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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A teologia perdeu o lugar

corneta-1.jpgO homem arengava contra o televisor e, em volta, ouviam-no com indiferença. Mas o homem animou-se, agitou os braços e disparou: “As religiões nascem dentro da ignorância, as teologias da superstição, as crenças de esconjurações do medo.” Depois, como que esgotado, bebeu o que restava da cerveja e foi-se.

Eram palavras interessantes, ficaram-me a ecoar na memória. Na verdade, a enciclopédia dos conhecimentos científicos actuais permite elaborar conclusões seguras, muito aceitáveis, sobre questões que em tempos recentes permaneciam em discussão aberta. Basta conjugar ciências como astronomia, física, biologia, antropologia, geologia e outras para se chegar à luz.

No fim de contas, tudo se explica e, portanto, pode compreender-se no fenómeno prodigioso que é a vida nas múltiplas formas que assume. A vida que surge sempre envolvida na matéria, demonstrando que a vida não é imaterial. Logo, compreendamos a vida conhecendo como a ciência desvenda os segredos da matéria.

Podemos avaliar a idade da formação do Sol e da Terra, terceiro planeta do nosso sistema planetário, ou há quantos milhões de anos andaram por cá dinossauros e australopitecos ou perceber que a espécie humana a habita há já centenas de milhares de anos. Importante, porém, é olhar para o céu em que este planeta e este Sol se encontram, não para o céu metafísico. Estamos no espaço cósmico, nele vivemos, e no entanto parece que nada nos convence de que é matéria o que mais abunda no espaço, que é possível que em alguma dessa matéria (viajante em meteoritos) esteja uma simples bactéria e que essa bactéria, multiplicando-se, origine toda a complexa vida biológica de um planeta em tais condições.
A hipótese de que haja outros planetas semelhantes à Terra é portanto perfeitamente admissível. Deve haver muitos no cosmos, difícil é chegar lá. Veja-se a notícia recente sobre o planeta “como a Terra” descoberto na constelação do Centauro: sendo nosso “vizinho”, fica a mais de quatro milhões de anos-luz de distância…
Afinal, o que mais sobra no Universo é espaço, distâncias incomensuráveis à escala humana. Talvez o espaço cósmico seja uma “matéria negra” numa outra organização da matéria que desconhecemos. Que lugar pode restar, então, para as teologias?
Nenhum. Todavia, neste ambiente de crises acumuladas, de sofrimento e desespero, novas religiões e novas teologias irrompem e multiplicam-se como medusa, a mitológica serpente de mil cabeças. Crenças e crendices continuam, infrenes, a povoar os imaginários populares embora uns tantos notáveis insistam em declarar o fim dos dogmas e a “morte de Deus”.

terça-feira, 8 de julho de 2014

O Estado e a religião


Segundo leio, restam apenas três estados teocráticos no mundo. São o Estado do Vaticano, o Irão, país dos ayatollahs, e Israel. Mas este vai ao ponto de entronizar a religião como elemento constitutivo do próprio Estado, identificando e agregando não cidadãos enquanto tal mas crentes e praticantes da Tora.
Os outros países, sendo mais ou menos laicos, organizam o Estado de muito diversas maneiras. De facto, o desenvolvimento dos povos e as mudanças das mentalidades e dos costumes provocou a evolução geral das estratégias políticas. Os hierarcas da igreja dominante não coroaram mais os reis de antanho nem, por exemplo, os governantes impuseram mais barretes cardinalícios.
Assim, parece ter-se imposto, desde o fim do século XIX, uma tendência crescente para afastar a religião da esfera dos estados. O laicismo correspondeu a esse desígnio incluso em Portugal sem conseguir, no entanto, iludir deveras a influência da igreja dominante. A Católica mantém entre nós a primazia em muitos aspectos da vida nacional, de modo que deixa ver ainda hoje o poder estatal bastante subordinado ao poder religioso.
Em tal contexto, vem à memória um livrinho publicado em Portugal em Novembro de 1970, intitulado “Sobre a Religião”. Lembro: Marcelo Caetano era presidente do Conselho desde 27-9-1968 e o país debatia-se entre a continuidade ou a evolução com tamanha ânsia que rebentava as baias da repressão da ditadura. Ora, se o tema do livrinho era melindroso, atente-se no seu autor: V. I. Lenine.
Naquela circunstância, exagerando possivelmente, direi que a obra causou um grande impacto. Mas faço declaração de interesses: fui o tradutor e editor o livro (estreou, por sinal, as efémeras Edições Razão Actual). Singularidade: uns tantos exemplares foram apreendidos nas livrarias pela PIDE (os livreiros mandaram os autos de apreensão) mas o livro, sem reedição, acabou por não entrar na lista dos proibidos!
Traduzi o texto do espanhol, que encontrei publicado em Cuba, em volume com prólogo de Francisco. Era uma recompilação de vários artigos de Lenine (mais duas cartas dirigidas a Máximo Gorki) datados de 1905 a 1922 que expõem o seu pensamento acerca do tema religioso. Uma ideia essencial percorre a obra: “Nós exigimos que a religião seja um assunto privado relativamente ao Estado […] O Estado nada tem que fazer com a religião; as sociedades religiosas não devem estar ligadas ao poder do Estado. Qualquer pessoa deve ser completamente livre de professar a religião que lhe agrade ou não aceitar nenhuma religião, ou seja, ser ateu” (pp 33-34).
Entretanto, a ideia da separação dos dois poderes tornou-se bastante consensual, ao ponto de atravessar o espectro político-ideológico da esquerda à direita. De facto, uma eficaz e rigorosa delimitação dos poderes das duas partes transformou-se numa aspiração dos povos. Desejam o fim da intromissão da influência de uma parte sobre a outra para que saia favorecida a maior transparência do processo de tomada das decisões democráticas. [Imagem: desenho de Almada Negreiros (1893-1970)]

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Esta nossa vida “laica”

A Constituição da República não consagra expressamente que o Estado é laico. O Artigo 41, sobre “Liberdade de consciência, de religião e de culto”, deixa o assunto em indefinição de modo a servir com oportunidade quaisquer interesses. Todavia, um Estado que se pretenda moderno opta decididamente pela laicidade, declarando na sua lei fundamental que não tem religião porque nenhuma assume.
Segundo os livros, a vida laica é não religiosa; é profana, mundana, apreciadora dos prazeres sensuais. Laica também é leiga (sem pertença a ordens sacras), vida ignorante “do povo” no mundo secular contraposto a mundo espiritual. Mas o estilo da vida moderno tornou-se tão assumidamente laico que se torna cada vez mais estranho o facto de a laicidade da nossa República não aparecer consagrada na ordem constitucional vigente.
A presente situação mantém-se desde 2004, ano da nova concordata que substituiu a de 1940. Foi negociada por Portugal com o Estado do Vaticano quando Durão Barroso era primeiro-ministro. Desperdiçada ficou a oportunidade para proceder ao aggionarmento que já então se impunha, deixando a reinar a ambiguidade.
Enfim, a separação do Estado das várias igrejas não priva a Católica de uns antigos privilégios que não quer perder e que nenhuma outra alcança. Os portugueses até podem ser muito católicos mas não cumpre ao Estado sê-lo. Se for ou se é, perde a independência, torna-se confessional, um Estado teísta como os poucos que restam no mundo e que os governos ocidentais tão acirradamente condenam.
Na realidade, as coisas conjugam-se de maneira a beneficiar a Igreja Católica com importantes privilégios. O ensino católico obtém largos apoios oficiais (quando “O ensino público não será confessional”: Const., Artº 43, 3) mas vêem-se cruzes em escolas públicas, sacerdotes a abençoar novos equipamentos, presença de entidades católicas em actos oficiais, etc. Entre bastantes isenções de impostos e outras variadas regalias conservadas pela Igreja, é de notar a conservação da capelania das Forças Armadas.
Em data recente, quando o governo PSD/CDS decidiu abolir uma quantidade de feriados nacionais, causou geral surpresa e algum escândalo a simetria numérica imposta: o Estado abolia cinco feriados civis e a Igreja Católica abolia outros tantos, religiosos. Reacendeu-se mais uma vez a velha questão: o Estado tem ainda agora que continuar a prestar contas à Igreja? O que é de César não tem que ser de César? [Imagem: cerâmica de inspiração mourisca, com motivos relevados, painel de Rafael Bordalo Pinheiro.]

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Em busca de alento

O leitor atento destas páginas deve vir notando o interesse, mesmo o fascínio, que certas palavras carregadas de história em mim despertam. Fascina-me realmente o que podemos encontrar devassando o que nelas se guarda. E assim terão notado quanto me atraía o vocábulo anima, que encontramos na raiz latina da alma”, a tal que os teólogos dizem eterna, e na animação que em tempo recessivo nos escasseia.
Porque a semântica de anima (sopro, ar; alento) aponta para respiração, fácil era perceber que o vivente animado tem alma” na justa medida da sua animação. Mas logo a respiração me guiou para o verbo folgar” que, como recordaremos, não passa de um folegar, dar muito aos foles do peito, portanto de uma animação. No entanto, outras descobertas novas se fazem devassando vocábulos de uso corrente.
A respiração também aparece no alento”, substantivo de abordagem não menos reveladora. Significa, sem segredo, força para respirar; bafo, respiração; força; ânimo. Ou ainda, por outra via - de (h)alenitu - que o Dicionário regista, exalação; respiração
Curioso é que ao falar de anima ou folegar, ou de alento, a semântica aponte de imediato, com impecável pontaria, para a função respiratória. A lembrar-nos, afinal, que é função impreterível de todo e qualquer organismo vivo que vai continuar vivo. Mas, com especial relevância, que é função a mais vital da espécie humana...
Logo, são diversos os vocábulos que aludem ao fenómeno vida, que é respiração, bafo, exalação. E “hálito”? (“ar expirado, sopro, viração, bafejo”, do lat. halitu); e “anelo”? (do v. lat. anhelare, “respiração ofegante”).
Na sua variedade, exprimem a admiração maravilhada que sempre rodeia o fenómeno da vida a eclodir em acto onde quer que se anuncie. Mas como compreender verdadeiramente o fenómeno? A inteligência humana aplica-se, esforça-se e acaba sem mais alento...
Avança pelos organismos vivos, vai do mundo biológico até ao inorgânico, lá onde se dilui a fronteira entre o último ser vivo, digamos um vírus, e os processos físico-químicos. A ciência esclarece mais e mais, identificando a alma teológica com a respiração natural do ser vivo. Mas se quiser explicar o fenómeno da vida tal como o conhecemos no planeta, talvez considere que a Terra foi atingida há milhares de milhões de anos por um asteróide portador de elemento fecundante, uma simples bactéria, trazida do respirar cósmico...

domingo, 15 de julho de 2012

Mando carta aberta

Caro amigo: Lamento mas não o acompanho nessa queixa dos sábios que procuram a tal «partícula de Deus» no Universo. Desde logo, aprecie a beleza poética da metáfora introduzida (pelos físicos?) e a sua expressividade. Sobretudo considere comigo que os cientistas do CERN estão a responder ao que reclama: «E então a "partícula do Homem", quando a buscam, qual é e onde está?»
Concordamos num ponto, a ciência não mata a filosofia. Acho que aquela se relaciona intimamente com esta e que ambas, seguindo linhas paralelas, se inter-influenciam. Dir-se-á, com certa razão e lamento, que na atualidade é a ciência que avança puxada pela evolução geral das tecnologias, e a filosofia (isto é, as Humanidades), que relativamente se atrasa.
Porém, o avanço da investigação que provou a existência de um «bosão de Higgs» está aí a demonstrar precisamente quanto a ciência pode influenciar e mesmo servir a filosofia. Trata-se de conhecer o funcionamento da misteriosa partícula subatómica que recebeu o nome do seu, agora festejado, descobridor. Higgs percebeu que essa partícula teria fatalmente que existir ali para organizar os átomos, ou seja, a matéria.
Ora nós, a humanidade inteira e tudo quanto na realidade existe, somos matéria. Precisamos sem dúvida nenhuma de conhecer todos os segredos desta matéria de que somos feitos. Os conhecimentos científicos mais avançados - e nós, uns leigos, com eles aprendemos - detiveram-se numa «fronteira» teórica que deixa imensas evidências sem explicação, sejam de aparência comezinha como esse bosão indetectável no interior de um átomo ou espetacular como a força que põe a girar uma galáxia inteira ou abre algures um dos chamados buracos negros gigantescos que tudo sugam para um «outro lado» invisível, inconcebível.
Eis o motivo por que me parece fundamental a investigação desenvolvida no CERN, mais fundamental, suponho, do que ir à Lua ou a Marte ou militarizar o espaço (área nova de confrontos bélicos). Suponho que designar o bosão como a «partícula de Deus» lhe cai mal no ouvido, pois o conheço tão agnóstico quanto eu, mas repare: a metáfora, bem apreciada, contém uma pitada de humor. Os cientistas de infinitas gerações avançaram até o ponto em que hoje estão sem jamais encontrarem o Criador e explicando sempre, experimentalmente, os fenómenos naturais; logo, talvez Ele pudesse estar escondido naquela simples partícula que parece abrir para um outro Universo (de antimatéria?) ainda por desvendar...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Convite para folgar

Nos anos da minha infância, sabíamos o que era folgar: juntavam-se as crianças e as brincadeiras surgiam. Anos decorridos, empregado e trabalhando, usufruí das folgas do meu turno. Mas o tempo passou e agora até parece que a própria palavra entrou em desuso.
O convite para folgar é aqui para valer, a sério, pois... basta de tanto sofrer! E como o cronista nada mais pode pôr aqui senão palavras (que nem inventou), peguemos nesta para nos divertirmos um pouco.
Segundo a etimologia, folgar tem raiz no latim follicare, «respirar com ruído (como o fole)». José Pedro Machado abona o termo com D. Dinis (séc. XIII), registando, no séc. XV, folga e follegar, «respirar dificilmente».
Neste ponto já estaremos a lembrar-nos das variantes do termo: folgança, folgadio, folgaz, folgura, folguedo, folgazão. Em suma, precisamos de bons foles para folgar, mas nós temo-los embora nos faltem os sete fôlegos do gato.
E aqui está como a nossa capacidade respiratória aparece associada à vontade de brincar, entendendo, muito naturalmente, que a uma ação corresponde a outra. Mais curioso ainda é ter de concluir, perante demonstrações irrefutáveis, que começamos a viver respirando corretamente para depois nos habituarmos a respirar mal. E sobra-nos o desplante para repetir que uma pessoa pode sobreviver sem comida vinte ou trinta dias, sem água cinco ou dez dias, mas sem respirar não mais de três minutos...
Respirar é função vital. Concede-nos a alma (lat., anima), que mais não é do que «sopro, ar; alento». Precisamos, pois, de respirar para ter a «alma» que as teologias garantem, sem provas evidentes, que é eterna.
As variantes lexicais do termo tinham que ser abundantes: animado, animar, ânimo, animosidade, animoso, anímico, até animável (lat. animabile, «vivificante». Respirar, então, é viver, ter animação, enfim, possuir a tal «alminha» volátil como chama de vela que um sopro extingue. Quem, embarcado no submarino da fé, se lembra do que aprendeu na catequese, passa ao largo desta ligeira abordagem etimológica, mas não o cronista: lida com as palavras (repete: que não inventou) e aprendeu a conhecê-las para além da casca, até ao grão.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Com Eça, livre-pensador

Atualmente, escasseia a literatura que não atenda às preferências do mercado, isto é, ao gosto popular. Logo, muita «escrita criativa» atenta ao buraco da agulha, muito sobrenatural povoado de vampiros, fantasmas, feitiçarias e prodígios mil, de mistura com novelas policiais ou de reminiscência histórica, ficção dita científica... Ao leitor, cansado de lantejoulas e pechisbeques, resta virar-se para a estante dos «clássicos«» pega num volume ao acaso e sai-lhe o Eça, o sempre novo... de Queirós.
É o volume das Notas Contemporâneas. Pesado. Mas não terá lido o leitor a obra de Eça umas quatro vezes, e quase toda ela de cada vez, ao longo da sua vida? Pois, agora não vai reler o relido, apenas debicar o texto para o recordar.
Abrem-se as folhas e o olhar poisa no início da parte II de «Positivismo e Idealismo», datado de 1893, onde Eça aponta que a «reacção contra o positivismo científico mais decidida e franca é em matéria religiosa.» Terá isto sido realmente escrito há mais de um século?Eis prosa queirosiana:
«Ah! o nosso velho e valente amigo, o livre-pensamento, vai atravessando realmente uma má crise! Talvez a mais aflitiva que ele tem afrontado, desde que nasceu sob os claros céus  helénicos e que balbuciou as suas primeiras lucubrações cósmicas e éticas, sobre os joelhos de Tales e de Sócrates. // Este pobre livre-pensamento está com efeito passando por aquela tortura, que ele já infligiu ao cristianismo no tempo de Voltaire, que é a mais humilhante que pode sofrer uma filosofia, - e que consiste em ser troçado, crivado de pilhérias, apupado pelas ruas como um chéché de entrudo. Quem jamais o diria? O livre-pensamento chasqueado alegremente, neste século...»
Eça apoia-se no discurso de um certo sr. Aulard que, «dos cimos da Sorbonne», lamenta «que o livre-pensamento está sendo, neste Paris da terceira República, ainda mais achincalhado do que o catolicismo no Paris de Luís XV, quando Voltaire era rei». Pior ainda, «o livre-pensamento está fora de moda, entre a mocidade. Hoje, neste ano de 1893, é de mau tom em Paris ser livre-pensador!»
Acrescenta Eça: «Tudo isto é desolador. Tanto mais que ao lado deste movimento negativo contra o positivismo - surge e  cresce paralelamente  um movimento afirmativo de espiritualidade religiosa. (...) É uma outra e renovada ansiedade de descobrir neste complicado universo alguma coisa mais do que força e matéria; de dar ao dever uma sanção mais alta do que a que lhe fornece o código civil; de achar um princípio superior que promova e realize no mundo aquela fraternidade de corações e igualdade de bens, que nem o jacobinismo nem a economia política podem já realizar; e de achar, enfim, alguma garantia da prolongação da existência, sob qualquer forma, para além do túmulo.»
Deixam os olhos estas páginas com desgosto, a prosa queirosiana é sempre apetitosa e suculenta. Mas não estando em causa, no nosso tempo, a defesa do positivismo do século XIX, e notando, por outro lado, a recrudescência do fenómeno religioso no século XXI, apelemos então para o livre-pensamento. Parece-nos que o avanço daquele resulta do definhamento deste, por muito que isso custe ao autor de O Crime do Padre Amaro.
Em moda, hoje, estão crenças teístas as mais retrógradas, não a liberdade do pensamento, por mais que os dados da ciência tenham contribuído decisivamente para a correta compreensão dos fenómenos do mundo e da vida. Subalternizado,  ou subjugado por catecismos doutrinais, o pensamento afundou-se nos pântanos do conformismo e da passividade onde nem chega já a artimanha silogística do livre arbítrio. Livre, resta o direito do indivíduo massificado à submissão e ao apagamento da própria identidade no interior do rebanho.
Pensar pela própria cabeça - que permite erguer a condição humana à sua mais rutilante  dignidade - já parece desafio temerário de mente radical. Todavia, é pelo livre-pensamento que se faz livre o cidadão. O que explica, afinal, o que por aí vemos: o «patriotismo» a manifestar-se, em apoio ao campeonato de futebol, com bandeiras nacionais à janela. Poucas...

segunda-feira, 17 de março de 2008

Democracia? Como é?!

Heresia! Não sou a favor desta democracia representativa. Tolero-a em irremediável divergência porque me parece absurdo que quem elege os seus representantes para exercerem cada mandato fique desarmado ao dar-lhes pelo voto esse poder. Quem elege devia ter o direito de demitir os representantes que no decurso do mandato traíssem legítimas expectativas. Só por esta bivalência os eleitores se defendem de políticos que, uma vez legitimados pelos votos, negam, como tantas vezes acontece, os seus compromissos para se lançarem em acções ruinosas.
Num sistema que se pretenda verdadeiramente democrático, os eleitores não podem apenas eleger, devem também ter o direito de exonerar ou destituir a qualquer momento os elegidos que não servem. Tão-pouco devem aceitar eleições que derem o poder a representantes que exercerão os cargos durante os respectivos mandatos assumindo responsabilidades puramente «políticas» com base em regimes jurídicos por eles próprios acordados para se protegerem enquanto «classe». Votar assim neles, como se diz, corresponde a passar cheques em branco.
Um sistema democrático vivo e maduro requer uma participação cidadã intensa, um escrutínio permanente processado por uma opinião pública autêntica, mas isso parece perturbar governantes por seu lado em condições de conviver perfeitamente com elevados níveis de abstenção, desinformação ou desinteresse generalizado pela coisa pública. Nega-se a si mesmo o sistema que apela ao voto dos eleitores, por carecer da legitimação do poder popular, para depois se apropriar desse poder, delegado a prazo, como presa conquistada e sem retorno possível à vista.
Os cidadãos quando votam não se entregam a quem elegem nem podem ser tidos como seus reféns. Continuam a ser cidadãos livres, capacitados para todas as decisões posteriores, incluída a de pôr na rua quem tenha o poder e não saiba usá-lo dignamente. Consequência lógica: os cargos públicos acabarão por ter carácter temporário, a política deixará por fim, felizmente, de ser «profissão».
Estas ideias, na sua clareza singela, são aqui expostas apenas porque não emergem à tona dos dias. É notória a escassez de discussão sobre o que é democracia como se a forma vulgar que assume estivesse feita e acabada para todos os usos e todo o sempre. Porém, a democracia não é fato pronto a vestir. É sistema com formas e conteúdos altamente variáveis, sujeito a todas as mudanças sociais operadas em sentido expansivo ou restritivo.
Quem não se contenta com uma vulgar aparência da democracia exige a sua realização em plenitude com a ideia a cintilar no luminoso horizonte da utopia.. Objectiva o seu aprofundamento progressivo sabendo que não chegará decerto ao ponto de lhe esgotar o potencial mas, entretanto, vai-se rindo dos profissionais da política que em pânico, a coçar-se com ataques de urticária, vislumbram o eventual advento de uma temível «democracia directa»…