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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

De quadro em quadro...

Estas pinturas são sinceras num sentido específico. Tentam, quadro a quadro, plasmar vivências autênticas sentidas no plano existencial da artista fazendo-o com a violência do grito que no peito amarrado permanecia. Cada tela surge-nos como um registo de emoções fortes ou de estados de alma que se organizam plasticamente em torno da interrogação a que a pintura final responde.

Daí advém a “marca de água” notada nestas pinturas, caracterizadas por um intimismo quase lírico, que se traduz afinal numa poética muito personalizada. Notou-o bem o crítico Fernando Pernes nas breves palavras que escreveu, já doente, em catálogo (Árvore, 2007), ao perceber que esta pintura anuncia sem dizer. Temo-las, porém, tangíveis pelo olhar. E eis porque estas obras convidam a uma contemplação silenciosa, propiciadora de idêntico intimismo aberto realmente para uma comunicação poética.

Significativamente, a pintora prefere telas de medianas ou mais avantajadas dimensões, muitas vezes de formato quadrado ou quase quadrangular e telas outras tantas vezes justapostas (dípticos, trípticos…), de modo a poder expandir o impulso vital irreprimível. São pinturas de formas elementares - isto é, essenciais -, depuradas de todo o elemento acessório. De facto, a artista cultiva uma pintura despojada de toda a encenação, no rigor que recusa qualquer cedência ao efeito fácil, apostando sempre numa autenticidade que chega a sugerir alguma aproximação tendencial ao minimalismo. Pintura, portanto, que joga com elementos mínimos: linhas, manchas texturadas, símbolos (círculos, anéis duplos, espiral), e raras figuras humanas, distantes, a vir ou a ir.
Pode certamente dizer-se que esta pintura se envolve de mistério tentando narrar estórias do real vivido. Mas o que exprime, quadro após quadro, para além de qualquer dramatismo, é uma procura de equilíbrio tranquilizador, um anseio fundo de harmonia. A procura tem acentos ora melancólicos ora irónicos, e, todavia, o efeito é sempre o de uma serenidade atingida, realçada inclusive pelo formato e o tamanho das telas.

A pintora diz, querendo explicar-se, que na composição destas telas procura uma lógica tranquilizadora que se inspira talvez no conhecimento científico, o da própria pintora. Sente-se aqui a predominância da mentalidade tecnocrática, o distanciamento da pintura do que acontece na rua e é social. Todavia, a pintora quer conseguir exprimir-se de uma vez por todas, completamente. Mas assim se obriga a prosseguir, como quem resvala, de quadro em quadro... [Cópia parcial de escrito em catálogo de exposição.]

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Bizarria: ser poeta e escritor

A bizarria está no primeiro termo aposto ao segundo. Então um poeta não será também, para todos os efeitos, escritor? Por quê a redundância?
Um poeta escreve compondo poemas, o escritor escreve compondo prosas. Ambos utilizam a língua para trabalhar na literatura sendo igualmente escritores e, nesta qualidade, igualmente poetas. De facto, ainda que as áreas da poesia e da prosa sejam diversas e, até certo ponto, caracterizadas, no limite acabam por se confundir.
A criação literária, para o ser, tem de se imbuir de um halo poético envolvente. De contrário, como se compreenderia a inclinação de tantos novos autores que começam as suas pessoais trajectórias literárias com poemas? Muitos deles, porém, não demoram a desistir dos poemas e a concentrar-se nos enleios da prosa, percebendo que a poesia estreme é realmente o quid mais difícil da arte literária.
É a poesia, em suma, a essência desta arte (e talvez mesmo de todas as artes). Cada página que um escritor considera terminada contém esse quid esquivo que transfigura as linhas do texto num passe de mágica beleza. Sem transfiguração poética, as palavras do poema ou da prosa permanecem adormecidas ou mortas.
Evidentemente, o leitor que o escritor é e continua a ser, incluso do que vai escrevendo, julgará cada página de sua autoria com a maior benevolência ou o maior rigor, de acordo com o seu pessoal sentido crítico. É neste ponto preciso que se define a qualidade e o mérito do que escreveu ou possa escrever. Revela aí a formação do seu gosto literário como leitor e logo, também, em simbiose, como autor.
Dir-se-ia que o número de novos autores se vai multiplicando devido às pressas. Pressa de ler qualquer coisa sem grande escolha, de sentir o gosto formado e de “estar maduro” para escrever e publicar. Talvez sejam as pressas todas do nosso tempo que banalizam a figura do Escritor.
Mas tantas pressas beneficiam a Literatura? Redondamente, não. A arte literária pede concentração e repouso em dádiva tão plena que é a página composta com todo o tempo do mundo e o esmero sofrido do artesão que fica a brilhar (evocando peripécias como a noite de vigília de certo escritor hesitante numa simples vírgula).
A situação actual parece tornar-se asfixiante. Muitos dos novos autores, que querem ser escritores, dispensam os tormentos e demoras da arte literária. Podem folgar, pois fica longe a nevada montanha, perto de Delfos, que, segundo a mitologia, era a eminente morada de Apolo e das Musas, montanha tão venerada que os gregos arrojavam os sacrílegos dos Rochedos de Fedríades (comentário: não apeteceria hoje livrar as artes literárias de tantos maus cultores de um modo menos brutal mas igualmente eficaz?)

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Menos editoras, livrarias, livros

Em oito anos, de 2004 a 2012, o país perdeu 132 livrarias. Não faltaram, é certo, as feiras de livros e as promoções de saldos, mas, apesar disso, o sinal continua a valer quanto vale. Aliás, mais expressivo se torna ainda porquanto o número das editoras também diminuiu, dado que foi maior o número das que desapareceram do que as que foram criadas.
É o que se conclui de um relatório realizado a pedido da APEL, Associação de Editores e Livreiros, pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE coordenado por José Soares da Costa e citado pelo jornal “Público” (16-09-14, p. 30). O estudo, “Comércio livreiro em Portugal”, indica que as 694 livrarias existentes em 2004 venderam 140,1 milhões e que, em 2012, as 562 restantes venderam 126,2 milhões – menos 14 milhões. Porém, o ano de 2008 assinalou um pico de vendas excepcional de 404 milhões, após o que entrou em declínio.
Realmente, 2008 permanece como um marco incontornável. O mundo (somente o Ocidental?) virou-se como simples guarda-chuva batido pela tempestade: bancos principais faliram, os governos acudiram-lhes, os Estados endividaram-se, os défices orçamentais exigiram brutais agravamentos dos impostos… e declarou-se a crise geral que estamos a viver. Isto é, a viver sob o famigerado paradigma do neoliberalismo, que promove o empobrecimento dos povos em nome da austeridade e a maior desigualdade social.
O desemprego cresceu, os salários baixaram, o consumo retraiu-se. O Estado social (e, se não for “social”, o que poderá ser o Estado?) encolheu até expor vastos segmentos da classe média arruinada aos mínimos da pobreza real. A fome, alastrando no terreno, pôs bancos alimentares e cantinas escolares em actividade máxima, e, enquanto se expandia uma linguagem desbragada, a dependência do álcool e das drogas, o número de suicídios, o bullying nas escolas e a violência doméstica, irrompia a nova geração (amiga de lobbyis, ansiosa do primeiro milhão conforme o “sonho americano” agora a realizar em Portugal) com direito a tudo sem ter feito nada e já declara os idosos descartáveis…
Naturalmente, nesta calamitosa situação, não surpreende uma diminuição da venda de livros pelas livrarias. Surpreendente será, sem dúvida, o caso dos concertos musicais de vedetas em voga, a bom preço, que se enchem ou os programas turísticos de férias no estrangeiro que se esgotam num ápice. E consta que quatro ou cinco milhões de portugueses já possuem smarphones!
O estudo põe em relevo a “crise aguda gravíssima que afectou o tecido cultural português”. De facto, esta crise entrecruza diversos factores de risco, que envolvem a circulação do livro e toda a sua vivência cultural nomeadamente com índices de segurança, bem-estar, civismo e saúde pública (incluída a mental). É uma crise feita de múltiplas crises.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Cultura “pop” é popular?!


Estão sem defesa os leitores, consumidores de literatura, entregues como ficaram às lógicas lucrativistas do mercado. Todavia, isso deixa-nos em condições de avaliar o nefasto efeito das mudanças recentes por que passou o panorama da edição literária em Portugal. Tamanha e tão rápida foi a alteração que quase se poderia falar de um “antes” a contrastar com o “depois”.
Recordarei aqui apenas os acontecimentos vividos para deles extrair a devida conclusão. O ponto de viragem pode ser colocado na ofensiva do grande capital que se apoderou de quantidade substancial das editoras de livros, quando a propriedade dos jornais principais já havia caído também em poucas mãos. Mas o ponto é convencional, pois a viragem se iniciara antes, no tempo, hoje incrível, em que os jornais portugueses, matutinos e vespertinos, tinham muitos mais leitores e publicavam suplementos literários semanais com artigos, críticas, entrevistas, notícias – lembram-se?
Então, o livro, que vemos convertido agora em vulgar objecto de comércio, mantinha toda a sua dignidade cultural e nas livrarias havia espaço para mostrar as “novidades”, tão raras (e boas) que causavam prolongada sensação. Os autores amadureciam o que escreviam, os críticos apreciavam-nas orientando os leitores para as obras, que eram discutidas e exerciam realmente uma influência que hoje – tempo de banalização e banalidades – se nos afigura quase mítica. É certo, então os leitores eram poucos, mas, pelo menos, eram melhores.
Desapareceram os suplementos e as páginas literárias, os críticos eclipsaram-se, os jornais (sem censura prévia) baixaram tanto as vendas que correram a refugiar-se nos braços da publicidade a rodos e, deixando-se de idealismo, ficaram vassalos fiéis da verdade única oficial. O mercado do livro foi invadido (colonizado?) por traduções de obras dos autores de best-sellers em voga e obras de autores de best-sellers nacionais também eram traduzidos “lá fora”, de modo que, no panorama da edição literária do país em vertiginoso crescimento, se estratificou uma cultura de massas pretensamente popular.
A literatura de consumo engoliu a autêntica literatura, que cultiva a arte literária, perante os leitores indefesos, por outro lado sujeitos à pressão do conjunto dos media. A degradação do gosto dos leitores e da imagem pública do Escritor passou a reflectir-se na tipologia das obras que aparecem nos circuitos da leitura e na facilidade impressionante com que qualquer bicho-careta se decide, numa loja de print on demand, a publicar, isto é, a obrar, e a considerar-se “escritor”. Consumou-se uma brutal subversão e há por aí quem diz, apontando as consequências, que não foi nada inocente: serviu interesses não só mercantis... [Foto de Laurent Schwebel]

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Perante um quadro exposto

A obra de arte nasce partindo naturalmente do rumor do mundo, mas, quando nos aparece, convida ao silêncio. É isto, pelo menos, o que amiúde se repete de um modo bastante consensual, ao ponto de quase nos distrair do outro lado da questão: convidando embora ao silêncio, a obra de arte aspira ao verbo. No recolhimento de que por dentro se envolve mesmo quando por fora grita, pulsa na obra o desejo latente de se esventrar em palavras. As formas e as cores realizam-se mais plenamente através do discurso.
Assim se articulam as relações da pintura com a literatura, dos pintores com os escritores. Não falo de críticos ou de historiadores da arte enquanto tais; falo, sim, da sucessão de homens de letras que ao longo dos anos escreveram sobre a obra dos artistas, seja porque com eles conviveram, quantas vezes na intimidade dos espaços domésticos ou dos próprios ateliers, seja por qualquer outra situação. De resto, alguns pintores largam mesmo os pincéis para usarem da palavra, convencidos por momentos de que esta é a sua expressão mais eloquente e satisfatória.
O signo pictórico e a palavra literária acompanham-se e complementam-se reciprocamente de tal maneira que já ninguém perde tempo a indagar o motivo por que no fundo os poetas e os ficcionistas, por exemplo, parecem estar tão próximos dos artistas e em tão boas condições de lhes entenderem as obras; o motivo, em suma, por que os textos dos catálogos de exposição e livros tendem na actualidade a constituir-se mais como comentários decorrentes de leituras feitas na matriz de cada gosto do que como abordagens críticas, isto é, valorativas, das obras em foco. Em resultado, estas tornam-se cada vez menos frequentes. A questão toda é: serão as abordagens críticas dispensáveis?
Os artistas quase nada as dispensam, pintem ou não quadros naturalistas, neo-figurativos ou os ditos abstractos. Sabemo-lo bem: desde a revolução de Marcel Duchamp, a arte do nosso tempo é uma arte intervalar, suspensa de uma espera. Exprime-se hic et nunc sem augurar um amanhã, algures. Vimos acabar as escolas, as correntes, os epigonismos, as revoluções estéticas, como se já tivesse sido descoberto tudo o que havia a descobrir; restam agora os artistas individualizados, com a multiplicidade das suas linguagens e das suas expressões pessoais. Nunca se pintou tão intensamente, tão variadamente a angústia do impasse que é a marca distintiva deste tempo.
A crise não atinge só a pintura; percorre transversalmente os sistemas da economia, da política, da ética e da estética, tocando inclusive na literatura. Os velhos cânones estão velhos em demasia, os novos ainda não advieram.
 [Cópia, parcial, de escrito em catálogo de exposição.]

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Agostinho Neto, poeta

Sei um pouco dos esforços que o Prof. Pires Laranjeira desenvolve há longos anos no sentido de afiançar no plano literário geral o esplendor da poesia de Agostinho Neto. Penso que leva bem mais de trinta anos nesses esforços para evidenciar a valia, discreta mas agora, por fim, plenamente evidenciada. Saiu uma obra consagradora monumental que reúne, de forma quase antológica, um manancial de textos de autores que em variados países comentaram enaltecendo a obra poética netiana.
Organizada por [José Luís] Pires Laranjeira e Ana T. Rocha e publicada pela Fundação Dr. António Agostinho Neto (Luanda: 2014, 814 pp), a obra é realmente fundadora. O título, A Noção de Ser, legenda perfeitamente o percurso biográfico do Autor no quadro afim do processo histórico que fez sair Angola do colonialismo e erguer-se como nação e Estado. A consagração de Agostinho Neto (1922-1979) enquanto poeta fica completada e torna-se definitiva.
Realmente, Neto não foi só dirigente do MPLA desde 1962 e o primeiro presidente de Angola em 1975. Formou-se em Medicina na então “metrópole” e aqui publicou os seus primeiros poemas. Escassa produção poética: Sagrada Esperança data de 1974 e a sua segunda obra, A Renúncia Impossível, já é póstuma (1982).
Obra poética escassa mas, ainda assim, não negligenciável. Pires Laranjeira, investigador de culturas africanas da Universidade de Coimbra e apreciador atentíssimo, notou a poderosa irradiação contida nos poemas onde se cruzavam intuições da pessoa singular do Autor com o seu porvir na tela da emancipação do seu país e do seu continente. Em breve muitas outras vozes rodeavam a poesia netiana de autêntica admiração, senão mesmo de veneração.
A Noção de Ser recolhe um manancial, cerca de setenta textos escolhidos sobre a obra poética de Agostinho Neto arrumados em várias rubricas: formação do homem e escritor, análise da obra, intertextualidades, recepção, etc. A consagração efectiva-se nessa extensa base documental qualificada. Os autores pertencem a diversos países, línguas, culturas e formações diversas, de modo que o aplauso geral não poderia ser mais convincente.
Além de Eugénia Neto, viúva do Autor, e dos organizadores da obra, destacam-se no elenco os nomes de Leonel Cosme, Fernando J. B. Martinho, Manuel Simões, Alexandre Pinheiro Torres, Alfredo Margarido, Inocência Mata, Xosé Lois García, Salvato Trigo, Manuel Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, Costa Andrade e Jorge Amado. Outros autores serão menos conhecidos dos leitores portugueses.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Algumas mudanças

Estão à vista do excelentíssimo público algumas novidades há já uns dias mas, ainda assim, não dispensam umas breves palavras de apresentação. As novidades aparecem na página “Estante de meus livros – links” com entrada na barra ali por baixo do cabeçalho do blogue. Esta nota justifica-se para explicar desde logo que são livros digitais, ebooks.
Todos de minha autoria, sim, agora em edição revista e por vezes com capas renovadas. Contados, são nove, de vários géneros: contos, romance, crónicas, estudos e ensaios. Estiveram aqui antes acessíveis quase todos pela entrada “Os meus amigos podem ler”, onde acumularam milhares de leitores – e onde se mantém os três títulos de autoria alheia (Oscar Wilde e Anónima) ou partilhada comigo.
Voltaram agora à plataforma que os albergou e da qual saíram para tentar a experiência da Amazon, onde permaneceram uns meses. Quer dizer, voltaram à ISSUU de modo que decidi alterar a forma antiga que no blogue os apresentava. Em vez de colocar as capas dos livros (e links) na coluna à esquerda em “escada a descer”, criei uma página especial onde aparecem agora mais bem arrumadas.
A separação dos três títulos de autoria alheia é sem dúvida conveniente, tanto mais que, futuramente, irei agregar ao conjunto dos nove actuais outros ebooks, isto é, livros meus que circularam impressos em papel e logo desapareceram do mercado. (Será preciso recordar neste ponto as vicissitudes por que passou ultimamente a edição literária em Portugal?) Aconteceria então que a “escada a descer” iria alongar-se afundando-se até provocar tonturas…
Outra separação não menos conveniente foi introduzida. Na Amazon vão continuar, enquanto for possível, os meus livros para crianças - apenas esses. A lista actual também ali será ampliada, o que vai requerer digitação de textos impressos, novas ilustrações…
Quem quiser adquirir mesmo os meus ebooks à venda na Amazon (repito, só para crianças) terá que os pagar posto que a preços simbólicos. Na ISSUU, porém, para quem queira lê-los online ou descarregá-los, são gratuitos; oferecem ali uma terceira opção, uma "impressão" a pagar pelo preço indicado, que o não interessado pode dispensar. Em ambas as plataformas, o acesso é possível e fácil, esteja o leitor em qualquer ponto do globo conforme verifico: vou tendo leitores nos EUA, Espanha, Itália, Japão, Dinamarca, Brasil…

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

As leituras do leitor

É facto indisfarçável: o rol de livros que aprecio nesta coluna em breve nota de leitura vai crescendo. Na maioria são obras publicadas no século XX e só uns poucos são novidades literárias ainda frescas. Ora isto resulta de duas ordens de razões que pedem uma razoável explicitação.
Por um lado, conservo ainda uma quantidade de leituras por fazer, ou refazer. As sofreguidões dos anos vividos impediram-nas ou adiaram-nas, de modo que uns tantos livros escolhidos permaneceram comigo como salvados. São agora uma excelente companhia e lenitivo para qualquer monge laico que se retira do bulício e no silêncio da escrita alheia busca a deslumbrante cintilação das obras mestras.
Mas, por outro lado, desde cedo me habituei a registar as minhas impressões do que ia lendo. Ler é também escrever (e a recíproca vale igualmente), o que lembra a regra do “quanto mais intensivo é o leitor mais facilmente se transforma em autor” conforme parece acontecer amiúde na praça literária. E, sem dúvida, é maximamente gratificante para o leitor este acto de enaltecer a obra admirável que o deixe maravilhado.
Assim tenho vindo a comentar autores de obras como Romain Rolland, Thomas Mann, Hermann Hesse, Boris Vian, Johan W. Goethe, Mark Twain, Ken Robinson. Todos estrangeiros, é certo, mas aparecem também portugueses e brasileiros: Sampaio Bruno, Fernando Pessoa, Alexandre Guarnieri, Pires Laranjeira, António Canteiro… Todavia, um aspecto que para mim é o mais significativo encontra-se na sugestão contida nestas notas e que é....
Pretendo sugerir que vale bem a pena virar as nossas atenções para a literatura que ficou publicada e consagrada no século passado, digamos até 1980, aproximadamente. Pouca ou nenhuma dessa literatura se encontra hoje no mercado. O interessado procura-a em vão nas livrarias; se tentar os alfarrabistas talvez neles consiga o que deseja.
Quer dizer, entre os efémeros sucessos literários da actualidade (de autoria dos fabricantes de best-sellers de cada mês aqui repetidamente desmistificados), e as obras que se consagraram no século passado à luz de diversa exigência, eu não hesito na escolha. Não as tem ao alcance o interessado nas redes do comércio normal? Recorra às bibliotecas públicas!
Nas bibliotecas públicas os leitores são convenientemente atendidos por pessoal habilitado. Têm serviço grátis e podem inscrever-se como leitores, o que lhes permite a leitura domiciliária. Se tudo isto os não conforta, que mais pedirão os leitores? [Imagem: pintura de Almada Negreiros]

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Antropoemas: “até que…”


O regresso de Alexandre Guarnieri à poesia acontece com um algo epifânico Corpo de Festim. Este seu segundo livro – após Casa das Máquinas, Rio de Janeiro, 2011, que comentei aqui – traz um subtítulo expressivo: Antropoemas. Mas talvez o plural fique ali a sobrar para o leitor capaz de perceber na obra o poema unitário que nela se contém, afinal uma antropogénese poética.
Obra rara, portanto. Não por abolir as maiúsculas dos textos (excepto no poema final) e usar sinais gráficos – barras, parênteses, colchetes, vectores: sinalética pessoal – ou grafar nomes próprios em itálico. A raridade da segunda obra de Alexandre Guarnieri avulta porque evoca as etapas que conduziram ao nascimento da humanidade na natureza, “até que…” 
Sim, “até que…”, na sucessão cataclísmica de fenómenos cósmicos, ou seja, após o big bang primordial, se formou o ambiente terrestre, matriz da vida, no terceiro planeta deste Sol situado numa franja da Via Láctea. Corpo de Festim (inédito, a sair em breve no Rio de Janeiro) consagra o primeiro capítulo ao tema: átomo de carbono e, logo, a sangue, suor e celulose; útero, incubadora, até atingir terra firme. 
O Poema invoca portanto a maravilhosa epopeia do nascimento da humanidade com uma força quase épica que se expande no capítulo seguinte. O corpo vivo, formado por evolução milenar, lembra-me a “casa das máquinas” com seus órgãos internos, filtros, baço, rins, fígado, coração, pulmões, e uma mecânica de fluidos, sangue, suor, lágrimas, saliva, sémen, leite materno, urina, pus, etc., e pele, cabeça, ombros, joelhos, pés, ouvidos, olhos, rosto. De facto, “darwin não joga aos dados, mallarmé sim”… “até que…” 
Os elementos anatómicos são aplicados no Poema de tal modo que aparece construído como um organismo textual dotado de membros e respiração. Logo, o Poema humaniza-se. Mas no terceiro e último capítulo, “vigiar e punir” (onde sobressai o poema “cotodianometria”), sobrevém o trágico desgarramento que a imagem da capa explicita – a degradação do Homem acorrentado. 
Corpo de Festim mergulha finalmente nas tragédias humanas do nosso tempo com expressões de violenta rejeição, repulsa, horror. Cito: “Não há (…) algo que resolva o medo a náusea o mal estar da civilização”, “quando a doença e a cura, indissociáveis siamesas, já são partes da mesma mistura” (pág. 46). Uma saída: “desaparecer de vez” como Houdini, o famoso mágico. 
Alexandre Guarnieri (n. Rio de Janeiro, 1974) tem o cuidado de advertir, em parte inicial da obra, que ali “há páginas em que apenas a aparência é pueril / decifrá-las nem sempre é fácil, há vários níveis de sentido ou, ainda, na entrelinha, o seu sentido” (pág. 9). E tem a consciência de que alguém, “se atravessa a ponte / abdica de um dos lados” (pág. 48). [Nota: os números de página citados são da cópia de trabalho.]

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Já “pleonasmou” hoje?

[Texto anónimo de leitor recebido por email]

Todos os portugueses (ou quase todos) sofrem de pleonasmite, uma doença congénita para a qual não se conhecem nem vacinas nem antibióticos. Não tem cura, mas também não mata. Mas, quando não é controlada, chateia (e bastante) quem convive com o paciente.
O sintoma desta doença é a verbalização de pleonasmos (ou redundâncias) que, com o objectivo de reforçar uma ideia, acabam por lhe conferir um sentido quase sempre patético.
Definição confusa? Aqui vão quatro exemplos óbvios: “Subir para cima”, “descer para baixo”, “entrar para dentro” e “sair para fora”.
Já se reconhece como paciente de pleonasmite? Ou ainda está em fase de negação? Olhe que há muita gente que leva uma vida a pleonasmar sem se aperceber que pleonasma a toda a hora.
Vai dizer-me que nunca “recordou o passado”? Ou que nunca está atento aos “pequenos detalhes”? E que nunca partiu uma laranja em “metades iguais”? Ou que nunca deu os “sentidos pêsames” à “viúva do falecido”?
Atenção que o que estou a dizer não é apenas a minha “opinião pessoal”. Baseio-me em “factos reais” para lhe dar este “aviso prévio” de que esta “doença má” atinge “todos sem excepção”.
O contágio da pleonasmite ocorre em qualquer lado. Na rua, há lojas que o aliciam com “ofertas gratuitas”. E agências de viagens que anunciam férias em “cidades do mundo”. No local de trabalho, o seu chefe pede-lhe um “acabamento final” naquele projecto. Tudo para evitar “surpresas inesperadas” por parte do cliente. E quando tem uma discussão mais acesa com a sua cara-metade, diga lá que às vezes não tem vontade de “gritar alto”: “Cala a boca!”?
O que vale é que depois fazem as pazes e vão ao cinema ver aquele filme que “estreia pela primeira vez” em Portugal.
E se pensa que por estar fechado em casa ficará a salvo da pleonasmite, tenho más notícias para si. Porque a televisão é, de “certeza absoluta”, a “principal protagonista” da propagação deste vírus. Logo à noite, experimente ligar o telejornal e “verá com os seus próprios olhos” a pleonasmite em directo no pequeno ecrã. Um jornalista vai dizer que a floresta “arde em chamas”. Um treinador de futebol queixar-se-á dos “elos de ligação” entre a defesa e o ataque. Um “governante” dirá que gere bem o “erário público”. Um ministro anunciará o reforço das “relações bilaterais entre dois países”. E um qualquer “político da nação” vai pedir um “consenso geral” para sairmos juntos desta crise.
E por falar em crise! Quer apostar que a próxima manifestação vai juntar uma “multidão de pessoas”?

Nota - O autor omite um pleonasmo corrente e normalizado: “há uns anos atrás”. [Imagem: de Susana Rocha.]

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Com Mark Twain e rei Artur

Foi só por volta de 1960 que pus a mão no último dos três mais célebres romances de Mark Twain, Um Americano na Corte do Rei Artur, publicado nos E. U. A. em 1889, na sequência do estrondoso sucesso conseguido pelas “Aventuras” de Tom Suwyer e Huckleberry Finn, de 1876 e 1885, respectivamente. Eu já estaria nos trinta anos, mas ainda li a obra na colecção Juvenil da Portugália (Lisboa, sem data; tradução de Nascimento Rodrigues, capa de Paulo-Guilherme). Avancei até à página 286 (que deixei marcada) e aí larguei o volume para o retomar agora, em fase de releituras prazenteiras.
O que me chamou para esta releitura passado meio século e a terminá-la no “FIM”, página 385, foi a atenção que outrora dei a um trecho de Mark Twain sobre direitos de autor. É curioso e foi mesmo o único trecho que deixei sublinhado. Diz (p 244):
“Chamar trabalho ao trabalho intelectual é usar uma designação equívoca; trata-se de um prazer, de uma distracção, que em si própria contém a sua maior recompensa.” O Autor considera que o “menos pago dos arquitectos, engenheiros, generais, autores, pintores, conferencistas, advogados, legisladores, actores, cantores, etc., “está num paraíso quando trabalha”. O músico, enfim, admite ele com alguma ironia, “trabalha”, mas a “lei do trabalho parece horrivelmente injusta.” Afirma. “Quanto mais alta é a sensação de deleite que obtém o que a executa, maior é a compensação em dinheiro pago à vista.”
Upa! Mark Twain (1835-1910), festejado desde o seu primeiro conto (1867), quando escreveu estas linhas já era autor de best-sellers e senhor de óptimos rendimentos. Sabia perfeitamente quanto esforço pede a literatura feita de “palavras [que] são apenas uma espécie de fogo pintado” (p 11). Mas, naquele tempo, algo acontecia: “Até a profissão de autor estava a iniciar-se” (p 341) e por sinal com um outro humorista, numa tão insuportável concorrência que Twain desejou proibir o livro e enforcar o fulano…
O debate deste tópico – não o do humorismo, tema demasiado sério para uma crónica, sim o dos direitos dos autores – foi o isco que neste caso me pescou para a releitura. Assim me envolvi numa Inglaterra do século quinto, do Rei Artur, da cavalaria andante e da Távola Redonda evocada com o estilo fresco e divertido de um mordaz crítico da monarquia e ardente defensor da república e do sistema democrático, feliz por liquidar os restos de moinhos de vento deixados no terreno pelo D. Quixote de Cervantes. À tona veio a tão citada frase de William Faulkner que proclama Mark Twain “pai da literatura americana”.
Os direitos dos autores, não só literários, começaram realmente em meados de Oitocentos a ganhar forma legal, incluso em Portugal, com Almeida Garrett, Alexandre Herculano e outros. Ainda hoje esses direitos se debatem sob o cilindro compressor dos interesses instalados para assumir a forma adequada às condições do tempo presente. Tema de reflexão oportuna: comparar a literatura do tempo de Mark Twain com a da actualidade, avaliando nesta a quantidade prodigiosa de escritores profissionais fabricantes de best-sellers!

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Ler... um século depois

Ainda acho nas minhas estantes belas surpresas. A última é o romance Sua Alteza Real, de Thomas Mann, venerável edição da Portugália, 301 pp. Incrível: ainda por ler!
Não larguei da mão a “novidade”. Sem data impressa de publicação (remonta decerto aos anos ’60), saiu integrada na col. Romances Universais. Encetei a leitura apreciando a cor parda e o cheiro do papel, o rebordo das folhas sem o acerto final de guilhotina por mim já abertas à faca, e sobretudo o magnífico ensaio introdutório de Georg Lukács transcrito do livro que o prestigioso crítico húngaro dedicou à obra do prémio Nobel de 1929.
Faço-me compreender? Aspirando a esvaziar a casa, venho doando desde há uns quatro anos caixas e mais caixas dos meus livros a duas bibliotecas públicas mas o facto é que vejo poucas prateleiras como queria, despojadas (terei que prosseguir com as doações?). Custa a esvaziar o que acumulei ao longo da vida e isso, inesperadamente, dá-me esta sorte de ler a obra-prima que antes perdia!
E aqui estou com Sua Alteza Real, autêntica jóia literária editada na Alemanha em 1909, de modo que a leio… passado um século! Thomas Mann (Lubeque, 1875-Suíça, 1955), um autodidacta, evidencia neste romance o esplendor do seu talento reafirmado em 1926 com Montanha Mágica. É também o processo de uma outra decadência numa pequena corte que a obra de 1909 ficciona no ambiente típico do ocaso oitocentista europeu.
Com efeito, por convenção dos historiadores, o séc. XIX estendeu-se até à eclosão da Primeira Grande Guerra (1914). Então ainda se espalhavam pela Europa bastantes reinos de modesto tamanho em acelerada decadência tal como o antigo regime (monárquico). É o processo dessa decadência que Thomas Mann narra com precisão minuciosa e toda a sua arte literária.
As dinastias reinantes, com minguados rendimentos, já exerciam um poder apenas formal (meramente representativo, ao jeito das monarquias actuais), enquanto a aristocracia arruinada, vivendo dos magros rendimentos das suas propriedades agrícolas, se constrangia a virar-se para a indústria e o mundo dos negócios. Entretanto, nos pequenos reinos atolados em dívidas avultava a burguesia habituada a aplaudir os príncipes para se vitoriar a si própria. Thomas Mann realça em especial o valor do gesto formal no sistema sociopolítico representativo.
Para o príncipe, grão-duque, a popularidade era “uma porcaria”. Mas considerava: “A grandeza humana é uma coisa miserável e por vezes parece-me que todos os homens deviam reconhecê-lo e conduzir-se com bondade e simplicidade uns com os outros.” Outras personagens do romance surgem igualmente com uma densidade psicológica certeira a sublinhar o tempo de viragem que viviam.
Sua Alteza Real maravilha com o fulgor da sua escrita, a precisão da sua estrutura romanesca e, sobretudo, a abundância prodigiosa de elementos culturais que aplica (lembrando que Mann levou doze anos a escrever Montanha Mágica). Autores e obras destas livram-nos dos novos autores que escrevem todos os dias das tantas às tantas e publicam todos os anos livros de espantoso sucesso no mercado de consumo. Estes novos estão na literatura não como criadores mas sim como recolectores e, em última análise, predadores da Literatura.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Um lobo das estepes

Era já idoso quando nos conhecemos e, há semanas, sumiu-se deixando o mundo mais baço e perdido nas suas trágicas cegueiras. Tinha publicado um extenso conjunto de obras e era autor menos lido do que respeitado e ainda menos estudado. Estava pois a morar, como ele dizia, na penumbra dos escritores supranumerários.
Não parecia ralar-se com isso. Só raramente notava a pouca leitura que tantos dos seus livros conseguiam mas fazia-o sem rebuço, como uma consequência natural de menor importância. Promovia-os (promovendo-se) tão pouco que muitas das pessoas das suas relações pessoais directas até ignoravam as suas publicações, a sua projecção na escrita, vislumbrando dele, no melhor dos casos, algum artigo solto em jornal ou revista.
Contudo, no ambiente literário, o seu caso não era o dos escritores que produzem obra de vulto e depois, esmorecendo durante longos anos, caem no “esquecimento em vida”. Ele continuava a escrever e a publicar, mas, como figura pública, era ínfimo o alarde que fazia dentro da ruidosa praça literária. Na esfera restrita da sua existência (onde sobressaíam notabilidades porque eram realmente “amigos”, não por serem notáveis), consideravam-no homem de carácter, convivente e solidário, incansável militante das causas nobres aliás agora tristemente impopulares.
Mas aquele homem vivia em óbvia solidão, não estabelecia relações com figuras “interessantes” e, apegado à sua independência, recusava pertença a grupos, clubes, lobbies. Neste ponto, citou um dia lorde Byron: “A consequência de não pertencer a nenhum partido será a de que os incomodarei a todos.” Sorriu num trejeito muito seu e acrescentou: “pelo que a todos dou o direito de me incomodarem a mim”…
Tivemos conversas surpreendentes. Idoso, ainda lhe sobrava energia moral para defender a sua extrema solidão contra a ordem burguesa que afinal era a sua e a nossa. De repente fez-me lembrar “O Lobo das Estepes”.
Este romance de Hermann Hesse, publicado na Alemanha em 1927, marcou especialmente a obra do Autor, prémio Nobel em 1946. O movimento juvenil dos anos ’60 colocou-o como seu próprio expoente de radicalidade. A figura-símbolo central, Harry Haller, o “lobo” solitário e desirmanado, também exprimia em época de trágica crise – semelhante à que afunda em desgraçada decadência a Europa na actualidade - uma rejeição total da cultura, da política, da comunicação social existentes, então como hoje.
Quis reler o livro. Não o encontrei em casa, pedi-o na biblioteca pública. Nele topei um conceito que acabara de ouvir na conversa com o escritor meu contemporâneo: “O verdadeiro sofrimento, o autêntico inferno, esse só advém na vida humana onde e quando duas épocas, duas culturas e duas religiões se intersectam.”
Mais adiante detive-me para reler e tornar a reler: “O burguês é por isso mesmo, pela sua própria natureza, uma criatura de fraca vitalidade, medrosa, receosa de todo e qualquer abandono da sua pessoa, facilmente governável. Por isso colocou, no lugar do poder, a maioria; no lugar da força, a lei; no lugar da responsabilidade, o exercício do voto.” “A grande maioria dos intelectuais, a maior parte dos homens artistas, pertence a esse tipo.” [Imagem: escultura de Bruno Torfs, Austrália.]

sábado, 7 de dezembro de 2013

O sonho da eternidade

É inesgotável a necessidade humana de sonhar. Os teístas crêem na vida eterna, os artistas, escritores incluídos, crêem na perenidade das suas obras. Cada existência individual, condenada à sua efémera duração, suspende-se por vezes para questionar se a vida é ou poderá ser só “isto” sem mais transcendência, apenas o breve rasto num caminho que depressa o vento dilui.
Sonhar com a eternidade resgata a condição humana à sua contingência ao projectá-la na tela do infinito. Assim elabora a arte, toda a arte que podemos admirar enquanto afirmação estética da plena dignidade do homem. E neste sentido aparece o novo livro do poeta Izacyl Guimarães Ferreira.
Izacyl, na sua longa carreira (nasceu em 1930, Rio de Janeiro), já publicou mais de vinte livros, um dos quais, Discurso Urbano, mereceu o prémio de Poesia da Academia Brasileira de Letras em 2008. Desde então acrescentou à sua obra mais três títulos e uma antologia. Reaparece agora com Altamira e Alexandria (ed. Scortecci, São Paulo, 2013, 66 pp), onde os seus poemas tomam as pinturas rupestres da caverna de Espanha e a antiga biblioteca do Egipto como símbolos expressivos de uma humana “ânsia de eternidade”.
O tema essencial deste livro, envolvendo a questão (agónica) do que é nascer para morrer, isto é, a atitude ou as ideias que o Autor pode ter perante a vida no seu ocaso, assenta num pano de fundo que implica a questão do crepúsculo em que parece afundar-se tanta civilização e cultura no Ocidente, senão no mundo inteiro. A voz do poeta, octogenário (nasceu no “meu ano”), sintoniza ou coincide com as sombras do nosso tempo nos quarenta poemas que compõem este ciclo.
Yracyl evoca pirâmides e mausoléus, pedras lavradas e páginas escritas, casas e mobílias domésticas, álbuns e retratos contra o mortal esquecimento, pois “a grã ceifadora não perdôa / se o coração do homem já não sôa”… “porque é preciso não morrer de todo”.
Num breve antelóquio, Antonio Carlos Secchin considera esta poesia uma “ode ao humano”. Tem razão. Com estilo conciso, exacto e seguro, percorrido por um fio de lirismo, oxalá Izacyl Guimarães Ferreira atinja Portugal e encontre apreciadores. Veja-se:
“O sonho é prosseguir, continuar, / como o prazer do amor e toda a caça / a eternizar o instante e expondo a raça, / é não perder-se no pó que se espalha / ou na limalha a dispersar-se à toa, / é perpetuar-se em pedra, ser pessoa.”

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Pintura é “coisa mental”?


Uma frase de Leonardo, o da Vinci, andou-me no juízo às voltas tempos infindos. Dizia simplesmente: “A pintura é coisa mental”. O que pretenderia expressar o génio da Renascença? 
Coisa mental, isto é, criação da inteligência, a pintura, obviamente, é. Então, como admitir que Leonardo ia registar algo tão óbvio (ele que, ó espanto, até caligrafava as frases escrevendo-as pelo inverso de maneira que eram legíveis para um leigo apenas quando “recompostas” num espelho)? 
Quem gosta da arte e aprecia o convívio com pintores, frequentando-lhes os ateliês, habitua-se a descobrir a figura que surge no limiar da imagem. A imagem forma-se naturalmente, quase irresistivelmente, estimulada por algumas sugestões visuais. Logo, é “coisa mental”… 
Toda a pintura? Sim, evidentemente, na medida em que a imagem visual se forma no cérebro que a recebe. Seria este o pensamento, então inovador, de Leonardo? 
Perceber isto, porém, para mim não foi fácil. Mas calhou-me ler um texto admirável de autor creio que japonês sobre o poder da linha, a linha do desenho traçada pela mão do artista, e a sua tremenda expressividade. O nome do autor sumiu-se, ficou apenas a revelação.
Basta a linha, o minimal risco preto-no-branco que descreve no papel um contorno para que o objecto, a coisa nascente adquira forma, volume, relevo – vida! Será esta a ideia contida na frase de Leonardo? Enfim, nesta presunção fiquei até esbarrar, recentemente, num vocábulo velho cuja semântica se alarga, ao que suponho, com um significado novo. 
Os dicionários registam-no assim: “escotoma s. m. (med.) mancha negra ou brilhante que, na doença da retina, se forma diante dos olhos; do gr. skótoma, «vertigem», pelo lat. trad. Scotoma, «id.»”. Outras fontes agregam as derivações “escotoma psíquico” e “escotomização” (“supressão de uma parte do campo visual” e “mecanismo psíquico inconsciente”), sempre em ligação com a oftalmologia, e também “escotópico”, relacionado com a visão em que só são impressionados os bastonetes da retina. Mas aparece agora o neologismo que usa escotoma para significar o fenómeno visual que dá vida à linha e atrai o olhar para a mancha no limiar da imagem (no sentido em que os olhos vêem o que o cérebro quer ver).
Ninguém se atreve a garantir a interpretação correcta da frase mas a ideia de Leonardo parece intuir ali um segredo conhecido e estudado muito mais tarde. Nada surpreendente, afinal, no caso do renascentista repleto de prodígios. Pois não continuamos parados diante de milhentas mona lisas no museu imaginário a inquirir se foi pintada por Leonardo e quem retrata, se é homem ou mulher, se sorri ou se…?!

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Convido os leitores

Esta coluna tem amigos e seguidores regulares. Há mais de cinco anos que nos reunimos por aqui e acabámos por formar a nossa pequena comunidade. Uma comunidade de leitores do bloguista que vai lançando aqui os seus escritos em ritmo semanal.
Mas chega agora a altura de virar ao contrário a regra, de o escriba ler o que os leitores quiserem escrever. Isto é, o bloguista apresenta hoje um convite que é também um desafio. Quem se dispõe a substituir o escriba no seu lugar?
Temas à discrição! Será bem-vinda a abordagem de qualquer assunto da actualidade social ou política, tal como uma reflexão ou uma evocação pessoal partilhável. A abordagem pode também apreciar uma qualquer situação cultural, uma obra literária (e se for de minha autoria, viva!)…
Seria óptimo para mim que os leitores aproveitassem o ensejo para, digamos, comentar a publicação dos
meus livros com formato digital (ebooks). Que vos parece a iniciativa? Sabem acaso que as edições da Amazon-Kindle têm preços muito baixos, por vezes verdadeiramente simbólicos ou mesmo grátis, e que podem ser lidos em qualquer computador pessoal?
Na verdade, tenho imenso gosto de avançar com este convite. Quero que esta coluna deixe de ser “do fala-só” e passe a ser bidirecional. Que os leitores tomem a palavra!
Se, conforme desejo, tal acontecer (enviando os textos, trinta linhas normais no máximo, para mota.arsenio@gmail.com), o convite manter-se-á. Com regularidade, se possível uma vez por mês, os leitores serão bloguistas. E assim a nossa pequena comunidade se tornará mais efectiva!

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Escrita criativa: exemplo


Trago hoje na mão um exercício de “escrita criativa”, género em voga. Tem fiéis apreciadores, que dispensa de leituras trabalhosas e de grandes investimentos intelectuais, e agrada aos “criadores” com um naco de imaginação e habilidade para extrair a história do buraco de uma agulha com a ponta da mesma agulha. Acontece também que tenho aqui ao lado um Fulano a incomodar-me porque, imaginem, não desiste de se contemplar de olhos fechados!
Quer que o ajude a realizar a proeza, embora eu o avise de que, tanto quanto sei, jamais alguém terá conseguido ver-se de pálpebras cerradas. Mas o F. vai teimando, arrebatado pela sua obsessão, e não desiste. Quer conhecer a cara com que ficará e irá aparecer aos pósteros depois de morto.
A obsessão agravou-se quando ele, colado ao chão diante do espelho, treinava a rapidez das pálpebras desejando chegar ao ponto de as encontrar fechadas estando ainda abertas. Pois não chegara aquele famoso cowboy do far west a ser mais rápido do que a sua sombra? Fulano não queria ficar-lhe atrás!
Mas ficou. Afligiu-se e, revoltado, não aceitou a derrota. Virou-se para a fotografia, recurso formidável.
Era estática. O instantâneo captava a imagem no centésimo de segundo em que a cena exterior se gravava no interior da câmara. E ali aparecia ele, finalmente, de pálpebras descidas, a fingir-se de morto.
Não era, certamente, a mesma coisa. Respirava, tinha as faces mornas, os beiços com alguma cor. Ora F. queria mesmo observar o aspecto final da sua fisionomia cadavérica, entendendo que, de corpo enfiado nas roupas, era a cabeça, senão apenas a cara, a derradeira lembrança que dele restaria.
Acrescia um pormenor. Ele estava prevenido contra os perigos da fotografia, os ludíbrios da iluminação sobre o objecto. A imagem estática introduzia uma realidade “outra”, não a realidade que procurava.
Ontem à tarde, diante do televisor, notou algo que via há anos no aparelho: a demora, de um segundo ou dois, que a tv repetia quando estabelecia ligação com repórter no estrangeiro. Fulano teima agora em arranjar alguém que o filme com câmara vídeo e, do outro lado do mundo, com ele online na Internet, lhe envie de volta as imagens em fluxo para o seu computador… que ele receberá com o bendito atraso!
E assim o leitor percorre o texto, chega ao fim e o que recolhe? Um pouco de nada. Nada exemplar.
[Imagem: de Lorenzo Muttotti, Brescia, 1954.]

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Conversa sobre ebooks

Envolvido como tenho andado com as edições digitais dos meus livros, talvez seja interessante tornar à conversa sobre o tema. Não sendo já verdadeiramente novo, continua no entanto entre a ser pouco frequentado. É assim a conversa que hoje me traz de regresso à coluna.
Variados aspectos do assunto são ainda pouco conhecidos exactamente porque os ebooks continuam a ser considerados por muitos leitores algo como uma curiosidade de feira do livro para atrair minorias de maluquinhos dos computadores e fãs da Net e não como a proposta válida que mostra ser. Porém, devidamente apreciada, a novidade tem óptimas condições de agrado. E neste ponto advirto outra vez: creio que os ebooks têm lugar junto com os livros impressos: o suporte digital complementa o do papel.
Naturalmente, o utilizador do suporte digital necessita de inovar alguma habituação. Desde logo, tem a possibilidade de adquirir, se não de graça, pelo menos a preço muito reduzido, as obras que deseje sem percorrer livrarias e postos de venda onde raramente topa com o que procura e se amontoam em vertiginosa rotação as capas berrantes dos verbos de encher. Conveniência deveras estimável: a fácil arrumação de uma biblioteca virtual que (viva!) deixa as árvores de pé...
Um vulgar aparelho (reader) pode albergar uma biblioteca inteira, digamos mil livros. Que o leitor adquire, no idioma que lhe interesse (lusófonos: atenção ao catálogo) esteja onde estiver no planeta. E o aparelho não é caro.
As funcionalidades de cada um variam, mas podem permitir alterar o tamanho dos textos, inserir marcadores, notas, etc.; e, em ligação com o computador, imprimir o livro. Graças à computação móvel, hoje até um vulgar telemóvel (smartphone) acede às bibliotecas e às leituras. A leitura chega a toda a parte.
Claro, além da necessária habituação do leitor ao aparelho, o leitor terá que se habituar a compras online. O que implica pagamentos com cartão, transferências virtuais. Algo de banal nos tempos que correm...
Entretanto, a edição literária entrou numa conjuntura complicada também para numerosos autores portugueses. Alguém duvida que os ebooks vão expandir-se entre nós no futuro? E que o mercado dos livros em papel vai diminuir?

terça-feira, 17 de setembro de 2013

ebooks: mais novidades


Volto a esta coluna sentindo o abandono em que, desde meados de Julho, a tenho deixado.Que os amigos me desculpem tanta ausência! Quando as energias (corroídas pela idade) são poucas, facilmente se gastam investidas numa ocupação... e o tempo, livremente, voa.
Mas a primeira etapa desta corrida está quase no fim, de maneira que trago hoje umas boas novidades.  Não são ainda as novidades todas que tenho em preparação. Porém, o que virá a seguir chegará avançando passo a passo. O caminho faz-se... andando.
E aqui têm os cinco volumes da colecção «Tapete Voador» com as ilustrações originais, todas assinadas por artistas de grande renome.

Também para crianças, eis os primeiros três volumes da colecção «As cinco Graças»; ficará completa com outros dois. São histórias destinadas à primeira infância, para o adulto ler se a criança ainda não puder, e inspiram-se nas graças da mitologia; a pintura, a poesia, o teatro e, a sair, a dança e, por fim, a música.


 Outra novidade na área da chamada literatura infanto-juvenil é esta. Destina-se a leitores com 8-9 anos. A seu lado irão ficar variados títulos de minha autoria, como A Nuvem Cor-de-Rosa, O Fogo Roubado, Leitão ciclista em busca do paraíso, O Monstro de Mil Caras, etc.

Na Amazon, Kindle Direct Publishing, estão já disponíveis estes livros para leitores adultos em novas edições: seis volumes, o primeiro sobre temas de Informação e Jornalismo; os seguintes de contos e narrativas, e o último, «um clamor pela "arte literária"», de crónica-ensaio.
Gostaria de deixar bem afirmado que a preparação de edições digitais é trabalho complexo e absorvente. Envolve dificuldades e complicações que, para se resolverem, carecem de tempo e paciência. A experiência antes adquirida na edição literária convencional (em papel) é ajuda útil mas, na verdade, agora de pouco serve. Os livros para crianças, especialmente por causa das ilustrações, levantam dificuldades desafiantes...
Penso que vale a pena o esforço. Vale a pena, quero dizer, para o autor e os seus leitores. Os interessados podem adquirir na Amazon as obras impressas ou digitais, estas para instalar nos leitores electrónicos que usem (tablets, readers, computadores pessoais; e se, tendo comprado a obra impressa quiser depois obtê-la no formato digital, será a preço meramente simbólico). Quem se habituou aos ebooks também já se habituou aos preços baixos que por lá se praticam.
Termino prometendo anunciar aqui as edições digitais das minhas obras que virão a seguir.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O tempo voa...

Voando, o tempo passou... Mês e meio agarrado a ficheiros Word, formatação de páginas e ficheiros, imagens e digitalizações, revisões assim e assado, compatibilidades. Agora posso dizer: a tarefa de publicar livros digitais, isto é, de os preparar para edição de autor parece custar tanto quanto escrevê-los...
Resultado concreto à vista, pouco. Quatro edições, três da colecção As Cinco Graças e uma outra, as Estórias Populares. Representam só o começo.
Tarefa complicada implica demoras. Tentativas sucessivas e erros parciais. Mas é preciso continuar em frente.
Edições digitais, os populares ebooks, são na verdade uma alternativa interessante para os leitores que pretendam poupar papel, espaço na estante doméstica e algum dinheiro na compra de livros. Os leitores destas edições habituaram-se, além disso, a pagar preços bem mais modestos. É esse o caso normal, por exemplo, na Kindle da Amazon.
 Aqui estão as capas (não são links) das minhas quatro novidades”.