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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Como Portugal vê Galiza

A publicação do livro antes recenseado veio na companhia deste outro A Imagem da Galiza em Portugal. Assina-o Carlos Pazos-Justo e no subtítulo traz “De João de Redondella a Os galegos são nossos irmãos”. Complementam-se, diria que na perfeição, reciprocamente.
Ensaiando uma resposta, o autor desta abordagem debruça-se no estudo de representações da Galiza detectadas no imaginário português. Elabora, assim, uma abordagem à ciência da imagiologia, cujos conceitos explicita, para exprimir como entende o “funcionamento das imagens enquanto discursos de representação do outro.” Acrescenta à sua obra, em resenha diacrónica, a imagem que a Galiza tem no exterior.
Carlos Pazos-Justo (n. 1975), formado em filologia em Santiago de Compostela e doutorado em Ciência da Cultura na Universidade do Minho, situa nos períodos da vigência das ditaduras de Franco e Salazar a análise da imagem dos galegos e da sua terra captada no nosso país. Ilustra muitas páginas com fotografias, desenhos, gráficos e citações, mas liga este livro, de algum modo, ao caso, que recorda, da senhoria que lhe alugou um apartamento em Braga e, lisonjeira, teimou que Carlos não era “galego”, era, sim, “espanhol”.
Na verdade, as imagens são construções sociais complexas que se transformam em representações tanto ou tão pouco “reais” quanto pretender que “o fado é português” – nota Pazos-Justo – ou imaginar o momento do desembarque de Colombo na América recordando a cena composta (em 1862?) pelo pintor Dióscoro Teófilo inserida nos manuais escolares. Porque as imagens são também discursos. A imagem propalada de uma Galiza pobre, atrasada e suja resulta assim num estereótipo construído por sucessivas simplificações que “pode condicionar as ideias mas também as formas de agir, as práticas das pessoas”. (p.16)
Tal como outros intelectuais galegos, também este autor faz questão de apontar, no plano historiográfico, a antiguidade do Reino da Galiza do qual saiu o reino de Portugal e, no séc. XII, a nação portuguesa. O progressivo  confinamento, no espaço peninsular, do reino da origem comum acentuou-se no séc. XV e Galiza foi ficando arredada num lugar periférico por força de conjunturas diversas e adversas. Com esta questão, Pazos-Justo documenta quanto o povo galego é atingido por esta imagem “construída” pela história.
Em Portugal, naturalmente, os galegos outrora imigrados em Lisboa e no Porto e a Galiza actual ainda se confundem, ao nível popular, com estereótipos caducos. Existem dificuldades político-diplomáticas que atrasam a sua integração na comunidade lusófona (Madrid está contra), mas abrem-se novos quadros relacionais, por exemplo, no plano económico-social da Galiza e Norte português. Deveras desejável é que o imagotipo negativo que forçou Pazos-Justo a “ser espanhol” em Braga em breve se dissipe!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Prendinhas de Natal

As minhas primeiras leituras não escolares foram, em autêntica estreia, o que deveriam ser: histórias para crianças. Mas iniciava-se o quarto decénio do século passado, a designada literatura infanto-juvenil era então raridade ainda maior do que bibliotecas públicas no Portugal salazarento. Havia pouca e pouco havia que escolher. 

ler.livros.jpgO entusiasmo, o deslumbramento que essas primeiras leituras me proporcionaram parece que continuam presentes no cabouco da pessoa que o rapazinho viria a ser, pois as vivências de então, determinantes, nele ficaram guardadas em memória indelével. Nunca mais deixei de gostar, gostar apaixonadamente, de literatura infanto-juvenil, quer dizer, de Literatura, logo contos para crianças. Quando entrei a colaborar na imprensa não tardei a escrever sobre o tema – a situação geral, os seus impasses. 
Assim tenho vindo a acompanhar a produção e circulação de tal género de livros no país ao longo dos anos (mais de cinquenta), de modo que alinhei ao longo do tempo uma grande quantidade de artigos, crónicas, pequenos estudos. Algumas dessas abordagens encontram-se recolhidas em volumes que publiquei de abrangência temática afim, outros permaneceram dispersos. E agora, perante essas dezenas e dezenas de textos, esboçou-se a ideia de os reunir para perceber se algo deles poderia extrair-se. 
Porém, a simples tarefa de ir aos jornais e revistas e livros recolher os escritos deixou-me a recapitular a matéria. Requeria um esforço enorme. E mais: com resultado à vista, a bem dizer, incerto e assaz duvidoso. 
Afinal, o que tenho vindo a escrever sobre literatura para crianças, ou infanto-juvenil, reflecte, acima de tudo, julgo eu, as transformações essenciais por que passou o género em cerca de 60 anos. Assim evoco o contributo proporcionado pela Fundação Calouste Gulbenkian (bibliotecas itinerantes e fixas) que dinamizou muitíssimo os sectores nacionais da edição e da leitura pública desde a sua criação, em 1958. Quando muito, interessaria uns poucos: uma franja de leitores atentos e algum sociólogo ou historiador da literatura. 
Quer dizer, a matéria não serviria para, demonstrando, ensinar coisa alguma a alguém. Estamos todos colocados numa realidade em flagrante, sabemos quanto o crescimento das publicações infanto-juvenis já contribuem para activar as editoras. Mas seria interessante analisar e documentar quanto a evolução em foco, sendo positiva, banalizou os livros “para crianças” ao ponto de esbater, e até abolir, com a expansão do mercado, a noção de que somente os (poucos) livros capazes de encantar os adultos têm mérito real suficiente para chegarem aos pequenos leitores.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

ebooks: mais novidades


Volto a esta coluna sentindo o abandono em que, desde meados de Julho, a tenho deixado.Que os amigos me desculpem tanta ausência! Quando as energias (corroídas pela idade) são poucas, facilmente se gastam investidas numa ocupação... e o tempo, livremente, voa.
Mas a primeira etapa desta corrida está quase no fim, de maneira que trago hoje umas boas novidades.  Não são ainda as novidades todas que tenho em preparação. Porém, o que virá a seguir chegará avançando passo a passo. O caminho faz-se... andando.
E aqui têm os cinco volumes da colecção «Tapete Voador» com as ilustrações originais, todas assinadas por artistas de grande renome.

Também para crianças, eis os primeiros três volumes da colecção «As cinco Graças»; ficará completa com outros dois. São histórias destinadas à primeira infância, para o adulto ler se a criança ainda não puder, e inspiram-se nas graças da mitologia; a pintura, a poesia, o teatro e, a sair, a dança e, por fim, a música.


 Outra novidade na área da chamada literatura infanto-juvenil é esta. Destina-se a leitores com 8-9 anos. A seu lado irão ficar variados títulos de minha autoria, como A Nuvem Cor-de-Rosa, O Fogo Roubado, Leitão ciclista em busca do paraíso, O Monstro de Mil Caras, etc.

Na Amazon, Kindle Direct Publishing, estão já disponíveis estes livros para leitores adultos em novas edições: seis volumes, o primeiro sobre temas de Informação e Jornalismo; os seguintes de contos e narrativas, e o último, «um clamor pela "arte literária"», de crónica-ensaio.
Gostaria de deixar bem afirmado que a preparação de edições digitais é trabalho complexo e absorvente. Envolve dificuldades e complicações que, para se resolverem, carecem de tempo e paciência. A experiência antes adquirida na edição literária convencional (em papel) é ajuda útil mas, na verdade, agora de pouco serve. Os livros para crianças, especialmente por causa das ilustrações, levantam dificuldades desafiantes...
Penso que vale a pena o esforço. Vale a pena, quero dizer, para o autor e os seus leitores. Os interessados podem adquirir na Amazon as obras impressas ou digitais, estas para instalar nos leitores electrónicos que usem (tablets, readers, computadores pessoais; e se, tendo comprado a obra impressa quiser depois obtê-la no formato digital, será a preço meramente simbólico). Quem se habituou aos ebooks também já se habituou aos preços baixos que por lá se praticam.
Termino prometendo anunciar aqui as edições digitais das minhas obras que virão a seguir.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O tempo voa...

Voando, o tempo passou... Mês e meio agarrado a ficheiros Word, formatação de páginas e ficheiros, imagens e digitalizações, revisões assim e assado, compatibilidades. Agora posso dizer: a tarefa de publicar livros digitais, isto é, de os preparar para edição de autor parece custar tanto quanto escrevê-los...
Resultado concreto à vista, pouco. Quatro edições, três da colecção As Cinco Graças e uma outra, as Estórias Populares. Representam só o começo.
Tarefa complicada implica demoras. Tentativas sucessivas e erros parciais. Mas é preciso continuar em frente.
Edições digitais, os populares ebooks, são na verdade uma alternativa interessante para os leitores que pretendam poupar papel, espaço na estante doméstica e algum dinheiro na compra de livros. Os leitores destas edições habituaram-se, além disso, a pagar preços bem mais modestos. É esse o caso normal, por exemplo, na Kindle da Amazon.
 Aqui estão as capas (não são links) das minhas quatro novidades”.






terça-feira, 16 de julho de 2013

Vou de férias e deixo recado


Este ano o escriba antecipa as suas férias e pretende mesmo fazê-las maiores. Parte agora, em meados de Julho, e voltará no início de Setembro. Mas não vai andar por aí na preguiceira, tem que entreter nos braços um projecto de edições do autor… cibernético. 
Em primeiro lugar, convém esclarecer o desaparecimento de obras, com os respectivos links, que estiveram acessíveis aqui ao lado, na janela “Os meus amigos podem ler”. O facto resulta de ter retirado dez edições digitais da plataforma que os albergava. Restam agora apenas três. 
Posso explicar? Comecei por volta de 2011 a colocar alguns dos meus ebooks na Issuu.com à experiência, quase por desfastio (fugindo das mudanças havidas na edição literária). Quando, há pouco mais de um ano, lá coloquei os últimos, o resultado tornou-se surpreendente: acelerando dia a dia, o número dos visitantes-leitores dos meus treze livros multiplicava-se fazendo saltar a contagem global ao ponto de, prestes a atingir as cem mil “impressões”, resolvi travar a fundo – não recebia quaisquer direitos, era absolutamente gratuita, para mim, tanta farturinha de leitura! 
Ao mesmo tempo, aquela plataforma introduzia importantes alterações e eu, algo desagradado, aproveitei para mudar também. Comecei já a aparecer em poiso diferente com os primeiros títulos. Escolhi a Kindle, dos populares readers da não menos popular Amazon, a livraria mundial com filiada a funcionar no Brasil e que é única no espaço lusófono. 
Persuadiram-me as maiores potencialidades que a opção oferecia. Neste sentido, salientam-se especialmente as edições de literatura infanto-juvenil. Não por acaso, os dois primeiros livrinhos ali colocados pertencem à colecção “As Cinco Graças”, cinco histórias destinadas a crianças ainda incapazes de ler mas em condições de ouvir contar. 
Intento colocar, pouco a pouco, na plataforma Kindle o essencial do que escrevi na área infanto-juvenil - uma vintena de títulos. De facto, parecem-me óbvias as vantagens que os ebooks têm nesta área. Na edição normal, esses textos, pouco extensos, bastante ilustrados a cores e impressos em bom papel atingem preços de capa naturalmente elevados, o que trava a compra (e os livrinhos, uma vez lidos, adormecem nas estantes)… 
Não acredito, devo dizê-lo, no “fim do livro” em papel, mas considero positiva alguma emancipação do habitual suporte físico em nome, também, da conservação do ambiente. Todavia, outras obras, destinadas a adultos, irão ser disponibilizadas pela Amazon para ler online ou impressas em papel para os interessados que as encomendem. Na minha Página do Autor, que me convidam a criar ali, talvez venha a dar conta de outras novidades. [Imagem: pintura de Varatojo José.]

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Que livros “para crianças”?

Retomo este assunto chamado por uma notícia que, na sua simples gravidade, deixa à vista o avanço da destruição operada pelas pedagogias em uso no sistema do ensino no país democratizado. O blogue de uma escola do primeiro ano do ensino básico, algures no Ribatejo, anunciou que as ilustrações de certo livro de histórias para crianças eram “pobres” no parecer dos seus professores. Ora é neste ponto preciso que o caso se torna exemplar.
Quem assina aquelas ilustrações é Júlio Resende, artista de renome nacional decerto desconhecido algures no Ribatejo, que foi mestre de muitos outros artistas e director da Escola de Belas Artes do Porto; pintou e expôs longamente, além de ilustrar livros com geral aplauso. Vejamos agora: que gosto estético, ou educação artística, abonará a classificação atribuída pelos professores às aguarelas que iluminam o livrinho publicado pela ASA em 1989 e que, figurando na lista do PNL, ia na 6ª edição em 2010? Acharam-nas “pobres” porque, tratando-se de histórias com vincado teor poético, J. R. optou por imagens cheias de sonho e leveza, nada afins, portanto, das vulgares bonecadas giríssimas, em cores berrantes e muita animação.
Percebe-se de relance o que subjaz neste caso. Desde logo, equaciona o lugar que a literatura “para crianças” pode e deve ter na Escola. Que literatura?
Desde há anos que as escolinhas do país entraram nos roteiros habituais dos autores dispostos a disputar no terreno a sua fatia de vendas a outros autores não menos ansiosos de promoverem as suas obras. As editoras publicam-nas (são “autores que vendem”) e, como alvejam a população escolar, os autores caem sobre esse “mercado” que, apesar de exaurido, ainda gosta de os receber. Os visitantes proporcionam a alunos e professores uma sessão divertida: dão-se a conhecer e reconhecer (aparecendo em anos seguidos), falam da obrinha que estão a lançar e das suas histórias divertidíssimas e os putos compram-na para levar o autógrafo.
Acontece assim que o “mercado” se encheu de subliteratura descartável, com histórias mais infantilizantes do que “infantis” e muitas ilustrações a condizer. Não servem à formação correcta do gosto literário nem à formação estética das novas gerações, posto que sejam fáceis de ler, ver e também esquecer.
Quer dizer, longe vão os costumes de as escolinhas convidarem os autores que os professores de Português liam e apreciavam; escolhiam um livro, punham uma ou mais turmas a apreciá-lo e, quando o autor surgia, a sua obra em geral e aquele livro em particular eram bem conhecidos (com leituras, composições, dramatizações, trabalhos manuais, etc.), não careciam de propaganda, e ele, entrevistado, não tinha de responder a perguntas de chacha. Vão longe essas escolinhas de apenas há trinta anos ou menos, a idade dos jovens tecnocratas que por aí andam, “especialistas” de crista ao alto, a impor políticas neoliberais portadoras de austeridade, desemprego e geral empobrecimento. [Imagem: livro-árvore iluminada.]

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Ler «para crianças»

Um excelente amigo pôs-me na mão Quem Quer a Madrugada. O livrinho é póstumo, pelo que a sua publicação evoca o autor. Faço-o com todo o gosto, pois conheci de perto e prezei Ilídio Sardoeira de maneira que aprecio agora uma nova expressão dos seus méritos como autor de histórias «para crianças».
Há gente que teima em falar de histórias «infantis» descurando no adjetivo que nada de infantil se encontra no caso até ao momento em que o livro chega ao seu destinatário ideal. De facto, são adultos os que como eu gostam de ler ficções deste género, porque são reconhecidamente refrescantes, se é que também, como autores, não as imaginam e escrevem, ilustram, publicam e levam da livraria para casa para oferecer a filhos e netos. Apenas as mais belas e portanto as melhores páginas da designada literatura para crianças, tão raras e maravilhosas, merecem chegar aos pequenos leitores depois de encantar quem cresceu sem extinguir a criança que foi.
Continuo na convicção de que se trata de um género (ou subgénero) literário dos mais ingentes e envolventes. Muitos o tentam, tomando-o pela aparente facilidade, mas resulta tão difícil quão criar autêntica Poesia que tantos namoram mas poucos ama. Acredito que um escritor afirma e confirma a sua estatura como autor literário, artista da palavra viva, sem necessidade de dar à luz uma grande obra - bastam, por exemplo, estas oito histórias de Ilídio Sardoeira.
Ao amigo António Cardoso, homem de cultura e cidadão irradiante, se deve a edição de Quem Quer a Madrugada (Porto, 2011), que resgata do limbo do jornal «O Comércio do Porto» os breves contos que ele próprio remata com a nota intitulada «Vós, descobridores da Natureza e dos mistérios da Vida». A ele, igualmente, creio dever-se a escolha de Manuel de=Francesco para os ilustrar com tão evidente nível estético. O escritor Ilídio Sardoeira (1915-1988), professor do ensino secundário, divulgador de conhecimentos científicos, conferencista, amigo de outro poeta amarantino, Teixeira de Pascoais,  revive assim de forma que a todos dignifica.
Penso que uma história «para crianças» (de todas as idades) pode abordar qualquer tema na condição única de o autor saber tratá-lo de forma feliz. A dificuldade está em conseguir a conveniente delicadeza de tratamento do tema. Sardoeira compôs poemas, tinha boa mão para enlevar elevando o que escrevia.
No índice do livro as oito histórias trazem as datas de publicação no jornal numa sequência que vai de 1972 a 1973; a penúltima, de 1974, inspira-se claramente na revolução dos cravos («Não é uma história: é a História» - escreve, p. 29), e a última, de 1975, que empresta o título ao conjunto, toma a «madrugada» pela democratização em curso. Com destreza feita de poética leveza, Sardoeira imagina, por exemplo, que «no Universo tudo é fruto e tudo se move» e afoita-se num léxico que hoje, 35 anos volvidos, talvez abuse das cabecinhas infantis formadas nas escolas do nacional facilitismo... Até neste ponto o livro de Ilídio Sardoeira demonstra quão importante é e quanta falta nos fazia! [Imagem: «A leitora», pintura de Pierre August Renoir.]

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Cânone literário vem aí

Ao que parece, vai finalmente avançar e concretizar-se a elaboração do  «cânone literário português». O projeto tem o apoio declarado de meios universitários ligados à docência do Português, ou seja, à formação dos professores do ensino secundário e básico daquela área. Objetivo: definir uma lista das obras referenciais de autores portugueses e estrangeiros para crianças e obras também para jovens e adultos, por escolha o mais possível consensual de  especialistas e círculos cultos.
O «cânone» será, pois, uma espécie de «antologia geral» e desde logo não atida apenas aos autores nacionais, entendendo que o nosso país não é estanque pois a cultura portuguesa é, tal como qualquer outra, alfobre fertilizado por trocas com outras variadas culturas. Destina-se a estabelecer um conjunto de textos literários para responder a necessidades do ensino de todos os níveis, do básico ao superior, e ficará sobretudo a valer como espelho da nossa cultura. Poderá resolver muita confusão e polémica, além de objetivar as obras identificadas com mérito reconhecido para, em tradução, merecerem divulgação além-fronteiras.
Na área da literatura para crianças, a elaboração do «cânone literário português» evoca de certo modo, enquanto mero embrião, o lugar do PNL (Plano Nacional de Leitura). Trata-se de listar as obras que um grupo de apreciadores propõe para animar a campanha oficial da promoção da literacia sob a divisa Ler+. Caso o primeiro projeto, do «cânone», se concretize, o PNL poderá perder o seu lugar.
Encaro com expectativa esta evolução. É preciso proceder à recuperação de autores e obras  portuguesas ou em português que os frenesins de uma indústria cultural e uma política educativa  cegueta, em conjunção, condenam ao limbo. Apareça, pois, e implante-se no país um elemento de clivagem formado por  valores marcantes e por noções firmes do que é arte literária para que esta se demarque do que não passe de medíocre comércio literário.
A Literatura é, consabidamente, uma arte exigente e difícil. Quem com ela vive em prática longa e amorosa só pode desconfiar ou maravilhar-se com as mil e tal novas edições de livros  que em avalancha mensal se repetem neste pequeno rectângulo em crise. Irrompem batalhões de novos autores, multiplicam-se as editoras, reduzem-se drasticamente as tiragens, circulam edições pagas pelos autores (mas exibindo chancela tapa-olhos) e o delírio vai em frente.
Montes de livros espalham-se por supermercados, estações de correios, barracas de saldos, feiras em tropel. Rimas de romances envelhecem num instante, edições para leitores infantis ou juvenis enchem catálogos e armazéns de tantíssimas editoras que não querem perder o mercado... E quem lembra agora que a literatura para crianças é sem dúvida, porque tem de ser, a mais espinhosa e difícil?
Mas agora me lembro de um editor que há dez anos repetia: «quem vende os livros são os autores». Tinha razão: os autores, novos ou menos novos, palmilham o terreno metro a metro na promoção das suas obras porque não vêem outra saída. Obras essas, não por acaso, ilustradas com bonecadas giríssimas e historinhas cada vez mais alinhadas pelo levezinho-engraçadinho, isto é, concorrendo para o facilzinho que é o que mais está a dar.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Contos «infantis» de Oscar Wilde

Escrever, diz José Rodrigues Miguéis nos seus Aforismos, "é um solilóquio para ausentes". Pois será, entendendo que os ausentes podem encontrar-se em sucessivas gerações para nelas se manter vivo o solilóquio. Por este motivo simples que Miguéis bem aponta: «Só vale, quanto a mim, a literatura que passou a prova do filtro purificador do Tempo.»
E aqui temos um livro que Oscar Wilde publicou há mais de cem anos, em 1888. Nove «contos de fadas» que Wilde (Dublin, 1854 - Paris, 1900) dedica aos seus filhos com o título de O Príncipe Feliz e outras históriasMas essa colectânea de contos tem corrido com diversos títulos (normalmente o primeiro do volume) e nem sempre reúne a quantidade certa de histórias.
Pergunto: o que permanece hoje, para nós, de toda a produção literária do autor -  poemas, peças de teatro, romances? O Retrato de Dorian Gray, estes contos «infantis», e que mais?! Arrisco: mais nada, apesar do sucesso enorme, nos palcos e nas livrarias, por ele alcançado no seu tempo. O famoso dandi Wilde e até o escândalo que provocou (acusado de homossexual, condenado a prisão), aliados ao seu talento, ajudaram à retumbância do seu sucesso.
Mas quantos leitores folheiam ainda aquele romance, O Retrato? Quero crer que poucos, serão mesmo residuais.  Surge então um curioso contraste: os nove «contos de fadas», pelo menos em Portugal e no Brasil, continuam presentes nos círculos da edição e da leitura, merecendo no país irmão, inclusive, adaptações teatrais.
Sem dúvida, a fulgurância da sua escrita espelha-se em toda a sua obra principal e, no entanto, são estas histórias, escritas ao que parece sem grande ambição literária, que se mantêm «vivas» na atualidade. Ora isto levanta questões deveras interessantes, a primeira das quais é a de nos fazer sentir o cânone do que poderia ser «literatura para crianças» na segunda metade do século XIX. Questão básica: determina a acessibilidade lexical do texto e, desde logo, quem é «criança» para ler ou ouvir ler o texto.
Sabemos que o conceito de infância tendia a prolongar-se então até ao amadurecimento da adolescência. E podemos agora, perante estes contos de Oscar Wilde, perceber e avaliar a tremenda erosão que têm vindo a sofrer os vocabulários de uso quotidiano, na oralidade e nas leituras correntes. De facto, a opulência do verbo wildeano nada cede ao «facilitismo» mediático que impera nos nossos dias, não recuando sequer em abordar temas melindrosos como a morte, o amor, o sofrimento.
Mas são histórias maravilhosas, de intensa poesia e aliciante leitura. Julgo, porém, que podem lê-las não as crianças de hoje, sim os jovens e os adultos, porque estes aguentam histórias por vezes longas e contadas com termos tão raros.  Isto é francamente lamentável, afirma-o quem admira e aplaude com entusiasmo as belas histórias, realmente para crianças, que se encontram presentes no interior das nove narrativas.
Para quem lhes chegue pela primeira vez, a revelação acontece e é esplendorosa.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Leituras «infantis»

O editor do meu recente livrinho de histórias para crianças contactou-me. Anunciava-me que três das suas outras edições recentes tinham sido aprovadas pelo PNL (Plano Nacional de Leitura) e pedia-me para comentar o caso. Porque o meu livrinho fora excluído da escolha dos selecionadores.
Em suma, queria conversa, mais uma conversa das nossas para se esclarecer e vencer a perplexidade. Conversa tão boa quanto outras que fomos travando nos últimos tempos, pois o homem, como editor, é «novo», embora trabalhe em livros há muitos anos. Mas, desta vez, não pude aceder ao diálogo.
O editor conhece e creio que aprecia as ideias e opiniões que defendo como autor de literatura dita «para crianças». Como poderia explicar-lhe razoavelmente o critério nebuloso que escolhia três histórias triviais, com ilustrações idem, que ele, editor, publicara movido apenas pelo desejo de vender a mercadoria depressa e bem? Na verdade, eu não entendia mais nem melhor do que ele por que decidia o PNL distinguir três obrinhas «infantis» refugando uma outra orientada com clareza, em texto e imagens, para a valorização do seu género literário.
Mas, afinal, ele percebia, e eu percebia, o que o episódio significava. Reafirmando a macrocefalia do país pequenino e o poder do lobby lisboeta, concentrava na cidade capital o Governo e toda a autoridade única de alcance nacional. Dali emanam as decisões afins de uma linha ideológica e política que não pode sofrer desvios ou distorções.
É preciso dar força ao pensamento único e instaurar o estado novo. Há uns trinta anos que o sistema de ensino e a política educativa têm vindo a avançar nesse sentido e avançando sempre passo a passo. Substituir as famosas aprendizagens pelas competências foi o primeiro passo, o facilitismo veio a seguir e agora tenta-se a abolição dos exames...
Quer dizer, não sobrecarreguemos as cabecinhas das pobres criancinhas, coitadinhas, com matérias e programas pesados, quer-se tudo ligeiro e divertido para que a escola funcione. Saem as criancinhas sem saber aritmética, português, uma noção simples de matemática? Será assim tão dramática a persistência de ileteracia e mesmo de analfabetos reais escolarizados?!
Ora há quem conteste e discuta. A literatura para crianças, em geral, afina cada vez mais pelo diapasão da «facilidade». Tudo fácil: histórias singelas, pretensamente divertidas como a cócega... e as ilustrações que as acompanham, vulgares «bonecadas», exibem a vontade de ir na onda e colher os proveitos.
Nesta situação, pergunte-se a quem de direito, adultos responsáveis, se não estarão a ser mais crianças do que as crianças que deste modo infantilizam enquanto transformam a literatura em mero negócio. São capazes de perder tempo a treinar um cão e desperdiçam-no não educando as novas gerações. As crianças dotadas possuem capacidades que podem embotar-se e perder-se, um crime sem dúvida dos mais puníveis contra os direitos da criança e da humanidade.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

«Boa» literatura para crianças!

Telefonou-me R. T. para anunciar a publicação de uma breve resenha que fez, por ocasião do Natal, a alguns livros para crianças, entre os quais um meu. Faz crítica regular num suplemento literário, por isso explicou que não era esse o caso: no que escrevera aludia meramente à história de cada livro. Preveniu: enfim, nada de crítica, pois que mais haveria a dizer?!
Nada mais há a dizer para além da história, acha o amigo R. T. e eu reconheci naquele ponto o pensamento geral que apesar de tudo prevalece.
Os contos «para crianças» continuam a ser encarados e avaliados como obras menores, da mesma altura miúda dos seus potenciais destinatários. Logo, o que sobre eles sobressai esgota-se no resumo da história narrada. «Pois que mais há a dizer?!» São umas fantasias inconsequentes, umas peripécias mais ou menos engraçadas, coisinhas para distrair, divertir a infância, sem qualquer sumo capaz de merecer a atenção e análise de um adulto e, para mais, leitor calejado…
Preconceitos lamentáveis porque rebaixam as obras literárias destinadas às crianças para o armário da subliteratura. Sabemos todos que não são poucas as obras em circulação que tal restrição merecem, mas… a rasoira leva também de roldão o que reais méritos tenha para ficar e permanecer, a brilhar como pedras brancas.
Nunca me cansarei de repetir: não infantilizem mais uma autêntica literatura para crianças! Para todos os efeitos (e são muitos, e são importantes!), a literatura para crianças tem que «ser boa» para pais e filhos, tem que saber «falar» a todos os leitores e não apenas a crescidos ou a miúdos. Porque existe apenas uma literatura, ainda que distribuída por diversos níveis de qualidade e género.
Uma autêntica literatura para crianças tem que começar por ser «de adultos» para, se atingir nível meritório, poder chegar em boas condições aos pequenos leitores. É possível que os encarregados de educação andem a fechar os olhos e a lavar as mãos neste assunto. Daí a confusão de um professor do ensino básico: quer «dar» às suas turmas um livro meu e pergunta-me que livro lhe aconselho. Entendo: ele evita ler a «coisinha», tem mais que fazer, e eu aqui de longe até conheço os seus alunos…
Acresce um pormenor importante. O Conto, enquanto género literário, enraíza-se na mais profunda tradição da literatura oral e escrita. Moldando ficções de tamanho convenientemente pequeno, convida à inclusão estética de elementos maravilhosos e poéticos que sempre hão-de cativar em qualquer idade os leitores-ouvintes do falar (etimologicamente, fabular).
Mas como impedir essa não-infantilização quando os próprios adultos em massa, enquanto consumidores literários, se deixam infantilizar?! O que por aí reina são fantasias, historietas banais até mais não, e tudo muito divertido, adocicado e convenientemente pré-mastigado ou mesmo pré-digerido.