteceu após a extinção da censura prévia, em plena democratização do nosso país! 
Uma regra que vinha já dos anos cinquenta do século XX preceituava que os jornais diários e semanários do país dedicassem algum espaço a tais secções desde que um jovem colaborador qualificado ou escritor reconhecido avançasse com a proposta. Não havia abundância de estádios, o desporto merecia uma página à segunda-feira e os fluxos noticiosos gerais, severamente filtrados pelos censores, escasseavam no tempo da ditadura. Por outro lado, o universo da cultura viva demarcava-se retintamente do regime - era de esquerda. 
Acontecia ainda que nas secções culturais da imprensa os censores exerciam ou aparentavam uma certa tolerância, talvez na persuasão de que quem lia “aquilo” (recensões de livros, entrevistas, pequenos ensaios, informações editoriais) eram “poetas”. Quando a democracia ficou com aspecto consolidado instalou-se no país a formatação tabloide, ou seja, um jornalismo ligeiro, ilustradíssimo, sensacionalista, para o qual “cultura” passou a ser um desfile de moda, música festivaleira e espectáculo non stop. Quanto a informação, simplificou-se: dispensou a sã regra do contraditório e passou a servir a verdade única da parte-que-se-faz-o-todo. 

Assim se foi o tempo em que havia cultura viva e a cultura teve matriz de esquerda. Quem lamenta que “agora não há suplementos” nos jornais (a perderem leitores e a reduzirem tiragens) deve lembrar: a imprensa e a comunicação social em geral mudaram de paradigma, basta ver a penosa situação em que se debatem os jornalistas. Enfim, a Cultura entrou em desertificação, agora apenas viceja nuns oásis cujas orlas frágeis são invadidas por ondas constantes de (in)cultura kitsch, popularuncha, comercialona.
Proclama a frase feita que sem memória não há futuro. Pergunto a mim mesmo: que futuro pode ter este país onde, quando morrem escritores, com eles morrem também as suas obras? Na cidade onde moro desapareceram em anos recentes figuras como Óscar Lopes, Luís Veiga Leitão, Egito Gonçalves, Papiniano Carlos, Eugénio de Andrade, Agustina Bessa Luís, Ilse Losa, Luísa Dacosta, António Rebordão Navarro… e alguém os lê, alguém os lembra?!

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A teologia perdeu o lugar

corneta-1.jpgO homem arengava contra o televisor e, em volta, ouviam-no com indiferença. Mas o homem animou-se, agitou os braços e disparou: “As religiões nascem dentro da ignorância, as teologias da superstição, as crenças de esconjurações do medo.” Depois, como que esgotado, bebeu o que restava da cerveja e foi-se.

Eram palavras interessantes, ficaram-me a ecoar na memória. Na verdade, a enciclopédia dos conhecimentos científicos actuais permite elaborar conclusões seguras, muito aceitáveis, sobre questões que em tempos recentes permaneciam em discussão aberta. Basta conjugar ciências como astronomia, física, biologia, antropologia, geologia e outras para se chegar à luz.

No fim de contas, tudo se explica e, portanto, pode compreender-se no fenómeno prodigioso que é a vida nas múltiplas formas que assume. A vida que surge sempre envolvida na matéria, demonstrando que a vida não é imaterial. Logo, compreendamos a vida conhecendo como a ciência desvenda os segredos da matéria.

Podemos avaliar a idade da formação do Sol e da Terra, terceiro planeta do nosso sistema planetário, ou há quantos milhões de anos andaram por cá dinossauros e australopitecos ou perceber que a espécie humana a habita há já centenas de milhares de anos. Importante, porém, é olhar para o céu em que este planeta e este Sol se encontram, não para o céu metafísico. Estamos no espaço cósmico, nele vivemos, e no entanto parece que nada nos convence de que é matéria o que mais abunda no espaço, que é possível que em alguma dessa matéria (viajante em meteoritos) esteja uma simples bactéria e que essa bactéria, multiplicando-se, origine toda a complexa vida biológica de um planeta em tais condições.
A hipótese de que haja outros planetas semelhantes à Terra é portanto perfeitamente admissível. Deve haver muitos no cosmos, difícil é chegar lá. Veja-se a notícia recente sobre o planeta “como a Terra” descoberto na constelação do Centauro: sendo nosso “vizinho”, fica a mais de quatro milhões de anos-luz de distância…
Afinal, o que mais sobra no Universo é espaço, distâncias incomensuráveis à escala humana. Talvez o espaço cósmico seja uma “matéria negra” numa outra organização da matéria que desconhecemos. Que lugar pode restar, então, para as teologias?
Nenhum. Todavia, neste ambiente de crises acumuladas, de sofrimento e desespero, novas religiões e novas teologias irrompem e multiplicam-se como medusa, a mitológica serpente de mil cabeças. Crenças e crendices continuam, infrenes, a povoar os imaginários populares embora uns tantos notáveis insistam em declarar o fim dos dogmas e a “morte de Deus”.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O rapto da Europa

europa.jpg (em Notas Soltas)
1 A altíssima concentração da riqueza em poucas mãos que o capitalismo atingiu nos nossos dias agrava as desigualdades e provoca tremendas mudanças políticas, económicas e sociais. Todavia, um pensador de outrora, hoje esquecido, previu que a fase suprema do capitalismo seria a do imperialismo. Mas hoje o sistema bancário europeu e mesmo o mundial estão a naufragar (exemplo: a emergência no Deutch Bank é colossal!), pelo que Vítor Constâncio, vice-governador do BCE, já opinou: sejam então, mais uma vez, os contribuintes europeus a salvá-los!

2 O cidadão de olhos abertos, que vota informado e conscientemente, percebe desde há muito tempo que a tão festejada União Europeia não está ali ao serviço dos povos dos seus países. Administra as prestações que os membros se obrigam a pagar-lhe - um avultadíssimo caudal, note-se, de fazer inveja ao banco mais ostensivo com bem diverso objectivo. Ora os responsáveis das instituições europeias, que ninguém elegeu e que até são inimputáveis, não substituem somente os governos nacionais privando-os de soberania e de moeda nacional. Como herdeiros do plano Marshall, apoiam a NATO e declaram-se fiéis acompanhantes das estratégias globais dos EUA, de modo que o eurogrupo já participa nas intervenções norte-americanas no Médio Oriente e talvez se disponha a entrar igualmente numa grande guerra, a terceira.
3 Sanções de Bruxelas ameaçam Lisboa (ontem, de não receber dois mil milhões de fundos especiais de investimento; hoje, com o álibi do défice orçamental). Mas para que servem esses milhares de milhões? Para abrir ainda mais autoestradas, construir novos hotéis ou expandir supermercados, ou seja, apoiar empresas privadas a fundo perdido (que irão gerar mais rendimentos privados) e onde nós todos somos convidados a gastar o nosso dinheiro. O que podem tais investimentos interessar aos portugueses? Já temos demasiada abundância onde gastar, falta-nos, isso sim, onde produzir - produzir bens de consumo essenciais de que carecemos, de agricultura e pescas, ou industriais, e que nos obrigam a importar. Por que motivo os comissários da União Europeia nos afastam sempre, tão decididamente, da produção do que a economia do país precisa (desde logo para fomentar o emprego e o PNB em vez de aumentar as dívidas e os juros a pagar) e gosta tanto de nos pôr a gastar e a importar demais?
4 O que expõe flagrantemente a entrada no Goldman Sachs, banco de investimentos mundiais, do mais recente ex-presidente da União Europeia? Basta ter olhos para ver claramente o que aparece à vista. O trânsito de políticos e dirigentes da UE de e para bancos como Morgan Stanley, Lehman Brothers e outros desenvolveu-se até atingir um máximo. Deu nas vistas. E agora surgem alegações formidáveis que põem os americanos a inspirar os cabouqueiros da EU e a criação da moeda única, depois os EUA a controlar os líderes europeus e, aparentemente, as políticas da austeridade.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Acabemos com as offshores!


Ninguém, com migalha de juízo, pode admitir que estes alçapões sem fundo foram criados e espalhados pelos quatro cantos do mundo por conveniência das classes médias. Nem vai supor que as sociedades de advogados envolvidas nos selváticos emaranhados contidos nos “paraísos fiscais” se dediquem tão-só, conforme alegam, a dar apoio jurídico às empresas e a ajudar a gerir fortunas. Os jornais, toda a comunicação social, levantando uma ponta do véu, mostram que não se esconde por lá a riqueza dos 99% da população mundial; esconde-se, sim, o gigantesco poder financeiro acumulado pelo famoso 1%, poder tão forte que move legisladores e governos.

Ora, nos Panama papers, não aparecem todos os multimilionários do planeta, bem acompanhados, como escreve um jornal, por burlões, políticos corruptos, reis da droga, traficantes de armas… interessados por igual em fugir aos impostos e disfarçar dinheiro ilícito obtido de negociatas secretas. De Portugal, nos 11,5 milhões de documentos (papers) em análise, não constam muitos fregueses: serão, diz-se, algo mais de duas centenas. Pedir menor opacidade às offshores ou propor melhor controlo das suas malas-artes, é oração nada piedosa, de mãos postas suplicando que tudo continue na mesma.

As fugas ao fisco têm crescido a par da corrupção. Afinal, o que impede o administrador de uma grande empresa ou de um banco de negociar a compra de uma outra empresa em maus lençóis ou de um outro banco insolvente, pagando o preço e, por baixo da mesa, recebendo uma comissão? De solicitar, ou conceder, um grande empréstimo a empresa insolvente beneficiando também de comissão secreta?
O mundo dos negócios tornou-se mafioso (segundo a Oxfam, 50 grandes multinacionais têm 1,4 biliões de dólares em offshores, causando 111 mil milhões de perdas anuais de impostos nos EUA). Mas não são apenas as grandes empresas que escondem lucros naqueles buracos negros para escapar aos impostos. Há milhões e milhões ilegais, gerados pela corrupção, em transacções de compra-venda, que se acoitam no mesmo refúgio.
panama.jpgNo fim de contas, a política austeritária tem origem nos imensos oceanos de dinheiro saído das economias reais, sobretudo em países com dificuldades de desenvolvimento, onde as próprias carências de investimento convidam à corrupção e à fraude. Mas as offshores servem à maravilha para acolher “fundos abutre”, como os que atormentaram a Argentina endividada. Até parece que já servem mal para pôr a render tanta riqueza subtraída aos povos que dela agora necessitam para responderem ao desemprego, à estagnação da economia e a tantos outros seus problemas sociais.
Um programa mundial, sistemático e geral, de extinção das offshores, é imperativa. Argumentos contra este objectivo essencial são pura perda de tempo. Vejamos: então o inconcebível e monstruoso Tratado Transatlântico de Comércio e Investimento, elaborado pelos EUA em parceria com a União Europeia, que põe as multinacionais a mandar em estados e governos, não foi também possível?

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Offshores: escândalo e violência


A estrondosa falência de grandes bancos em 2008, que rastilhou a explosão da crise actual, já então existente, parece não ter alertado deveras para a radical mudança por que o nosso mundo passava. De repente, o mundo era outro. Bastará agora o terramoto provocado pelo escândalo dos Panama papers para um acordar geral dentro do pesadelo?

panama2.jpgÉ preciso compreender todos os alcances essenciais da mudança sofrida. De contrário será apenas o barulhar dos escândalos que ecoam na comunicação social com a dimensão planetária da corrupção e dos corruptos, um barulhar que depressa se dissolve e apaga na desmemória colectiva. Objectivamente, com a máxima crueza, ficámos perante uma ampla janela aberta para a caverna de Ali Babá e sua quadrilha de ladrões e convencidos de que não é a única nem sequer a pior.
A firma de advogados do Panamá em foco, fundada em 1977, já criou umas trezentas mil empresas offshore nuns 40 países e emprega mais de 500 pessoas. Calcula-se que o volume de capitais envolvidos na pretensa “criação” destas empresas excederá o dobro do orçamento global da União Europeia. Por aí se poderá avaliar quanta riqueza já foi subtraída à economia real das nações e empobreceu os povos.
Sabemos que uns doze governantes, centenas de políticos, milhares de pessoas famosas e centenas de milhares de empresas escapam aos impostos, processam lavagem de dinheiro desonesto, alimentam negócios de armas, traficâncias. Sabe-se, igualmente, que na União Europeia (500 milhões de hab.) a fuga ao fisco é calculada em dois mil euros anuais por cada cidadão. Os contribuintes de cada país também sabem como se multiplicam por todo o lado as dívidas: dos Estados, dos orçamentos dos governos, dos bancos, das empresas - e até parece que o BCE não imprime 70 mil milhões novos cada mês!
Na verdade, as democracias (mais ou menos pouco democráticas) passaram a servir descaradamente os interesses da alta finança com o apoio das maiorias eleitorais que os elegem. A riqueza concentrou-se em tão poucas mãos que o poder financeiro, clandestino e naturalmente especulativo, assumiu o controlo efectivo do poder. Novidade nenhuma: do facto têm vindo a dar-nos notícia a WikiLeakes em 2010, Edward Snowden em 2013, e, agora, os Panama papers divulgados pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação.
Obviamente, a única resposta viável está nas mãos dos povos eleitores de cada país. Aflige-os o desemprego e o emprego sem direitos, a perda do estado social e dos direitos cívicos da democracia, a subida dos impostos. Tamanha concentração da riqueza é desigualdade violenta e escandalosa. Urge abolir, radicalmente, os paraísos fiscais do planeta em nome da decência e da justa legalidade (e se os governantes e demais forças políticas não se impuserem aos interesses criados, bem poderemos todos dizer adeus à nossa civilização)!

segunda-feira, 7 de março de 2016

Ser cidadão, hoje


A questão tem que ser enunciada nos devidos termos. Ser cidadão, hoje, é muito difícil e mais difícil ainda, decerto, será entender porquê. Votar quando há eleições, participar nos debates públicos, ter partido e opinião política é pouco, parece não chegar já para se ser cidadão.

Tudo isso pode ser positivo e mesmo desejável porque a percentagem das abstenções se torna preocupante, os filiados se arredam dos partidos (confundindo-os decerto com sindicatos) e os debates públicos, incluídos os parlamentares, pouco e mal aquecem o ambiente. Sobram os opiniosos comentadores que em aluvião enchem os espaços da comunicação social. Assim chega o momento de apurar, decantando, o velho ou envelhecido conceito de cidadão.
Cidadão não é, pela minha ideia, quem milita em partido e, subordinado às respectivas tácticas, faz da política a sua profissão; quem abre a boca e reproduz a cassete da retórica concordante com o sentido do seu voto; quem chama aos governantes gatunos, não sabe para o que serve aprovar um orçamento de Estado e nada entende de política sabendo de tudo no futebol. Passemos a nossa população adulta por este crivo: quantos cidadãos tem o país, afinal?
Terá bastante menos do que se julga. Cidadãos, quero dizer, pessoas suficientemente conhecedoras das dificuldades económico-financeiras nacionais, que reclamam uma urgente saída do sufocante garrote das dívidas soberanas; pessoas com conhecimento e coragem para perceberem que o melhor para os portugueses será a saída da moeda única e mesmo da União Europeia em falência; pessoas que sabem o que é o TTIP e que portanto se opõem ao aberrante Tratado Transatlântico de Comércio e Investimento (tem “na sua base um acordo de parceria entre a União Europeia e os Estados Unidos”); pessoas, enfim, que lutam por salvar a Democracia que, de outro modo, irremediavelmente se perde.
Mas pergunte-se: acaso será necessário, para se ser cidadão, que as pessoas assumam tal perfil, isto é, uma ideologia e um pensamento de esquerda radical? Sim e não, conforme cada situação individual concreta. Todavia, no fim de contas, parece imprescindível a ocorrência de uma ruptura terminante com o caldo de cultura instalado pela informação de massas (nesse caldo, em expansão como metásteses, se apoiam as políticas de direita), trocando-o por fontes informativas alternativas independentes que cada um terá que buscar. Curiosamente, este cenário traz à memória um antigo cenário que os portugueses, hoje idosos, conheceram – e sofreram – no regime da ditadura salazarista-marcelista: então, como agora, as forças da “Situação” e as da então designada “Oposição Democrática” resumiam os dilemas. Estamos novamente em presença de dois campos, uma divisão crucial: a preto e branco.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Não sabem nem perguntam

petrol.jpg

O modelo único da informação jornalística apurou-se tanto que impera. Normalizado, espalha-se pelos jornais, canais de televisão, rádios, onde se atenuam e desaparecem as diferenciações caracterizadoras. Alterações do modelo corrente, estabelecido e consagrado pelas conveniências, tornaram-se desvios algo aventureiros não só prejudiciais, também perigosos.

A imposição crescente do modelo único da informação jornalística explicará decerto, por um lado, o motivo por que estão desempregados milhares de bons profissionais, e por outro, a indiferença crescente do público por essa monótona informação que, por exemplo, asfixia até à exaustão os jornais (impressos), obrigando-os a correrem para edições digitais. O público vai ficando privado de uma informação livre e plural, isto é, cada vez menos informado e mais desinformado por propagandas intencionais ao serviço de “causas” que envolvem estratégias inconfessáveis. Assim, a informação jornalística (pretensamente honesta, imparcial e objectiva) perde legitimidade enquanto função de relevante interesse social, enquanto, por outro lado, reforça nos leitores a massificação e o conformismo.
Eis como um jornal dito de referência sintoniza quase sem distorção as emissões de Washington e Nova Iorque. Escreve, em Editorial: “Haverá limites ao terror na Síria?” [Ali, os habitantes encontram-se] “entre duas formas de terror: o das forças de Assad, no poder, e o do autodenominado Estado Islâmico. Ambos atemorizam, intimam, matam, em nome dos respectivos fanatismos.” (“Público”, 18-01-2016)
A desmemória apaga o que ocorria na Síria há mais de cinco anos e agora parece contrariar o modelo único da informação. Já não lembra, sequer, que al-Assad, jovem, estudou medicina na Grã-Bretanha e que, no poder e com o seu país em paz, foi alvo de uma vasta campanha de acusações que começou por o declarar ditador, decerto porque o Pentágono e a Casa Branca não gostavam mais do homem, e depois, muito naturalmente, surgiram em Damasco manifestações populares, as manifes geraram alguma violência, a violência aumentou, aumentou ainda mais e rebentou a guerra civil (combatentes jihadistas no terreno de uma linha política anunciada, com armas fornecidas e pagas por quem?), guerra que destrói e já matou, ao que consta, mais de duzentas e cinquenta mil pessoas, enquanto não pára de empurrar a população síria para frágeis batéis através do Mediterrâneo. Refugiados na Europa que suportaram a guerra e Assad durante cinco longos anos de inferno!

É fácil, e cómodo, na informação corrente, igualar as forças do pretenso Estado Islâmico, que soltou os monstros, com as do governo sírio, que os aguenta; mas, vejamos, o que de relevante fica por explicar? Sem explicação ficam os que não sabem nem perguntam. Não sabendo nem perguntando, acabam por não querer saber – vão aos estádios, as novas catedrais, implorar o golo da vitória ou gritar em coro “Fora o árbitro!” “Grande ladrão!”

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Encontro de jornalistas JN

À beira do terceiro encontro da malta JN (31-10-2015, de novo em Coimbra), recordo: apareci pela primeira vez no segundo. Falhei o inicial por impedimento que já se me varreu, mas lembro-me da pena que isso me deixou. O meu nome tinha sido agregado à lista dos contactos preparatórios pela mão do Fernando Mendes, que me apareceu a desencadear a iniciativa e que antes da concretização do evento foi tristemente levado pelas Parcas.
É bem verdadeiro o meu gosto por reencontrar os companheiros do nosso jornal e por trocar com eles um abraço. Partilhámos experiências, vida vivida e mesmo algum sonho. Mas confesso que duvido se alguns dos meus velhos companheiros terão tanto gosto quanto eu pelo reencontro e o abraço que nos poderemos dar.
Naturalmente, no jornal tal como em convívio gratificante, criam-se subgrupos dentro do grupo pela força de correntes espontâneas que crescem em liberdade. Serão expressão de simpatias pessoais compartilhadas, afinidades ou de outro «algo» humano que por vezes resiste ao entendimento, ou resultantes de simples desencontros ocasionais. Mas o facto é que «passei» pelo JN sem levar dali a lembrança de uma relação de amizade digna desse nome.
Assinalo somente o pormenor (com autocrítica: corria demais naquele tempo, logo sem tempo para acamaradar?), reconhecendo porém que me congratulo deveras com estimas ou simples considerações pessoais que sinto merecer de antigos camaradas para mim especiais. Na verdade, dei-me sem restrições ao nosso Jornal. Comecei a colaborar nas suas colunas bastante cedo, em 1954, no designado «Suplemento Literário» coordenado pelo dr. António Ramos de Almeida e, em 1960, por convite do director Manuel Pacheco Miranda, como cronista semanal e logo, em 1963, num passo seguinte, encetei paralelamente a profissão.

Escolhi-a desistindo de um lugar em biblioteca itinerante da Gulbenkian, em Chaves, que me foi proposto em dia frígido, de intenso nevão. Recusei-o e optei por me fixar no Porto. Já tinha livros publicados, algum nome literário, bons relacionamentos no meio portuense, e o jornalismo aproximava-me do que mais queria - escrever.
Tive que pagar a factura: os jornalistas tarimbados olharam-me como «literato», isto é, de algum modo, como um intruso, duvidosos se eu seria capaz de escrever uma notícia chapa cinco, uma reportagem convincente ou de fazer uma entrevista e, entre os escritores, só uns poucos acharam que terei dado algum brilho à profissão.
O Jornal morava na Avenida dos Aliados. Chefe de Redacção era o sr. Brochado; passava o tempo com novelas policiais. O subchefe, Manuel Ramos, o nosso familiar Raminhos, sempre em luta com a Censura, de manguitos enfiados até aos cotovelos, encarregava-se do expediente.
Foi abreviado aquele meu primeiro período de serviço no JN. Em Junho de 1964, a PIDE quis obsequiar-me com três meses de clausura e no regresso encontrei o ambiente geral muito carregado de antigamente, o que acabou por me empurrar para a demissão. Voltei após a democratização, em 1978. Permaneci até sair (em 1992) na «Cultura» (como editor, quando esta figura ainda não existia no país), secção que surgiu, pequenina, mas depois botou corpo.
Fui cronista regular (semanal) em diversas ocasiões - trabalho de casa, pura oferta. Fiz de tudo quanto um jornal daqueles precisava, afora, é claro, o desporto, praticando abundantemente nas suas páginas a cartilha dos géneros redactoriais. Cheguei a crer que pequei por excesso, ao ponto de cair - erro crasso! - em dizer um dia ao então director: «Gosto tanto disto que até pagava para o fazer!»
Mas, vejamos, se não estamos apaixonadamente na profissão, que sentido terá a nossa vida? Lembro o filósofo: «Escolha um trabalho que ame e não terá que trabalhar um único dia na sua vida.» Enfim, tudo aquilo já se dilui num passado que pouco ou nada interessa, pelo que torno ao filósofo para assentar: «É fácil apagar as pegadas; difícil é caminhar sem pisar o chão.»

quarta-feira, 18 de março de 2015

Guerra: monstros à solta


Impressiona o infinito sofrimento que a guerra provoca ao povo da Síria. Impressiona, choca e escandaliza também a passividade de quantos assistem de longe ao medieval cataclismo desencadeado desde o pretenso raiar da “primavera árabe”. Os monstros da morte e da destruição, da violência cega e de brutais carnificinas caíram sobre as orlas do Mediterrâneo e são insaciáveis.
Há quatro anos que a população síria conhece o horror da guerra civil, iniciada com manifes e uns tiros à socapa. Segundo os jornais informam, já provocou 220 mil mortos, dos quais 76 mil foram contados em 2014; uns quatro milhões de habitantes e centenas de milhares de palestinianos refugiados, tendo perdido tudo, tornaram a refugiar-se além-fronteiras. Outros sírios, mais de seis milhões, fugindo dos horrores da guerra deslocaram-se para outras zonas do país; e perto de três milhões de crianças ficaram sem escolas.
A crise humanitária impressiona tanto quanto a onda de violência desatada. Extravasou mesmo para os países vizinhos, onde origina situações terríveis de carência e sofrimento. E a Síria, país com um passado histórico-cultural tão rico e luminoso, aparece agora à noite, em imagens de satélite, quase às escuras.
Perante esta horrorosa hecatombe civilizacional e humanitária, os povos ocidentais que conseguem vê-la de longe aparentam um alheamento, uma indiferença quase total. Com idêntica atitude acompanharam a campanha prévia dos media que nos persuadia de que o presidente Assad, por sinal médico formado na Inglaterra, era realmente um ditador a derrubar. Afinal, o presidente tem povo em quantidade suficiente para resistir no poder há quatro anos. Mas também Hussein e Khadafi não eram ditadores?
Evidentemente, esses tiranos foram derrubados. Quer dizer, abatidos em execuções sumárias, sem julgamento. Assim como Bin Laden, acusado de esmagar aviões contra as torres gémeas.
Terá ficado a Síria, ou virá a ficar, mais livre e democrática, mais pacificada e estável? Acodem à memória os casos do Iraque e da Líbia, que continuam deveras pungentes. Fracções em armas combatem, destroem-se e flagelam-se em nome de dogmas religiosos, pondo em fuga populações espavoridas, ansiosas por saírem do inferno onde nasceu e se multiplica em metástases pela África negra um providencial Estado Islâmico.
Provado fica que é possível dirigir um drone, por controlo remoto, para um objectivo situado do outro lado do mundo, assim como agrupar uns ambiciosos onde quer que interesse pô-los a correr apoiados com propaganda e os meios logísticos necessários. Mas, na balcânica confusão instalada no Médio Oriente, quem consegue, observando com atenção, saber de que lado estão os bons e de que lado estão os maus? Serão todos, todinhos, criminosos de guerra?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A onda passou e o que ficou?

Há cerca de um mês, uma poderosa onda emocional varreu a Europa e parece que todo o Ocidente. Atroou praças e avenidas o grito das multidões que exigiam “liberdade de expressão”. Os ecos de tamanho clamor popular devem percutir ainda em algumas memórias menos frágeis, chega agora o momento de considerar o acontecido.
Manifestar o direito público à liberdade de expressão evidenciou desde logo a índole conformista do gesto: encobria que a informação da actualidade fornecida pelos media, sendo incompleta, parcial, tendenciosa, serve cada vez mais a Verdade Única do pensamento dominante. Resultou numa manobra descaradamente populista e, na presente situação da prática objectiva do jornalismo, também hipócrita e algo cínica. A informação e o jornalismo estão sob um crescente controlo que filtra o que aparece na imprensa, na rádio e na televisão, em obediência a um breviário de “verdades” assentes contra o que seja tomado como de esquerda.
Defender a liberdade de expressão no actual contexto? Seria pouco, se isso valesse a pena. Muito melhor seria denunciar a manipulação, a parcialidade, o seguidismo massificador da informação que as empresas de comunicação social servem ao público e pedir outra, diferente, capaz de ouvir sempre o “outro lado” das questões.
O que aconteceu acirrou os ânimos já aquecidos pela conflitualidade atiçada entre radicais muçulmanos e cristãos; o radicalismo islâmico ganhou mais base e a direita europeia, festejando, cresceu. De súbito, a União Europeia viu-se a cair nos braços abertos da América. Com os seus milhões de desempregados e a baixa dos salários imposta pelos programas da austeridade + estagnação económica, a zona euro dispensa a barateza do “canalizador polaco” e a emigração clandestina da margem sul do Mediterrâneo, pelo que se propõe rever o acordo de Schengen da livre circulação, até porque a ameaça jihadista também mora cá dentro.
Este velho e retalhado continente ficou mais inseguro e ameaçado, além de mais intolerante e xenófobo, isto é, mais afastado da Liberdade, Igualdade, Fraternidade carimbada nos direitos humanos. No mundo de hoje, o terrorismo, venha de que lado vier e que sinal tiver, presta-se a aproveitamentos oportunistas e a conspirações obscuras de interesses ideológicos e políticos contraditórios, em função de estratégias e propagandas mistificadoras tão confusas que já parecem compor um cenário pré-bélico. O jornalismo de uma imprensa livre iria naturalmente investigar cada situação, mas, nas presentes circunstâncias, nem espaço lhe sobra para questionar, por exemplo, porque foram abatidos os alegados dois irmãos do atentado ao “Charlie”, tal como o indivíduo que interveio na loja kosher, assim como abatidos foram, sem interrogatório policial nem julgamento, Sadam Hussein, Khadafi ou Bin Laden.

sexta-feira, 29 de março de 2013

De olhos nos jornais


Os jornais deste fim de semana pascal aparecem com manchetes e outras letras gordas, nas capas e páginas interiores, bastante sugestivas e animadas. Paro à entrada do quiosque em apreciação das capas de semanários e diários sentindo pelo menos a ilusão de um sopro de vento novo a correr. Quase nem preciso de sujar os dedos a folheá-los para decidir que hoje quem escreve a crónica são os títulos, subtítulos e destaques da imprensa. 
A manchete do “Público” avisa: “Tensão”. Não é para menos: “O PSD pressiona Tribunal Constitucional a ter em conta «contexto económico» do país | PS diz que eleições são «única saída democrática» para a crise | Partidos trocam acusações no Parlamento sobre Silva Carvalho” [o espião] 
O “Sol” anuncia: “2º Resgate à vista. Passos avisou vices do PSD para a probabilidade de um segundo resgate [da troika] após o chumbo do Tribunal Constitucional e apresentou dois cenários possíveis 1. Governo de Salvação Nacional. 2. Eleições imediatas”. 
A capa do segundo caderno do “Expresso” põe a ler: “Ficar o sair do euro, eis a questão”. Outras frases em destaque: de Barry Eichengreen, “O cenário está montado para uma década perdida na Europa”; de João Duque, “O eurogrupo acaba de criar um euro fraco”; de Luís Marques, “Selassie levou um ano a perceber o país”; de Manuela Ferreira Leite, “A decisão do Eurogrupo [Chipre] não tem perdão. Mais uma acha para a fogueira”. 
O jornal i afirma na manchete: “Portugueses perderam confiança na austeridade da Troika. Popularidade do Governo cai a pique”. E mais: entrevistado, José Ribeiro e Castro declara: “Esta União Europeia não presta”. Adiante pergunta: “Como é que o Eurogrupo aceita ser presidido pelo rosto [holandês] de um modelo fiscal de corsários? É uma vergonha!” 
Nas páginas interiores, o i publica: “O PS é favorável que este governo cesse o seu mandato”; “OCDE apela à zona euro a pôr um travão a medidas de austeridade”; “Passos e PSD aumentam pressão sobre Tribunal Constitucional”. Refere também resultados do inquérito Barómetro i /Pitagórica: “Maioria já não acredita no sucesso do programa da Troika”. Acrescenta: “Mais de dois terços dos inquiridos consideram insuficientes os resultados da renegociação com a troika das metas do défice e dos cortes na despesa que permitiram ao governo ganhar um ano”. Distingue-se uma frase: “Cipriotas sentem que estão «a ser assaltados pelos europeus» mas mantêm calma”. 
Hoje os jornais portugueses ficam a ganhar ao cronista. Venceram-no. Ele não seria capaz de escrever um texto, de tão animado, assim tão animador…

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Querem apagar a LUSA !

Quando há jornalistas em greve, o país inteiro deve ficar atento. Algo de grave se passa no campo da informação portuguesa e isso importa aos cidadãos. Ora, nestes dias, estão em luta, de braços caídos, redações da agência LUSA e do jornal «Público» com todas as suas delegações nacionais.
São casos diferentes (a agência é pública, o jornal é privado) mas, ainda assim, são aparentados e, não por acaso, simultâneos. A ofensiva ultra neoliberal avança para abocanhar tudo o que possa luzir, na LUSA ou no «Público». Engana-se redondamente quem se ponha a supor que esta ofensiva dos radicais, enfim cheios de boa consciência, se vai deter aqui depois de ter feito as desgraças que já fez.
O caso da agência, que é única, reveste-se de especial relevância. Atrofiá-la, reduzindo-lhe os redatores, determina uma atrofia do caudal diário da sua informação. Acontece porém que essa informação, variada e abundante, emanada de e para todo o país, é essencial para alimentação de jornais, rádios e televisões.
É assim que, agora também por este lado, mais uma vez fica em causa a democracia, a liberdade. Logo, o país informado solidariza-se com os jornalistas em greve, compreende-os e apoia-os. A sua luta é a de todos os que sentem a violência da agressão em curso.
O patrão do «Público», jornal considerado de referência, quer despedir para minorar prejuízos; o governo regateia, querendo poupar seis milhões no orçamento não de hipotéticas «gorduras» mas sim de «osso». O patrão manda na sua casa mas na agência pública tem a sua palavra a mandar os cidadãos contribuintes. Não está nada bem, nem é bonito, regatear seis unidades e continuar a dar centenas aos mesmos de sempre que, coitadinhos, beneficiaram e beneficiam do Estado que nós suportamos até ao desfalecimento.
Uma informação abundante, livre e plural é indispensável ao sistema democrático, sobretudo quando reina o alheamento, o abstencionismo, entre tanto espetáculo de  futebol e telenovela. Iniciativas destas escondem (mal) uma aversão à democracia e à liberdade. Não lhes chega a desinformação, a manipulação?!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Para que serve escrever?

Pôr por escrito o que se pensa não é tarefa fácil. Pode, de momento, apetecer, mas a dificuldade levanta-se logo com a luta a travar pela expressão. Irremediavelmente, o que se pensa e escreve não aparece logo bem traduzido pela expressão encontrada.
Quem escreve lê o que escreveu. Isto é, após decorrer um tempo, mínimo que seja. Debruçado sobre o texto, é ele mesmo o seu primeiro leitor - no fim de contas, de certo modo, um «outro»...
De facto, quando a ideia fica exarada por escrito é que a consciência pode sentir-lhe os alcances e as consequências. Do que resulta, naturalmente, que se pensa melhor pensando por escrito. Corrigir, emendar e polir o texto equivale, assim, a corrigir, emendar e polir a ideia definitiva a pôr no escrito e reescrito.
Da época das disputas liberais e republicanas ficou-nos a notícia de homens que «escreviam» ditando a outrem, decerto melhor calígrafo, os textos de jornais ou revistas. Destinavam-se, obviamente, a ser lidos em voz alta para grupos de ouvintes-participantes de debates ideológicos. Ressoava então no país o verbo inflamado de oradores de botica e tribunos com retórica mais ou menos parlamentar e ecos sonoros que se espalhavam pela província.
Depois, não apenas entre nós,  o verbo perdeu o som. Tornou-se silencioso. A leitura, por norma, passou a ser feita de boca cerrada.
Acontece porém que certos indivíduos (conheci alguns) conseguiam ser bons oradores falando de improviso mas que, escrevendo, debitavam uma prosa baça, sem chama. Donde, a questão: improvisar um discurso ou ditar um texto não será exatamente a mesma coisa que escrever? E para que serve o escrever?
Eça ironizou na página em que resgata o escritor à mísera sorte das couves decerto porque no seu tempo havia mais hortas domésticas e muito menos mãos a derramar textos pelas rimas de publicações que hoje enchem as bancas. A glória e a fama não salvam tanta gente do destino das couves (e sem ganharem sequer para as comprar). Sentirá quem escreve, por compensação, que influencia, persuade ou comove algum pouco os leitores?
Mas haverá leitores para tanta escrita a jorrar? E as prevenções contra os malefícios do tabaco acaso chegaram a convencer alguém? O mundo encheu-se de ideias excelentes e defensores de causas nobres, mas veja-se: os escritores que outrora enrouqueceram a avisar na Europa do perigo iminente da primeira e logo da segunda Grande Guerra - e quem os ouviu?
Quem acompanha no presente a tragédia grega percebendo que a mesma se apronta para nos bater à porta?  Quantos estão alerta para a hecatombe que se abate sobre a Europa, onde as ofensivas da alta finança especulativa internacional, com o Goldman Sachs à frente, prosperam como em mais nenhum lado? Quantos percebem com clareza para onde nos leva o empobrecimento geral da população e a ruína dos Estados?

domingo, 6 de maio de 2012

Net sob vigilância

Quem manda nos poderes do mundo não desarma. Os ataques continuam a ser lançados porquanto umas ilhotas de liberdade que resistem no espaço cibernético incomodam demais a gente que pretende nivelar tudo por baixo. Depois de SOPA e de ACT, que energicamente soubemos rejeitar, temos agora CISPA (Cyber Intelligence Sharing and Protection Act) a ameaçar de controlo a Internet.
Esta nova ofensiva contra a liberdade de expressão, esteio fundamental da democracia, foi aprovada pela Câmara dos Representantes norte-americana por 248 votos a favor e 168 contra.  O CISPA será usado, alegadamente (acrescenta a notícia), «em caso de possível ameaça informática», ficando esta «possível ameaça», para já, a pairar como a maior ameaça da Net que queremos autenticamente livre. O Governo português nestas coisas é zeloso e não perdeu tempo, aderiu logo.
Sobram, porém, motivos de preocupação. O novo projecto da partilha de informações privadas dos cibernautas por uma «inteligência» planetária, facilitada pelos governos aderentes, entrega aos Estados Unidos o pouco que lhe faltará para ter em posse o domínio efetivo das informações da população pouco menos que mundial. Promete agir em nome da «segurança» e da «proteção» não esclarecendo de que segurança e proteção se trata.
A preocupação avulta até porque o anúncio do CISPA coincidiu com a detenção, pela PSP, por «manifestação ilegal», de alguém que distribuía um papel informativo à porta de um centro de emprego e, em França, de um cientista parece que franco-argelino porque, veja-se isto, escreveu umas «ameaças» num mail. Assinalavámos então o Dia Mundial da Liberdade da Imprensa. E o site da Avaaz, organização consagrada à defesa de causas internacionais justas e humanas, apareceu a queixar-se de um ataque, notando que, pelo seu tamanho, «seria possível só de entidade governamental ou grande corporação».
Vai a onda imperial, finalmente, alagar o planeta e submergir a variedade imensa das ideias e opiniões em confronto vivo da humanidade plural? Ao serviço de quê? Tem a palavra, em primeiro lugar, os cibernautas.

domingo, 1 de abril de 2012

Informação suja

Que género de formação receberam os estudantes de jornalismo saídos dos cursos com diploma na mão e agora a trabalhar nas redações? Ouço a rádio, vejo televisão, leio jornais e o escândalo invade-me. Que informação, que jornalismo corre atualmente pelos canais?
Tanto quanto sei, quando os primeiros cursos superiores desta profissão nas suas variadas vertentes surgiram em Portugal (isto é, após a democratização, por volta de 1980), a formação não dispensava Deontologia e mesmo disciplina de Ética. As exigências das normas e regras aprendidas faziam-se sentir, naturalmente, logo que os profissionais da informação entravam ao serviço sob a alçada de um Conselho Deontológico. Uma dessas normas básicas, a mais imperativa, consistia em ouvir sem qualquer exclusão as partes envolvidas num dado conflito e, se houvesse que emitir opinião sobre o caso, o jornalista deveria assinalar claramente que era isso mesmo, uma opinião... justificável.
Nuns trinta anos, período de uma geração, operou-se uma viragem brutal. A subversão que varreu para fora da porta ética e deontologia e que obrigou os jornalistas a aceitar empregos precários e sem direitos foi acompanhada pela concentração, em boas mãos, dos órgãos de comunicação social. Implantou-se, nestas condições, a verdade única, o jornalismo tendencioso, a informação suja (tendenciosa, manipuladora, prostituída).
Não mais se cuidou, com autêntica isenção, de ouvir as partes envolvidas em cada história, de separar com nitidez o facto da opinião e oferecer informação clara e credível. Os colaboradores independentes, incómodos, foram banidos dos seus órgãos na peugada dos jornalistas da velha guarda com brio profissional e nome respeitado. A narrativa jornalística passou a reproduzir quase mecanicamente a versão que o lado mais forte punha a correr.
Os golpes do 11 de setembro ricochetearam na Europa, provocando desavenças étnicas internas sangrentas e destruidoras que levaram à fragmentação da Jugoslávia. Depois da agressão ao Iraque, houve a bendita «primavera árabe». As facções iraquianas digladiavam-se em guerras intestinas enquanto tunisinos e egípcios enchiam as praças  reclamando, à semelhança de sérvios e bósnios, pelo que não têm e lhes foi prometido.
Bem instalada (embebida) a informação no registo único, preparado estava o cenário que tornou invisível a divisão em dois do Sudão e chegou para justificar a agressão à Líbia. Os insurrectos que desencadeavam ali uma guerra civil eram os heróis da comunicação social, abrindo caminho para a façanha seguinte, contra a Síria. No quadro do Médio Oriente, a  negra sorte da Palestina varrida do mapa já era chaga velha, crónica e sem cura.
Assim se espalhou a insegurança e uma geral ânsia de pacificação. Veja-se o Kosovo «independente» ou a Tunísia às voltas em busca do seu destino tal como o Egito, a Líbia, o Sudão... e o Iraque, e Israel, e o Irão? Os princípios da honra humana, da legalidade e da justiça andam hoje tão subvertidos que os defensores da democracia e dos direitos humanos até já parecem iguais, senão piores, do que os regimes e os políticos ditos criminosos que combatem de armas na mão e que, atacados, se defendem.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Por exemplo: Murdoch

O escândalo das escutas ilegais que provocou de súbito a liquidação do jornal inglês News of the World e forçou o seu dono a desistir da compra do canal de tv por satélite, negócio apetitoso de uns dez mil milhões de euros, trouxe para a ribalta a figura de Rupert Murdoch. O magnata dos media (Austrália, Estados Unidos, Reino Unido e, enfim, em quatro continentes) ilustra exemplarmente as misérias em que chafurda a imprensa tablóide, do sensacionalismo barato custe o que custar. E agora - a lembrar Orson Welles no clássico filme «O mundo a seus pés» - parece que chegou ao momento de o céu lhe cair em cima da cabeça.
Em Londres, Nova Iorque, Sidney e outras cidades estão sob suspeita e investigação os critérios editoriais praticados pelos órgãos de comunicação social pertencentes à poderosa News Corp de Murdoch. Com a cumplicidade de políticos e de estadistas, este «cidadão Kane» concentrou um império mediático tão vasto e corruptor que lhe permitiu criar ou destruir governos, influenciar disputas eleitorais e políticas governativas.  É o que se diz agora, abertamente, quando o medo se dissipa e o magnata parece ter caído em desgraça.
O poderio de Murdoch provém da quantidade incrível de órgãos mediáticos que conseguiu concentrar na sua mão em diversos países. Se não fosse agora travado pelo escândalo das escutas (que envolve em suspeitas também os tablóides  do grupo «Sun» e o «Sunday Times», ficaria de posse de mais de metade dos media comerciais britânicos. O homem, com seu filho, é tido como um problema tão global quanto a corporação que criou.
Acusam-no de ditar orientações ideológicas aos seus órgãos, de corromper e controlar democracias, forçando políticos a seguir as suas próprias ideias extremistas quanto a guerra, tortura e outros problemas mundiais, ou destruindo carreiras de políticos  que lhe resistam com campanhas de difamação. É apontado por ter ajudado, nos Estados Unidos, a eleger George W. Bush e de ter às ordens a maioria dos presidenciáveis republicanos. A rede Fox News, do império Murdoch nos Estados Unidos, espalhou notícias para promover a guerra no Iraque, estimulou o ressentimento contra muçulmanos e imigrantes e lançou um movimento populista de direita.
Isto basta como exemplo da valia real de uma (des)informação sem escrúpulos, orientada apenas para a corrupção e o negócio lucrativo (ilustrando o quadro da decadência geral dos jornais, incluídos os gratuitos). Agrada às massas populares servindo-as de papel sujo dos seus jornais, manipula as opiniões sem respeitar os factos e, com as tiragens e audiências que atinge, atrai os anunciantes para a publicidade encarecida. Salienta também os sérios perigos, para os regimes democráticos, que acompanham a concentração de órgãos de comunicação social de cada país em poucas mãos escolhidas e amigas.
Em Portugal, onde temos na memória fresca o caso «Face oculta», essa concentração é já elevada apesar das disposições em contrário. Um grande número de órgãos privados mais influentes já está às ordens de um pequeno grupo de pessoas. Acrescente-se que, conforme se anuncia, um canal da televisão pública será em breve privatizado...