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terça-feira, 31 de maio de 2011

Vidas públicas... privadas?

Prometo, não vai ser mais um dos milhentos comentários ao caso de D. S. K., vitimado no seu luxuoso hotel nova-iorquino pelo reafirmado gosto de caçar carninha nova. Os amigos deste blogue sabem da pouca saída que nesta coluna têm os faits divers que fazem manchetes e emocionam os comentadores. Mas a desgraça do então ainda presidente do FMI abalou Paris e, aparentemente, a França inteira, a Europa e a América, pelo que tomo o caso apenas para avaliar até que ponto pode ser privada uma vida pública.
Trata-se de uma discussão centrada nos profissionais da informação que trabalham lidando com governantes, políticos, banqueiros, gente mediática ou mediatizada. Cedo os jornalistas se habituam a enfrentar a questão e a responder-lhe na prática, acatando assim ou negligenciando assado os preceitos do código deontológico aplicáveis a cada caso. E ninguém consegue evitar que esta nova questão, a do dito sr., se enrede e se torne polémica, cruzada por opiniões tão contraditórias quão os interesses em presença.
É preciso varrer a confusão e afirmar doutrina tão justa e exemplar que por si mesma se imponha.  Dispensam-se arrazoados, basta aplicar o simples, o comezinho senso comum. Rareia hoje tanto que surpreende como flor de cacto a colorir o deserto.
A forma como o sistema judicial tratou o sr. D. S. K. suscitou desde logo comparações com o similar de tipo europeu. Este ficou a perder. A justiça norte-americana mostrou ser menos morosa, primando mesmo pela rapidez. Sublinhou, especialmente, que todos os cidadãos são iguais perante a lei e, portanto, tratados igualmente.
Mas foi isso, precisamente, o que mais parece ter empolgado as opiniões europeias (e daí os álibis: armadilha, conjura política). Abstraindo-se do próprio caso, escandalizaram-se com as imagens do indivíduo levado a juízo, algemado, ele, habituado ao maior luxo, um dos mais poderosos do mundo, ali feito um farrapo, abatido poucos dias depois de ter estado em Lisboa a dar ordens aos governantes e políticos desta pequena República ibérica. Então... e o respeitinho?!
Neste sentido, houve muita opinião europeia que lamentou que o sr. D. S. K. não tivesse tido o caso por cá, pois seria bastante mais bem tratado - oh, sim, bastante mais! A empregada do hotel seria detida e castigada por difamar o preponderante personagem, tão amável que até olhara para ela. E o grande homem partiria com desculpas e vénias de toda a gente.
Aqui atingimos o cerne da questão. As figuras públicas, ou mediáticas em geral, incluindo as mais poderosas, terão legítimo direito a estar acima da lei ou, no mínimo, a manterem sob reserva uma fatia qualquer da sua vida privada? Até que ponto uma figura pública conserva ou perde, pelo facto de ser «pública» e na medida em que o seja, o poder para fechar a porta à curiosidade pública e mesmo à coscuvilhice?
Na verdade, as figuras mediáticas aparecem numa contradição viva e encarnam um paradoxo: pretendem ter vidas algo privadas sendo públicas. Porém, para todos os efeitos - os fastos e os nefastos - quanto maior for a dimensão pública que uma pessoa alcance, mais pequena será a liberdade real que lhe resta. Pretender fugir aos efeitos nefastos é ilusório: quanto mais a pessoa tem nome e rosto na praça, mais poder confere aos outros sobre si mesmo.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Notícias abundam, informação falta

Entre o cidadão e os acontecimentos mais sérios erguem-se paredes de crescente opacidade. Todavia, esses acontecimentos trazem consequências graves para cada cidadão e a vida coletiva em geral. Ora o cidadão, privado de informação esclarecida e esclarecedora, fica também privado de elaborar uma opinião sustentável sobre cada assunto... sendo esta a condição primeira da cidadania.
Generalizou-se portanto a atitude característica do «juízo suspenso» que alimenta nas massas o conformismo e a resignação. Chegámos ao ponto em que é normal não se ter opinião própria quanto a vastas gamas de problemas sérios como os ligados aos atos da governação do país ou quanto a acontecimentos dramáticos de grande relevo internacional. E eis-nos atolados na contradição: os banhos noticiosos diários deixam os cidadãos no escuro do que mais lhes importa.
De facto, a informação não é notícia (mercadoria de consumo rápido), embora esta sirva àquela. Portanto, navegando em plena maré cheia noticiosa, declara-se um défice clamoroso absolutamente nada democrático: sobram as notícias postas a correr mas falta informação, elemento indispensável à formação de opinião privada ou pública.
Veja-se um caso, o estendal (insondável?) de dívidas contraídas pelo Governo português e os bancos, as autarquias, empresas, equipas de futebol, famílias. A única «explicação» que o fenómeno vai tendo limita-se a responsabilizar a «crise vinda de fora», o que não explica nada. Interrogação espantosa: para onde foram esconder-se as riquezas que eram do país? Evaporaram-se?
Outro caso (não menos espastoso). Alguns países da NATO, a reboque dos EE.UU., resolveram impor a interdição aérea e bombardear um país soberano e o seu povo, alegando fins humanitários: proteger os grandes «libertadores» lá do sítio que se revoltaram - de armas na mão - por sinal (olha a coincidência!) a partir da cidade central da exploração petrolífera do país que logo lhe passou para as mãos. E agora, o Governo atacado e o seu povo, que se defenderam dos ataques  dos civis armados, são acusados pelos «libertadores» por se defenderem e estão sem poder mexer nos capitais investidos no estrangeiro.
Só mais um caso, o da anunciada morte de Bin Laden, no Paquistão. As versões do acontecimento resultam tão contraditórias que se anulam reciprocamente e ficamos sem atinar no que de facto aconteceu. Estaria o homem ainda vivo? E seria ele real? Ali, naquela casa? Como entender o comportamento dos governos envolvidos na condenação à pena capital sem qualquer julgamento?
A nuvem de suspeitas geradas em torno do 11 de Setembro, que tanta (in)segurança motivou, torna a adensar-se neste ambiente de suspeições, caldo pútrido de ambiguidades em que ressurge a teoria de que o ataque com aviões que atingiu a nação americana se deveu a maquinação conspirativa ainda escondida. Numa primeira abordagem, parece óbvio que a opacidade que rodeia os mais sérios acontecimentos do nosso tempo, sendo desmobilizadora da participação cidadã lúcida e consciente, resulta do falhanço da missão a que se votou a comunicação social - informar. Mas quem conhece a situação do jornalismo atual (como se pratica), não pode evitar um sorriso amarelo, desconsolado, para depois, enfim, assentir: esta informação, intoxicante e manipuladora, realmente não presta.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

WikiLeaks expõe segredos

Ao que parece, os jornais gratuitos nem já conseguem atrair quem antes acudia às bancas onde agora se empilham e arrefecem. Agora andam a aparecer pelas ruas, oferecidos na ponta de um braço ambulante que passa a distribuir o papel crivado de anúncios. Sabemos hoje que estes jornais não desmerecem assim tanto em comparação com os jornais que os leitores compram e pagam, mas foi deveras chocante ter de reconhecer tal evidência: todos se nivelaram por baixo.
Todavia, a Imprensa ainda conserva algum do seu prestígio antigo. É o único media de comunicação escrita em suporte de papel, que permite ler e reler ou, querendo, seleccionar temas, guardar e consultar. Portanto, foi para os jornais ditos de referência de Nova Iorque, Londres, Paris, Madrid ou Berlim que a WikiLeaks encaminhou, mais uma vez para tirar dos cofres e mostrar ao mundo, outra montanha colossal de documentos secretos da política estado-unidense.
A ampla divulgação das «matérias quentes» pretendida pela organização de Julian Assange acabou, porém, de novo, por não acontecer. A autenticidade dos documentos foi confirmada, mas os jornais, em vez de divulgação, entraram num debate marginal que apenas serve para desviar as atenções. Os 251 mil documentos, com mais de 700 enviados da Embaixada EE.UU. em Lisboa, copiados pela WikiLeaks através de intromissão nas redes governamentais, foram sumariamente despachados.
Alegaram os jornais que nada ou muito pouco do que os documentos revelavam era novidade, assim demonstrando que os jornalistas sabem muito mais do que publicam. A NATO-OTAN, naturalmente, condenou a ação e a Casa Branca reclamou: o «polícia do mundo» via em perigo a segurança do mundo. E, nos jornais acomodados na sintonia do que pensa o «amigo americano», instalou-se um debate bizantino para decidir até que ponto pode ir a liberdade de informação quando se trata de segredos de Estado.
Ora é esse mesmo o mérito maior da ação de Julian Assange. Demonstra quão frágeis são de facto as estruturas de segurança em vigor ao mais alto nível, por parte da potência que tanto se deleita a especular sobre os perigos do terrorismo. Mas, acima de tudo, demonstra que as políticas dos diversos governos envolvidos por aquele manancial de documentos andam, no fim de contas, a ser escondidas dos cidadãos.
A informação que chega à maioria que elege os governantes democráticos é amiúde um chorrilho de meias verdades e venenosas deturpações, logo mentiras, fornecidas em ondas contínuas. A imprensa, queixosa da baixa das tiragens e vislumbrando o seu fim, e os media em geral, renunciam à função que lhes cabe de verdadeira utilidade social mesmo que isso lhes custe a extinção. Sem dúvida, os cidadãos deveriam exigir uma informação mais completa, esclarecedora e credível aos seus governos e seus media, mas os cidadãos foram postos a dormitar nos baloiços do consumismo que os consome e, por seu lado, nem os governos nem os media irão despertá-los.
Vê-se: a diplomacia e a política, a governação de cada país e dos continentes entraram numa fase quase críptica. Aparecem ao alcance apenas de alguns iniciados próximos das esferas do poder executivo real. Eis o que pode extrair-se da corajosa iniciativa da WikiLeaks.

sábado, 13 de novembro de 2010

O capitalismo globalizado

Os murros no estômago que estão a sofrer as classes médias, e que as deixam, dobradas sobre si mesmas, em violenta convulsão, provocam naturais consequências. Atacadas por todos os lados (salários e níveis de vida a baixar, desemprego a aumentar, direitos sociais a desaparecer, impostos a subir,  idades da reforma a trepar), as classes médias estão a perceber, finalmente, qual o verdadeiro sentido das mudanças ocorridas nos nossos tempos. Não apenas em Portugal, não apenas na Europa, sim em todo o Ocidente.
Um facto parece, por tão notório, incontroverso: o capital financeiro especulativo, agora em crise, é que engendrou a globalização. Não tem nem quer ter pátria, fronteiras, limites. Quer-se livre de movimentos para chegar onde o lucro seja mais fácil, rápido e chorudo... ainda que lá ponha crianças a trabalhar, escravize ou corrompa (pretensamente sem rosto, o capital com donos vê isso com absoluta indiferença embora, por outro lado, mande os seus porta-vozes reclamar direitos humanos apontando para onde lhe convenha).
A globalização é a do grande capital, não a dos povos; da ganância predadora, não a da economia. Corresponde à fase em que a concentração do dinheiro no mundo atingiu um nível tão elevado que se tornou apátrida para afirmar a sua vocação imperialista. Estas mudanças, seja qual for a situação concreta que se registe em cada país, precisam de ser percebidas rapidamente para que alguém, pelo menos uma minoria, entenda o que na verdade se passa.
Os governos, eleitos pelos cidadãos, cederam pouco a pouco e de forma sonegada, a poderes não eleitos, competências legais importantes da governação que antes exerciam. A concepção característica das funções do Estado amoldou-se aqui e ali, pela prática, a um novo paradigma. Vestiu-se o Estado neoliberal por este outro figurino: é o capital financeiro que manda nos governos, é o mercado que comanda a economia.
Uma das consequências desta evolução é a de que deixa claramente à vista que são as classes médias as primeiras a suportar o peso de cada Estado. A camada mais débil da população não paga impostos, os dirigentes políticos e os amigos financeiros guardam-se para sorte ainda melhor, ficam portanto as classes médias, da média-baixa à média-alta, sozinhas a aguentar com o orçamento. Outra consequência aparece aqui: se os segmentos contributivos se contraem violentamente, diminuindo de tamanho, isso indicará que o tamanho do Estado igualmente enfraquece.
Mas a crise financeira é mundial, os Estados ficaram tremendamente endividados e, a todo o vapor, tratam de imprimir toneladas de notas (só papel impresso, não riqueza produzida, que essa, escondeu-se misteriosamente, deixando espalhadas por todo o lado montanhas de dívidas). Interrogação basilar: será que as classes médias nacionais irão assumir e pagar as dívidas do seu país? Por exemplo, sabe-se, porque não é segredo, que a maior potência mundial tem uma dívida pública e um défice tão altos que o FMI já teria tocado a rebate se no caso não estivessem os Estados Unidos.
E por cá? O total da dívida pública portuguesa representa, ao que dizem, já 110% do PIB nacional e o país, num descalabro crescente, continua a endividar-se para pagar juros de dívidas. Se o povo pagante, o tal que lida com notas de 5, 10 ou 20 euros, quiser sacrificar-se, vai sofrer durante muitos anos. E vão chegar cá as restrições do FMI, depois Portugal será enxotado para fora da união monetária ficando a pagar, com a sua moeda nacional desvalorizada, umas dívidas antigas inesgotáveis que vão parecer eternas. Mas eu, como tantos mais, nada fiz para merecer o castigo e posso prová-lo! Resta-nos o direito de abdicar do nosso Bilhete de Identidade: também queremos ser apátridas, cidadãos do mundo registados em offshores.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Esta informação do poder...

O jornalismo de investigação, praticado como serviço informativo de interesse público isento e livre, em defesa da democracia e da liberdade, foi sempre o brasão máximo da profissão jornalística. Mas, simplesmente, acabou. O que disso resta serão incursões avulsas mescladas de algum oportunismo ao situarem-se no terreno pantanoso de meras propagandas visando desgastes eleitorais da «esquerda» orgânica integrada.
Degradou-se o poder da informação, transformada na informação do poder, não por qualquer capitulação dos jornalistas em bloco mas, simplesmente, porque a frágil flor da independência dos seus órgãos de informação caiu em mãos de quem renegava essa independência. Dispondo da propriedade dos órgãos de referência, foi fácil aos senhores do grande capital financeiro orientar e dominar a informação «conveniente». E, neste pé, será preciso repetir que os jornalistas são assalariados?
Interrogação pertinente: causou bastante estranheza a frase há tempos aqui escrita que atribuía a qualidade de jornalistas em Portugal não o Sindicato dos Jornalistas, sim a administração do órgão empregador. Mas é a realidade. Quem emprega é que inicia o caso: propõe o candidato à profissão ao Sindicato, que lhe confere ou não a carteira profissional.
Logo, uma primeira escolha é feita pelo patronato. Depois, ao exercer a profissão, cada jornalista estará integrado num setor com poucos órgãos de referência, onde abunda o trabalho precário e sem direitos e é fácil ficar com o nome «queimado». Além de que trabalha sob a alçada da lei aplicável, a começar pela Lei de Imprensa.
Maior estranheza causará decerto o facto de que a Lei de Imprensa atualmente em vigor, alterada em data memorável, obriga os jornalistas a revelar em tribunal as fontes em que beberam a informação. Ora ter a obrigação de, em juízo, proceder a tal identificação (ou ficar preso) decapitou cerce, pela última raiz, a liberdade de informação restaurada em Abril. Até alguma liberdade de expressão, assim de golpe, levou sumiço.
Admira, então, que o jornalismo presente esteja a morrer, amortalhado em tristonho demissionismo, e que os jornais percam leitores?Admira, num contexto mais lato, o escândalo contido na «Face oculta»? Quantos portugueses estarão preparados para enfrentar o perigo de uma total «italianização» da vida nacional?
As manipulações da informação até já ousam atingir esferas do poder judicial. Um escândalo recente  demonstra às claras o avanço (corruptor) da ofensiva: a grosseira deturpação do relatório da Comissão Europeia para a Eficácia da Justiça relativo a este ano. Segundo informação da agência nacional de notícias, alegadamente baseada no relatório, haveria em Portugal juízes à farta, a trabalhar pouco e a ganhar em barda.
Um comunicado da ASJP repôs logo os factos, mas a comunicação social ignorou-a quase por completo e a falsidade espalhou-se. Era a «verdade» conveniente num quadro em que as condições materiais do exercício profissional dos juízes não passam de pretexto. O que está em causa, embora omisso, é o alarme que causa entre os juízes  de carreira uns «outros»  juízes que provêm de nomeação política, deixando os primeiros a sentir cada vez mais assediada a independência do poder judicial.
O conflito vai em crescendo e não é nenhum torneio floral. Basta notar que o presidente do sindicato do Ministério Público defende, na sua interpretação da lei, a responsabilização penal dos políticos. Só quem viva nas nuvens não percebe o vento que por aqui sopra - uma nortada que parece querer envolver tudo.

domingo, 10 de outubro de 2010

Manipulação em nome da Paz

Atribuir o prémio Nobel da Paz a um dissidente preso na China mostra como estamos ainda envolvidos em ambiente de «guerra fria». Acabou, porém, o tempo do bilateralismo, no mundo reina uma única potência (hegemónica até ver). O escolhido este ano pelos académicos suecos para «acompanhar» Barack Obama poderá servir à baixa política mas não contribuirá para convencer o Governo chinês a valorizar a cotação da sua moeda por mais que Washington suplique.
E cá estamos na baixa política, ouvindo clamores em defesa dos direitos humanos e da democracia, clamores justiceiros que atravessam a Europa e percorrem talvez metade do mundo. Mas quem assim fala tão justiceiramente, fala diante de microfones e câmaras tv, ou escreve na imprensa. É a opinião publicada e publicável, a do Pensamento Único, a informação massificadora, que aceita mal a contradita ou a contestação.
Os órgãos de comunicação social, redes de televisão, imprensa e rádios ditos de referência estão concentrados e dominados por grupos poderosos. Deixaram de exercer uma função de utilidade social para servirem interesses particulares. Os caudais noticiosos diários são tratado por agências que funcionam aplicando eficazmente os dez preceitos da manipulação dos media descritos pelo prestigioso linguísta estado-unidense Noam Chomsky: procuram distrair as atenções públicas dos problemas maiores criados pelas elites políticas e económicas; criar um aperto para propor uma «soluçã(uma crise económica impõe a perda de direitos sociais ou de serviços públicos); avançar a conta-gotas com medida política tão inaceitável que provocaria uma rebelião; tornar aceitável um sacrifício futuro... porque não é imediato; falar ao público tratando-o como criança de pouca idade; convencendo-o a gostar da ignorância e a viver na mediocridade, tal como a reagir com emoção e a detestar a reflexão, ou que é  moda ser mesmo estúpido, vulgar, inculto; etc.
Assim tratado, sob a torrencial informação que o submerge, o público talvez não se lembre mais dos direitos humanos e da democracia que faltam aos palestinianos bloqueados, espoliados, massacrados e humilhados na sua própria terra; nem dos iraquianos invadidos, torturados e mortos sem culpa, apenas com petróleo; nem dos presos raptados e mantidos sem julgamento em Guantánamo; nem dos direitos humanos no Haiti, na Colômbia, no Congo, no Corno de África, de tantos negros vítimas do Katrina em Nova Orleães... Cala-te boca! Cala-te, pois a principal potência mundial e seus aliados até vem mostrando quanto respeitam as leis do direito internacional.
A grande questão é que a potência se afunda dilacerada pelas suas próprias contradições. Mas encher os noticiários com barragens de críticas ao regime que assim trata um ativista dissidente leva a perguntar: e como são tratados os ativistas (não de direita, é óbvio, tão bem vistos pela «inteligência» U. S.) que levantem voz ou mostrem punhos fechados? E, enfim, não existirá o que se cala também onde a barragem sonora é mais potente?!

domingo, 13 de junho de 2010

Em defesa da biodiversidade

Nos campos natais da minha infância via espécies de flora e fauna que desapareceram há tantos anos que hoje já quase ninguém lembra. E, façam o favor, serão três quartos de século assim tantos anos? É a duração média de uma vida na atualidade, quando, por contraste, aumenta a extinção de espécies, imensas variedades de plantas e bichinhos que nem chegam a ser conhecidas e estudadas.
Sabemos, porém, que o equilíbrio natural assenta em sistemas de extrema delicadeza e complexidade e que a intervenção humana não cessa de os agredir como se o equilíbrio natural estivesse garantido no céu contra todos os riscos. É um comportamento irracional, ameaçador e suicida, que se estende ao planeta todo. Governantes e poderosas multinacionais dispõem do mundo como senhores absolutos e até ousam autorizar a introdução de mais e mais organismos geneticamente modificados (OGM) estando longe de conhecer todas as consequências desses actos.
A biodiversidade está em crise  e, curiosamente, não apenas no interior da natureza ameaçada. Também na esfera do social avança um processo idêntico. A diversidade humana das opiniões está a ser esmagada no terreno das mentalidades pelo rolo compressor do Pensamento Único.
Efetivamente, torna-se não menos necessária, pois é mesmo imprescindível, uma biodiversidade de ideias correntes para garantir a renovação da vida. Ora não é isso o que podemos ver. De telecomando na mão, percorremos cinquenta ou mais canais de tv por cabo e a monotonia é total: os canais de notícias dão  informações idênticas e os outros, de «género» (desporto, cinema, música, infantil, etc.), especializaram-se tão a preceito que ficaram previsíveis de tão repetitivos.
Os jornais e revistas entraram na onda. Imitam-se uns aos outros de tal jeito que o discurso da informação nem atina como pode renovar-se para adiar a morte que a descida constante das tiragens anuncia. Mesmo a edição literária trabalha bastante nesse sentido, depois de banalizar o livro transformando-o em vulgar mercadoria consumível pelo mercado.
Na ordem social reinante, assim conformada, evitam-se temas e questões incómodas, polémicas, trabalhosas. Discutir, sim, apenas o campeonato de futebol e coisinhas familiares, pacatas e pacíficas que felizmente animem a malta e desatem as línguas açaimadas.
Insulta a mediocracia do ambiente quem aparece a saber algo mais do que o vulgo sabe. Quem mostre duvidar, por exemplo, que Hugo Chávez não é um ditador, que o Irão mente porque quer ter bombas nucleares (para defender o seu petróleo teimando em o trocar por euros?), que a Coreia do Norte ameaça muito mais do que o presidente deposto do Haiti... com certeza não acredita na Casa Branca e no Pentágono. Pratica um sacrilégio. Porque na ordem social reinante toda a gente sabe distinguir os regimes e países que são declarados amigos e democráticos, dignos de simpatia, graças às ideias  superiormente postas a correr. A gente, assim de cabeça feita, nem precisa mais de pensar!

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Quem diz «Adeus»

Hoje vou ceder a palavra a alguém. Alguém que se despede e, portanto, vira as costas e se distancia. Mas vai transido. E, de mordaça na boca, deixa-nos palavras vivas e escaldantes, dramáticas como a situação real de crise (ética, financeira, económica) em que estamos a viver. Poucos que sejamos, temos de as atender.
As palavras são de Paul Craig Roberts, economista norte-americano, lembrado autor de How the Economy Was Lost, que foi editor do «Wall Street Journal», elemento preponderante de vários outros jornais, como o «Washington Times», assistente do secretário do Tesouro dos EUA, colaborador emérito da imprensa, etc. Porém, desde há seis anos, não tem um único espaço onde escrever. Por isso diz «Adeus», assim:

«Houve um tempo em que a caneta era mais poderosa do que a espada. Houve um tempo em que as pessoas acreditavam na verdade e a encaravam como uma força independente e não como um auxiliar do governo, classe, raça, ideologia, interesse pessoal ou financeiro.
Hoje os americanos são dominados pela propaganda. Os americanos têm pouco respeito pela verdade, pouco acesso a ela e pouca capacidade para a reconhecer.
A verdade é uma entidade importuna. É perturbadora. Está fora dos limites. Aqueles que a exprimem correm o risco de serem marcados como "antiamericano", "anti-semita" ou "teórico da conspiração".
A verdade é uma inconveniência para promotores públicos que querem condenações, não a descoberta da inocência ou da culpa.
A verdade é inconveniente para ideólogos.
Hoje, muitos daqueles cujo objectivo era outrora a descoberta da verdade são agora generosamente pagos para a esconderem. "Economistas do mercado livre" são pagos para vender a deslocalização ao povo americano. (...)
Economistas que outrora foram respeitáveis ganharam dinheiro a fim de contribuir para este mito da "Nova Economia". (...)
Todas as vezes em que o dinheiro é insuficiente para enterrar a verdade, a ignorância, a propaganda e a memória curta acabam o trabalho. (...)
Como economista, fico estupefacto pelo facto de os profissionais da Ciência Económica americanos não terem consciência de que a economia dos Estados Unidos foi destruída pela deslocalização do PIB dos EUA para países além-mar. As corporações dos EUA, na busca da vantagem absoluta ou dos mais baixos custos do trabalho e dos máximos "bónus de desempenho" dos seus presidentes, transferiram a produção de bens e serviços vendidos a americanos para a Chinaa, Índia e outros lugares no exterior. Quando leio economistas a descreverem a deslocalização como comércio livre baseado em vantagens comparativas, percebo que não há inteligência ou integridade na profissão americana da Ciência Económica. (...)
Os americanos, ou a maior parte deles, demonstraram ser maleáveis nas mãos da polícia do Estado. (...)
Nos últimos seis anos fui banido dos media de referência. A minha última coluna no «New York Times» apareceu em Janeiro de 2004, em coautoria com o senador democrata Charles Schumer, representante de Nova Iorque. Tratámos da deslocalização dos empregos estado-unidenses. O nosso artigo na página editorial provocou uma conferência na Brookings Institution, em Washington D.C. e uma cobertura ao vivo do C-Span. Foi lançado um debate. Nada disso poderia acontecer hoje.»

Lamento reproduzir apenas uns trechos, não o artigo na íntegra. É importante. Mas pode ser lido inteiro no endereço http://www.counterpunch.org/roberts03242010.html [Foto: criação de Erik Johansson.]

quarta-feira, 3 de março de 2010

Cantinho livre só escondido

O entrevistador experiente sabe como o político é hábil a responder a tudo menos ao que lhe perguntou e valeria a pena saber limpamente. Mas a habilidade de quem fala «à política» alargou-se e anda agora na boca de qualquer língua de pau. Perguntamos se amanhã vai chover a quem logo nos pergunta se precisamos de guarda-chuva... porque tem loja de guarda-chuvas.
O espaço da comunicação interpessoal, sobretudo, encheu-se de ruídos fáticos, viciosos e parasitários, sem qualquer função apelativa, que enredam e atrapalham ou chegam mesmo a obliterar o sentido das mensagens. A comunicação social também se deixou invadir pelo gosto da desconversa malandra e assim se encheu a actualidade de questões distorcidas. Preso numa espécie de jogo de espelhos deformantes, o país informativo pôde equacionar durante uma semana se haveria em Portugal défice de liberdade de expressão...
Porém, não era esse o tema em foco, o que importava analisar. Era desconversa malandra. Existe liberdade de expressão, liberdade de imprensa, mas o nó do problema (logo submergido pelas enxurradas no Funchal) era outro e mal foi aflorado.
Realmente, o que mais importa nem sequer consiste em averiguar se temos em circulação uma informação pluralista. Acima de tudo, importa saber se essa informação é tão abundante e variada quanto convém ao pluralismo e à participação cidadã. Primacialmente, que qualidade e grau de transparência autêntica atinge esse pluralismo concretizado.
Neste ponto, sim, estava o busílis. Visível como o icebergue que mostra apenas uma pequena parte do volume que esconde na água.
A informação tornou-se cada vez mais homogénea devido ao seguidismo dos órgãos (é possível, por exemplo, ver em noticiários da tv um mesmo tema tratado da mesma forma e simultaneamente por diversos canais). Nos jornais e na rádio reina idêntica homogeneização, produtora de monotonia. Deve-se isso ao conformismo instalado e à concentração dos órgãos numas poucas mãos "idóneas" (que alterou o panorama nacional dos media).
A ideologia que os factos noticiados transportam em textos e imagens, para além de uma evidente parcialidade, assume claras orientações de direita. Todavia, o alinhamento eleitoral da maioria dos cidadãos é de esquerda, donde se conclui que o público consome imprensa de direita, sendo maioritariamente de esquerda, talvez por não ter outra.
Impôs-se, portanto, uma uniformização da informação predominante. Uns órgãos que aparecem a parangonar escândalos avivam a concorrência meramente em busca de audiências ampliadas ou tiragens extra da última edição. Alvejam o que se lhes afigura «de esquerda», no interesse de certos partidos conservadores, enquanto cuidam do próprio negócio.
Assim, a informação que circula por aí revela escasso pluralismo. A uniformização trouxe uma normalização com marcas conservadoras de direita. Algum motivo têm, então, quantos opinam que a informação e o jornalismo estão a entrar em descrédito e falência, considerando que os espaços de verdadeira liberdade que restam são cantinhos escondidos como este onde podemos encontrar-nos e dialogar entre nós.

sábado, 24 de outubro de 2009

O novo ópio das massas

Em anos ainda recentes, os três pilares clássicos das sociedades modernas tiveram alguma companhia. Os poderes executivo, legislativo e judicial funcionavam sob o escrutínio das notícias e dos comentários jornalísticos. Mas onde pára hoje o «quarto poder» da Imprensa?
Os actuais media - os jornais, as rádios, as televisões, os satélites - alargaram incomensuravelmente o espaço da sua comunicação ao ponto de a tornar invasiva, sufocante. A propriedade desses órgãos e meios principais foi entregue a potentados financeiros «de confiança», atentos apenas aos lucros da indústria dos «conteúdos». O anterior pluralismo das ideias e das opiniões em circulação deu lugar a uma informação normalizada, conformista e manipuladora que percorre o mundo.
O poder da Imprensa transformou-se na Imprensa do poder. Acentuaram-se ou ocorreram outras transformações decisivas. O modelo de vida americano contagiou a Europa e o Ocidente com a sua avidez consumista, o seu individualismo radical, a sua procura de triunfo na carreira da vida, enriquecendo.
Os valores materiais subiram, a pouco e pouco, aos altares. As sociedades, libertando-se das superstições (ou substituindo-as apenas?), laicizaram-se. Laicas passaram a ser as regras morais e as concepções éticas na medida em que se adaptaram à prática.
As igrejas, antes tão poderosas e de tão predominante influência religiosa e profana, recuaram. Contavam nos templos os fiéis que os frequentavam, os clérigos novos que já nem revezavam os idosos, e poucos reis havia para os cardeais e os arcebispos coroarem nas catedrais entre nuvens de incenso. Era um facto, a religião perdera força, imenso terreno nestas sociedades individualistas embriagadas pelo consumismo hedonista.
Fez-se então lembrar a frase de Marx (1818-1883). A religião deixara de ser o ópio do povo. E um senhor, creio que nada revolucionário nem de esquerda, aparece agora a escrever (cito um trecho):

«Nos dias de Marx, a religião era o ópio das massas. Hoje são os media. Basta ver a informação dos media que facilita a capacidade da oligarquia financeira para iludir o povo.»

O senhor é Paul Craig Roberts. Foi secretário assistente do Tesouro na Administração Reagan e é co-autor do livro The Tyrany of Goods Intentions. [Foto: aspecto, virado para o céu, da montanha em Michu Picchu.]

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Jornal do dia

As notícias de hoje lembram o início da Segunda Grande Guerra há 70 anos, o acordo de paz assinado pela União Soviética de Estaline com a Alemanha de Hitler e a perda de leitores que os jornais portugueses continuam a registar nestes últimos tempos. Talvez tudo isto seja fio do mesmo novelo.
Uma certa especulação de direita compraz-se em pôr Hitler e Estaline lado a lado. Não prima pela lucidez nem pelo rigor mas, pela força da insistência, parece convencer alguma opinião vulgar ainda marcada pela repressão salazarista. Desse ponto de vista, qualquer governante socialista democraticamente eleito é um ditador com a mesma lógica que transforma em «comunista» qualquer revolucionário e o «comunismo» uma ameaça à nossa paz onde quer que surja.
Eu, quando a guerra terminou, tinha 15 anos e disso (em alívio e festa) me lembro perfeitamente, mas não me perguntem pelo acordo de paz, o menino que era brincava jogando o pião. Ainda assim, graças à biblioteca enorme que tem vindo a ser formada desde então, pode concluir-se com segurança que a guerra iniciada com a invasão da Polónia teve como objectivo último liquidar o regime soviético contando desde sempre com a concordância tácita dos países europeus.
Nesta situação, o acordo tão criticado serviu para dar à União Soviética tempo suficiente para se armar e preparar para a guerra. De facto, foi o povo deste país que, morrendo no mais elevado número, com heróicos sacrifícios, derrotou os exércitos invasores e livrou o mundo do nazismo. Quem cobre de críticas e impropérios o acordo revela, ao mesmo tempo, que gostaria de ver o nazismo vitorioso instaurado no país dos sovietes... e no mundo.
Seria óptimo que factos desta relevância fossem equacionados pelos jornais. Em sintonia cerrada com o que se diz em Washington, celebram como amigas as «caras lindas» e diaboliza as caras restantes por mais democráticas ou dignas que na realidade sejam. A manipulação da informação cresceu até ao ponto de manter em circulação apenas mentiras e meias verdades entre pura e descarada propaganda.
A melhor informação que podemos obter, agora, é a que consegue fugir da informação deformadora. Por algum motivo os jornais estão a desacreditar-se perante os seus leitores habituais. Nem os gratuitos se salvam de baixar as tiragens. Não querer saber nada dos acontecimentos para além do nosso bairro, para manter o intelecto limpo, talvez seja uma resposta!

domingo, 12 de julho de 2009

A idolatria das massas

A dimensão do espaço mediático expande-se incomensuravelmente. Parece que não tarda a abranger o mundo inteiro e a cantar vitória definitiva. Será então o momento de vermos em cena o Espectáculo Único transmitido em directo para o palco mundial.
Dois casos recentes o demonstram e anunciam: a apresentação de Ronaldo em Madrid e a morte e funeral de Michael Jackson. Canais de televisão, rádios e jornais competiram freneticamente para manter as massas, dias e dias, de olhos em alvo. Cheios até à cegueira total.
No primeiro caso, exibia-se o jogador de futebol como um troféu conquistado porque o clube paga por ele a brutalidade de uns 95 milhões. E o rapaz lá foi recebido no estádio com aplausos de 85 mil espectadores - que bem já o conheciam e que, felicíssimos, se deslumbraram vendo-o dar uns breves toques na bola - ao mesmo tempo que milhões de outros telespectadores de uma longa série de canais de tv e rádio transmitiam a cena na hora.
O segundo tomou a morte e a vida do cantor pop como os animais necrófagos devoram na selva as carnes putrefactas. Não vão largar o pitéu enquanto multidões inteiras não vomitarem de nojo e repulsa. As tristezas e misérias da vida do cantor, tal como algum misteriozinho notado na sua morte, até serviram para que o seu funeral fosse outro espectáculo gigantesco transmitido em directo.
Estes dois casos ocuparam imenso espaço mediático durante dias, num ensaio geral do que promete implantar-se e ser o Espectáculo Único. As massas estão a ficar prontas e maduras. Os senhores do mundo têm vindo a trabalhar para isso, a massificação (que, lembre-se, resulta numa tirania), avança.
As massas, porém, precisam de ídolos. Os ídolos, por sua vez, precisam de adoradores, adoração. O que foi possível ver no estádio que vitoriou Ronaldo foi, por um lado, os milhões que ele recebia pelo seu jogo de pernas, e por outro, a promessa sonhada de que outra pessoa, por exemplo tu ou eu, podem tornar-se milionárias, com um pouco de sorte, neste mundo que é um estádio onde se jogam os golos do futebol da vida.
Um ídolo é elevado à altura de um deus, categoria que um certo jornal dito de referência atribuiu a uns tantos numa página onde coube uma farturinha de «deuses». A um ídolo pop, que vendeu milhões de discos e faleceu deixando o mísero corpo crivado por incontáveis agulhas, também não falta magia trespassada pelo drama. No fim de contas, em última análise, as massas adoram estes ídolos como bezerros de ouro.
Diz-se por vezes que é ínfima a distância que vai de um ídolo a um deus e que as massas criam os deuses e os monstros de que necessitam para justificarem as suas esperanças, medos e terrores. Ora os problemas deste nosso tempo não pernitem grandes esperanças. Uma nuvem densa de medos e terrores avança sobre as massas cativas e subjugadas, que se resignam a consumir o que lhes levam à boca e metem pelos olhos - mais e mais do mesmo, cada vez mais do mesmo, a indigesta palha com sabores e cheiros de antigamente.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Um mar de mentiras

O jornal que me suja os dedos e não sei que mais anunciou há dias que esta crise liquidou 700 milionários no nosso país. Ninguém chorou, que se saiba, com pena deles pois aquelas centenas de milionários não deixaram de o ser por terem distribuído pelos pobres o que possuíam. As suas fortunas, simplesmente, tinham-se sumido sem proveito para alguém com verdadeira necessidade.
Eram vítimas do jogo que jogavam, o mesmo jogo que os terá enriquecido, mas o jornal omitia este lado da questão nem referia que os milionários continuavam decerto longe da condição de pobres e, quem sabe, prontinhos para emendar o destino. Com efeito, os jornais , e em geral os media generosos, habituaram-se a dar dos factos meia verdade. Ora, como se sabe, meia verdade é uma grande mentira.
A informação transformou-se numa indústria de «conteúdos» não menos alienantes do que a circulação de produtos da cultura pimba. A relação entre a realidade dos factos principais que a todos nos importam e as notícias diárias enfraqueceu-se até quase desaparecer como coisa de somenos, incómoda ou negligenciável. Passámos a vogar na ondeação de um mar de mentiras.
A deriva começou sob a desculpa de que a informação, devidamente contextualizada, ocupava muito espaço. Tornava-se maçadora para quem a pretendia breve, rápida, sintética, ágil, isto é, para quem queria aceder aos factos e só aos factos do dia. Acabámos imersos numa literatura sobre a realidade feita por discursos diversos proliferantes mas homogeneizados e afins sobre os factos da realidade.
A informação vital sobre as questões determinantes foi-se distanciando e ficando sonegada em níveis cada vez mais elevados. Mesmo nas administrações (da governação, das instituições públicas, das empresas), vai-se reduzindo o número de indivíduos com conhecimento cabal do conjunto de segredos que de algum modo os implicam. Têm portanto um conhecimento parcial e não global, ou actualizado, do que lhes toca.
O dramatismo incrível a que chegámos nesta situação sente-se e pode medir-se quando simples conversas, nos contactos interpessoais quotidianos, nos deixam estarrecidos ao revelarem a desinformação instalada em gente informada. Ouçamos, por exemplo, a lojista mãe de aluno no ensino básico a falar da luta dos professores por um outro estatuto da carreira. Ou, noutro caso, trate-se do rendimento mínimo, da percentagem dos desempregados, das fraudes e das ganâncias dos banqueiros, dos efeitos reais do programa agrícola comum, da dívida da Estado... Misturemo-nos com intelectuais e ouçamo-los opinar sobre os direitos dos palestinianos ocupados e combatidos por Israel, o 11 de Setembro, a invasão do Iraque, a posição do Irão ou da Coreia do Norte perante os Estados Unidos e o Conselho de Segurança...
Abra então a boca quem dispõe de informação bebida em fontes alternativas. Será olhado com estranheza, como um extraterrestre. A língua que fala será estrangeira, suspeitosa, incompreensível. Um mundo de mentiras alagou os espaços públicos e vai formatando sem cessar as consciências, embalando-as num sonho irreal. Quando as massas acordarem, um dia, voará tudo no fragor de um imparável explosão. [Ilustração: de Edgar Mueller, artista alemão que pinta ilusões de óptica no piso das ruas.]

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Mundo perigoso

A concentração dos media em pouquíssimas mãos ocorreu em países europeus da comunidade, não apenas em Portugal. Porém, no nosso país, a concentração adquire aspectos especiais dado o atraso sociocultural de uma parte substancial da população e o peso da «memória» que nela ainda tem a Ditadura. Em geral, a posse de jornais, rádios e televisões, e agora também editoras de livros, na Europa, demonstra o crescimento inaudito da riqueza privada acumulada que chega para investir em estratégias de domínio e manipulação da informação e dos comportamentos massificados; e demonstra mais, as portas francas dos legisladores quando a elas chamam os poderosos.
Não admira, pois, que o poder da Informação (defendido até à dor por gerações de jornalistas) se tenha transformado na informação do Poder.
E foi assim que os jornalistas ficaram como estão: com a dignidade profissional atropelada, embebidos no desemprego ou nos jogos do patrão, na autocensura e numa permanente instabilidade imposta por vínculos laborais precários. E foi assim que, pela conjugação de circunstâncias nada inocentes, se instalou entre nós este jornalismo pardacento e seguidista (basta ver nos telejornais as mesmas notícias, com abordagens idênticas e quase simultâneas). E foi assim que se espalhou pela Europa, com a degradação do ensino público, a «cultura» da verdade única difundida por canais noticiosos principais (ingleses, americanos, europeus), decerto porque os políticos do velho mundo sintonizam a Casa Branca com fervor devoto. Na verdade, parece que a União Europeia quer partilhar o Ocidente com os Estados Unidos, nação altamente militarizada que os pacifistas têm de considerar com bases espalhadas a esmo.
Felizmente, a era Bush está no fim e, com ela, esperemos que se extinga também a gracinha de acusar de antiamericanos amigos autênticos do povo americano, mas críticos de Bush. Só as particularidades do sistema eleitoral da nação o fizeram presidente duas vezes e nunca, tanto quanto sei, o voto universal directo e reconhecido. Todavia, com ele, o mundo tornou-se bem mais inseguro e perigoso.
Ouvem-se vozes a afirmar que os alegados «senhores do mundo», esses sim, são mais perigosos até porque não são evidentes. O livro de Daniel Estulin, de 2005, suponho que ainda não traduzido e editado em português, analisa a existência e o sentido do Club Bilderberg, descrito como um «governo mundial na sombra». Foca o eventual perigo de se estabelecer uma «escravidão total», mas o autor tranquiliza-se, descartando tal perigo. Aponta investigações e ensaios sobre o comportamento humano demonstrativos de que a manipulação deste comportamento não pode resultar de castigos ou penalizações que, embora disciplinem os comportamentos em certa medida, geram – diz ele - «sentimentos de raiva, frustração e rebeldia» (pp 8-9 da edição Planeta, em espanhol).
Gostaria de partilhar da tranquilidade de Estulin. Porém, o que se nos oferece à vista não vai por aí. A saúde mental de uma população convenientemente distraída e cretinizada pode degradar-se mais e mais. Há quem trabalhe nisso (in progress desde o início dos estudos de mercado e marketing, é bom lembrar).

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Diários generalistas, adeus!

Sujo os dedos nos jornais diários há imensos anos. Posso contá-los (são uns 65), pois estou a ver-me, adolescente, debruçado nas páginas de «O Primeiro de Janeiro» abertas como velame de caravela. Rugia em 1944 a Grande Guerra no mundo (os políticos prometiam-nos que ia ser a última!) e chefiava a redacção do jornal portuense Jaime Brasil, que deixou fama de homem sério, competente e democrata autêntico, amordaçado porém, como todos os jornalistas, pelo regime da censura prévia imposto por Salazar. Neste período, o «Janeiro» colocou-se à frente dos outros órgãos da imprensa diária nacionais ao surgir impresso com duas cores que, misturadas, permitiam a tricromia, novidade apetecível entre a negrura da concorrência.
Acontece que ando agora a sujar não apenas os dedos, também o precioso miolo que o crânio, pela sua dureza, protege. Eis porque estou a despedir-me do último jornal que ainda leio cada vez mais irregularmente, exclamando no íntimo todas as manhãs: adeus, diários generalistas!
O velho «Janeiro» finou-se há semanas após lenta agonia, e passou a jornal gratuito. Foi solução da sobrevivência para o que já estava caduco. Mas os tempos vão maus, vão mesmo péssimos para os diários ditos de informação geral, idem para o jornalismo e para os jornalistas. Não por acaso, a informação já nem se distingue bem da publicidade ou da propaganda!
Depois de ter ficado com o jornal menos mau, verifico que todos são igualmente maus e vou-me convencendo de que que não valem o tempo de os folhear. Podem aprimorar os grafismos, abundarem as fotos, imprimirem-se a cores… porque as vendas caem, as tiragens baixam, e então os ditos correm em busca dos anúncios, muitos anúncios, mais e mais anúncios…
Diz-se por aí que os jovens não lêem imprensa (apesar de convertida ao tabloide), que preferem a Internet. É verdade, pelo computador chega-nos imensa e muito variada informação a casa, mas a dimensão virtual da Net não nega o mundo tal como é, cheio do fervilhar constante de acontecimentos diversos à tona dos dias, cheio de superficialidades e enciclopedismos baratos, pois por ali se expande tudo quanto de nefasto o mundo tem, por vezes até com manipulações horrendas a que não falta cheirinho a enxofre.
Os públicos vão ficando menos informados, ou desinformados, do que realmente acontece na actualidade autêntica que os envolve mas da qual vão sendo arredados, de olhos postos no caminho da bola como se dela possa vir honra e fortuna, ou entretidos com questões de lana caprina. Avulta em crescendo no país um défice de informação jornalística (isto é, fiável, clara e correcta) que se traduz, noutro plano, num défice de cidadania.
Evidentemente, a Net alberga também matérias dignas deveras interessantes e positivas. Mas têm a sorte das vozes que, fora do mundo virtual, apelam para a clarificação das inteligências: a maranha total abafa-as. Enfim, há quem vaticine a morte breve dos jornais de referência. Teremos então chegado ao tempo das ignorâncias e alienações instaladas, propiciadoras de soluções totalitárias?

domingo, 27 de abril de 2008

Uma nova fase

Detenho-me neste percurso para, de certo modo, retomar o fôlego.
Na verdade, após 85 «postagens» - conforme a expressão corrente, mas, cá por mim, dou preferência a «edições» - num período de três meses, chega o momento de abrandar um pouco e de olhar para trás. Tenciono tratar das etiquetas que permitem catalogar tematicamente cada texto editado e, de passagem, rever-lhes a apresentação, pois de início a inexperiência restringiu a edição de imagens.
Significa isto que vai ser menos assíduo o aparecimento de «novidades» neste blogue. Abre-se aqui uma nova fase mas manter-se-á de algum modo o fio destas minhas crónicas da final-idade. Fio adelgaçado, não partido. Adelgaçado neste ponto para que possa atender ao papel que como administrador deste espaço tenho que desempenhar.
Gostaria realmente de que o espaço continuasse vivo, a receber visitantes. Neste sentido vou trabalhar. Desejo a sua valorização mediante propostas inovadoras em projecto para muito breve, não da sua estagnação.
Poderia portanto escrever, numa tabuleta tão imaginária quão temporária, que o blogue entra em obras de beneficiação por uns dias.
Uma alteração já introduzida retirou os Comentários. Tiveram sempre pouco uso, até agora, porque amigos e conhecidos preferiam enviar por e-mail, directamente para mim, os seus comentários, de modo a obterem mais amplas trocas de opiniões. Poderiam continuar activos, mas… desde há poucos dias começou a entrar por essa janela uma mosca varejeira que, tendo o gosto de frequentar retretes, se julga no direito de vir sujar o que a seus olhos alveja.
Outra alteração que vou tentar introduzir consistiria em inverter a ordem por que os textos podem ser (re)lidos: do início (em 27 de Janeiro) para o fim (digamos, este «post» de hoje).
O que dispensaria deveras, com notável benefício, seria o funâmbulo que passa por aqui em busca de alimento para a baixa intriga que reina nos meandros da literatura ou do jornalismo. Há gente de nós cegos nas tripas e fel no coração, capaz de ler no que escrevo a expressão de ajustes de contas pessoais em trechos que me saem em perfeita bonomia. Não percebe que nomeio com simples iniciais certas figuras que se cruzaram comigo para captar apenas um comportamento, uma personalidade, um episódio real vivido, porque é só o que interessa focar, nunca discutir a própria pessoa.
Evoco factos que se me afiguram iluminantes de um perfil psicológico ou chaves para decifrar existências humanas. Porque, seja como for e custe o que custar, não quero desabituar-me da minha dieta de pão-pão, queijo-queijo. Pago o preço, tantas vezes injusto, e nem o discuto para continuar em paz no meu cantinho - na companhia gratificante de bons amigos.

terça-feira, 1 de abril de 2008

«Oscares» antes e agora

Lembram-se da festa que nos foi servida aquando da última atribuição dos «Oscares»? Na véspera, no próprio dia da sessão e no dia seguinte, as televisões, os jornais e as rádios esforçaram-se para nos tornar aquela noite memorável. Eu tenho-a presente, não quero ser ingrato.
A cerimónia da atribuição dos bonecos na Academia de Hollywood é espectáculo a não perder pelos fabricantes e fornecedores do Espectáculo. E é assim ano após ano: trombetas sonorosas irrompem a proclamar ao mundo quem melhor trabalhou na fábrica hollywoodesca. A freguesia arregala os olhos, deslumbra-se com pompas e circunstâncias, make-ups, vestes e lantejoulas espectaculares, vedetismos ansiosos para imensas capas das revistas, mas sem ver novidades em cena.
Os próprios bonecos continuam sem graça ao fim de uns oitenta anos de produção em série. Por algum motivo ganharam o nome que passou a identificá-los. Consta que alguém, ao ver o boneco pela primeira vez nas mãos do responsável pela organização dos prémios, achou nele semelhanças com um seu tio «Oscar». O baptismo ficou, não se arranjou outro.
Apesar de tudo, a noite hollywoodesca faz-se lembrar em mim porque não encontro termo de comparação mais eloquente para ilustrar o fosso cavado entre o agora e o antes. Um antes que recua somente à década de ’80, digamos uns fugazes 25 anos. Quem está agora na maturidade, se acaso tem memória, poderá recordar a indiferença geral que reinava, e não apenas em Portugal, perante as sessões dos «Oscares». Se for jornalista, tanto melhor.
O evento era encarado como expediente de mera propaganda do cinema estado-unidense (mas então havia – ainda resistia - um cinema europeu: francês, italiano, sueco, checoslovaco, polaco…) e, nesses termos, desvalorizado. Hoje dir-se-á que havia um «preconceito». Os jornalistas tendiam a omiti-lo dos seus media, pois reinava uma capacidade de julgamento crítico capaz de escolher em cada cinematografia entre produções comerciais e produções artísticas. Onde isso já vai!
As produções comerciais EE.UU. engoliram o mercado, as televisões nivelaram-se por baixo para agradar à mediocridade do maior número possível, a variedade das expressões e dos estilos ficou cilindrada pela expansão dos grandes estúdios, a míngua de recursos no campo da concepção artística das obras procurou compensação numa pesquisa infindável de efeitos e mais efeitos especiais…
O que a sessão de atribuição dos «Oscares» demonstra ano a ano é esta perda da qualidade geral das obras cinematográficas produzidas por uma indústria formatada para o lucro e consumidas por multidões igualmente formatadas. O que demonstra, em suma, é toda a vastíssima devastação operada no critério e no gosto dos públicos em poucos anos.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Fantástico a rodos

O cinema e a televisão, principalmente, andam a encher-se de uma onda impetuosa de histórias e de historietas com os fantásticos mais mirabolantes. Voltaram as feitiçarias, os bruxedos, as magias negras e brancas, tudo servido na bandeja do sobrenatural mais incrível. As realidades do mundo, tão dramáticas, já não prestam para alimentar a arte… industrializada. A inspiração tornou-se delirante.
Tanto retrocesso já provocou um brado angustioso: estamos a afundar-nos num limbo espesso de ignorâncias e crendices supersticiosas de outra Idade Média. A selvajaria extrema quer instalar-se na profusão espectacular dos efeitos especiais e das novas distracções alienadoras quando os recursos imaginativos da ficção parecem definitivamente cansados e gastos. Até se nos depara um filme que postula a antropofagia sem horror, antes propondo-a «compreensivelmente»!
A Idade Média merecerá a comparação com o nosso tempo? Raciocinemos. Não estaremos a ofendê-la?


As salas de exibição de filmes saíram da cidade e foram-se amontoando em pontos da periferia, de onde, aliás, também já estão a desaparecer. Na verdade, o cinema, espectáculo popular, após o movimento cineclubista dos anos ’50-’60 entrou em crescente declínio. A coincidir, por sinal, com a transformação do espectáculo «popular» em «wollywoodesco» em grande parte do mundo. O mesmo filme corre durante uma semana em sessenta salas nacionais, milhares no mundo inteiro. Passa por aí o rolo compressor. Mas é neste quadro de crise aberta, entre lamentações constantes de perdas de espectadores em debandada, que mais é notório o caso do festival que ano a ano põe em exibição na cidade e arredores perto de três centenas de filmes. Obras de ficção – o mais possível abundantes em vampiros, fantasmas, bruxarias e outros ingredientes do fantástico – são projectadas nos ecrãs em corrupio, durante catorze dias febris, de acordo com o muito badalado programa. E a multidão acode ansiosa e consome cinema em doses maciças, seis ou sete fitas à tarde e à noite, como se de repente aquele cinema fosse coisa preciosa em vias de extinção.
A entidade organizadora faz negócio e tão bem resultou desde logo que se instituiu em fundação, uma fundação para exibir filmes como se de tal houve necessidade, que discute e até exige dos políticos locais, que obtém espaços na comunicação social, patrocínios e apoios às dúzias, subvenções…
Conclusão a extrair?
Feixes de palha, pequenos e soltos, não atraem comedores fartos de erva seca. Mas uma receita salvadora foi encontrada: montões da mesma palha erguida a fazer vista, com bandeiras em volta a acenar e fanfarras a apitar, em cenário pimba-festivaleiro, consegue cheirar a pão quente e excitar as narinas de consumistas ávidos. Saberão eles que comem por junto a erva seca que a retalho os enjoa?

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Destruição global

Chamem-lhe o que quiserem, globalização, desestabilização geral, capitalismo selvagem, imperialismo, porque as consequências reais que expande são estas.
Destruiu-nos o cinema. Os filmes que passam pelo mundo sujeitam-se às categorias catalogadas pelas normas. Generalizou-se o arsenal de recursos técnicos, multiplicaram-se os efeitos especiais e rarearam até à indigência as realizações artísticas ao ponto de o cinema se difundir, degradado, como espectáculo banal.
Destruiu-nos a televisão. Os canais, de sinal aberto ou de cabo, nivelaram-se todos por baixo, cada vez mais baixo, até ao aviltamento em assumida e prazenteira mediocridade. Nem os temáticos negam o populismo nivelado por baixo, a dormência dos estereótipos e das rotinas.
Destruiu-nos os jornais, invadindo-os com publicidade, primeiro para equilibrar falhas da receita das vendas e depois, pouco a pouco, forçando-os a preencher com «conteúdos» o espaço da informação que os anúncios deixavam vazio. Desmiolados, varridos de cultura, sensacionalistas e colonizados pela Visão Única, os jornais assemelharam-se entre si, perderam vendas, e então apareceram e abundaram os gratuitos estraga-papel.
Destruiu-nos o teatro, que paralisou nos palcos autistas à espera de Godot e pouco se atreve a pegar nos clássicos gregos, em Shakespeare, Chekov, Pirandello, Ibsen, Brecht, Lorca, entretendo-se com umas tretas enfadonhas que homens sem qualidades poderão aplaudir. E a dramaturgia nacional?
Destruiu-nos a literatura, impondo a industrialização dos bens culturais no mercado e vergando este aos ditames dos marketings mais fortes. Os livros tornaram-se vulgares mercadorias em circulação que têm de dar lucros rápidos e, portanto, serem de consumo acéfalo. Nada de novo resta para dizer. Os leitores atravessam cada monte de prosa paginada e saem no fim sem recolher patavina do percurso de um ou dois quilómetros de letras alinhadas. Meia dúzia de «autores-marca» que produzam obras «modelares» conforme interessa ao mercado chegam para abastecer a máquina industrial.
Destruiu-nos o prazer natural do jogo, prática lúdica. Confundiu-o com competição acérrima que ninguém quer perder nem que seja por uns ridículos feijões – os golos (caríssimos golos!) Esmagou a variedade dos jogos tradicionais praticáveis até a centrar no futebol e transformou este jogo em espectáculo de multidões e prática especializada de uns poucos profissionais comprados a milhões.
Destruiu-nos a capacidade de pensar e julgar, de ter e proclamar opinião própria, pela insistência em modelos mentais simplistas e repetitivos que conformaram os cérebros massificados pelo rolo compressor de todas as variedades reais em circulação. Tanta opressão e tirania instalou o pior fundamentalismo, o que não se reconhece a si próprio. «Democrata» é quem pensa como nós e ponto final.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

O que o povo quer...

Pelas mesas do café onde me sento de manhã para ler o meu diário vejo andar de mão em mão o suplemento de pequenos anúncios do jornal em que escrevi a espaços ao longo de quase toda a vida. É notório: a leitura daquelas páginas enegrecidas pelas tintas interessa a freguesia muito mais do que a treta desportiva… e eu sei os gordos lucros que o suplemento dá à empresa editora!
Habitações para alugar ou em compra-venda, negócio de automóveis, ofertas de sexo, empregos, etc., geram um caudal publicitário que, em termos comparativos quanto aos espaços ocupados, é dos mais caros da tabela de publicidade. Entretanto, a «feira» dos pequenos anúncios agrandou-se e transformou-se numa espécie de instituição.
Aquele suplemento a passar de mão em mão e de mesa em mesa, como bíblia matinal, acorda em mim uma recordação. Nostálgica, fatalmente, pois está a virar-me para um tempo remoto, meados dos anos ’80. Constava-nos que a administração do jornal mandara fazer um estudo-inquérito de mercado cujas conclusões mantinha num secretismo singular. A nenhum jornalista eram divulgadas e apenas alguns «interlocutores válidos» dos administradores pareciam conhecê-las de raspão, mas estes limitavam-se a prevenir-nos que as conclusões eram absolutamente explosivas, arrasadoras.
Na altura o jornal venderia uns sessenta mil exemplares diários e já ocupava uma boa quantidade de espaço com os pequenos anúncios, de modo que a gestão da empresa era folgada, lucrativa e mesmo apetitosa. Situação grata em especial para os jornalistas da casa, que se esforçavam por elaborar uma informação isenta e séria, percebendo que todo o jornal do dia se submete na rua a um eficaz plebiscito. Pelo que compram e lêem, os leitores decidem o que querem…
Os vinte anos seguintes promoveram uma viragem total. A meia dúzia de páginas tornou-se suplemento (em tamanho, quase outro jornal só de anúncios), os jornalistas isentos e sérios foram-se embora levando consigo os ideais, o jornal duplicou as vendas graças a uns concursos comezinhos e começou a dar os maiores lucros de sempre (agora a outra empresa proprietária).
Na verdade, as conclusões do famoso inquérito apontavam justamente – soube-se mais tarde – para esta preferência maioritária de leitura popular: pequenos anúncios!
Assim o povo ordena… com a inteligência que denota.


Participei como secretário numa direcção de jornalistas da qual L. H. M. era presidente. Projectei a publicação de uma folha de informação para os sócios, elaborei a folhinha A-4 dobrada ao meio e mostrei-lha. A primeira página abria com «editorial», um breve texto não assinado que apresentava e justificava a edição. Ao devolver-me o original, o presidente apontou a gaguejar para uma emenda que fizera naquele texto: em vez de executar escreveu realizar. E mais nada. Mas no fim, lá apareciam umas iniciais acrescentadas: L. H. M. Saúdo o grande autor!